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Do topo da pirâmide do sol vejo o mundo*


Na Cidade do México, ‘onde a vida é mais pequena’, saí de casa do Marco e de Daniela para a cidade da Civilização Asteca: Tenochtitlán. Uma hora e meia de viagem de metrobus e autocarro. No autocarro, as janelas ‘escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu’. Silenciava o monólogo interior, escutando ‘dreams of a journey’ e sonhava com um império civilizacional.

A incursão pelo ‘Museo Nacional de Antropología’, da Cidade do México, fora apenas um introito, confirmando a ninharia da minha existência. A companhia musical de ‘scent of love’ apagou-se. Importava escutar outras vozes, enquanto os pés pairavam de pavilhão em pavilhão, de sala em sala, de cave em cave. As flores azuis, atrás das montanhas, que falam e falam na ‘Canción del Peyote’, eram um alerta. Havia que atentar ao que os olhos líquidos captavam. Havia que pelo menos tentar absorver alguns grãos da informação infinita sobre séculos de civilizações ancestrais. Acrobatas, serpentes emplumadas, coiotes, jaguares – o que olhos captavam sem apreenderem a chave da vida, ritualizada ao ínfimo pormenor através do culto dos mortos. ‘Eu sou do tamanho do que vejo’. O que via era o mito da criação espelhado na Pedra do Sol. Perguntava-me em que aldeia estava eu, para desse modo poder alcançar ‘quanto da terra se pode ver do Universo...’

As deidades guardadas nas tumbas, os deuses do sol e da lua venerados com rituais descritos e explicados através dos relatos mitológicos, eram janelas para um mundo onírico. Um mundo mágico, mitológico, povoado de xamãs – os mediadores entre os seres terrestres e os seres sobrenaturais. Através das suas poções, tabacos e algumas bebidas mais ou menos alucinogénias, os sacerdotes contactavam com o mundo superior, dando esperança aos terrenos. Uma segurança assegurada pela construção de estátuas, tótemes,  templos... pirâmides. 

No topo das pirâmides do Sol e da Lua... em Tenochtitlán, alguns dias depois. Pelas janelas do autocarro, que ‘escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu’, sentia ‘la folie’ em modo musical - a melodia que narrava o percurso sobre rodas até Tenochtitlan. Um percurso que me conduzia até uma aldeia, que é ‘tão grande como outra terra qualquer’.
Não era uma calçada qualquer, aquela que atravessei. Através da ‘Calzada de los Muertos’ entrava num mundo ainda muito vivo. Habitado de pedras sobre pedras, cujos cálculos e sentidos posicionais me faziam adivinhar que o seu tamanho não seria a sua altura. 

A ‘Plaza de la Luna’, um dos espaços sagrados mais importantes na cidade asteca. Um espaço aberto com um altar, a plataforma das coisas imperfeitas, aquelas sacrificadas para um mundo que se desejava mais perfeito. A imagem da deusa das águas, a companheira do deus das trovoadas, ainda permanece na praça ‘lunar’, como que testemunhando cada turista mais ou menos curioso, mais ou menos distraído, mais ou menos pequeno e pobre. Dependendo do alcance do olhar. O que os meus olhos me davam, ao subir a Pirâmide do Sol era uma riqueza que, depois de capturada, ficou bem guardada num baú, cuja chave, mesmo que perdida, salva está... pela memória ‘que aqui na minha casa no cimo deste outeiro’, me mostra mais uma vez que ‘eu sou do tamanho do que vejo’.
Na Pirâmide del Sol avistei o horizonte infinito e senti o poder da luz; os raios de sol tocavam a minha pele e a escala do meu mundo ampliou-se. Aquietada, sentada numa pedra, na qual muitas vidas se perderam, os cinco sentidos estavam alerta, agarrando a continuidade ininterrupta de um tempo sem tempo. O impulso criador, aquele que o sexto sentido, inexplicável, inefável tentava apreender na imobilidade inerte de quem testemunha a origem de todas as coisas. O cimo daquela pedra era, num instante eterno, a minha aldeia que me permitia ver o ‘quanto da terra se pode ver o Universo...’

Por isso, mesmo que vida na cidade seja mais pequena, os meus olhos viajam, viajam e sempre me mostram que são eles, também, a minha riqueza... a de ver.

