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Ode a uma Música!


https://youtu.be/G6Kspj3OO0s?list=RDy_6ak9CYx48

            Escrevo no dia seguinte à morte de Dolores O’Riordan. Para mim, era uma pessoa muito querida. Não que a conhecesse, mas o facto de ter passado uns bons dias na sua cidade natal, Limerick, na Irlanda, faz-me sentir um pouco mais próxima da sua voz encantadora.
Dolores O’Riordan era a vocalista de uma banda de música rock que muito aprecio. E a sua morte emocionou-me profundamente. Por vários motivos. Desde logo pela sua juventude. Dolores, a cantora dos The Cranberries, viveu ‘apenas’ 46 anos. As aspas devem-se às expectativas que a famigerada esperança de vida contemporânea nos cria. Além disso, como me faltam ‘apenas’ dois anos para alcançar aquela idade, as circunstâncias da sua morte aumentam, diria de forma inevitável, a minha apreensão. Morte súbita – causa desconhecida.
Foi num romance de Pascal Mercier – Comboio Nocturno para Lisboa – que certas indagações ganharam forma, no que à morte concerne. Curioso é o facto de estar a escrever enquanto viajo de comboio desde Lisboa.... Dizia eu que certas questões se materializaram em palavras, dado que o autor suíço me ajudou a visualizar e assim a compreender a angústia face à possibilidade de morrer, bem como o receio, digamos assim, da morte de pessoas que me são mais ou menos próximas.
Quando me reporto à proximidade refiro-me em termos abrangentes. Há pessoas que desconheço fisicamente, mas em relação às quais sinto uma espécie de ligação. É o caso de Dolores O’Riordan. Ainda que não tenha tido sequer a oportunidade de assistir a um concerto da sua banda, o choque que a sua partida me causou ainda reverbera no meu ser.
Na verdade, a morte de outros artistas, cantores, intelectuais e outras pessoas publicamente reconhecidas, suscita-me tristeza. Claro que quando se trata de pessoas jovens, mais ou menos famosas, a incerteza quanto ao derradeiro fim, associada ao questionamento do sentido de viver, assalta-me, qual larápio dos homens.
Foi em 2009. Na primeira vez que li a passagem seguinte do referido livro, gastei uma boa quantidade de folhas a especular acerca da vida que projectara. Estaria eu a VIVER? 
 “E assim poderíamos descrever o medo da morte como o medo de podermos não vir a ser aquilo que aspirávamos ser, ou para o qual nos projectámos”.
Desde então que engendrei formas para estar aqui com outra atitude... Nem sempre do melhor modo.
De resto, os CD’s dos The cranberries foram a banda sonora de muitas viagens de carro, onde a voz de Dolores era posta em causa pelo volume da minha própria voz, ou das pessoas que me acompanhavam. Mais da minha. Gosto de partilhar a boa disposição, mesmo sabendo que por vezes posso ser excessiva, nomeadamente ferindo os ouvidos dos meus acompanhantes. Ou bem que se juntam à cantoria, ou têm de ser deveras pacientes e compassivos para comigo.
Voltando à experiência sonora que a esta artista me providenciou, e que muito agradeço, reconheço nela, bem como em todos os músicos e cantores, o poder de tornar certas vivências inesquecíveis e intemporais, nem que sejam ‘apenas’ alguns instantes num local, com alguém mais ou menos especial.
Quem não se lembra de lugares, pessoas ou mesmo experiências ao escutar determinadas canções? É o caso de Linger – é uma das minhas músicas preferidas. Há 25 anos que a escuto; quase sempre com os olhos emudecidos. Há músicas assim. Há vozes assim. E a de Dolores continuará a ecoar no meu coração...

16 de Janeiro, 2018
IC Lisboa-Porto

T2 Trainsppoting

https://www.youtube.com/watch?v=01vXD623q2w&index=3&list=PLRH10Bl5Og1ikB5c3L9F0euFZuB9dIxRP


