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Fragmentos de viagens... ... as ‘minhas’ Banguecoque’s*





Através de “um caminho imperfeito”**, viajei novamente à Tailândia. De página em página, caminhei lentamente, passo a passo, pela memória da ‘minha’ Tailândia, mais concretamente, pela capital: Banguecoque.
A ‘minha’ Banguecoque é, na verdade, o resultado de três Banguecoque’s. Quantas, quantas as que nela vivi, mesmo que por meia dúzia de dias. Ao revisitar o diário dessa viagem de 2013, encontrei três Banguecoque’s distintas. Ou seria eu que estaria diferente em cada incursão na metrópole asiática?
A ‘minha’ primeira Banguecoque é de tal modo poluída, que sou capaz de me lembrar da sensação de ter o nariz colado a um tubo de escape, de um carro a gasóleo da década de 1990. Banguecoque é incomensurável. Multidões, multidões.
Ao fim de um par de dias a percorrer as ruas pejadas de carros, carros e apinhadas de tuc-tucs, tuc-tucs preenchidos por gente cansada, pouco cheia de si, prometi a mim mesma que jamais viveria em tal cenário. Um quadro com cheiro a alcatrão quente, temperado de combustível queimado, pintado de fumo preto. Ruas cheias de tendas azuis a cobrirem os passeios, construindo um túnel tão longo como uma auto-estrada, escondendo lojas e balcões de contraplacado, repletos de plástico de todas as cores, mais ou menos vivas, mais ou menos esbatidas.
Uma cidade com mais de oito milhões de habitantes. Além da população nacional, existem diversas comunidades estrangeiras, em especial do Japão e da China. Mas também de países vizinhos, como a antiga Birmânia, Laos e Camboja. Os europeus também são inúmeros (eram quase 50 mil em 2011, de acordo com os Censos desse ano).
Esta representatividade é bem visível e confirmável numa das ruas mais turísticas de Banguecoque: Khao San Road – a primeira rua que os meus pés pesados, pela mochila às costas, pisaram, ainda com os joelhos a tremerem de excitação. Aí cheguei de moto-táxi despenteada e esgazeada, com as veias em ebulição, tal era a quantidade de adrenalina que se acumulara durante o trajecto desde o terminal de autocarros.
Regressava de Bang Saphan – um paraíso no Golfo da Tailândia, onde vivi dez dias num bangaló à beira-mar (fica para ‘fragmento’ futuro). Durante a viagem de autocarro, em conversa com outros estrangeiros, fiquei a saber que podia tranquilizar-me quanto ao facto de não ter reservado um quarto na capital. Se fosse directa a Khao San Road era certo e seguro que facilmente encontraria um quarto. Tantas opções, como preços.
Descendo a camioneta, os motoristas de táxis logo se aproximaram: ‘onde vai, onde vai, onde vai?’ – num inglês improvisado sem complemento verbal. Enquanto atiravam o seu preço em bates (bath, a moeda tailandesa), ia caminhando em direcção à paragem de autocarros e declinando as ofertas, na expectativa de conseguir um valor mais interessante. Até que escutei um preço mais baixo e acedi e segui o potencial taxista. Sem dúvida mais económico, mas era, igualmente, uma novidade para mim: um moto-táxi.
Entrei em Banguecoque de scooter. A todo o gás. O motociclista contornava o trânsito, os carros esbaforidos de ar quente e cinzento. A velocidade era o mais rápido possível. Sempre a abrir, a todo o gás. Ultrapassando outras motas, escapando dos carros semi-parados, a todo o gás. Meia hora de emoção, na estreia em Banguecoque, a todo o gás.
Quando saltei da mota, os joelhos tremiam. As narinas fungavam. As mãos juntaram-se para agradecer o caminho percorrido, a todo o gás, até à rua mais internacional que tive a oportunidade de calcorrear.
Devagar, muito devagar. Um tempo lento para fechar a boca, de cada vez que se escancarava em cada olhar para a direita – os insectos na brasa, prontos a serem servidos em espetadas “deliciosas” –; para a esquerda – crepes de nutela a provocarem as salivas mais distraídas –; em frente, quase esbarrando num irlandês com gorro de duende verde. Mais alguns passos, lentos, olhando de novo à direita – um relógio Tag Heuer, same same, but different –, novamente à esquerda, e uma inglesa com um copo de cerveja na mão. Olhando em frente para não ir contra um australiano a cantar ao telemóvel, abraçado a uma ladyboy.
Até que entrei numa guesthouse – Four sons. Sem discutir preços e sem procurar mais, aí fiquei a primeira noite. Sentia-me esgotada pela viagem de sete horas, sentada na camioneta e, ao mesmo tempo, fascinada pelo pouco tempo que flutuara em Banguecoque.
Na ‘minha’ segunda Banguecoque, o “jamais viverei aqui” foi substituído por um “não é assim tão horrível”. Saíra compulsivamente da Tailândia, pela necessidade de renovar o visto de entrada (como entrara via térrea, só pude permanecer quinze dias), e fui a Siem Riep, no Camboja (fica para outro ‘fragmento’ futuro).
No regresso à capital tailandesa aproveitei para tratar da mochila – estava com uma das alças a romper. Procurei, procurei, procurei, entrando em estabelecimento, atrás de estabelecimento, vasculhando nos mercados de rua, até que finalmente encontrei um agulhão e fio para a operação cirúrgica, numa loja de artesãos. Quando ia para pagar, o rapaz de tez pálida e com o corpo todo tapado, apesar do calor e humidade que se faziam sentir, recusou-se a cobrar. O tamanho da agulha era tão grande que era visto como uma arma. Na sua maioria budistas, os tailandeses são as pessoas mais pacíficas que conheci até hoje. O jovem comerciante não podia vender algo que poderia resultar no sofrimento de outro ser vivo. Por conseguinte, paguei apenas, e de forma simbólica, o fio forte e robusto para tratar da minha companheira de viagem. O sorriso que o rapaz vestiu no momento da troca foi uma dádiva.
À saída da loja, o meu rosto iluminado pela generosidade experimentada foi complementado por outro vendedor. Desta feita, com outro tipo de produtos: dentaduras para todos os ‘gostos’ e bocas. A minha surpresa foi reconhecida pelo velho desdentado que me permitiu fotografar a sua caixa de tesouros dentais.

