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Um acaso... - Machu Picchu I







Foi (quase) um acaso ter tido o privilégio de contemplar in loco Machu Picchu.
Foi um acaso estar em casa na tarde em que o processo de venda da casa se iniciou: uma terça-feira chuvosa impediu um passeio com L. no Gerês – almoçámos e colocámos a conversa em dia.
Não foi por acaso que a K.R. me convidou para participar num congresso sobre os Jogos Olímpicos em São Paulo, em Outubro de 2014.
Talvez tenha sido um acaso que a marcação dessa viagem ocorresse um dia depois de assinar o contrato de promessa de compra e venda da casa.
Terá sido um acaso encontrar o R.: “Vais ao Chile? Porquê, se queres conhecer algo completamente diferente, o Peru é muito mais interessante”.
Olhei para ele com um sorriso em chama.
Acasos... a vida tem-me mostrado que tudo tem uma razão de ser e para acontecer – assim é, se estiver atenta e se confiar.
Se o clima o tivesse permitido, teria ido pedalar para a serra que mais me enche com L., naquele dia de 12 de Agosto de 2014. Se tal tivesse sucedido, não teria escutado a campainha, nem tão-pouco o vizinho da frente: “Oh vizinha, ainda tem a sua casa à venda? Está aqui um casal meu amigo que está interessado em ver o seu apartamento”. A A. e família entraram e gostaram. Saíram por dois minutos e voltaram a entrar. No fim-de-semana seguinte voltavam para nos comprometermos mutuamente.
Na segunda-feira subsequente havia que marcar a viagem para São Paulo. Uma vez que estava prestes a ficar sem poiso fixo, arrisquei: “É possível marcar a viagem de regresso apenas em Dezembro?” A resposta afirmativa não tardou. E porque não? Sem compromissos laborais, económicos... apenas (e tanto) os laços familiares e de amizade: aqueles que importam e que jamais se perdem quando são verdadeiros e se os soubermos preservar, apesar da distância física.
No início desse mesmo ano, ao efectuar a lista das experiências que gostaria de viver, colocara uma viagem ao Chile no ponto número um. Tal era o meu desejo, que desenvolvi uma curta história – Um corte no pé (ainda por terminar... quem sabe um dia destes) –, na qual a personagem principal aterra em Santiago do Chile. Projectava assim, como que visualizando, a concretização antecipada de um sonho.
Tenho aprendido, todavia, que os planos ‘devem’ ser um esboço flexível e amplamente aberto a novas possibilidades. “Um bom viajante não tem planos fixos nem tão-pouco a intenção de chegar”, crê-se que terá dito Lao Tze, mais ou menos deste modo. Não sei se sou boa viajante, de qualquer maneira, nos últimos anos, tenho voado apenas com duas ou três noites reservadas... de resto, confiando que tudo fluirá.
Assim sendo, quando numa volta de bicicleta parei para beber água no passeio que ladeia a margem do Rio Douro – os bancos de jardim, perto do Clube Fluvial, estrategicamente colocados para contemplar a foz são para mim, sem dúvida alguma, uma das plateias mais bonitas da cidade do Porto... quando a sede me impeliu a uma pausa, vi o R. Já não nos víamos há uma série de anos. Contei-lhe muito satisfeita que estava de viagem marcada para a sua terra natal. O R. abandonou o Brasil há cerca de quinze anos para tentar a sua sorte como instrutor de fitness – um dos profissionais que mais respeitava enquanto andava nessas lides.
Observo-me com  frequência a falar pelos cotovelos, em particular quando algo extraordinário está para acontecer. Era o caso. Ia viajar pela América do Sul por quase três meses, quase por acaso. E ia ao Chile, dizia eu muito satisfeita ao R. “Ao Chile? Porquê? Se o teu objectivo é conhecer lugares e culturas distintas, porque não antes o Peru? Nesse país ainda encontras cidades, lugares, pessoas com modos de vida realmente diferentes dos que estamos habituados”. Presume-se, e bem, que estas palavras são minhas, mas esta era a ideia da mensagem do R. E guardei. Só embarcaria para São Paulo daí a três semanas. Até lá poderia traçar um proto-itinerário de viagem.
Despedi-me do R. com um abraço. No instante seguinte já estava a viajar pelo Peru, com a música de regresso aos ouvidos e pedalando e cantando.
Quase todas as viagens começam muito antes de se embarcar. Preparar, visitar virtualmente ou através de livros os locais que se pretende conhecer são já formas de nos deslocarmos para o futuro. Quase antecipando o contentamento de tocar o solo de um porvir que se deseja próximo. A vida também me vem transmitindo que as expectativas são projecções a evitar. Como quase todas as suposições, especulações e outras formas de ‘futurização’. Não estou a ser contraditória. Nessa preparação, procuro desviar-me das expectativas ou de esperar isto ou aquilo em relação à beleza dos lugares ou ao que as pessoas possam vir a fazer ou a dizer. Os meus devaneios direccionavam-se, sobretudo, para o privilégio que já estava a experienciar.
Naquele momento eu estava na posição singular de optar pelo Chile ou escutar a sugestão do R. e ir ao Peru. E se a hipótese de ir ao Peru era confirmável, o primeiro destino que naturalmente me ocorreu foi Machu Picchu.
No dia seguinte comprei a passagem de avião desde São Paulo para Cusco, a cidade peruana mais próxima de uma das maravilhas mais maravilhosas do planeta.


Janeiro, 2016
Matosinhos, Portugal

A amiga louca sempre nas nuvens...