      “Tu choras sempre: ou porque choras, ou porque te ris” - um amigo com quem fui ontem cinema. Há umas semanas fomos ver ‘Lion – um Jornada para casa’. A história verídica de um jovem indiano adoptado por uma família da Austrália, onde vivia com os seus pais. A sua busca, pela mãe na Índia, fez-me chorar baba e ranho. Ontem, as lágrimas resultaram das muitas gargalhadas motivadas pelas diversas situações hilariantes da comédia negra ‘T2 Trainsppoting’.
Quem me conhece sabe que sou de lágrima fácil e sabe, igualmente, que, com frequência, as risadas são longas. Em particular se forem provocadas por um bom estímulo, como aliás era, sem dúvida, o caso. Foi de forma consciente que me contive. Estava numa sala cheia de gente que, como eu, estaria curiosa acerca do modo como Danny Boyle daria continuidade à história de um assalto, ocorrido duas décadas antes. O termo de comparação era elevado para aqueles que, como eu, viram o primeiro filme. Era, pois, necessário ter em atenção que as outras pessoas não tinham de levar com o meu riso, o qual, confesso, não me importaria de continuar – afinal, rir é tão bom quanto dançar e cantar.
            O que me transporta para outro filme, a que assisti no final do ano passado com o amor da minha vida: “Trolls”. Um filme animado com personagens tão coloridas como divertidas, cujas cenas alegremente deliciosas também me fizeram rir e rir. Os Trolls tinham como actividades de vida diária cantar, dançar e abraçar... Tão bom! Como não gostar? Como não gostar com um sentimento que não se pode conter, ou parar, como canta Justin Timberlake (os gostos não se discutem...). Os cabelos azuis, cor-de-rosa, lilases, prateados dos bonecos animados reanimaram a criança que eu quero (continuar, sempre) alimentar. O G olhava para mim admirado, para não dizer perplexo. Senti que também ele apreciou. Não obstante, não sei se terei sido eu a ser levada ao cinema. Ah, ah. Apesar dos seus oito aninhos, o G já viu tantos filmes que o seu sentido crítico deve ser tomado em consideração, até pelas questões que me coloca sempre no final: “O que é que gostaste mais e porquê? O que é que não gostaste e porquê?” – Se lhe respondo que não terá havido nada que me tivesse desagradado, insiste: “Então, o que é que gostaste menos...”
            É com os auriculares, ligada no YouTube, que escrevo enquanto escuto a banda sonora do ‘T2 Trainsppoting’ – uma das dimensões que, no filme de há vinte anos, me agradou sobremaneira. O efeito foi semelhante em mim e, presumo, em todos aqueles que tiveram oportunidade de o ver e depois dançar com a respectiva banda sonora. Se, na época, a sua originalidade impressionou, vinte anos depois a música é igualmente estimulante.
            É-me impossível ficar indiferente ao ritmo de Fujiya & Miyagy. Do mesmo jeito que as bandas The Prodigy e Underworld me fazem oscilar a cabeça e pescoço, as pernas... Estou sentada na biblioteca. Aposto que se estivesse em casa teria feito uma pausa para dançar... A música tem este dom. Razão pela qual admiro e respeito profundamente os artistas que me tocam desta maneira através da vibração e mesmo arrepios na pele. Iggy Pop, Frankie goes to Hollywood são mais dois exemplos da banda sonora deste segundo episódio.
            Houve várias cenas que me fizeram rir até as lágrimas, mas existem outras que me convidaram à reflexão. Nomeadamente quando Mark – interpretado por Ewan McGregor – disserta a uma velocidade estonteante sobre a expressão: ‘escolhe a tua vida’ – o lema da sua juventude. Após alguns minutos sem fôlego, pára repentinamente. Como se fosse picado por um moscardo. Como se se desse conta de que se terá esquecido que só ele tem o poder de escolher a sua vida, de decidir sobre a sua vida.
            Os Run-DMC regressam, como a chave de um baú de memórias... As ‘trips’ são poucas e, juntamente com as ressacas do Spud – a personagem que escreve para se libertar heroína –, lembram que por mais interessantes que aparente e ilusoriamente possam ser, as consequências são (quase) sempre devastadoras. Mas até sobre isso podemos rir – o ser humano tem a capacidade de tornar a vida ainda mais leve e aliciante quando sabe rir de si próprio.

            Resta-me agradecer à minha querida amiga MA, que me enviou o convite da Big Picture Films e assim ter, não só o prazer de ir ao cinema e rir e dançar assistindo a um filme cinco estrelas (é a minha opinião; vale o que vale), mas também de assistir, como diz o G vaidoso, antes de toda a gente, ah, ah. Muito obrigada!


23 de Fevereiro, 2017
Matosinhos, Portugal

Borboleta Azul - um postal da América Latina



Este livro resulta de um conjunto de textos escritos ao longo de dois anos, sobre as viagens que tenho vivido. São, por esse motivo, curtas viagens sob o olhar de quem as viveu e sentiu. Umas vezes o olhar deteve-se no lugar, outras tantas o coração importou pessoas que marcaram os lugares. Escrever foi o modo encontrado para gravar as emoções e sentimentos que as experiências, pessoas e lugares providenciaram. Afinal, a vida é um caminho repleto de instantes, sendo certo, para mim, que a intensidade desses momentos não é quantificável pelas medidas do tempo cronológico, tão-pouco das distâncias mais ou menos percorridas.
As viagens escritas e selecionadas decorreram quase todas na América Latina, daí a escolha do título. Estão ainda incluídas algumas crónicas do Jornal Chapinheiro, um jornal da aldeia do meu pai. Aquelas que se escreveram enquanto vagueando além mar.
Alguns dos textos sobre pessoas que se impregnaram em mim são ficcionados. O modo encontrado para que essas pessoas se mantenham em mim pelo que me suscitaram, através das mais ou menos longas conversas partilhadas. 