Durante a minha estadia na minha ‘segunda’ Banguecoque entrei em alguns dos inúmeros templos, como o Wat Arun – o Templo do Amanhecer – e o Wat Pho – o maior e mais antigo de Banguecoque, onde jaz o Buda reclinado. Foi no último que entrei, sem que me lembre do nome, que quase me converti ao budismo. Quase... decorria uma cerimónia de iniciação de jovens budistas. Fui inundada pela bondade que exalava de todas aquelas pessoas, em especial do monge mais velho, cujo olhar incandescente, transbordava uma tranquilidade inominável.

Viajei para o Vietname pelo mesmo motivo da saída anterior (também terá de ficar para outro ‘fragmento’ futuro) – tinha (!) que regressar ao país. A ‘minha’ terceira Banguecoque prosseguiu na sua transformação. E o “jamais viverei aqui” e o “não é assim tão horrível” foram substituídos por “era menina para viver neste país extraordinário, e passar uma temporada em Banguecoque”.

Comecei a encarar os milhares de ilhas frescas na cidade poluída quente e húmida, como possibilidades interessantes para me instruir acerca do processo de ocidentalização da Tailândia. Em cada esquina há um 7-Eleven – lojas de conveniência, com uma temperatura interior abaixo dos 18 graus! – que se descobrem numa trégua refrescante para qualquer transeunte forçado. A sua oferta é muito diversificada. Desde chocolates como o snikers, que comprava quase todos os dias, às pringles de todos os sabores e mais alguns, iogurtes de frutas para pequenos-almoços improvisados (os meus), até aos cremes de rosto, com factor de protecção 90! – isso existe? –, que as tailandesas adoram, na tentativa de corresponder à imagem mais publicitada nos outdoors: mulheres asiáticas de pele muito branca.
A visita ao parque Lumbini confirmou a minha afeição pela cidade. Um espaço enorme, pintado de verde, pela imensa variedade de árvores e vegetação compacta, muito bem cuidado, onde à época já era proibido fumar. Uma das pessoas que logo me chamou a atenção, pela corrida lenta, mas persistente, foi uma senhora de idade intangível, acompanhada da sua aia, que a protegia com um guarda-sol. Talvez uma princesa, deslizando de chapéu na cabeça, cobrindo ainda mais o rosto coberto por um creme tão pastoso e esbranquiçado que parecia uma máscara.
Os crocodilos e tartarugas gigantes eram outros habitantes do extenso lago, em volta do qual era possível passear e reflectir, acerca de tudo o que me rodeava e me confirmava o desejo de regressar e, assim, ganhar mais umas quantas Banguecoque’s. Depois de fechar o livro que me inspirou nesta redacção, guardei mais uma Banguecoque no meu coração.


*Este texto foi publicado no Jornal O Chapinhiero
**Este texto foi escrito após a leitura de “Um caminho imperfeito”, de José Luís Peixoto.



