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Fragmentos de viagens...*



... Kuala Lumpur



A minha ignorância é oceânica. Se disso estava segura enquanto estudante, investigadora e leitora, as viagens têm confirmado cruamente o quão limitada sou.
Em 2013, voei em direcção a Melbourne, com a intenção de passar três meses na Austrália. Ao fim de um mês, a chuva era a minha companheira mais fiel, enquanto subia pela costa do Pacífico. De maneira que, ao chegar a Sunshine Coast, decidi retroceder a Gold Coast – onde encontraria o aeroporto internacional mais próximo (onde vivi a minha experiência única de dormir ao relento).
Daí voei para Kuala Lumpur. Foi após a tomada de decisão, e durante as pesquisas acerca dessa cidade, que me apercebi de que a Malásia é vizinha da Tailândia e está à distância de uma ponte de Singapura. Numa ‘Estrada azul’ li isso mesmo, que viajar nos faz entrar na geografia. Voava para uma nova realidade geográfica: a Ásia!
Durante a interrupção de tempo, no ar, que me transportava até Kuala Lumpur, as buscas prosseguiram. Era necessário seleccionar de forma criteriosa os locais a visitar na capital da Malásia.
Um recorte de revista sugeriu-me um local com a classificação de eco-turismo: o parque de aves – Kuala Lumpur Bird Park. A brochura vendia o parque como sendo o maior da Ásia, guardando o conceito distintivo de voo-livre. O que significa que (pelo menos em teoria) os pássaros têm liberdade para voar quando e para onde querem.

A realidade inverosímil transcendeu o cerco da minha ignorância e vagueei durante horas a fio pelas diferentes zonas do parque. Passo a passo, o meu rosto iluminava-se com as cores vivas das inúmeras espécies. Emas, mochos, pavões, papagaios, araras, aves de rapina, flamingos, periquitos, pombos, patos, galinhas da índia e mais uma infindável série de espécies que desconhecia. Asas de todas as cores rasgando o céu em cada abrir e fechar de olhos.


O azul não era a cor predominante de um céu fumado, escapando-se dos edifícios que teimavam em arranhá-lo. Pelos caminhos das horas asiáticas toquei noutra realidade cinzenta, mas brilhante: as Torres Petrona. Um par de torres com 88 andares e 452 metros de altura resplandecente. Característica que lhes confere o sexto lugar na lista dos edifícios mais altos do mundo. Aí habita um paraíso para os amantes das compras e das marcas de luxo.
 
  A sua imponência desafia as leis da gravidade. Exagero. Mas na minha memória inculta não moravam patamares de betão tão elevados. A minha região desértica das alturas ficou ainda mais preenchida quando subi à Torre Menara. A sua exuberância terá sido ofuscada pelas outras gémeas. Não obstante, foi nesta torre com 421 metros que confirmei mais uma vez a minha pequenez.

A vista incrível, que a torre me providenciava em 360 graus, mostrava-me as torres gémeas e o seu séquito de edifícios de luzes acesas a iluminarem o caminho da noite.


Guardei as emoções num bolso e calcorreei os passeios à beira-rio, que me conduziram até Sultan Abdul Samad – o local que abrigou os colonizadores e a respectiva administração britânica até 1957: data que assinala a independência da Malásia, festejada na Praça Merdeka  onde antes se jogara o críquete.
A grandeza daquela obra histórica foi marcada por discussões do foro arquitectónico que deixam os leigos na dúvida quanto ao seu estilo mais ou menos mourisco. A torre do relógio destaca-se pela sua altivez em forma de cúpula, cuja cor do sangue provoca outras quantas indagações acerca da sua edificação.
Sem estugar o passo, errei pelo mercado central de China Town, amplamente referido como sendo de visita obrigatória. A mochila era parca em espaço para quaisquer recordações materiais ou coisa que o valha, mas os olhos mantiveram-se bem abertos, enchendo-se orgulhosamente de memórias coloridas.