30 de Janeiro de 2017
Matosinhos, Portugal

No último Natal


https://www.youtube.com/watch?v=E8gmARGvPlI 




Com ou sem certezas, a minha adolescência começou quando saíram os calendários com os cantores de música Pop, no início da década de 1980. Na revista Bravo, as fotografias de cantores como os Wham eram cortadas, coladas e admiradas por mim, pela Tété e pela Cristina nos Olivais Sul. Para além de participarmos e organizarmos campeonatos de bilas e de pião e de espeta, éramos acérrimas admiradoras dos ídolos que se começavam a formar nos nossos corações adolescentes.
Passávamos tardes no quarto da Cristina. Era ela quem tinha o álbum de vinil dos Wham, que incluía canções como Careless Whisper, Wake me up before you go... Ah, como nos imaginávamos nos braços daquele loiro de brinco na orelha: que ‘giro’, que ‘gato’, que ‘pão’... os termos utilizados para nos referirmos àquele que para nós era, seguramente, o cantor mais bonito à face da terra.
Com toda a certeza, a minha adolescência ficou marcada por uma figura paternal pouco exemplar, ahahah, mas também com certeza, marcada por uma figura assaz corajosa. Pelo menos é desse modo que fui interpretando as metamorfoses que o tornaram ‘older’. Amores rápidos, últimas tentativas com muita fé, em diferentes esquinas, íamos lá para fora, cantando com ele contra a xenofobia, contra o preconceito.
Escutando as músicas do ‘Last Century’, em liberdade, dancei, cantei muito feliz com a M.A em Coimbra, quando o George Michael nos presenteou em concerto, ao vivo! Terá sido odiado, criticado, mas certamente muito amado por quem sempre o admirou e cantou, escutando com respeito as letras que ao longo do tempo nos ofereceu, que connosco partilhou.
A notícia de hoje provocou uma torrente de doces memórias. Há que dizer, no entanto, que antes de viajar pelas recordações vívidas promovidas pelas músicas que ouço desde as onze da manhã, telefonei a chorar baba e ranha à L... Já não falávamos há quase dois anos, mas quando me atendeu, a L sabia muito bem a razão do meu telefonema. “As pessoas estão a ligar-me, como se eu fosse uma espécie de viúva...” As lágrimas eram assim facilmente substituídas pelo riso. Como não rir? O George Michael faz parte de nós, desde que despertámos para a música...
Morreu ontem, no dia de Natal. É quase certo que no próximo Natal o seu ‘Last Christmas’ seja ainda mais emotivo. Curiosa a data em que partiu, aos cinquenta e três anos: tão novo. Foi tão cedo... Neste ano que está prestes a terminar, as perdas são já algumas. Em Janeiro David Bowie, seguido de Prince em Abril e, há tão poucas semanas, Leonard Cohen...
Claro que a palavra ‘perda’ tem um sentido muito relativo quando é de vida ou morte que se trata. Não obstante, cada vez que alguma pessoa que me é querida se despede para sempre, o carácter definitivo do advérbio de predicado com valor temporal ‘sempre’ ganha novos significados. Neste caso, é provável que me venha a lembrar sempre do dia da sua morte, associando sempre a um último natal...