Let yourself go by the child you once were*




Let yourself go by the child you once were. An advice from the king Dom Duarte, that I read in a José Saramago’s book.
June starts celebrating the World Children’s day.
If I let myself go by the child I once was, and if I surrender myself to the child that still lives within me, I’m sure that I’ll be better prepared to reverence myself to the children that surround me.
            That’s the meaning of the June first. To reminds us that it is fundamental to unconditionally love each little boy and little girl. Be him or her more or less close to us.
If I forget myself... If I forget the adult personality in which I turned to...I'll have the space to offer to the little girl that I still am and that I still want to be. If this happens, I’ll be able to play with the other children. Only then I’ll understand how to provide them the indispensable space they need, and they are entitled to. The space to be and to continue being the children they are as long as they are children.
If the children can still be children, they will be able to keep on dazzling themselves: one of the most beautiful abilities of human existence. Being amazed with a drop of rain, with a fluttering butterfly, with every rainbow, with each ray of sun touching the skin, with each bite of chocolate cake, with every leap into the unknown…
Let yourself go by the child you once were and notice and let yourself be in each moment. Don’t lose yourself with comparisons and assumptions. Only then you’ll not lose yourself in that past that no longer exists. Only this way you’ll not lose yourself in such an unpredictable future.
There’s only one thing that the child who dwells in me aspires: playing here, playing here for just another minute, just one more time, the last one, the last of the last… even if she is crying of sleep. This is just because there’s no child to whom time is understandable. In fact, there’s no child who can catch up this anthropological coordinate. It does not exist. Every single child lives at the present time. Only now exists.
Oh… I wish I could be that child who stayed there… ah… and then I take a deep breath, trying to forget all those grownups that surround me. Instead, I reach for my beloved nephew Rodi. For this three years old child there’s nothing else than this moment. Tomorrow is an enigma that he not even wants to understand. So, we run after the ball and score just one more goal. So, we run and hid behind the coach just once more. And jump the wall just once more.
Even if, from time to time, the memory trips me and shoots an image of a jump that went bad and made me break a tooth, and almost the nose. And again shoots another image of me going bleeding to the hospital. And? I was playing. And I was playing with other boys and girls in the street. And we were running and jumping and hiding and showing up running and jumping. And if I was the last one, I’d run even more and even faster and I’d touch the wall and I’d shout out loud: 1,2, 3 ana saves every one.
Till the moment that moms would notice the stars in the sky and would call those still playing in the street. Fearless of darkness. Fearless of nothing.
Children are born without fear.
Fear starts with the adults. In their fear of losing their children, adults inculcate them their own fears. And that’s when the monsters, policeman and the big bogeyman show up...
            Even today, even under a torrid sky, I must cover my feet while I sleep. Who knows if the beast underneath my bed comes and eats my feet...
Let yourself go by the child you once were and forget about yourself…

PS: To José Saramago’s memory, who died on June 18, 2010


 *To celebrate World Children’s day.

Deixa-te levar pela criança que foste...*



Deixa-te levar pela criança que foste. Um conselho de El-Rei Dom Duarte, citado por José Saramago.
Junho começa com a celebração mundial da Criança.
Se me deixar levar pela criança que fui, e me render à criança que ainda aqui vive, estarei certamente muito mais apta a reverenciar as crianças que me rodeiam.
O dia 1 de Junho é para nos lembrar isso mesmo: é fundamental amar incondicionalmente cada menino e cada menina, seja ele ou ela mais ou menos próximo ou próxima.
Se me esquecer de mim e da personalidade adulta em que me tornei, dou espaço à menina que ainda sou e quero ser. Se tal se concretizar, serei capaz de brincar com as outras crianças e, desse modo, compreender como lhes posso proporcionar, providenciar, conceder, partilhar o espaço e o tempo que necessitam, a que têm direito, que lhes é imprescindível para serem crianças e continuarem a ser crianças enquanto forem crianças. Sem terem de se lembrar como é ser criança.
Se assim for, se assim forem crianças, manterão uma das capacidades mais bonitas da existência: a capacidade de se deslumbrarem em cada instante. Deslumbrando-se com cada gota de chuva, com cada borboleta a esvoaçar, com cada arco-íris, com cada raio de sol a tocar na pele, com cada trinca numa fatia de salame de chocolate, com cada salto no desconhecido...
Deixa-te levar pela criança que foste e repara e deixa-te ficar também em cada momento, sem te perderes com comparações e suposições. Só assim não te perderás num passado que não existe mais, tão-pouco num futuro impossível de prever.
A criança que em mim habita só deseja uma coisa: brincar aqui, só mais um minuto, só mais uma vez, a última, a última das últimas... nem que esteja a chorar baba e ranho de sono. Tão-somente porque em cada criança que conheço, a coordenada do tempo é-lhe difícil de alcançar, diria mesmo impossível. Não existe. Só o presente em que vive.
Ah... quem me dera ser só aquela criança que lá ficou. Ah... mas então inspiro profundamente e procuro esquecer as personalidades adultas que me rodeiam e procuro ser envolvida pelo Rodi (um dos meus amores...). Nos seus três anitos ainda subsiste só este instante. Amanhã é um enigma que nem sequer pretende entender. Por isso corremos atrás da bola e marcamos só mais um golo. Por isso corremos e escondemo-nos atrás do sofá só mais uma vez e saltamos o muro só mais uma vez.
Ainda que, de quando em quando, a memória passe uma rasteira e atire a imagem de um salto que correu um bocadinho mal e me fez partir um dente e quase o nariz e atire outra memória ainda que me levou para o hospital a jorrar sangue. E? Estava a brincar! Estava a brincar na rua com os outros meninos e meninas e saltávamos e corríamos e escondíamo-nos e aparecíamos a correr e a saltar. E se fosse a última corria ainda mais e mais depressa e tocava na parede e gritava alto e feliz: 1,2,3, ana salva todos.
Até que as mães viam as estrelas e chamavam os que ainda andavam na rua. Sem medo do escuro. Sem medo de nada.
As crianças nascem sem medo. O medo começa quando os adultos, com medo de as perderem, lhes inculcam os seus medos. E então aparecem os polícias ou os monstros ou os papões...
Ainda hoje, mesmo debaixo de um céu tórrido, tenho de dormir com os pés tapados. Sei lá se o bicho que está debaixo da cama vem e come os meus pés.
Deixa-te levar pela criança que foste e esquece-te de ti...