... um corte no pé XI 
Sou louca, dizem. Navego nas nuvens. Não é metafórico. Viajo de avião com frequência. Todavia, calculo que não seja essa a razão da alcunha preferida dos amigos. As nuvens são, com efeito, um lugar – chamo-lhe assim – deveras interessante. A sua textura húmida é-me familiar. O ano passado, por exemplo, estive sobre um mar branco esponjoso. Subi ao Toubkal. Pernoitei com a minha amiga Margarida em Imlil, a vila marroquina na base da montanha mais alta do Norte de África. Começáramos o nosso périplo por terras marroquinas em Casablanca duas semanas antes.
Uma das noites foi no deserto, em Merzouga. O camelo foi o nosso meio de transporte nas dunas até ao campo de expedição. As oscilações, quase até ao vómito no percurso, não nos impediram de gozar essoutro mar arenoso sob o céu estrelado. Descalças nas areias douradas pouco dormimos. Até porque a minha amiga estava receosa: não fosse um qualquer escorpião acordar-nos à força. Mitos ou não do deserto, a verdade é que depois do jogo de cartas nocturno com as holandesas que nos acompanhavam nessa aventura, pouco dormimos. Também, quem no seu perfeito juízo perderia uma noite no deserto do Sahara?
Improvisámos, então, uma cama ao relento para melhor desfrutar dessa experiência, talvez, única. Contámos estrelas cadentes – foram suficientes para enumerar os nossos desejos: alguns já se cumpriram. Duas horas depois das pestanas se terem unido, despregavam-se e sentimo-nos impelidas a subir a duna mais alta antes dos primeiros raios de sol – o palco perfeito para contemplar o amanhecer.
Marrocos é um daqueles países que se ama ou se detesta. Um jargão que escuto amiúde. Abstenho-me de tecer juízos de valores. Para mim, cada lugar tem os seus encantos. Na minha perspectiva, o fundamental é desfrutar e captar amorosamente cada momento que me é concedido. Por isso, ir a Marrocos e não passar por Imlil, seria quase como ir a Roma e não ver o Papa (outro jargão – já se sabe: nunca vi o Papa!). Nessa vila, ficámos muito bem instaladas e calcorreámos as ruas e vielas até ao anoitecer.
Deitámo-nos com as galinhas (como o namorado da minha amiga Margarida gosta) para nos levantarmos antes do seu cacarejar. A nossa intenção era contemplar o nascer do sol durante o percurso ascendente. Foi maravilhoso! O caminho rugoso e verdejante contrastava com a paisagem desértica que dominara a viagem nos dias anteriores.
Nessa ainda noite, as horas sobre passos lentos e conscientes iam cedendo lugar ao dia, à medida que progredíamos nas curvas de nível. O céu ia transmudando. O azul índigo rasgava-se por uma linha vermelha que, mais veloz que o desejável, passava a laranja tornando-se então dourada: o sol ia despontando. Aos primeiros instantes da aparição da esfera de fogo sentámo-nos. Valia a pena uma pausa para assistir ao espectáculo – mesmo que diário, não deixa de ser um espectáculo arrebatador. No ‘Canto dos Seres’, de Pedro Sinde, encontrei uma descrição maravilhosa que me sinto compelida a partilhar:
“Estamos a meio da noite, no momento mais profundo da escuridão; subitamente começamos a ver surgir no horizonte uma luz que se vai intensificando; aparece gradualmente um fogo mil vezes mais intenso do que o de qualquer uma das estrelas que vogam no céu. A luz dessa fogueira é tal que ilumina a terra inteira num resplendor doirado. Não seria um milagre espantoso? Não tremeríamos de emoção e admiração perante tal mistério: uma fogueira surgindo subitamente, inesperadamente, do mais profundo da noite? É, porém, isso que a cada dia se repete: o nascer do sol - uma fogueira que do mais profundo da noite nos vem iluminar a terra imensa. Assim saibamos nós ter olhos para ver e alma para contemplar”.
Eu e a minha amiga Margarida estávamos em sintonia. Nada é garantido, nem tão-pouco o nascer do sol, muito menos no Toubkal. A nossa já altitude permitia-nos igualmente estar acima das nuvens, acima dos homens: é consolador a gente sentir-se de quando em quando... acima dos homens – como diria Manuel Laranjeira.