26 de Dezembro de 2016
Matosinhos, Portugal

Índia II – Uma viagem perdida




Na madrugada de três de Agosto de 2012, estacionei o ‘meu’ carro (onde é que o bolinhas cinzento andará por estes dias...) próximo do aeroporto Sá Carneiro. A E esperava-me. Ainda não eram cinco da manhã!, mas a minha querida amiga fazia questão de me abraçar e de me desejar boa sorte antes de eu embarcar numa viagem, quase, sem retorno. O duplo sentido literal e metafórico aplica-se na perfeição. O ‘quase’ no sentido metafórico é um excesso.
“Difícil de dizer que é sem sentido
para um homem que sabe que um sentido
viria a mudar tudo” (Lars Forsell).
Aterrei em Pune, no centro de meditação do Osho, ao fim da manhã do dia quatro de Agosto. As condições do ashram contrastavam irrevogavelmente com as ruas do centro da cidade. A limpeza asséptica era assegurada por funcionários incansáveis que se revezavam continuamente sem que o seu olhar negro se cruzasse com o dos meditadores – seriam eles 'intocáveis'?
O crepúsculo sorriu e depois de um curto passeio de reconhecimento pela cidade entrava na cápsula sem chave. Um trânsito infernal, muitos narizes tapados e protegidos da poluição que também escorria pelo meu. As pernas e braços esquálidos de muitos transeuntes eram uma amostra de uma cidade indiana, da qual tenho somente laivos de percepção – as saídas do ashram eram curtas e rápidas.
Ao início da noite fui jantar ao Zorbha Bar – o restaurante do resort com uma esplanada virada para a piscina. Como eu, muita gente a chegar. Não como eu, gente a despedir-se. Raman – um actor de Bollywood – sentou-se na mesma mesa que eu.  Terminava as suas férias meditativas. Sentia-se renovado, (re)preenchido de amor e compaixão pelas semanas anteriores. O seu rosto, magnificamente esculpido, transbordava a beleza serena de um artista desconhecido, num sorriso muito branco e jovial. Regressaria a casa, em Mumbai, na manhã seguinte. Convidou-me a conhecer a sua cidade – oferecia um dos quatro quartos de sua casa. A fadiga e o jet lag não me impediram de acolher as palavras ternas e amáveis do jovem de Bollywood.
Talvez embriagada pelo ambiente que lentamente se ia entranhando em mim, o ramo do tempo encurvou-se e arredondou-se. Saíra do Porto, no dia três de Agosto, com a perspectiva de viver um mês exacto entre a partida e o regresso. Era dia quatro... Ainda por descobrir o desatino que o jet lag terá provocado no meu calendário interno. Enquanto conversava com Ramam sobre a possibilidade de passar um dia em Mumbai, efectuava contas e concluía, que sim senhor, uma vez que a minha estadia terminaria no dia três, ainda teria uma noite para usufruir e daquela cidade, essa, sim, realmente indiana.
A proporção do silêncio ensaiado nos sete de vinte e um dias do programa Mystic Rose – aquele em que estava incluída e que integrava igualmente sete dias de riso e de choro (a partilha fica para um dia destes) – desmantelou camadas arcaicas das quase quatro décadas vividas. As monções terão certamente efeitos, difíceis de expor, em pessoas que, como eu, procuravam tratar os segredos da ‘alma’ – ainda não encontrei um termo que se adeqúe ao que apreendo ser uma dimensão incognoscível e imaterial do ser que em mim habita.
No dia um de Setembro, após o programa de meditação que varreu as ruas da minha memória, abri a bolsa com os documentos da viagem. Confirmei a hora dos voos e combinei com os meus pais a minha chegada ao Porto. O Raman, o jovem actor de Bollywood, estava distante... Ir para Mumbai não se afigurava boa opção depois de tantas vivências num lugar sem pó, sem lixo, sem nuvens negras de fumo, sem ruídos tenebrosos de tráfegos insuportáveis. Passei a última noite em Pune num hotel a cem metros de distância do resort.
No dia quatro apanhei um táxi para o aeroporto doméstico de Pune, de onde voaria para Mumbai. Devido aos atentados, à época ainda recentes na Índia, os procedimentos de segurança e controlo nos aeroportos começavam antes mesmo de se entrar nos edifícios. Como tal, foi indispensável mostrar o bilhete aos polícias de serviço que, muito zelosos, davam passagem apenas aos passageiros. Assim o fiz, uma, duas, três vezes, tantas quantas as entradas até alcançar o balcão de check-in – estava encerrado. Faltava uma hora para a sua abertura. Pousei as coisas num banco e olhei em redor. Inspirava com profundidade, como se desejasse prolongar o tempo antes de regressar a ‘casa’. E peguei na bolsa dos documentos para reconfirmar os dados da viagem.
Teria sido muito interessante aceder às imagens que terão gravado a minha reacção ao olhar com olhos de ver o bilhete, naquela tarde de quatro de Setembro de 2012. Se antes conferira a hora dos voos, faltou confirmar um pormenor tudo-nada desprezível. A data do voo! A câmara de filmar terá captado um arregalar de olhos em cima do papel com a informação: data da viagem: três de Setembro de 2012! Um dia antes! Essa lente terá apreendido o tremor das mãos – o receptáculo de um espasmo interno que se consumava no movimento nervoso de uma delas a tapar a boca, como que para silenciar o choque sonoro das minhas vísceras em convulsão. Pelo menos fiquei a saber que não sofro do coração, caso contrário teria caído estatelada no chão com um enfarte do miocárdio. Tal era a corrente de electricidade de uma voltagem que me era desconhecida até àquele momento: quando terei dito – “Oh não!... devia ter ido ontem! Enganei-me!!!”
Estava um dia atrasada. Pegara no papel, mas só me detivera na hora... e o dia? Abanei, agitei a folha – os algarismos não se mexeram, tão-pouco se alteraram. A tinta era implacável: três de Setembro. Mas... não havia mas nem meio mas. A taquicardia avançava, avassalando a corrente sanguínea a uma velocidade que tinha tudo para provocar uma explosão na bomba que não cabia no meu peito.
Era fundamental que me acalmasse. Percorri o longo corredor do aeroporto doméstico de Pune, num torpor de emoções que se sucediam e manifestavam num caminhar lento e pesado, como quem pisa o chão para se assegurar que está acordada, com a esperança vã de que afinal seja apenas um pesadelo. Era com efeito um pesadelo, mas estava a vivê-lo na dimensão da realidade consciente.
Dez minutos. Dez minutos de anseios e receios apaziguados pelas lágrimas que escorriam numa avalanche. Um leito espesso e salgado que chegava aos lábios – desse modo ajudavam a superar a secura da boca.
Dez inspirações profundas “Como é que isto aconteceu?! Como é que isto aconteceu?! Como é que me enganei?!” Engolia em seco... não muito. As lágrimas continuavam a suprir essa necessidade líquida. Sentia-me consumida por uma vergonha ainda oculta, cavalgando sem freio pelo meu ser.
Dez inspirações profundas que decifravam as sirenes neurais: Calem-se! Chega! Calma! Pensa, pensa! O sol da tarde iluminava, resplandecente, uma meditadora apressada na constatação do seu erro inabalável. O comprimento de onda sem arquitectura visível, buscava uma fórmula mágica. Ao longe, os polícias que me tinham dado passagem, sintonizavam-me com o instante presente. O passado erróneo era um estranho a transpor. Nada a fazer. Como uma violenta rajada de vento, os vinte e um dias de monções desceram sobre mim: “O que é que eu posso fazer, agora? Tenho várias hipóteses: regressar ao resort e meditar mais quinze dias (ah,ah,ah), apanhar um autocarro para Mumbai e visitar o Raman...” Possibilidades que me surgiam, depois das tentativas em vão para corrigir o erro: o balcão da companhia aérea pela qual supostamente viajaria era um apêndice – a hospedeira de terra não podia fazer absolutamente nada. A senhora simpática não tinha como providenciar uma resolução para a embrulhada com que eu própria me presenteara. 
Voltei a entrar no aeroporto: não havia um único telefone público. Presumia-se que toda a gente tinha o seu telemóvel. O lusco-fusco não tardaria e eu chorava o parco saldo que não me permitia grandes chamadas telefónicas. Mas era imprescindível. 
     Telefonei aos meus pais; não sem antes libertar ainda que lenta, mas resignadamente, o susto que ainda circulava nas veias. “’Tou mãe? Tenho de ser rápida. Perdi o avião. Enganei-me, mas está tudo bem, não te preocupes. Preciso que me faças o favor de carregar o telemóvel. Estou a resolver a situação e ligo mais tarde...” Não sei onde encontrei o tom de voz sereno que escutava, tão-pouco a displicência para falar com a minha mãe e dizer-lhe que perdi a viagem de avião, como quem perde uma viagem de metro.
Eram dez da manhã em Portugal. Sentada no exterior do aeroporto, mirava o bilhete de avião à frente dos olhos, que entretanto amarrotei e escondi, tentando esquecer o inesquecível. Telefonei para a agência de viagens do Porto, onde adquirira a passagem para a Índia.
O senhor António atendeu ao fim de dez minutos. Dez minutos de inspirações profundas. E no avançar dos ponteiros do relógio, o senhor António retornou a chamada. O cartão visa é um instrumento senão milagroso, pelo menos elementar em determinadas circunstâncias. No seu escritório do Porto, o senhor António comprou a minha viagem de regresso desde Pune. E a hospedeira de terra teve então a sua oportunidade de se tornar prestável: imprimiu o email que gentilmente o agente de viagens do Porto enviou.
Horas depois limpava as feridas da vergonha no aeroporto de Mumbai. Se houvesse uma maca para uma posição cómoda, ter-me-ia estacado e apagado o tombo inexorável na minha conta bancária. Mas estava abrigada. A liberdade depositada num pé de meia (ainda que frágil) assegurou um regresso a casa nessa mesma noite. No dia seguinte aterrava no aeroporto Sá Carneiro. Avancei na minha história e as rodas da mala de viagem transportavam com leveza uma bagagem de experiências e livros. Os braços que me receberam foram compassivos e evitaram perguntas embaraçosas. Quem me traz a Primavera de Vivaldi, recolhe-me sempre.
Desde então pondero sempre acerca da compra das viagens de avião. Neste caso, decidira pela aquisição através de um balcão ‘físico’, no trato pessoal, materializado num rosto com nome. Só meses mais tarde compreendia o instante em que o meu calendário se inclinou silenciosamente para um espaço que só por sorte não me fez deslizar para outro pesadelo... ou sonho. É quase sempre uma questão de perspectiva.