PS: À memória de José Saramago, que morreu no dia 18 de Junho de 2010

*Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro



Ode a uma Música!


https://youtu.be/G6Kspj3OO0s?list=RDy_6ak9CYx48

            Escrevo no dia seguinte à morte de Dolores O’Riordan. Para mim, era uma pessoa muito querida. Não que a conhecesse, mas o facto de ter passado uns bons dias na sua cidade natal, Limerick, na Irlanda, faz-me sentir um pouco mais próxima da sua voz encantadora.
Dolores O’Riordan era a vocalista de uma banda de música rock que muito aprecio. E a sua morte emocionou-me profundamente. Por vários motivos. Desde logo pela sua juventude. Dolores, a cantora dos The Cranberries, viveu ‘apenas’ 46 anos. As aspas devem-se às expectativas que a famigerada esperança de vida contemporânea nos cria. Além disso, como me faltam ‘apenas’ dois anos para alcançar aquela idade, as circunstâncias da sua morte aumentam, diria de forma inevitável, a minha apreensão. Morte súbita – causa desconhecida.
Foi num romance de Pascal Mercier – Comboio Nocturno para Lisboa – que certas indagações ganharam forma, no que à morte concerne. Curioso é o facto de estar a escrever enquanto viajo de comboio desde Lisboa.... Dizia eu que certas questões se materializaram em palavras, dado que o autor suíço me ajudou a visualizar e assim a compreender a angústia face à possibilidade de morrer, bem como o receio, digamos assim, da morte de pessoas que me são mais ou menos próximas.
Quando me reporto à proximidade refiro-me em termos abrangentes. Há pessoas que desconheço fisicamente, mas em relação às quais sinto uma espécie de ligação. É o caso de Dolores O’Riordan. Ainda que não tenha tido sequer a oportunidade de assistir a um concerto da sua banda, o choque que a sua partida me causou ainda reverbera no meu ser.
Na verdade, a morte de outros artistas, cantores, intelectuais e outras pessoas publicamente reconhecidas, suscita-me tristeza. Claro que quando se trata de pessoas jovens, mais ou menos famosas, a incerteza quanto ao derradeiro fim, associada ao questionamento do sentido de viver, assalta-me, qual larápio dos homens.
Foi em 2009. Na primeira vez que li a passagem seguinte do referido livro, gastei uma boa quantidade de folhas a especular acerca da vida que projectara. Estaria eu a VIVER? 
 “E assim poderíamos descrever o medo da morte como o medo de podermos não vir a ser aquilo que aspirávamos ser, ou para o qual nos projectámos”.
Desde então que engendrei formas para estar aqui com outra atitude... Nem sempre do melhor modo.
De resto, os CD’s dos The cranberries foram a banda sonora de muitas viagens de carro, onde a voz de Dolores era posta em causa pelo volume da minha própria voz, ou das pessoas que me acompanhavam. Mais da minha. Gosto de partilhar a boa disposição, mesmo sabendo que por vezes posso ser excessiva, nomeadamente ferindo os ouvidos dos meus acompanhantes. Ou bem que se juntam à cantoria, ou têm de ser deveras pacientes e compassivos para comigo.
Voltando à experiência sonora que a esta artista me providenciou, e que muito agradeço, reconheço nela, bem como em todos os músicos e cantores, o poder de tornar certas vivências inesquecíveis e intemporais, nem que sejam ‘apenas’ alguns instantes num local, com alguém mais ou menos especial.
Quem não se lembra de lugares, pessoas ou mesmo experiências ao escutar determinadas canções? É o caso de Linger – é uma das minhas músicas preferidas. Há 25 anos que a escuto; quase sempre com os olhos emudecidos. Há músicas assim. Há vozes assim. E a de Dolores continuará a ecoar no meu coração...