* Intertexto com "Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo…”, de Alberto Caeiro
24 de Maio de 2016
Matosinhos, Portugal

O meu nome é Prince




            A sério? Oh... No dia 11 de Janeiro, David Bowie também se despedia. De géneros completamente distintos, estes dois músicos fizeram e continuam a fazer parte da minha playlist.
            Cremosa, a voz de Prince, foi com uma chuva de púrpura que muitas vezes as lágrimas caíram e ainda ameaçam saltar cada vez que escuto, como neste momento, essa canção, que me toca para além do sentido da audição. A minha modesta homenagem a este cantor, cuja altura demonstra que os homens não se medem aos palmos. E Prince era e será sempre uma referência musical, disso não tenho dúvidas, para aqueles que, como eu, se deixavam abraçar simulando uma dança ao som das suas músicas mais lentas, como Purple Rain.
            Purple Rain, Purple Rain, Purple Rain – eu e a P, a pedirmos na primeira linha do público no seu primeiro concerto em Portugal, no grande estádio de Alvalade. Foi em 1993.
Esse era o segundo concerto em quinze dias, nesse mesmo estádio – uma verdadeira catedral, ah, ah. O primeiro foi a 1 de Agosto – Sting, o cantor que nos mereceu e merece igualmente grande admiração. Outro género. Gostos eclécticos, alguém criticava. E?
            Para o concerto de Sting não fomos preparadas. Ficámos nas bancadas. Tão longe! Tão longe e quando o britânico tirou a camisola eu e a P, histéricas, pedimos ao vizinho os binóculos: “por favor, só um bocadinho, para vermos melhor o six pack”. Não sei se era o caso, mas não há milagres e claro que rapidamente tivemos de devolver as lentes e cingirmo-nos a escutar. O que já de si era extraordinário. Em particular quando tocou e cantou ‘Fragile’.
            Este tema é, na realidade, o ponto de partida para a amizade que começou com uma animosidade palpável. Eu e a P conhecemo-nos meses antes de ficarmos na turma A do primeiro ano da faculdade. Como somos as duas Ana, ficámos no mesmo grupo aquando dos pré-requisitos para entrar na então FCDEF. Esses testes físicos que contavam 50% para a média de entrada, incluíam uma série de esquemas na Ginástica, entre os quais um esquema de corda no tapete. Ambas escolhemos a versão instrumental ‘Fragile’ para a corda.
            A cassete (sim, cassete) parou a meio da minha prestação – quero crer que não terá sido por qualquer ordem telepática daquela que se seguiria: a P, ela mesma, com ‘Fragile’, essa mesma.
            Esta aversão rapidamente foi substituída no início das aulas. A literatura, o cinema e a música sempre foram fontes de encontro entre as duas. Consequentemente, no final do primeiro ano da faculdade passei uma semana fantástica com P em Lisboa, onde então vivia. No final do segundo ano, convidou-me a passar duas semanas no ‘seu’ monte em Mértola. Antes de descermos para terras alentejanas e nos deliciarmos com os mergulhos na Mina de São Domingos, deixámo-nos enlevar frágil e docemente pela voz do inglês.
            Terminámos essas duas semanas em cheio na então grande catedral – o estádio de Alvalade. Ele há gostos para tudo, é sabido. E, tal como na religião, também no futebol não há discussão. No dia 15 de Agosto tínhamos aprendido a lição e foi com várias horas de antecedência que assentámos arraiais à porta do estádio.
            Quando os portões abriram corremos desvairadas. Objectivo: ficar o mais próximo possível do palco. Objectivo cumprido, não fôssemos nós de desporto: primeira linha do público. Entre nós e o palco apenas a distância de segurança marcada pelas grades. E ali ficámos outras tantas horas à espera. À espera que Prince descesse do seu helicóptero.
            Quem lá estava, certamente se recordará que foi muito bom ver e escutar Prince ao vivo e a cores. Quem lá estava, certamente se recordará que antes da actuação do cantor, levámos com mais de uma hora com a banda que o acompanhava à época: The new power generation.
            A hora que Prince esteve no palco inflamou e encantou com músicas como ‘Kiss’ e ‘When doves cry’ – as minhas preferidas. Com ou sem Sheena Easton, ‘1999’ e ‘U got the look’ juntam-se ao rol das minhas preferências. Tantas e tantas que continuam a tocar naqueles que gostam de Funk e Soul – há quem diga que Prince era o melhor, senão o Rei. Rei ou não, pertencia ao reino dos mortais e partiu hoje.
Não obstante, parece-me que Prince, como todos aqueles que nos são queridos, perduram em nós. A sua centelha flutuará e confio que alguma da sua luminosidade permaneça em mim. Afinal, o que sou hoje também resulta daqueles que passaram por mim e continuam a tocar-me, como é o caso da minha querida amiga P, a quem agradeço profundamente tudo o que temos partilhado ao longo destes 25 anos (!) e que certamente continuaremos a partilhar... Obrigada querida amiga.