15 de Novembro de 2016
Matosinhos, Portugal



            A primeira vez que vi o teu rosto. O sol reflectia-se nas nuvens. O vento estimulava-as. Passavam umas atrás das outras.
            A primeira vez que reparei nos teus olhos. O dourado repercutia-se. O batimento do meu coração acelerava.
            Na primeira vez que me beijaste, o azul do ocaso fazia-me acreditar que seria um beijo eterno.
            No primeiro brilho que vislumbrei no teu sorriso, o sol dava o último suspiro da tarde.
            A primeira vez que senti a tua pele na minha pensei que o sol se espelhava nas tuas mãos. Aquecias-me o peito e o céu transformava-se num vazio pleno.
            A primeira vez que beijei a tua boca, senti o oceano. Transbordava dos meus olhos. Tremia. O controlo estava desprovido de sentido.
            A primeira vez que te abracei, a terra estremeceu. O oráculo de Diana calava todas as palavras. O silêncio.
            A primeira vez que o teu corpo era o meu. A primeira vez que o meu corpo desaparecia no teu abraço. A eternidade.
            A primeira vez que vi o teu rosto. Tudo. Nada mais era. O teu rosto. O teu rosto.


23 de Junho, 2015
Iguaque, Colômbia



* Escutando "The first time ever I saw your face", G. M.

Do topo da pirâmide do sol vejo o mundo*


Na Cidade do México, ‘onde a vida é mais pequena’, saí de casa do Marco e de Daniela para a cidade da Civilização Asteca: Tenochtitlán. Uma hora e meia de viagem de metrobus e autocarro. No autocarro, as janelas ‘escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu’. Silenciava o monólogo interior, escutando ‘dreams of a journey’ e sonhava com um império civilizacional.

A incursão pelo ‘Museo Nacional de Antropología’, da Cidade do México, fora apenas um introito, confirmando a ninharia da minha existência. A companhia musical de ‘scent of love’ apagou-se. Importava escutar outras vozes, enquanto os pés pairavam de pavilhão em pavilhão, de sala em sala, de cave em cave. As flores azuis, atrás das montanhas, que falam e falam na ‘Canción del Peyote’, eram um alerta. Havia que atentar ao que os olhos líquidos captavam. Havia que pelo menos tentar absorver alguns grãos da informação infinita sobre séculos de civilizações ancestrais. Acrobatas, serpentes emplumadas, coiotes, jaguares – o que olhos captavam sem apreenderem a chave da vida, ritualizada ao ínfimo pormenor através do culto dos mortos. ‘Eu sou do tamanho do que vejo’. O que via era o mito da criação espelhado na Pedra do Sol. Perguntava-me em que aldeia estava eu, para desse modo poder alcançar ‘quanto da terra se pode ver do Universo...’

As deidades guardadas nas tumbas, os deuses do sol e da lua venerados com rituais descritos e explicados através dos relatos mitológicos, eram janelas para um mundo onírico. Um mundo mágico, mitológico, povoado de xamãs – os mediadores entre os seres terrestres e os seres sobrenaturais. Através das suas poções, tabacos e algumas bebidas mais ou menos alucinogénias, os sacerdotes contactavam com o mundo superior, dando esperança aos terrenos. Uma segurança assegurada pela construção de estátuas, tótemes,  templos... pirâmides. 

No topo das pirâmides do Sol e da Lua... em Tenochtitlán, alguns dias depois. Pelas janelas do autocarro, que ‘escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu’, sentia ‘la folie’ em modo musical - a melodia que narrava o percurso sobre rodas até Tenochtitlan. Um percurso que me conduzia até uma aldeia, que é ‘tão grande como outra terra qualquer’.
Não era uma calçada qualquer, aquela que atravessei. Através da ‘Calzada de los Muertos’ entrava num mundo ainda muito vivo. Habitado de pedras sobre pedras, cujos cálculos e sentidos posicionais me faziam adivinhar que o seu tamanho não seria a sua altura. 