16 de Janeiro, 2018
IC Lisboa-Porto

O voo d’ A borboleta azul

Fotografia de Miguel Gonçalves


A borboleta azul iniciou voo n’A Casa da Boavista. A casa senhorial onde reside o Chiado Café Literário. A casa onde, há quase quinze dias, se realizou o lançamento d’A borboleta Azul. Nenhum livro foi atirado ao ar, como alguns amigos brincaram. Muitas borboletas azuis voaram para outras mãos – quem sabe seguindo a sugestão de Luís Pires: o representante da Chiado Editora.
Durante a sua intervenção, Luís Pires soprou palavras doces e suaves, num tom de voz igualmente macio e sereno. O tempo parou. O tempo voou. Isso sentiu a C, que há pouco me dizia isso mesmo. Luís interveio num pestanejar tão rápido, como intenso. Sugeriu a todas as pessoas presentes que cuidassem dos livros, dando-lhes vida. O livro ganha vida quando é aberto, quando é folheado, quando os olhos percorrem e absorvem as palavras ansiosas por serem lidas e acolhidas.

Na sala Fernando Pessoa, uma das inúmeras divisões mágicas d’A Casa da Boavista, Luís propunha aos muitos amigos presentes que, em vez de colocar este livro, assim como qualquer outro, de imediato numa estante, se lhe desse uma oportunidade para existir. À entrada de casa, por exemplo, ou na mesinha de cabeceira; o caso da C... A C que, por estes dias, tem a companhia nocturna de uma borboleta azul, estando deste modo, receptiva à metamorfose onírica.
Na véspera da sessão de lançamento, Luís deixou-me apreensiva ao lembrar-me do inevitável. Estava prestes a dar asas à borboleta, qual mãe resignada que vê partir os filhos para viverem as suas vidas de forma autónoma. Na perspetiva de Luís, publicar é um acto de coragem. Só então me dava conta que deixaria de ter ‘poder’ sobre aquela borboleta. Enquanto agrilhoada no mundo virtual, tinha capacidade de a mudar ou mesmo eliminar ou ‘deletar’, como dizem os amigos brasileiros. Está livre. Cada palavra, cada linha, cada frase será lida, interpretada sem que eu tenha como dizer: “ah, não era isso que eu queria escrever; ah, que giro, foi isso que entendeste; ah esquece, ah...”
Ah... Nada a fazer a partir de agora. O papel regista e guarda para quem desejar ler o que há muito escrevi, de uma forma mais ou menos pessoal, ficcional; enfim, de forma sentimental – a interpretação da G. A amiga que telefonou a felicitar as histórias publicadas. “Expões-te muito” - acrescentava. Ah, ah. Arrisquei sem estar a pensar se estaria ou não a expor a pessoa que em mim vive as experiências... Mas a vida vai sendo vivida com a mesma intenção consciente... Só quando me entrego, sem medo!, aprendo, apreendo, experiencio cada instante que me é concedido viver.
As rugas de expressão ganharam profundidade através do sorriso que cada pessoa presente estimulava. A gratidão crescia minuto a minuto, envolvendo-me numa cápsula intemporal.
A sessão prosseguiu com o professor José Manuel Constantino, que apresentou com a delicadeza e cuidado, ao mesmo tempo com a graça, boa-disposição e descontracção que lhe reconheço. A escolha perfeita para a lagarta que, libertando-se do casulo, se transforma – neste caso ainda insegura – num livro com asas... azuis. As palavras escritas e pronunciadas, pelo amigo professor, com carinho confirmaram, novamente, como estou tão bem rodeada.

Com efeito, a sala estava cheia de gente linda e muito querida que na mesma medida me fazia sentir querida e linda. Os meus olhos captavam sinais que se repercutiam tumultuosamente pelas veias e artérias. O sorriso, captado na fotografia de Miguel Gonçalves, era a minha reacção. Como não?
Na sala Florbela Espanca, que a Maria Noronha preparara para os autógrafos, os abraços sucediam-se. Agradecia, assim, de forma modesta às pessoas amigas que me presentearam com a sua presença, enquanto bebericavam o Porto de Honra na sala contígua – mais um dos muitos recantos acolhedores, expirando inspiração, d’A Casa da Boavista. Um espaço que me chamou novamente e onde, enquanto degusto um chocolate quente delicioso (com leite de soja, ah, ah), sem pensar nos meses que esta bebida quente se deterá nas coxas, escrevo estas linhas. Era impossível guardar para mim o sentimento de gratidão que me enche, mesmo que, mais uma vez, me exponha... Expondo, talvez, a fragilidade que me sustenta. Afinal, a vida é uma dádiva, que nem na aparência é garantida. Como uma borboleta, é frágil, efémera e voa, voa...
Fotografia de Miguel Gonçalves
2 de Março de 2017
Porto, Portugal