21 de Abril, 2016
Matosinhos, Portugal

A flauta pan de Hanuko - Machu Picchu III



Tempo fugaz e fragmentado. Assim voam numa velocidade estonteante as horas, os dias... os anos – quando os sonhos estão presos, não nos atrapa sueños, mas em paredes de betão. Pedras, quantas vezes cinzentas, que não sabem que o sonho* é uma constante da vida bem concreta e que, só por medo, pouco definida.
As sombras silenciosas que as nuvens desenhavam nos cumes pintados de branco ressoavam no meu ser como um novelo infinito de horas lentas e espessas.
Os doze quilómetros de caminhada pela cordilheira andina conduziram-nos ao acampamento já montado. Dois grupos, dois guias. Nico e Edgar organizavam o jantar. Para o nosso grupo, metade das refeições era em modo vegetariano. Até ao momento em que abri este caderno, para traçar as memórias de final de Outubro de 2014, foi a mesa mais vegetariana em que me sentei (aparte dos retiros de meditação e restaurantes do género). Há que dizer que, durante esses dias pelos Andes, comi realmente muito bem – quem diria... numa cozinha improvisada. Os cozinheiros mereciam todos os dias palavras muito elogiosas, concretizadas numa ‘propina’ final à altura.
O ribeiro manso em serenos sobressaltos, sem pinheiros altos, mas com vegetação verde e oiro, agitando-se numa penumbra cada vez mais azulada, anunciava o descanso do guerreiro. Eram sete e meia da noite quando me instalei na tenda com Lúcia. Uma das vegetarianas, mãe de uma jovem brasileira – Melissa – que se fazia acompanhar do namorado australiano.
Oh, que dia! Eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha, nem sempre o mundo pula, nem sempre avança. Pelo menos nas altas montanhas andinas. Muito pouco sonhei nessas noites que partilhei a tenda com a senhora brasileira. A mais velha do grupo e sem ninguém com quem conversar a não ser a filha e eu própria – e mesmo assim mal.
Alguns dias antes, quando em São Paulo, em casa de H. e A., fui informada que, para além dos idiomas que procuro ir melhorando a cada dia, falava mais um. Dizia a empregada do casal que me recebeu: “Oi, Ana, você fala muito bem português!” – Claro, sou portuguesa! – respondi... Nessa época já me rendera ao inevitável; no país irmão, o meu falar era lento e com o máximo de sotaque e recorrendo ao uso dos pronomes pessoais e reflexos no modo ‘brasileiro’. Por isso, Lúcia tinha em mim alguém com quem conversar e alguém que a escutava... oh, como a escutava, em particular durante a noite, quando o seu respirar nada tinha de musical; pelo contrário, ultrapassava o razoável...
A música foi magistral ao segundo dia. A tela, a cor e o pincel da paisagem mágica do dia seguinte – uma bebedeira sob o azul celeste, em contraponto com a sinfonia verde e a água a cantar.
‘Kokoro’ – o coração da natureza estava na música que uma das caminhantes do grupo, Hanuku, soprava pela sua flauta pan. ‘En’ – a energia que eu sentia na melodia que roçava em cada poro da minha pele, no vale que a japonesa nos presenteou, como uma passarola pára-raio, locomotiva, desembarque em foguetão na superfície lunar.
A hora ainda não era de luar, mas de contemplação das regiões que desejava desérticas no meu coração. Talvez assim criasse espaço para as notas douradas que, num compasso de dança colombina e arlequim, me encantavam como uma bola colorida.

Ah... eles não sabem, nem sonham que, nas pedras em que me sentava, todos os meus sentidos convergiam para a brisa de uma flauta pan que tocava no centro do universo – a cordilheira dos Andes. Naquele momento nada mais existia. Só muito mais tarde me lembrava que caminhava lenta e serenamente em direcção a Machu Picchu.