Desde o Chile


... Um corte no pé X



            A viagem ao Chile. Calculo que tu, leitor ou leitora queiras saber um pouco mais. Afinal, pouca informação te terá dado a minha querida namorada Margarida, de quem com efeito sinto tremendas saudades. É natural. Sou português e o sentimento da saudade deve estar impregnado nos meus genes, assim como nos meus conterrâneos. E tu leitora ou leitor, costumas viver esse sentimento amiúde? Confesso que tento desviar-me da saudade: mostra-me o quão importante são os afectos, ao ponto de se tornarem mais do que isso e de se transformarem em autênticas algemas. Felizmente, no que à minha namorada concerne, a saudade mútua não nos impede de sermos e estarmos como ambos queremos.
O mesmo não posso dizer da minha figura maternal. Sim, já terás uma mínima ideia da minha idade; mas os meus vinte e nove anos não impedem que a minha mãe me continue a ver como o seu lindo e muito querido menino: “Ai, o meu Jorginho... será que se alimenta em condições? Será que tem onde dormir? Onde andará ele?” – guardaste, leitor ou leitora? Ainda não te tinha revelado o meu nome: Jorge. Dou-te mais alguma informação. Tenho 1,85 m – só para ficares com uma pequena imagem da minha longa e esguia (sim, esguia, mas não menos atlética) estatura.
            Aquelas e outras questões são muito vívidas e poderás perguntar, leitor ou leitora como se gerem. Não se gerem. Aceitam-se! Assim como aceito as minhas próprias questões, também essas no âmbito existencial. Terás até percebido, leitor ou leitora, que terão sido essas dúvidas que me terão conduzido até Santiago do Chile. O frio que sentia em Janeiro foi apenas um pretexto. Sentia-me um tanto esgotado do ram ram do meu emprego. Todos os dias entrava às nove da manhã no banco e todos os dias chegava a casa a hora incerta, depois de ter atendido uma série de rostos tão impessoais que não sou capaz de te traçar uma fisionomia com acerto.  
Bom, na realidade, é provável que tal também se deva ao facto de enquanto no balcão tentar uma outra realidade. Viste o filme ‘A Vida secreta de Walter Mitty’, leitor ou leitora? O meu caso era efectivamente muito semelhante, com a diferença de me observar, qual espectador confortavelmente instalado numa nuvem. Não é raro que esta atitude onírica me coloque em situações embaraçosas e chego mesmo a duvidar-me no estado em que me encontro. Tal como Lao Tsé questionou depois de sonhar ser uma borboleta: ao acordar viu que afinal era um homem. Nesse momento, não sabia se era um homem que sonhara ser borboleta ou se era uma borboleta que sonhava ser um homem. Às vezes eu não agarro o sonho; outras vezes não desperto... da realidade. Prefiro-me no sonho – e nas nuvens! Por isso, voei até ao Chile e daí para outros lugares – dar-te-ei pormenores a seu tempo.
Pergunto-me, então, quando observo em complacência a brancura macia sob os meus pés: estarei nas nuvens ou as nuvens estarão em mim? De que substância é feita a felicidade? De que substância é feita a liberdade? Calma, leitor ou leitora! Nem sempre divago sobre essas questões, pese embora tal me ocupe com certa frequência. De qualquer modo, é a planar nas nuvens que me sinto realmente bem. Diria mesmo que esse é um dos meus lugares preferidos: a paisagem é quase sempre singularmente extraordinária. Não é por isso estranho que aí me deseje o mais tempo possível.
Se pudesse manter-me-ia sempre nesse plano – a vista tende a ser muito mais abrangente. Consigo ter uma perspectiva global da realidade e não me retenho no que é normalmente acessório. Senti isso o ano passado na Madeira – onde fiz o baptismo de vôo de parapente. Como era a primeira vez, saltei acompanhado de um monitor. O vento nesse dia era brando, mas o suficiente para subir, subir bem alto. E do alto das nuvens, com o mar azul sob os meus pés, deslumbrei-me com a ilha das flores.
No parapente, qual sofá aéreo e sem chão, contemplei os socalcos de cultivo, as veredas e escarpas, as praias de cascalho e ao fundo o Vale do Curral das Freiras. “És doido, Jorge”, escutei quase de imediato. Ora, quem como eu já saltou de para-quedas, sabe perfeitamente que o vôo de parapente em tandem é para meninos. Foi o meu pai, outrora orgulhosamente para-quedista na tropa, que ofereceu o curso! Ficou todo satisfeito quando o seu Jorginho mostrou gosto em seguir as suas pisadas aéreas. Como dizia, saltar de para-quedas – sozinho! –dispara todas as endorfinas e mais algumas e nas várias fases.
A primeira aquando da passagem para a asa. No alto dos mil metros, sentado na borda da avioneta, a transferência para o vazio da asa é uma sensação indizível. Erguer-me para me transpor para a asa. E se o pé falhasse? Não falhou! Com as mãos apoiadas na barra da asa, o momento seguinte é elevar um dos joelhos até ao peito, contar até três e lançar-me para trás. O que é o mesmo que dizer, atirar-me para o espaço sideral. Cinco segundos contados e o para-quedas abre-se. E depois... depois é planar, planar... As mãos nos comandos guiando a velocidade da descida e a trajectória; mais para a direita, mais para a esquerda. O que não é propriamente o mais relevante. O fundamental é mesmo tentar desfrutar pelo maior período de tempo.
O último momento de tensão: a aterragem. A técnica de aproximação ao solo, a fim de evitar impactos bruscos nos joelhos e tentar uma abordagem suave do corpo ao relvado. Foi no último de quatro saltos: uma branca; falhou qualquer coisa. Esqueci-me totalmente dos procedimentos para a aterragem e embati de rabo no chão! A minha namorada Margarida observava-me estarrecida. Ficou em pânico: terei caído de cinco ou seis metros de altura. A fissura no cóccix diagnosticada pela radiografia ainda hoje me impede de estar mais de hora e meia sentado.
Deve ser uma das razões por que prefiro voar e planar ao invés de me sentar... no balcão do banco! Já não aguento mais os clientes. Muitos, como eu, sem dinheiro e sem saberem  como esticá-lo. Não saberão eles que o dinheiro não é como como as chicletes. Antes fosse, mascar e deitar fora. Mas não é bem assim. Na verdade, compreendo-os muito bem. Tivera eu uma árvore pejada de notas de cem euros e é quase certo que não mais me veriam sentado por mais de quinze minutos. A não ser que fosse com os pés debaixo de uma mesa rodeado de amigos com bom vinho maduro – tinto de preferência!






A ‘amiga louca’ em Saigão... Corte no pé IX





Quando invocam a minha pessoa logo lhes vem à boca: “aquela, a nossa amiga louca”. O nome por que me baptizaram. Como se deve calcular, isso é apenas um epíteto. Maria dos Anjos; assim escreveu a minha querida avó à minha mãe: “Querida nora, não sei porquê, mas tenho comigo que a minha primeira neta se podia chamar Maria dos Anjos”. Menos mal... ou não – Célia: o nome que os meus pais haviam seleccionado.
Maria dos Anjos – talvez um nome adequado. Eventual explicação para a alcunha entre determinados amigos – ‘a amiga louca’. O atributo apenas e só por não me enquadrar nos ditos padrões de normalidade; esses da ditadura da maioria! Classificações vãs; assim as entendo. Não sou normal, dizem: por isso sou louca; ou melhor muito louca. Mas que diabo!
Maria dos Anjos. Angélica nem por isso. A mania dos anjos, até que sim. Não é propriamente uma mania: ouço vozes. Como não as reconheço entre os vivos que fazem parte dos meus círculos afectivo e social e tão-pouco profissional, avento uma hipótese: são vozes dos anjos, angelicais, sobreterrenas, sobrenaturais, sobre qualquer realidade que não a material em que me movo. Apesar de me deslocar amiúde por realidades incandescentes e imperceptíveis, aos olhos de muitos dos que me rodeiam. Daí que conceba tais vozes para lá desta minha existência corpórea.
Desse discurso já me desisti. Cada vez que os meus lábios se enformam para proferir palavras da família dos anjos, os meus amigos gesticulam como quem diz: “Oh Maria, por favor. Só porque és dos Anjos não quer dizer que eles te visitem; se é que existem”. E assim pensam que abafam as sonoridades que só eu escuto.
Outro motivo para me sentenciarem como a tal ‘amiga louca’ deve-se ao facto de ter repentes. De quando em vez sou dada a amochilar os meus parcos haveres e deixo-me conduzir por um impulso que dizem ser ora de viajante, ora de fugitivo. A qualificação para o segundo impulso encontrei n’ “Um homem de partes”, de David Lodge.
A última vez que me senti impulsionada aterrei em Saigão. Ho Chi Minh: a sua denominação actual. É provável que os vietnamitas desejem apagar os tempos idos da ocupação norte-americana. O sangue derramado não deve, todavia, ter-se esbatido da memória. A bandeira que os representa marca bem essa cor de morte.
Saigão. Ho Chi Minh. Se os meus amigos aí se tivessem  deslocado de moto-táxi como eu, perceberiam que o epíteto com que me evocam é totalmente descabido, ou mesmo hiperbólico. Eles não sabem o que é a loucura: a loucura do trânsito. Motas, motoretas, lambretas, motociclos, motocicletas, bicicletas e todos os veículos sobre duas rodas que se possam avançar.
Centenas e centenas sempre em movimento, com ou sem sinal vermelho. Mais um vermelho que neste caso é com efeito desconsiderado. Se tal não me incomodou quando era uma das que usava capacete de equitação – os mais usuais entre os motoqueiros de Saigão –, o mesmo não posso afirmar quando a pé e carregada com uma mochila de quinze quilos.
Uma vez, a primeira de muitas similares, tentava atravessar uma rua. Motas de um lado, lambretas do outro, mais motociclos pela frente e até motoretas pelo passeio. Por onde continuar o caminho até à Rua Bui Vien? – a do Graceful Saigon Hotel, onde me instalaria. Eu e muitos outros turistas ao estilo backpack. Quase caí, tal o desequilíbrio provocado pelo susto. Pensei que me estrearia nos atropelamentos: tive de aprender rapidamente a atravessar as ruas em Saigão. Basicamente correr por entre os momentâneos e exíguos espaços livres.
Na tarde seguinte à da chegada vi um rosto que me era familiar. Ali, em Saigão? “I Know you...” Escutei-me dizer ainda: “You’re much prettier live”. E era, uma actriz de Hollywood Frances Louise McDormand (o nome depois de googlar ). Um sorriso fácil agradeceu. Não costuma ouvir isso, ao contrário. Pedi um autógrafo! Estava de férias, não o faria. Acabámos a troca de palavras desejando mutuamente boas férias.
Ainda nesse dia ao fim da tarde fui agraciada com um convite para jantar. Fui abordada por duas jovens vietnamitas enquanto passeava por um jardim. Se eu tinha tempo para conversar com elas. O seu objectivo era só um: melhorar o seu inglês. Porque não? Tempo era coisa que não me faltava. O tempo que era só meu e podia desfrutá-lo do modo que bem entendesse, que bem me apetecesse, partilhá-lo com quem quisesse. Anuí.
Eu e as estudantes de Saigão num banco do jardim. Ambas universitárias a estudarem numa grande cidade; as suas famílias longe e campesinas, pelo que percebi. Tentei uma fala pausada. É visível a dificuldade das gentes da Ásia na locução do idioma estrangeiro. A linguagem é totalmente díspar, solicitando outras formas de soletrar e de dicção, o que dificulta a aprendizagem correcta do inglês e, imagino, de todas as línguas germânicas e outros grupos linguísticos.
Antes de nos despedirmos outra admiração. Queriam estar comigo outra vez! Combinámos jantar na noite seguinte e trocámos números de telefone. Um jantar tipicamente vietnamita... às vezes é bom ser louca, como me chamam os amigos. Talvez valha a pena ter repentes e não ser normal. 