Viagem(ens) à Índia I – Goa





          
           Num meio de um azul sereno, Goa e Pune. Pela noite, pairando ao de leve em Mumbai. As cidades em que estive na Índia. Dias felizes, onde me rendi por duas vezes no mesmo ano. Mas se me perguntam onde quero/tenho de ir, respondo: quero perder-me e conhecer a Índia – um dos países desconhecidos que anseio visitar, um dos países que sinto necessidade de explorar antes que esta vida se esfume. Como se esfumam os dias. Como escorrem as semanas... os meses.
            O tempo é tão abstracto como nos sonhos, onde o azul do mar se esbate até à cor sépia e a minha voz é inaudível, como se no fundo daquele mar em sépia. A loucura dos segundos manifesta-se de forma concreta nos olhos cada vez mais profundos do Gonçalo ou no corpito em crescimento do Rodrigo. Despertam-me. Às vezes distraio-me, flanando de forma inconsciente e esquecendo-me que respirar é uma função fisiológica garantida apenas na aparência. Como só na aparência estive na  Índia. Duas vezes no mesmo ano: 2012.
            Da primeira vez, estive em Goa dez dias a fim de leccionar no colégio D. Bosco. “Goa não é Índia!” – o que escutei quando, exultante, manifestei regozijo por finalmente ir àquele país imenso – para muitos um subcontinente – que exerce um fascínio sobre tanta gente do Ocidente – eu incluída.
Em Fevereiro de 2012 aterrei no aeroporto de Goa com roupa de Inverno. Vivia-se no Porto um dos Invernos mais frios que as minhas mãos alguma vez haviam experimentado. Comichão e ardor constantes: as frieiras ‘atacavam’ as minhas belas e delicadas mãos, transformando-as numa ferida só.
O Frade WF e a directora do colégio esperavam-me com uma coroa de flores digna de reportagem. O que veio a suceder – guardo o jornal em que a notícia foi publicada. De camisola de lã e gola alta, casaco polar e botas de cano alto, a longa e intrincada grinalda de rosas brancas e amarelas foi o toque refinado que envolveu o meu corpo suado – estavam trinta e três graus às sete e meia da manhã –, onde habitavam uns olhos mortiços de quem não é capaz de dormir no avião. Nessa época ainda desconhecia alguns métodos milagrosos... Milagrosa era a temperatura que em três tempos curou as minhas mãos, devolvendo-lhes a finura de ‘pianista’. Só a finura...
Logo no segundo dia em Goa, apresentei uma palestra perante os mais altos dignitários do Desporto de Goa – pelo menos foi o que me disseram. Nova reportagem pelo jornal local. Tenho uma capa de arquivo com todas as notícias que foram publicadas a propósito da minha presença em Goa. Ainda fui entrevistada por um jornalista bilingue, com direito a programa de televisão.
Há que esmiuçar dois pormenores. O bilingue durante a entrevista foi só para ‘inglês ver’. A única pessoa que conheci a falar português foi precisamente aquele jornalista muito activo. Quanto ao segundo detalhe: se as linhas anteriores transparecem presunção, auto-promoção, jactância e outras demonstrações de vaidade, isso deve-se aos instantes de glória que passaram enquanto aquelas palavras foram lidas. Percebi, entretanto, que todos os que são recebidos no Colégio D. Bosco assim são tratados, não sendo eu uma aspirante a estrela de Bollywood. Fiquei mesmo com a impressão que o jornal e a televisão locais eram propriedades daquela instituição, cuja audiência talvez se restringisse à mesma. Não tem importância. Isso não retira a relevância da experiência, tão-pouco a responsabilidade que sentia, muito menos a ansiedade que o meu corpo experimentava. Era a primeira vez que dava aulas em inglês. Se a participação em congressos me providenciara ocasiões para aprimorar as minhas habilidades naquele idioma, estar uma semana em modo inglês era algo totalmente distinto.
Foi ao terceiro dia que esta menina professora quase colapsou por efeito do ‘jet lag’. Digam o que disserem, a diferença horária tem repercussões que, no meu caso, são por demais evidentes. Cinco horas e meia: a diferença horária em relação a Portugal. E a senhora insónia bateu à porta do quarto. E não preguei olho durante toda a noite. E no dia seguinte não percebia patavina do que os indianos me diziam ou perguntavam na aula. Nem sei como consegui dar a aula. “Could you repeat, please?” Não faço ideia de quantas vezes pedi para que repetissem o que diziam, enquanto fazia um esforço para refrear as tonturas que as suas nucas em oscilação contínua me provocavam. Se para mim era um desafio dar aulas em inglês, compreender o ‘inglês’ dos indianos de Goa foi, seguramente, a maior dificuldade daqueles dias. Depois de mais de cento e um “could you repeat, please?”, a aula chegou finalmente ao fim – e o enjoo passou despercebido - quero acreditar que sim. Isso não significava, porém, ficar livre e por minha conta.
Durante os dez dias que estive em Goa, jantei uma vez sozinha – foi na noite da chegada. O pequeno-almoço incluído no hotel foi a única refeição diária que realizei sem companhia. A gentileza, cuidado e simpatia das pessoas que me convidaram não lhes permitia aceitar uma qualquer recusa da minha parte. De maneira que isso me possibilitou conhecer diversas famílias, vários restaurantes e uma diversidade de lugares em Goa e arredores. Bom, arredores, apenas uma vez, mas valeu a pena. Passei um dia num resort; a gerente garantiu-me que as casas de luxo do sítio eram alugadas por pessoas pouco ordinárias, como o senhor Brad Pitt. Com muita pena minha, não era a sua época de férias; às tantas estava a filmar Babel ou A árvore da vida. Esse dia extraordinário, num resort extraordinário, numa praia extraordinária ficou marcado por um escaldão só comparável ao que apanhei este ano no Rio de Janeiro. E pelo mesmo motivo: a febre de querer aproveitar, no caso de Goa, o único dia de praia possível na agenda preenchida (no Rio não foi um, mas três dias de praia... em quase quatro meses). Era possível estrelar um ovo nas minhas costas. Vá, não em toda a superfície... mas quase.
A existência de um sem número de igrejas católicas é apenas um exemplo da influência portuguesa naquela antiga colónia. A religião ao serviço da colonização é bem visível na Old Goa, com especial destaque para Basílica do Bom Jesus, onde a altura do pé direito era de tal ordem que quase fiquei com um torcicolo. As marcas portuguesas estendem-se às ruas da cidade, onde os solares e casarões nos lembram como, em outros tempos, os serviçais mantinham os alpendres, as janelas senhoriais e jardins cuidados e amplos, impecavelmente limpos – marcas indeléveis da cultura portuguesa em terras além-mar.