Janeiro, 2016
Matosinhos, Portugal

* Intertexto com ‘Pedra Filosofal’, de António Gedeão

Um pneu furado... escutando Keith Jarrett



Clica para ouvir : http://www.youtube.com/watch?v=1FqH9mtxJnQ


Um pianista desabrido. Um pneu furado. A vida às vezes prega partidas. É uma brincalhona. O pianista de negro à frente do seu piano branco. As teclas quase marteladas em delicadeza sentida. Um carro parado com a roda congelada. Uma vida serpentina e às vezes enigmaticamente labiríntica.
As notas sucedem-se sem pausas. Os dedos sempre atentos à leitura da pauta quase desnecessária. O macaco fundamental para que o pneu seja trocado numa estrada deserta, sob o céu em lusco-fusco. É quase noite. O rádio sempre a tocar. O pianista não pára! Umas vezes mais veloz, umas vezes menos rápido. Sempre num ritmo que se paira entre o estonteante e o agitado. O pneu tem de ser mudado. O porta-bagagens tem um sobresselente. Antes disso é imperioso colocar o sinal de perigo. Vá se lá saber se a vida está com mais ou menos humor, mais ou menos negro.
O jovem isolado numa via sem movimento é que não sabe se por ventura vem de lá, sabe-se lá de onde, um qualquer condutor mais ou menos desvairado e emaranhado em congeminações. Não é de arriscar. Antes de arregaçar as mangas para a substituição, o rapaz em vestes negras enverga o colete em florescência para se fazer notado, no caso de vir alguém distraidamente com pressa.
O pianista continua o seu périplo musical acompanhando os pensamentos do jovem atarefado em questionamentos de última hora. Mas não vale a pena gastar muito tempo nesse trabalho intelectual. O manual é o requerido para o momento numa via pouco iluminada e sem vida humana à vista. Os animais nocturnos estão já à espreita. O condutor em azar pressente esse odor animalesco que o cerca com tanta ou mais rapidez que as teclas no interior da viatura que não se aquietam. É de propósito. A música a solo de um instrumento imponente proporciona a banda sonora ideal a quem está só, numa estrada sem vivalma ladeada por pinhais cada vez menos visíveis. O que se começa a perceber são uns olhos curiosos a aproximarem-se da berma. Quem sabe a companhia perfeita de quem tem mesmo de se apressar se não quer chegar ainda mais atrasado para o primeiro encontro, ainda por cima em casa dela.
Dela quem?
O pneu está mesmo furado! “Bolas!”, o queixume silencioso de quem não tem a quem se queixar e muito menos quem o ajude no meio do nada. As mãos sempre muito tratadas, tal qual as de um pianista. Não as do que escuta no rádio num concerto em Colónia. As suas, mil e umas vezes lavadas por dia. Perde a conta à quantidade de água que as suas extremidades conhecem, a fim de não conhecerem as impurezas que a vida providencia. Impurezas da vida. Desta vez é muito mais que isso. Não só as mãos vão ficar que nem esterco oleado, como ainda serão forçadas a um esforço que pensava improvável. Hoje, em particular. Afinal de contas é o seu primeiro encontro. Ainda por cima, em casa dela!
Dela quem?
O melhor é não pensar nas travessuras da vida, neste caso do prego impecavelmente posicionado para o crime perfeito. Um furo no pneu da frente no carro de alta cilindrada. Acabadinho de comprar. Preto, lustroso, macio. Assim estavam as suas mãos, aparte da coloração, apenas a roupa no mesmo estilo. Apenas o exterior. O interior vinha em exultação estimulada pelas teclas imparáveis no mesmo ritmo do coração em tumulto apaixonado. Apaixonado desde que preciso momento? O jovem que se prepara psicologicamente para a mudança do pneu transporta-se para esse primeiro ápice, quando os seus olhos se pararam nos dela.
Dela quem?