A lagoa azul... Corte no pé VIII





Caro leitor, cara leitora, não sabes o que aconteceu. Tão depressa eu expressava a curiosidade para saber quem é o tal Martin e eis que já somos amigos. Calma. Amigos na acepção virtual que hoje em dia paira nas nossas vidas. Essas, também, cada vez mais ligadas ou desligadas – conforme a perspectiva, já se sabe – do mundo maravilhoso não de Alice, mas do livro das faces, dos rostos, das caras. Não sou tradutora. Mas também não me parece que esse mundo seja traduzível – talvez nem valha a pena.
Os idiomas são eles próprios elementos de um mundo global, (des)ligado, fragmentado, em rede. Não te acontece utilizar expressões que não sendo em português não deixas de sentir como tuas? Por exemplo: ‘vou googlar’; ‘faz delete’... Só é pena que não possamos ‘fazer undo’ de quando em vez. Algumas palavras que soltei sem prever o seu efeito teriam sido apagadas: tal o desarranjo que terei provocado no receptor. Momentos em que mais valia ter mantido os lábios bem colados. Teria evitado também a entrada de insectos.
O Martin, dizia. Quando o meu namorado aterrou em Santiago foi quase imediatamente para casa do chileno. Conversa para aqui, fotografias para ali e entraram na espiral dos amigos virtuais. O Martin viu então quem sou eu a musa do meu namorado – confio que ainda seja.
Recebi hoje o seu pedido de amizade. De maneira que a minha rede social se vai ampliando, sem que com isso, confesso, o meu mundo se alargue nas devidas proporções. Um dia de cada vez. É o melhor. Mas também já percebi que assim é. Os meus planos são frequentemente ‘desplaneados’; por conseguinte, a sua elaboração tende a reduzir-se. Também te acontece a ti, leitor ou leitora, planear todas as horas do dia de acordo com a agenda e ao final do dia verificares que nada foi conforme previamente estipulado, planeado, programado? É quase sempre em sorriso que observo a viagem pelas horas precedentes. Por esse motivo, prefiro a designação de ‘proto-plano’ ou ‘proto-agenda’. Assim, se alguém ou um lugar mais interessante do que o agendado surgir, prolongo-me nesse instante. Na natureza nada se perde, tudo se transforma – diria que os minutos não se perdem, transformam-nos: assim estejamos receptivos.
Entretanto, o Martin. Logo algumas mensagens privadas. Relaxa, leitora ou leitor. Não tem nada a ver com uma qualquer traição do género virtual. Foi somente uma ‘pseudo-conversa’ de dois (ainda) estranhos. O nosso tema em comum é só um (ainda): o meu namorado. Não obstante, o Martin não se coibiu de tecer largos elogios às minhas fotografias. Deambulou virtualmente pelas viagens ‘postadas’ na minha página. “Estoy impresionado, tienes fotografías maravillosas” – assim se reportava às fotografias que partilho da Islândia.
Finalmente alguém que me compreende. É em desabafo que o escrevo a ti, que me lês neste momento. Uma ilha de sonho – a designação que lhe demos antes de embarcarmos: era o que ambos mais desejávamos partilhar desde que nos apaixonámos – eu e o meu namorado, claro. Alugámos um carro e percorremos toda a costa. Foi nesse ano que eu e o meu namorado chegámos a colocar-nos em causa, tal qual a letra da ‘Paixão’ de Rui Veloso, quando canta em tom de lamento: “Contigo aprendi uma grande lição / Não se ama alguém que não ouve a mesma canção”.
Não era da canção que se tratava, apesar de os nossos gostos nem sempre coincidirem. O que estava em causa era a perspectiva dissemelhante face à fotografia. Na realidade, ainda não ultrapassámos totalmente essa eventual diferença: sinto-me uma artista incompreendida. Artista – penso que esse atributo se pode aplicar a mim. Ganhei alguns prémios com as baleias, focas, géiseres e icebergs que fotografei em movimento: disparos contínuos que me permitiram diversas montagens fotográficas.
O meu namorado, porém, não me dava muito espaço. Estava constantemente a bufar nas minhas costas. Repara, leitora ou leitor, que a sua postura era de facto incomodativa; quase irritante. Eu, fotógrafa em progresso, estava deleitada, inebriada, arrebatada pelas paisagens vulcânicas e glaciares que nos entravam pelos olhos. Os meus queriam captar e guardar essas imagens não apenas na memória e no coração, mas também numa futura tela: para mais tarde recordar! Pedia-lhe, então, carinhosamente que parasse o carro. Por vezes ficávamos horas a fio no mesmo local. Eu era fotografia, respirava fotografia. Trocava lentes, mudava filtros, montava o tripé e observava. Observava, experimentava dar um passo à direita, depois outro à esquerda; piscava o olho direito, depois o esquerdo; arrebitava as nalgas; ajoelhava-me; agachava-me; deitava-me: e captava o instante perfeito. Delongas necessárias, senão fundamentais para quem, como eu, tinha a oportunidade de pela primeira vez estar na terra da Björk, uma das minhas cantoras predilectas, bem como de desfrutar do tempo, do lugar e até dos ombros e dos braços do meu namorado – ajudavam a carregar a parafernália imprescindível a uma fotógrafa em evolução.
Ora, vá-se lá saber porquê, o meu mais que tudo não tinha o mesmo prazer que eu. Não só é imensamente friorento – um dos motivos por que abalou para o Chile –, como tem formigueiros nos pés e noutras partes do corpo. Disse-me que agora até nas costas. A consequência, poder-se-á facilmente prever: fartou-se de estar ao meu lado a acompanhar-me nas minhas riquíssimas experiências. Felizmente ele é um rapaz que sabe colocar-se no meu lugar e adaptou-se, entretanto, ao meu anseio de fotografar.
O frio, esse, é que efectivamente se tornou desagradável, apesar de termos ido em Agosto. Uma sugestão a ti, se tens a pretensão de ir à Islândia: a segunda quinzena de Julho é a mais aconselhável – aquando do Verão pleno na ilha quase polar. Contudo, não cries muitas expectativas: o máximo que sentimos foram uns míseros 15ºC. Coincidiu com a nossa ida à Lagoa Azul. Mas nesse dia até que valeria a pena uma temperatura substancialmente inferior, para assim nos regalarmos com a amplitude térmica entre a água termal – chega aos 40ºC – e o ar eventualmente frio.
Regressámos a casa ao nível dos zero graus. Ao aterrarmos no Porto, o rosto do meu namorado aquecia – confio que fosse resultado da temperatura amena que Setembro nos oferecia.
O Martin. Mais um amigo na minha já vasta lista virtual. Naturalmente que o vasto é sempre relativo. Tenho 500 amigos na rede social mais conhecida. Nada que se compare ao meu namorado que já vai nos 3200 – são sobretudo do sexo feminino. Não quero sequer especular sobre o que isso possa significar.