O hotel em que me alojei por duas noites, antes de viajar de comboio para Banguecoque, ficava muito próximo de Brickfields. Uma área habitada sobretudo por gente de origem da Índia, tornando-a, por isso, mais conhecida por Little India. As cores vivas, os odores quentes e os sabores picantes são estímulos fáceis para invocar a atmosfera mística daquele quase continente. Na verdade, foi em Kuala Lumpur que me sentei pela primeira vez, ao fim de um mês, num restaurante para me deliciar com uma refeição completa. E indiana!
Há que dizer que na Austrália os preços eram dez vezes mais caros que em Portugal, mas na Malásia os bolsos descontraíram e respiraram com algum fulgor.
Foi na estação de comboios urbanos que me deparei pela primeira vez com a possibilidade de viajar numa carruagem exclusiva para mulheres, onde se visualizavam sinais a proibirem beijos e abraços. O espanto foi de tal ordem – ai quanta, a minha ignorância – que partilhei uma fotografia nas redes sociais. Alguns anos mais tarde, em Nova Deli, agradeci vivamente o facto de ter essa mesma opção.

Apesar do pouco tempo que passei em Kuala Lumpur, foi possível apreciar e ser alvo da generosidade e sorrisos malaios. Os farrapos de conversas desenvolveram-se num inglês titubeante, pintando os meus dias no clima equatorial e ajudando a esquecer a chuva incessante das semanas anteriores.
Voltei a Kuala Lumpur dois meses depois, mas dessa feita fiquei-me pelo ‘não-lugaraeroporto – estava de passagem, transitando entre a Tailândia e o Porto... era tempo de guardar os fragmentos e transformá-los em matéria viva.


*Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro. Infelizmente, o Jornal está suspenso, por tempo indeterminado!

Caminho térreo para a Índia...*

Templo Dourado, Amritsar

Escrevo à beira-rio, a ver os elefantes passarem... Em Chitwan, a cidade de onde regressarei à Índia daqui a uns dias, com intenção de visitar Dharamshala, no Estado Himachal Pradesh. Aí vive Dalai Lama, exilado do seu país, o Tibete, considerado território chinês desde 1950. A invasão da China transformou, adulterou, destruiu uma cultura, um país, em nome da sua "libertação pacífica" face ao império da Índia britânica. Invasão sobre invasão, o Tibete continua a ser um anexo chinês, cujo controlo se repercute muito além da geografia.
 
Cerimónia Kalachacra, Templo Dalai Lama, Dharamshala

Os assuntos geopolíticos não são um assunto fácil. Não obstante, quando se adentra um pouco mais por outras realidades e contextos, as influências sócio-políticas ficam mais evidentes, com implicações e repercussões não apenas sobre os destinos a conhecer, mas sobretudo nas práticas quotidianas das respectivas populações. É difícil ficar indiferente, mesmo que o tema da territorialidade e das fronteiras políticas me intimide. É com demasiada frequência que estas linhas imaginárias que os homens criam resultam em conflitos, na sua maioria armados. Conflitos apenas termináveis para os que perecem durante essas guerras.


Dada a natureza pacífica do povo tibetano, o "acordo" foi assinado, mas uma grande parte das gentes exilou-se no mencionado Estado do norte da Índia Himachal Pradesh. Arrisco, por isso, a atravessar novamente a fronteira de autocarro (o corpo ainda se lembra das quase 40 horas sobre rodas) em direcção a Déli.

Não arrisco ir à ainda mais populosa Calcutá onde, no dia 20 de Maio de 1498, terá chegado Vasco da Gama. O explorador cumpria assim o sonho de D. João II: o de descobrir o caminho marítimo para a Índia. Ainda que o rei português já não fosse vivo para celebrar a descoberta.