A ‘Plaza de la Luna’, um dos espaços sagrados mais importantes na cidade asteca. Um espaço aberto com um altar, a plataforma das coisas imperfeitas, aquelas sacrificadas para um mundo que se desejava mais perfeito. A imagem da deusa das águas, a companheira do deus das trovoadas, ainda permanece na praça ‘lunar’, como que testemunhando cada turista mais ou menos curioso, mais ou menos distraído, mais ou menos pequeno e pobre. Dependendo do alcance do olhar. O que os meus olhos me davam, ao subir a Pirâmide do Sol era uma riqueza que, depois de capturada, ficou bem guardada num baú, cuja chave, mesmo que perdida, salva está... pela memória ‘que aqui na minha casa no cimo deste outeiro’, me mostra mais uma vez que ‘eu sou do tamanho do que vejo’.
Na Pirâmide del Sol avistei o horizonte infinito e senti o poder da luz; os raios de sol tocavam a minha pele e a escala do meu mundo ampliou-se. Aquietada, sentada numa pedra, na qual muitas vidas se perderam, os cinco sentidos estavam alerta, agarrando a continuidade ininterrupta de um tempo sem tempo. O impulso criador, aquele que o sexto sentido, inexplicável, inefável tentava apreender na imobilidade inerte de quem testemunha a origem de todas as coisas. O cimo daquela pedra era, num instante eterno, a minha aldeia que me permitia ver o ‘quanto da terra se pode ver o Universo...’

Por isso, mesmo que vida na cidade seja mais pequena, os meus olhos viajam, viajam e sempre me mostram que são eles, também, a minha riqueza... a de ver.

* Intertexto com "Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo…”, de Alberto Caeiro
24 de Maio de 2016
Matosinhos, Portugal

Sábado de manhã em Villa de Leyva



Às sete da noite o quinto Festival Internacional de Jazz em Villa de Leyva. Confirma no jornal local, uma senhora de Bogotá a passar o fim-de-semana prolongado. Decorrerá na Praça Carmen, informa a funcionária da Matilde Blain, uma das lojas de comidas da Casa Quintero. Café expresso, uma fatia de torta de Santiago e um sumo de manga. Para sumercé o marido, que chega com as últimas compras, um chá de malte. 
A manhã avança. Na igreja da praça Central da Villa, o funeral da Doña Teresa Davilla.
Enquanto isso, o bulício no mercado de Sábado. Ananás doce oferecido a potenciais compradores. Frutas de tantas cores quantos sabores. Yuca, abacate, muitos tipos de batatas e muitos outros legumes frescos enchem os balcões. Sapatos e roupas para quem quer renovar o guarda-vestidos. Provam-se comidas. Toma-se o pequeno-almoço tardio à conversa sobre a derrota da Colômbia na noite anterior. 

Foi com a Argentina. A copa da América perdeu grande parte do interesse para os colombianos. Por quem torcer agora? Pela Argentina. Aquela com quem se jogou bem e se perdeu na desventura dos penáltis. 
É só um jogo de Futebol. Sem muita convicção, Luis. O filho emigrado em Londres da senhora Maria. A proprietária do albergue Rana. O nome a homenagear um dos jogos mais tradicionais da Colômbia. A par do Tejo. Em Villa de Leyva este não tem campos para os da Villa se entreterem. Outros campos há. De Basquetebol. De Futebol. Como é óbvio. 
Crianças imitam os craques colombianos. Quadrado, Falcão e o grande guarda-redes da selecção, Ospina. A figura do jogo da véspera, salvando a honra na derrota. Aguardente e muita cerveja àguila dissipavam a tristeza dos pesarosos espectadores de televisão. Nem por ser no Chile os corações quase se perdiam. Isso já lá vai. Hoje é outro dia.
A Villa de Leyva chegam a toda hora os colombianos das cidades mais ou menos próximas. Muitos de Bogotá para o fim-de-semana com ponte. A pequena cidade está em festa para celebrar o feriado dedicado a São Pedro. A chuva que vai caindo amiúde reforça o seu poder. 
Na missa fúnebre os sinos anunciam o último adeus à Doña Teresa, aos quais se juntam as lágrimas de despedida. A saudade do até nunca mais, ou quem sabe até um dia. Para aqueles que acreditam que depois da existência terrena se encontrarão com os que já partiram. É só deus que tem os que mais ama, cantava um Luís português. É semelhante em quase todos os lugares, essa necessidade de crer que depois haverá mais. Isso não significa que se deseje o fim. 
Pelo contrário. É fundamental desfrutar cada arepa, cada almohada com um tinto claro ou escuro ou mesmo com uma poker ou uma àguila. 
Na praça principal, as fotografias retornam. São muitas. De preferência em boa companhia e num sorriso de quem se sente relaxado. O emprego só daqui a alguns dias. Como tal há que saborear. O fim-de-semana avança em festa para quase todos. O sol regressa.   