Margarida... Corte no pé VII


Sou eu novamente, a Margarida. A namorada daqueloutro que no primeiro capítulo – vamos designá-lo assim – se cortou no pé. Por isso ainda o título. A autora já não sabe o que fazer em relação ao título; mas tendo começado com esse famigerado golpe, sente que é esse o seu desígnio momentâneo.
Se é o primeiro texto com que te deparas, leitor ou leitora, não te preocupes: os textos anteriores para além de curtos, são igualmente passíveis de se lerem avulso; digo eu – a autora.
O corte no pé do meu namorado – e sim, sou eu novamente a Margarida. Um pé pequeno; se se tiverem em conta os padrões masculinos; se é que tal se possa aplicar no que à anatomia concerne. Calça 39, ele. Tanto como eu. Os dois com 39 de comprimento nos dois pés. Os nossos ombros não se tocam e eu tenho de inclinar a cabeça em sentido ascendente para naufragar nos seus lagos verdes. Quer dizer, agora não tenho como afundar-me, dado que neste momento ele se encontra em parte incerta.
A última vez que nos comunicámos – há quase uma semana – estava ele a recuperar de outro corte no pé... viajava à boleia de Santiago para a Terra do Fogo: pronto para embarcar para a Antártida!
O corte no seu delicado pé. A sua curva é tal, que fico na dúvida se pousará totalmente as suas extremidades inferiores no solo. Por oposição, os meus pés padecem do que algum iluminado denominou de pé chato. Prefiro o termo pé raso. Assim sendo, os meus pés sentem o chão em toda a sua superfície plantar: deve ser por solidariedade ao arco hiperbólico dos pés do meu namorado.
O golpe. O sangue. A dor lancinante que o trespassou e o motivou a telefonar-me. Uma voz agonizante: pensei que estaria a morrer. No entanto, acredito que não tenha vertido uma lágrima sequer. Aprendeu desde tenra idade que o choro é para meninas: sua expressão. “Estás a chorar porquê? Magoaste-te? És um menino ou és um homem?” – palavras agrestes do seu pai, cada vez que os seus lábios tremelicavam. Não tinha tempo para alcançar o beicinho – pobre rapaz! Já eu, sempre que pressinto o saco lacrimal a activar-se, revelo-me em minutos – se tanto. Para quê estancar esse líquido interior, orgânico, quente e até salgado. A que sabem as lágrimas?
Prefiro então as palavras irónicas que a minha mãe atirava sempre que eu batia o pé – eu era desse estilo: “Chora, chora para aí. Quanto mais choras, menos mijas!” Leitora ou leitor, bem sei que este vocábulo não chega a ter tal estatuto e poderás até sentir que é pouco consentâneo com o que esperavas de mim e da autora. Porém, concordarás que as expressões popularuchas roçam frequentemente a má educação. Não chega a ser má educação: é apenas o modo peculiar do dizer popular. Na verdade, podes fazer uma experiência. Lê em voz alta: quanto mais choras, menos urinas; ou então: quanto mais choras, menos xixi fazes; ou ainda: quanto mais choras menos águas vertes. Confirmas. Não teria a mesma sonorização, nem tão-pouco o mesmo alcance.
Voltando ao que aqui me trouxe. O corte no pé do meu namorado. Essoutro que viajou, qual jovem sem rumo. Não vou gastar linhas na descrição do acontecido propriamente dito antes de ele me telefonar naquela noite. Não estava lá. Não sei o que sucedeu. Sei tanto como tu, leitora ou leitor. Aquele seu hábito de se pavonear pela casa tal qual veio ao mundo não é de comentar: tão-somente por fazer parte da mesma liga: a de me sentir livre quando na minha casa. A diferença entre nós, é que eu vivo no nono andar. Os meus vizinhos da frente, os mesmos – ou mesmas – não me abarcam nos seus desvarios de coscuvilhice.
Leste bem. Os vizinhos ou vizinhas, melhor dizendo, são coincidentes. Vivemos no mesmo prédio. Neste momento, é quase certo, leitor ou leitora, que se estivesses ao meu lado me perguntarias a razão de ser de tal opção e porque é que não juntamos os trapinhos – afinal é mesmo disso que se trata – e não pagamos apenas uma renda. Por inúmeros motivos. Entre os quais a possibilidade de podermos dormir sozinhos nas nossas camas gigantes e de nos deitarmos à hora que ambos bem entendermos.
Eu, por exemplo, gosto de ver televisão até tarde. Gosto dos programas sobre a vida selvagem. Não obstante estarem cada vez menos interessantes. A selvajaria é cada vez mais a dos exploradores que passam a vida em frente à câmara. Dá ideia de que se terão esquecido dos animais. Ou então, tentam ser mais um elemento da selva.
O meu namorado às vezes é muito aborrecido. Para não dizer chato como os meus pés. Prefere deitar-se com as galinhas. Também gosta de se deitar com as mesmas aves. Só não percebo porque é não arrenda um galinheiro! Não só diminuiria substancialmente a renda, como não necessitaria de despertador. Além disso, teria companhia todas as noites!
Para terminar a senda do corte no pé. Quando desci os seis andares que nos separam sempre que não nos apetece partilhar tudo, deparei-me com ele agarrado ao pé. Doía-lhe. Não duvido. Mas nem sei como dizer isto sem ser irónica, sarcástica, maldizente e até mesmo mordaz. O pé tinha uma pequena laceração no calcanhar. No calcanhar! Aquela parte que nem sempre a pedra-pomes resolve. As mulheres saberão bem ao que me reporto. Enfim. Lavei com soro fisiológico e passados dois dias não havia vestígios.
Lá o ajudei a apanhar os cacos do jarrão. O rapaz estava inoperante e era necessário respeitar a sua dor. Fiquei com ele nessa noite. Antes de adormecer contou-me que conhecera um chileno na véspera: o Martin. Fiquei curiosa...