Não há muito a preparar sob o ponto de vista psicológico. Apenas e só pegar no macaco para elevar o carro. Parece fácil, lamentou-se uma vez uma amiga em apuros que lhe telefonou desesperada porque não encontrava o material necessário para essa empreitada. É fácil, a resposta peremptória. Hoje, nada parece ser assim tão simples. Nada disto lhe apetecia – como é óbvio. Mas quem é que quer chegar atrasado ao primeiro encontro, quando a cabeça está ocupada com tudo menos com a racionalidade, quando o coração estava quase no seu ponto de estrada... ah, ah, pensa o jovem recentemente apaixonado enquanto encaixa o macaco no sítio certo do carro numa estrada pouco acertada. O carro... novinho em folha. “Caramba, mas porquê?” As queixas à vida que o retém num caminho que mais parece o cenário de um filme que podia ser de terror. O céu cada vez mais escuro, sem a lua que está quase a ser nova e as estrelas... essas, pouco visíveis. Vê melhor alguns olhos que quer confiar amigáveis. A vida não pode ser assim tão arisca com ele. Já lhe bastou o susto provocado pelo estrondo vindo do nada. Logo hoje! Hoje que tem o seu primeiro jantar a dois em casa dela.
Dela quem?
Por ora, ela não é a principal ocupante dos devaneios. Desviou-se do sorriso aberto e timidamente sedutor que o encantou. Não é o momento para se voltar a perder nesse instante que se tornou decisivo. Decisivo é desapertar as porcas do pneu. Porcas ficam as mãos e porca está a ser a vida. Porcaria de prego na porcaria de estrada sem iluminação decente. Decência, decente... assim queria que a sua figura se apresentasse ao tocar à porta dela.
Dela quem?
Aquela que aceitou o seu convite para um café depois de dias a fio em palavras expressas pelo silêncio revelador de olhares continuamente à procura de serem correspondidos. A correspondência sempre em sincronia por um sorriso tão vasto, quanto tímido. Assim lhe parecia – ao jovem que agora não pode estar com essas lamechices de apaixonado. Tem mesmo é de desaparafusar as porcas. E de novo se concentra na tarefa.
Enquanto se foca no pneu não se perde na estrada perdida sem almas perdidas para o acompanharem nesta missão. Nem o brilho do carro em estreia lhe abrilhanta o semblante. “Já está!”. Primeira parte concluída. O pneu furado no chão. Coloca-o debaixo do automóvel, não vá o macaco macaquear e pregar-lhe uma partida com tão ou pior gosto que a vida. Ai a vida... Uma brincalhona. Olha para as mãos... porcas. O que vale é que apesar de novo, é um homem precavido e os toalhetes de bebé estão no porta-luvas. Lembrou-se disso em boa-hora. Em boa-hora é que não foi este prego aparecer nesta estrada de silêncio apenas quebrado pelo pianista que continua a tocar sem descanso. Mais parece que sabe a ansiedade em que se encontra um homem novo em plena preparação para um primeiro encontro. Esta parte da preparação estava fora dos planos. Um furo no pneu. Que interessa agora o que pensa o compositor americano... Encaixa o pneu sobresselente. Aperta as porcas. As porcas, as mãos... espera que os toalhetes sejam suficientemente poderosos para tocar a campainha sem vestígios deste malfadado imprevisto. Logo hoje, a primeira vez que se verá a observar os movimentos da mulher tão jovem quanto ele, na intimidade. Sempre lhe pareceram graciosos no local para onde se tem deslocado todas as tardes. Em parte por ela.
Ela quem?
Calma, está quase, as palavras interiores para calar o exterior. Esse olhos incandescentes e anónimos de pretensos animais. Que quererão eles; talvez que apenas matar a curiosidade, tal como a dos gatos – confia. Ou então estão ali para lhe dar a luz necessária para mudar o pneu – confia. Talvez que a vida seja somente brincalhona neste momento em que música acelera a cadência por outras mãos agitadas que se fazem escutar pelo movimento frenético. Frenético, assim está o moço aperaltado na fase final da sua inesperada tarefa e que lhe suja veementemente as mãos. Essa parte do corpo que se afundará noutra que o espera. As mãos dela... oh...
Ela quem?
A rapariga loira por quem se enamorou no lugar costumeiro das últimas semanas. Tomou a decisão de sair de casa para estudar para o exame que lhe dará entrada na ordem dos advogados. Escolheu um sítio que há muito conhecia... de nome. A esplanada da praia do Aterro. O sol convidava. Porque não? Sempre é mais agradável que a sua casa obscuramente resguardada dessa luz de Primavera avançada. Pelos vistos ela pensou da mesma maneira, confidenciou quando ultrapassadas as barreiras da timidez. Também aí se dirigia para se afastar não da luz mas das dispersões provocadas pela vozes cansativas do mundo virtual.