27 de Junho, 2015

Villa de Leyva, Colômbia 

O meu nome é Prince




            A sério? Oh... No dia 11 de Janeiro, David Bowie também se despedia. De géneros completamente distintos, estes dois músicos fizeram e continuam a fazer parte da minha playlist.
            Cremosa, a voz de Prince, foi com uma chuva de púrpura que muitas vezes as lágrimas caíram e ainda ameaçam saltar cada vez que escuto, como neste momento, essa canção, que me toca para além do sentido da audição. A minha modesta homenagem a este cantor, cuja altura demonstra que os homens não se medem aos palmos. E Prince era e será sempre uma referência musical, disso não tenho dúvidas, para aqueles que, como eu, se deixavam abraçar simulando uma dança ao som das suas músicas mais lentas, como Purple Rain.
            Purple Rain, Purple Rain, Purple Rain – eu e a P, a pedirmos na primeira linha do público no seu primeiro concerto em Portugal, no grande estádio de Alvalade. Foi em 1993.
Esse era o segundo concerto em quinze dias, nesse mesmo estádio – uma verdadeira catedral, ah, ah. O primeiro foi a 1 de Agosto – Sting, o cantor que nos mereceu e merece igualmente grande admiração. Outro género. Gostos eclécticos, alguém criticava. E?
            Para o concerto de Sting não fomos preparadas. Ficámos nas bancadas. Tão longe! Tão longe e quando o britânico tirou a camisola eu e a P, histéricas, pedimos ao vizinho os binóculos: “por favor, só um bocadinho, para vermos melhor o six pack”. Não sei se era o caso, mas não há milagres e claro que rapidamente tivemos de devolver as lentes e cingirmo-nos a escutar. O que já de si era extraordinário. Em particular quando tocou e cantou ‘Fragile’.
            Este tema é, na realidade, o ponto de partida para a amizade que começou com uma animosidade palpável. Eu e a P conhecemo-nos meses antes de ficarmos na turma A do primeiro ano da faculdade. Como somos as duas Ana, ficámos no mesmo grupo aquando dos pré-requisitos para entrar na então FCDEF. Esses testes físicos que contavam 50% para a média de entrada, incluíam uma série de esquemas na Ginástica, entre os quais um esquema de corda no tapete. Ambas escolhemos a versão instrumental ‘Fragile’ para a corda.
            A cassete (sim, cassete) parou a meio da minha prestação – quero crer que não terá sido por qualquer ordem telepática daquela que se seguiria: a P, ela mesma, com ‘Fragile’, essa mesma.
            Esta aversão rapidamente foi substituída no início das aulas. A literatura, o cinema e a música sempre foram fontes de encontro entre as duas. Consequentemente, no final do primeiro ano da faculdade passei uma semana fantástica com P em Lisboa, onde então vivia. No final do segundo ano, convidou-me a passar duas semanas no ‘seu’ monte em Mértola. Antes de descermos para terras alentejanas e nos deliciarmos com os mergulhos na Mina de São Domingos, deixámo-nos enlevar frágil e docemente pela voz do inglês.
            Terminámos essas duas semanas em cheio na então grande catedral – o estádio de Alvalade. Ele há gostos para tudo, é sabido. E, tal como na religião, também no futebol não há discussão. No dia 15 de Agosto tínhamos aprendido a lição e foi com várias horas de antecedência que assentámos arraiais à porta do estádio.
            Quando os portões abriram corremos desvairadas. Objectivo: ficar o mais próximo possível do palco. Objectivo cumprido, não fôssemos nós de desporto: primeira linha do público. Entre nós e o palco apenas a distância de segurança marcada pelas grades. E ali ficámos outras tantas horas à espera. À espera que Prince descesse do seu helicóptero.
            Quem lá estava, certamente se recordará que foi muito bom ver e escutar Prince ao vivo e a cores. Quem lá estava, certamente se recordará que antes da actuação do cantor, levámos com mais de uma hora com a banda que o acompanhava à época: The new power generation.
            A hora que Prince esteve no palco inflamou e encantou com músicas como ‘Kiss’ e ‘When doves cry’ – as minhas preferidas. Com ou sem Sheena Easton, ‘1999’ e ‘U got the look’ juntam-se ao rol das minhas preferências. Tantas e tantas que continuam a tocar naqueles que gostam de Funk e Soul – há quem diga que Prince era o melhor, senão o Rei. Rei ou não, pertencia ao reino dos mortais e partiu hoje.
Não obstante, parece-me que Prince, como todos aqueles que nos são queridos, perduram em nós. A sua centelha flutuará e confio que alguma da sua luminosidade permaneça em mim. Afinal, o que sou hoje também resulta daqueles que passaram por mim e continuam a tocar-me, como é o caso da minha querida amiga P, a quem agradeço profundamente tudo o que temos partilhado ao longo destes 25 anos (!) e que certamente continuaremos a partilhar... Obrigada querida amiga.