Um corte no pé VI




Antes de prosseguir é devido, imperioso, fundamental um esclarecimento. Neste momento, leitor@, quem lês é a Margarida: a namorada do homem, rapaz, pessoa do sexo masculino que esteve aqui nas cinco vezes anteriores. Acontece que eu também quero ser lida e já é tempo da minha ‘voz’ se fazer ‘ouvida’. Chama-lhe presunção, necessidade de ser ‘vista’, o que melhor entenderes, para assim nos entendermos melhor.
As ambulâncias não páram as suas sirenes incessantes. Estou habituada. A minha casa é próxima do hospital central da cidade. Cada vez que escuto uma, agradeço o facto de estar viva e de boa saúde. Podes imaginar, leitor@, o número de vezes que o faço ao longo do dia e da noite também. Particularmente quando os dias passam inteiros por mim sem que eu sinta o calor exterior; no caso dos meses anteriores a chuva fria, ela própria. Hoje, felizmente, é o sol no seu ocaso dourado que me encadeia o olhar. Encandeia mas não fere. Sou daquelas que aprecia olhá-lo de frente, mesmo que me digam que posso ficar cega! Será mesmo verdade?
Apareço-te, então, leitor@. Perguntas porquê; consigo vislumbrar um som distante da tua voz mais ou menos rouca, mais ou menos sensual, mais ou menos fanhosa. A minha é assim que está neste momento. Constipada, muito ranhosa, desde há pelo menos sete dias e sete noites. Deve ser pela ausência do meu namorado. Resolveu ir para o Chile. Sem mais nem porquê. E tu leitor@, também te parece que foi uma atitude descabida? É que tu, leitor@, não sabes um pormenor.
Dias antes de ele se decidir a ir para o outro lado do Atlântico, pediu-me em casamento! É verdade. É verdade também que tínhamos bebido um pouco. Vá, um pouco se calhar é redutor. Uma garrafa de vodka e algum sumo de limão à mistura. Não nos ficámos por aqui. Uma amiga nossa muito louca – é o melhor adjectivo, acredita, leitor@ – esteve na Tailândia e trouxe-nos, como recuerdo, balões para fazer rir. Apesar da longa distância percorrida até casa, os balões ainda vinham cheios de um hélio que era muito mais que hélio. Claro que neste momento estás a duvidar do que eu te digo. Dou-te mais um pormenor: a minha amiga muito louca – vou manter o atributo para que saibas a quem me reporto – decidiu fazer a viagem de volta por terra: comboios, autocarros, boleias... Às tantas terás razão na dúvida que te assalta como a mim também, e ela terá adquirido mais balões pelo caminho.
De qualquer modo, como te dizia, o meu namorado, ao fim de uma garrafa de vodka e dois balões que fazem rir – eu acompanhei – fez-me um pedido cerimonioso: “querida Margarida, és a mulher da minha vida! Quero passar o resto dos meus dias contigo: casas comigo?!” O meu rosto ébrio terá mudado de forma diversas vezes. Era o primeiro pedido de casamento que escutava. Tendo em conta que nenhum de nós estava sozinho em si, pensei que a resposta também não seria apenas minha: adiei delicadamente para o dia seguinte, quando a ressaca se curasse.
Ressacados, estremunhados, esquecidos das horas antecedentes: assim despertámos na tarde seguinte. As nossas caras estavam um pouco diferentes e os corações transmudados, pelo álcool ingerido e ainda em processo de destilação. As mãos tocavam-se amorosamente. Era o que a minha pele me sugeria. Arrepiada. Em pele de galinha. Não percebia aquela sensação: até que olhei em redor pelo quarto – também em recuperação pelo torpor noctívago – e era o frio que se instalara pela janela que ficara entreaberta!
O meu namorado também se ressentia e as suas mãos começaram a gelar inadvertidamente, ao ponto dos dedos ficarem todos brancos. Pensámos que poderiam cair, como acontece aos alpinistas que chegam ao Evereste: só podíamos estar sob o efeito das substâncias tomadas na véspera.
Fomos tomar banho. Não é necessário dar-te muitos pormenores do que se passou debaixo da água quente, leitor@. As cabeças ainda pesavam sobremaneira. Nada a relatar, portanto – em relação ao que esperavas ler. Ainda assim, talvez seja melhor dar mais um esclarecimento: sou uma pessoa muito reservada, a roçar o pudico. Como tal, mesmo que nos estivéssemos enrolado e afogado na banheira não estaria aqui a fazer esse tipo de revelações. Além disso, não sei a tua idade, nem tão-pouco os padrões de conduta por que te reges: não quero ofender os teus olhos com cenas mais ou menos lascivas – se as houvesse, reforço.
Isso seria mais tarde. Nessa mais tarde de um Domingo qualquer chuvoso – houve muitos em Janeiro –, não sucedeu o que eu esperava. O melhor é mesmo não esperar nada: evita-se o desapontamento e o que quer que aconteça é bem-vindo. O que não ocorreu – também tu, leitor@, quererás saber se o pedido foi renovado. É que o meu querido, amado, adorado namorado ficou momentaneamente amnésico. O que dá sempre jeito, refira-se. Dois dias depois estava a fazer uma mochila e abalava para Santiago do Chile. Não acho isto nada normal!