 Por incrível que pareça não vi gente a dormir nas ruas e os corvos que escutei cingiam-se à praia urbana de Pangim, a duzentos metros do ‘meu’ hotel. Os corvos que crocitavam de modo contínuo não eram adversários à altura das buzinas, buzinões e apitadelas constantes do tráfego automóvel. “Horn me please” – o que li em muitas placas pregadas nas traseiras dos veículos. A legenda que me esclarecia que carregar na buzina é uma das técnicas de condução: uma apitadela para virar à direita, duas apitadelas para virar à esquerda e três apitadelas para lembrar aos demais condutores que não estão sozinhos na estrada: as senhoras vacas têm prioridade sagrada. Estão, pois, a salvo das mesas dos comensais.
Foi na mesa do Frade WF que tive uma excelente ocasião para desfrutar da gastronomia de Pangim.  O Frade WF convidou-me para o seu aniversário em sua casa com toda a sua família. Suei água em bica, bebendo pelo menos três litros de água durante a refeição. Na verdade, a roupa ficava sempre encharcada e não era pelo calor, uma vez que o ar condicionado estava sempre ao rubro. Transpirava qualquer que fosse a comida, qualquer que fosse o lugar. Apaziguava os meus anfitriões afirmando repetidamente que estava bem e servindo-me pelo menos duas vezes. A comida era deliciosa. Quente, picante, flamejante para o meu paladar europeu – mas inigualavelmente saborosa: a gastronomia indiana ficou no meu top três, ascendendo ao lugar cimeiro meses depois, quando regressei à Índia. Beber água era a forma (mesmo que não a mais aconselhável) de acalmar as minhas glândulas gustativas. Prosseguia na degustação de cada novo prato, sem pruridos da vermelhidão do meu rosto.
Sempre que chegava ao hotel confirmava os receios remanescentes dos atentados em Mumbai. A segurança era severa. Antes de entrar no parque do hotel, com portão sempre cerrado, um polícia pedia que se abrisse o capô e a mala, efectuando a respectiva vistoria. Depois de sair do carro e me despedir, abria a carteira e era sujeita a um controlo de metais e afins. O mesmo sucedia em todos os locais públicos fechados. Esse controlo contínuo não obstou a que me deliciasse com as gentes, cores, sabores e odores de Goa – mesmo que não tenha estado na Índia, convivi com indianos maravilhosos.
A par da agenda social e académica cheia, encontrava espaço para vaguear durante algumas horas pelas ruas de Goa. Saía do hotel após uma sesta – sou uma defensora acérrima de uma curta viagem ao mundo onírico depois do almoço; vinte minutos em brasa que me transportam para um qualquer sonho. Para além dos palacetes e casarões de estilo colonial português, o comércio era diverso nas suas configurações e produtos.
Deambulei várias vezes por um mercado, onde os meus sentidos captaram múltiplos estímulos sensoriais, bem distintos do que estava acostumada. Desde logo o odor a especiarias, entre as quais o açafrão amarelo torrado, que se adentrava pelos olhos e pelas narinas. Com esta fragrância peculiar que dá cor a pratos de ‘curry’ muito saborosos, concorriam muitas outras cores e cheiros ainda mais fortes, como o vermelho – a fazer adivinhar algo bem quente. O cor-de-laranja forte e outras matizes estavam em exposição nos balcões de vendas organizados de forma aprumada. Cravo, canela, gengibre e muitas pimentas que se confundiam com um dos aromas predominantes, o cominho. Outras vendas se expunham com tecidos ricamente sedosos e macios. Comprei uma echarpe para a minha mãe e guardo uma outra que a delicada directora do colégio me ofereceu na última aula do colégio, juntamente com outra grinalda colorida e muito olorosa.
Naquele mercado fechado, com corredores exíguos a roçar o claustrofóbico à boa maneira de uma medina marroquina, onde os meus sentidos eram assaltados continuamente, foi muito penoso manter a carteira fechada. Não me foi possível resistir a uma túnica azul, com cornucópias brancas e debruada com fios prateados e vermelhos e a um conjunto de pulseiras a condizer: peças que entretanto voaram aquando do ‘Bazar porque vou Bazar’ (a senda da venda de garagem mais original de Paranhos e arredores fica para outro registo).