21 de Abril, 2016
Matosinhos, Portugal

Voando para Manágua*



           Ainda não eram seis da manhã na Cidade do México quando me acerquei de um dos balcões do aeroporto, a fim de efectuar o check-in para Manágua. Saí cedo de casa de Patrícia e Arturo; pressenti que seria de evitar chegar em cima da hora. E, com efeito, não foi fácil despachar a mochila para a capital da Nicarágua.
            O principal motivo para conhecer Nicarágua prendia-se com a realização de um retiro de meditação. Todavia, os planos foram ‘desplaneados’ e desisti de me sentar mais dez dias em silêncio em Granada (seria o segundo retiro nesta viagem). Uma decisão já tomada e que não se deveu ao pequeno percalço no aeroporto da capital do México.
            A esse aeroporto, como a quase todos os que chego para partir, o tempo de antecedência com que me dirigi ao balcão permitiu-me resolver o que para mim era inesperado: não tinha visto para estar algumas horas num aeroporto dos Estados Unidos, em escala! Comprara o voo através do skyscanner. Na maioria das vezes adquiro o mais económico, nem que isso implique conhecer todos os cantos e cadeiras desconfortáveis dos aeroportos. Como acusa Luís Sepúlveda, são duros assentos desenhados por criminosos da modernidade.
            Desta vez, porém, o barato saiu caro – antes do check-in tive de ir a um estabelecimento comercial do aeroporto para aceder à internet sem fios. O meu dispositivo electrónico não aceitou qualquer cartão desde que aterrei no outro lado do mundo, alguns meses antes. Por conseguinte, para aceder ao mundo virtual neste aeroporto rendi-me a mais um Starbucks e bebi um café para adquirir a contra-senha.
            Felizmente, a hospedeira de terra mexicana – como todas as mexicanas que conheci – foi muito simpática e prestável; indicou-me todos os passos para obter um visto e assim aterrar tranquila no aeroporto de Hollywood – Fort Lauderdale. Dezasseis dólares, o visto, mais dois ou três pelo café americano. As despesas não se ficaram por aqui. Se em grande parte das vezes é estimulante viajar sem planos, outras vezes, a ausência de pesquisas prévias pode ter resultados menos agradáveis.
Talvez por sentir algum cuidado, quando toquei o solo dos Estados Unidos – a primeira e única vez até ao momento – dirigi-me de imediato ao balcão do check-in. E de facto...
Felizmente, a hospedeira de terra do aeroporto de Hollywood também era simpática e prestável. A sua empatia por mim desenvolveu-se quando lhe dei a saber que estivera na sua terra natal – aproveitei o sotaque da senhora para alimentar a conversa – no ano anterior. Acrescentei que gostei tanto dos lugares e das gentes do Peru que desejava regressar. Era a pura verdade. O Peru encheu-me, sem me satisfazer por completo: quero regressar!
Pois bem, a sua simpatia latina ajudou-me a ultrapassar mais uma situação: para entrar na Nicarágua era necessário ter um bilhete de saída. Como? É verdade. Assim como foi verdade para entrar posteriormente na Costa Rica, no Panamá e no Brasil. O regresso ao Porto também foi condicionado pela necessidade de ter data marcada para deixar o Rio de Janeiro.
Mas – há quase sempre muitos mas – e neste caso um porém muito prático: não fazia ideia do tempo que iria permanecer na Nicarágua, nem tão-pouco tinha a certeza do destino seguinte. O meu único plano era estar no Rio de Janeiro a nove de Outubro, mas ainda estava no início de Setembro.
Comprar uma passagem para o Rio desde Manágua estava fora de questão. Não só sabia que era um valor muito elevado, como implicaria estar as seis semanas seguintes circunscrita à Nicarágua. A sugestão da hospedeira: comprar um bilhete de regresso para Fort Lauderdale. Como?? Esse parecia-me um cenário ainda pior.
            A senhora insistia na sua sugestão. Escutei: “Tem vinte e quatro horas para anular a compra” – hum... – “Ser-lhe-á devolvido o total do montante” – hum... “Ok!” Ser detentora de um cartão de crédito é das melhores coisas quando se viaja, pelo menos para mim. Resolve situações antes que se transformem em problemas. E assim foi.
            Estava nos Estados Unidos da América, num aeroporto em Hollywood, pagara dezasseis dólares e estava nesse momento a pagar para regressar sem ainda daí ter saído.
            As horas no aeroporto norte-americano foram bem passadas. Nessa época trabalhava na revisão de uma dissertação de mestrado – o iPad é outro objecto que se tem revelado muitíssimo prático e útil para viajar. É um dois, três, quatro, cinco em um. Leio, escrevo, trabalho, organizo (nem sempre bem) as viagens e ainda comunico com os amigos e família. Tenho tido acesso à internet sem fios em quase todos os lugares por onde vou passando. Assim sendo, aproveitei o tempo para trabalhar.
Aproveitei, igualmente, para observar as pessoas norte-americanas ao vivo e no seu habitat natural. Pode ‘soar’ estranho, mas para mim era ainda mais estranho estar nos Estados Unidos sem estar. Repito-me no recurso a Marc Augé, quando se refere aos aeroportos como não-lugares. Era assim que me sentia, num intervalo vazio – para usar a expressão de Italo Calvino, em ‘Um Eremita em Paris’. Um parêntesis num território que, apesar disso, tinha de se pagar.
Devo ter alguma coisa a aprender com os aeroportos, tanto é o tempo que aí vagueio, como foi no de Manágua. Esta viagem foi daquelas que se revelou um caso oneroso em tempo e dinheiro.
Na madrugada seguinte conhecia a textura e o desconforto dos assentos do aeroporto de Manágua. Aterrei à uma da manhã, mas era necessário esperar pacientemente pela manhã seguinte e assim ir ao escritório da companhia aérea a fim de reaver o valor virtualmente gasto. Outras horas largas aproveitadas a descansar (o possível) e a adiantar a revisão da tese, assim como a observar os Nicas – como carinhosamente escutei a estrangeiros de outros países da América Central.
Às dez da manhã, o cartão visa era ressarcido na totalidade pela despesa em solo americano. Saía, enfim, do aeroporto a pé para apanhar mais um chicken bus, desta vez rumo a Granada.
           


Fevereiro de 2016
Matosinhos, Portugal

*Sempre que penso na Nicarágua escuto interiormente a música de Manu Chao, Me gustas tu. Fica aqui a partilha; basta clicar na legenda da fotografia que é do vulcão da ilha de Ometepe