Corte no pé V




Cortei-me no pé! Outra vez. É verdade! Quase verdade. Uma meia verdade. Também poderá ser apenas uma meia mentira. Como preferes o teu copo leitor@: meio cheio, ou meio vazio? “Depende do que escreves”, dirás leitor@; “depende do que bebo”, acrescentas ainda. Concordo contigo. A perspectiva altera quase sempre o modo como percepcionamos a realidade.
Um dia destes apercebi-me disso de uma forma muito concreta. Fui andar de bike com o meu amigo Martin. Já te disse leitor@ que estive com ele aqui em Santiago do Chile: convidou-me para ficar uns dias em sua casa e para o acompanhar numa série de coisas, entre as quais conhecer o Parque Auracano sobre duas rodas.
E fomos então de BMX para o parque. O meu amigo Martin é rapaz muito afoito, irreverente, audaz, destemido e outros atributos do género também o vestem. Deve ser da idade: ainda não tem trinta anos. O meu discurso, a ti leitor@, quase te soa a bota-elástico. Calma, como te disse, a perspectiva com que a realidade nos entra pelos olhos depende sempre do nosso ângulo posicional. A minha idade... pois ainda não tens essa informação. Será este o momento para ta revelar? Hum... pelo que já leste, leitor@, estou certo que terás um palpite... deixo para mais tarde.
O meu amigo Martin: além de ter duas bmx, é skatista, surfista e snowborder. É verdade, desta vez sem ser só pela metade. Pelo menos do que vou conhecendo dele.
Fomos para o Parque Auracano. Um parque urbano na cidade de Santiago. Até aqui tudo bem, não fosse o caso de ter chovido copiosamente nos dias anteriores. A temperatura é excelente, para mim claro: sempre acima dos 25ºC; mas houve uma pequena lembradura por parte de São Pedro (para quem acreditar nesse santo, claro). A chuva tem algumas consequências num parque, nomeadamente no piso... transforma-se em lama! Verbos como chafurdar, atascar, atolar aplicam-se como luvas neste passeio. Essa foi a razão porque numa das descidas muito loucas ia dando um belo trambolhão.
O meu vocabulário de chileno vai-se enriquecendo de dia para dia. Sinto-te atent@ e fazes um reparo: “é espanhol!” Não foi por lapso, nem tão-pouco provocação. Decorre da mesma diferença entre o nosso português e o português brasileiro. Sobre isso não me alongo. Já terás percebido leitor@, que prefiro o português sem muitos acordos. Geralmente o desacordo traz novas discussões, quiçá novas formas de perspectivar a realidade. Neste caso a que me aconteceu. Tem calma leitor@, não me esqueci do corte no pé, nem do copo mais ou menos cheio, ou mais ou menos vazio.
Antes de começarmos uma das descidas mais perigosas - não estou a exagerar. No topo li uma placa com este aviso: “Bajada muy peligrosa”. Nesse momento passou-me uma vertigem pela frente: ‘estou mesmo aqui?’ Estava! Não foi necessário beliscar-me – não havia tempo para essa lamechice de pouco homem. Quando se pedala, pedala-se e pouco mais – eventualmente também se fará uma ou outra pausa para desfrutar da paisagem: neste caso repleta de muitos outros sobre outras rodas, como os skates.
O meu amigo Martin só queria ser o primeiro a chegar – esqueci-me de te dizer, leitor@, que éramos mais de dez ganapos sobre rodas. Isso tem várias implicações; desde logo se se vai atrás de um deles. Sendo a lama e as poças de água o cenário rasteiro, podes visualizar a quantidade de salpicos que alcançaram os meus olhos, as minhas orelhas e também a barba – uso uma barba rala; aquela que dizem ser a de três dias. A minha já tinha pelo menos cinco. Espelhos não havia pela casa do meu anfitrião... de maneira que só me restava confiar que o meu rosto estivesse minimamente aceitável.
Como te lembras, leitor@ – pressinto que ainda estejas aí – numa das descidas ‘más peligrosas’, a dúvida existencial desvaneceu-se e subitamente eu não era só eu. Éra-me mais o garoto que em mim mora, mas que me esquecera. E então, icei o rabo para trás e para cima, relaxei os braços, segurei bem o volante e deixei-me ir pela encosta abaixo. Era uma inclinação superior a 30%. Foi já no final da descida que as poças de água me travaram e conheci de perto o cheiro do chão. Não foi apenas o nariz que teve as melhores condições para o seu sentido primeiro. Também o tacto teve oportunidade de se expandir: agarrei-me a uma cerca de arame para não voar de dez metros de altura. Foi então que bradei pelo meu amigo: “espérame, Martin!! – o sotaque cantado acompanhou esta chamada – ia dando um tralho” (saiu-me no meu calão, claro...).
“Na próxima vez salta” – eis que também tu, leitor@, deves ter lido o mesmo que eu escutei: saltar. De facto, não tinha de cair: podia saltar. E repentinamente a perspectiva de perigo, medo, receio, sobressalto, alterou-se-me por completo. Eu não voltaria a cair, escolheria antes saltar. E isso muda tudo! Como quase tudo na vida...
Porque saltei na vez seguinte, cortei-me no pé. Quer dizer, não foi bem no pé. Foi no tornozelo. Felizmente por aqui posso andar de calções e as meias são daquelas que só tapam o pé. Os tornozelos nus ficam expostos à vegetação que em mim entrou, lacerando o tornozelo direito. Tu, se fores leitora, prevês que sejam apenas alguns arranhões; se fores leitor, serás muito mais solidário e sentirás que o sangue que se esvaiu foi o suficiente para me fazer vomitar. Claro que esse despejo era resultado de duas horas de pura adrenalina. A minha idade começa a tecer algumas limitações: não muitas: quero saltar, sempre... em vez de cair!