As ruas habitadas por lojas coloridas e roulottes de comida picante forneceram sensações extraordinárias, cujas memórias gostaria de reviver, nem que fosse por um breve instante eterno... mas a vida é assim, efémera e há que vivê-la enquanto acontece. Senão, pode dar-se o caso, como às vezes sucede, de me perder nos labirintos do passado, sem que desfrute do presente que me é concedido, por exemplo, na forma de um sorriso.
Estava atenta, porém, quando me sentei no avião para regressar ao Porto e peguei no livro de um autor indiano – um guru da meditação. Um livro em português, que teve o condão de provocar a minha vizinha de viagem: no seu colo um livro do mesmo autor! A brasileira que me abordou regressava a casa após um mês em Pune, no ‘ashram’ daquele guru – Osho. As palavras serenas, ao mesmo tempo cheias de entusiasmo da carioca, ficaram gravadas. Cinco meses depois voltei à Índia, a Pune, àquele mesmo ‘ashram’, onde ‘meditei’ durante um mês. Como tal, não tenho autoridade suficiente para afirmar que conheço a Índia... Terei de voltar...
30 de Outubro de 2016
Matosinhos, Portugal

Poesia em Junho*



            Junho é um mês repleto de poesia. Logo no primeiro dia somos convidados a celebrar a infância. Seja manifestando os afectos às crianças que nos são próximas, seja providenciando a todas, sem excepção, as condições para que cresçam em harmonia, desenvolvendo a totalidade das suas potencialidades. Seja concedendo-lhes o espaço e o tempo para brincarem.
            Brincar – um dos verbos mais bonitos, para mim. Aquele que, seguramente, proporciona mais instantes de felicidade, contentamento e alegria. Em especial quando brincamos com as crianças que nos rodeiam, ou tão-somente, quando permitimos que a criança que em nós habita, também ela, desabroche... brincando.
            Brincar é um termo tão amplo que pode ser usado e abusado em quase todas as circunstâncias. Brincar com as palavras, por exemplo, conferindo-lhes sentidos e significados para lá do óbvio – como na poesia.
            Em “Liberdade” de Fernando Pessoa fica expresso que “o melhor do mundo são as crianças”. Recuperar o futuro, pois “breves são os anos”, “para o fim do futuro!” – inspiro-me no poeta instando que cada um nós recupere o riso das crianças. O riso dobrado, que tanto me estimula a rir.
Rir até às lágrimas, qual emoção quando escutei pela primeira vez o riso dobrado do Gonçalo e do Rodrigo – as ‘minhas’ crianças. Aquelas que me iluminam o olhar e me lembram que “para ser grande, sê inteiro (...) brilha, porque alta vive” [a lua].
            Foi no dia de Santo António, a 13 de Junho de 1888, que Fernando Pessoa nasceu em Lisboa. No mesmo mês, mas séculos antes (a 10 de Junho de 1524), também em Lisboa, nascia outro grande poeta português: Luís Vaz de Camões, “Que num amor que arde sem se ver” me transporta para um “mar de contentamentos”. Celebremos, pois, brincando a poesia que existe em cada criança. Na criança que subsiste em nós, ainda que frequentemente reprimida. Afinal, para que serve a vida se não para ser desfrutada, partilhada e realmente vivida, mais ou menos poeticamente, mas se possível... brincando.
            Este ano, o dia 18 de Junho calha a um Sábado. E calha bem, pois as brincadeiras com as crianças têm mais uma oportunidade de serem vividas e celebradas: é o dia internacional do piquenique. Se fosse dada a apostas, seria certamente uma aposta ganha, ao afirmar que o leitor ou leitora tem boas recordações dos piqueniques da sua infância... e não só. De facto, pelo que conheço das gentes de Nogueira do Cravo, essa é uma prática bem apreciada, sobretudo no Verão, à beira-rio, nas Caldas de São Paulo, só para dar um exemplo.
            E o Verão está mesmo a chegar. Este ano o seu solstício é a 20 de Junho. Nesse dia, mas em 1969, Neil Armstrong cumpria um dos maiores sonhos da humanidade: pisava a Lua. Inspirava, desse modo, mais e mais poetas a cantarem o astro que na noite aquece e envolve os corações.
As noites de Verão ao luar são propícias não só à poesia, mas também à festa, à música. E música não falta para brincar e saltar as fogueiras nas noites de Santo António, São João e São Pedro – o padroeiro que fecha em grande mais um mês... Pois que seja bem vivido e aproveitado e partilhado, para que não fiquemos na angústia de Fernando Pessoa: “A vida nos viveu”...

* Este texto foi publicado no Jornal "O Chapinheiro"