O pianista recebe agora os aplausos em Colónia. O pneu aparafusado entretanto. O brilho disperso da sua companhia desconfiada permanece. Ainda bem... Ainda necessário para arrumar o resto da tralha. A vida até que pode ser amiga. A providência que a estrada não lhe proporciona. Na rodovia nem um carro, mais ou menos novo para lhe dizer que o tempo prossegue. Só mesmo os seus movimentos em terminação lhe transmitem os minutos incessantes. Nem olhou para o relógio. Para quê? Isso não alteraria a probabilidade mais do que futuramente comprovada de que chegaria atrasado a casa dela.
Dela quem?
Aquela que aceitou o convite para partilhar a mesa da esplanada. E ali ficaram horas em sussurros. Como foi afinal? Ah, já se lembra. Nesse dia, não muito distante do de hoje. Hoje – quando se transporta finalmente para a concretização de um sonho sonhado três noites. O de estar apenas e somente com ela. Gostará ela de Keith Jarrett? O seu músico preferido que tão estranhamente se junta ao seu instrumento. Às vezes parece um tanto louco. O modo como se levanta para tocar, remexe-se todo, mais parece que em transe. Que interessa isso agora? Os toalhetes, isso. Ainda bem que os tem. Que pensará aquela que se juntou a ele no primeiro dia... da sua vida. As duas tardes seguintes foram em constante partilha de ideias, de toques também. Até que... quis convidá-la para jantar. Não aceitou. Oh... numa reacção rapidamente ultrapassada. Ela estava a acabar um curso de cozinha vegetariana e precisava de experimentar o que queria apresentar na sua prova derradeira. Oh... com outra entoação – muito díspar. A surpresa surpreendente. “Em tua casa?” a pergunta engolida em seco. “Claro que sim...” Na casa dela.
Dela quem?
Nem sabia o que pensar. Essas coisas não se pensam, sentem-se, mas isso já se sabe. E ali estava ele a limpar as mãos o melhor que podia, ao mesmo tempo que o seu olhar estava agora pregado nos outros que o iluminavam. Não saíram dos seus lugares noctívagos. Nem por isso menos resplandecentes e muito úteis. “Obrigado”, escutou-se. Esses animais, que não chegou a ver para além da fulgência, também ouviram e desapareceram tal como assomaram. Sem ruído. Sem ruído continua a estrada que continuará então. Tudo pronto para continuar até à morada escrita num papel ontem ao pôr-do-sol. Ontem... onde já vai esse dia. Hoje. Hoje é o dia que vai a casa dela.
Dela quem?
Essa mulher jovem com quem passou as últimas tardes na esplanada. Eram só os dois que ali estavam, na cápsula que os envolveu e em que mais nada existia. Amor à primeira vista? “Isso não existe”, o seu amigo de infância. Claro que sim, calou. É o que está a viver. Neste momento não tão intensamente... a estrada tem de ser a única coisa a prender a sua atenção se não quer tardar ainda mais. O pé carrega no acelerador. Testa então a pujança apregoada na alta cilindrada que lhe aumenta os impostos. Que importa isso face ao aparato que tem conseguido sempre que estaciona? Todos os olhos de cobiça em cima de si... Não foi por isso que escolheu essa marca. O pai assim o presenteou: “Um bom advogado tem que marcar presença desde o primeiro momento!” Sem muita convicção anuiu, como em tudo na vida até à tarde em que conheceu a mulher que deseja sua. Sua, mas quem é ela?
Ainda não lhe sabe muitas histórias, mas as que o adentraram foram mais que suficientes para se ter a certeza que é ela por quem sempre esperou. Como sabe? Essas coisas não se lhes responde a razão. O seu coração sempre em arritmia desde então lho assegura. Quem diria? Um quase advogado guiado pelo sentimento... Que quererá isto dizer? Que importa isso agora! Tem mesmo é de prestar atenção ao caminho, não vá a vida assustá-lo mais... uma vez...
Não se terminou nesse devaneio. João Cabral acabou de embater ruidosa e catastroficamente numa árvore antes invisível... para si. Conheceu, pouco, e da pior maneira possível. O que não conheceu de todo foi a intimidade da casa de Mariana... Aquela que esperou durante toda a noite pelo amor que também acreditava ser o da sua vida.
O carro em choque continua de rádio ligada a fazer ouvir as teclas sublimemente tocadas. O pianista negramente vestido abrandou estranhamente o ritmo noutro concerto, o que soa agora é o de Molde. Adivinharia o músico que seria a banda sonora de um cenário triste de um amor estranhamente incompleto... nesta vida?