Corte no pé IV


Dança, dança, dança... Podia ser o título de um livro. Podia e é! De Haruki Murakami. Não o meu preferido: Sputnik, meu amor – o primeiro que li. Dizem que não há amor como o primeiro. Deve ser essa a razão. Outros houve. A saga de 1Q84 também gostei muito. O terceiro volume já o li em kindle – durante a viagem para Santiago do Chile! Pois! Já fui... E sabes com quem estive? O Martin – ele mesmo!
Como é que foi isso? Adivinho a tua pergunta. Oh... nem sabes o que aconteceu. Nada de especial. Estava farto do Porto. Em Dezembro começou a chover e Janeiro não estava muito diferente. Pelo que a minha namorada me disse por skype ontem, a previsão não é de melhoria tão cedo. De maneira que aqui me prolongo. Até quando? Ainda não sei. Por ora na capital. Antes disso... tens razão ainda não te disse.
De quando em vez faço experiências pelo skyscanner. Andava nisso desde há uns tempos, confesso. Até que um dia estava nesse devaneio – já te falei sobre essa teoria que está amplamente descrita na literatura académica – e vai daí: um preço bestial: seiscentos euros (só ida!). Comprei de imediato. Embarquei no dia 28 de Janeiro. Estava mortinho por viajar. Nem te sei explicar este impulso que alguém chama de viajante e outro alguém de fugitivo. Revejo-me nos dois.
A minha casa estava um pouco fria. O Inverno... Não é a minha temperatura preferida. A minha namorada Margarida não sorriu muito quando me deixou no aeroporto de Sá Carneiro às seis da manhã. O seu rosto estava fechado e os olhos alagados. Mas não deixou cair nem uma única lágrima. O que me surpreendeu. Volta e meia abre a torneira. A tua namorada também, se és homem? Ou se és mulher, costumas lacrimejar sempre que vais ao cinema? Bem... está visto que a minha namorada não é uma raridade.
De qualquer modo, conteve-se. Abraçou-me. Ou melhor, fui eu que a prendi nos meus braços. Apertei-a tanto que deve ter ficado com o seu peito esmagado – vou dizer assim, mesmo não sendo a expressão que me apeteça empregar. Espero bem não ter estragado a sua fronte. Afinal, é pouco provável que me fique aqui para sempre.
Abraços, beijos e até amanhã. O modo como entrei na secção de controlo. Rapidamente passei esse trâmite de segurança. É uma daquelas coisas que quase me exaspera quando viajo. Só quase: basta que me reposicione e lembre da razão por que ali estou: viajar! Mas também é por pouco tempo. Apenas quando estou a preparar a mochila de mão. O menos possível para ninguém me aborrecer. Nem sempre é fácil passar sem percalços.
Uma vez aconteceu-me estar em escala em Frankfurt e saí da zona de embarque. Muitas horas entre os vôos... Quando quis voltar pensei que perderia a minha ligação. A zona de controlo era encerrada à minha frente por ameaça de bomba! Nem mais nem menos. De maneira que hoje em dia, independentemente do número de horas em escala, prefiro não arriscar. Não arrisco nesta matéria. Noutras há que me sinto muito afoito. Diria mesmo que pouco consciente para o que esperam do meu comportamento, teoricamente adulto. É só teoria... fica para depois – eventualmente.
Não é teoria, nem tão-pouco devaneio o local em que me encontro: Santiago do Chile. Finamente! Nem sei há quanto tempo sonho com isto. Ou talvez tenha uma ideia. Não é assim tão remoto no tempo, esse meu desejo. Quando vim da Índia era para lá que queria seguir: aterrava no Porto em Maio de 2012. Mas a Margarida... Ah... os afectos. Desde então que esse país não mais abandonou as noites sonhadas. Devo-te uma explicação leitor@. Só espero que a minha namorada não leia esta parte.
Na Índia conheci uma chilena. Vivemos uma paixão daquelas que só imaginava nos filmes: e nem todos. Foi só uma semana: o tempo não baliza a relevância de uma experiência. Muito menos essa que vivi com Paz Parada. O seu nome é tudo menos ilustrativo. Partilho contigo um raio do meu arrebatamento: a Paz é tântrica. Nem mais nem menos! E nem mais te digo. Se fosse católico, estaria seguramente a fazer a promessa de ir a Fátima a pé e dar vinte voltas de joelhos no santuário: para que a Margarida não leia isto.
Nessa altura também... estávamos afastados. Não conta! Querida, se me lês, hás-de lembrar-te que com efeito nos aborrecêramos antes de eu embarcar para Mumbai. Além disso, quando regressei contei-te... uma parte. Não havia necessidade de entrar em pormenores. Sabes que te amo sempre. Mas o meu coração é muito vasto. Cabes tu e... não só.
Bom, tens razão leitor@, essa conversa não é para ter em público. E talvez que a anterior também não. Estava a contextualizar-te sobre a razão primeira de iniciar viagem pela América Latina no Chile e não na Venezuela. Mas também não sei se esse seria o melhor local para começar. Num país em que o Natal é quando o presidente quer, pode acontecer tudo.  
Estou então no Chile. Estive com o Martin, e não com a Paz Parada. Quem sabe. Somos amigos, quer dizer, não sei se ser amigo através do livro das faces é sinónimo de amizade. Não a contactei: para resumir. Ainda a ponderar. Apesar de ter sido uma experiência extraordinária. Lembro-me de na época ter compreendido a expressão: já posso morrer! Não morri. Estou vivo. Muito vivo e em Santiago do Chile... há dez dias. Por ora fico por aqui: vou jantar ao Restobar KY.