As incursões dos portugueses pela Índia, ao longo da História, não se ficaram por aí. Goa é um exemplo de como Portugal terá expandido o seu império à escala global. Invasão atrás de invasão, soberania sobre soberania. É difícil aceitar de braços cruzados a necessidade que certos homens sentem em dominar, controlar, subjugar tantos outros homens.

Recorro novamente à 'nossa' História para ilustrar, de forma pouco colorida, aquele que é, a meu ver, o início de uma das épocas mais negras da vida portuguesa: o estabelecimento da 'santa'(???) inquisição em Portugal. A 23 de Maio de 1536 começava oficialmente a perseguição aos 'hereges'. Mais um pretexto, creio, para alguns aumentarem o seu poder sobre muitos outros.

Corro o risco. Mas pergunto: em nome de deus? qual deus? o do cristianismo? o do islão? o do judaísmo? ou em nome dos milhares do hinduísmo? o do sikhismo ou o do janaísmo? ou em nome das pessoas que terão dado origem ao budismo, confucionismo ou taoísmo?
Serve esta enumeração para realçar a pluralidade e a diversidade, sem com isso pretender fazer sobressair ou apagar qualquer crença religiosa.

Templo Sique, Amritsar


Na génese de (quase) todas está a necessidade humana de dotar sentido à existência. Ao mesmo tempo, podemos entrever em todas elas uma base compassiva, cujos princípios são, afinal, semelhantes e coincidentes entre si na sua essência: os do amor compassivo e incondicional.

O amor infinito que a Natureza nos demonstra a cada instante, providenciando de forma amorosa e incondicional o necessário para todos os seres vivos. Estejam eles atentos. Todavia, quando um homem se põe a pensar, transforma e quantas vezes adultera aquela ideia básica de compaixão. E, sem que se dê conta, surge aqui e ali uma luta de deuses (humanos) pelo poder... em nome de outros deuses. Ah... Como pode ser triste a vitória do deus do islão sobre o deus cristão e vice-versa.

Tristezas, angústias e pessimismo à parte, em alguns países é possível observar a co-existência de diferentes crenças religiosas. O Nepal e a Índia são disso exemplo. A entrada em algumas cidades nepalesas suscita, até, certas dúvidas. É no Nepal que encontramos o hinduísmo como religião oficial, mesmo que em Lumbini existam centenas de templos dedicados a Buda. Não fosse esta a cidade-berço de Siddhartha Gautama Buda. Aqui, os templos construídos e doados por muitos países asiáticos, como a Coreia do Sul, Myanmar, Camboja, Índia, concorrem entre si, em termos de grandiosidade, e com os pequenos templos dedicados a Shiva ou a Krishna ou a outros deuses hindus.
Lumbini, Cidade berço de Buda

Esta convivência cultural estende-se aos níveis mais prosaicos da vida quotidiana. 

Ao ponto de por vezes me perguntar se estou no Nepal ou na Índia. As vestes coloridas das mulheres, os cabelos pintados de quase todas as pessoas com cabelos brancos quantas vezes ficando de cor alaranjada, pela fraca qualidade da tinta , a música, os filmes de Bollywood, a mescla culinária entre o dal bath nepalês e o curry indiano, alguns hábitos como o de mascar paan (uma semente a que se junta nicotina e outras forma de tabaco, enrolado em folhas da árvore bétele) são facilmente visíveis em Chitwan a cidade que dá acesso ao Parque Nacional com o mesmo nome.

No 'parque protegido', (ainda) se podem observar muitos animais selvagens, como o rinoceronte, veados, crocodilos ou elefantes. Quanto a estes, a maioria já não é assim tão selvagem, e o uso e abuso a que estão sujeitos para satisfazer os caprichos turísticos, sugerem muitas outras questões...



Mas as semelhanças entre os dois países, pelo menos nas proximidades fronteiriças, são de tal modo visíveis que se pode perguntar se as guerras a que assistimos fazem sentido... Sobretudo num tempo em que a globalização promove o intercâmbio de culturas, tornando ainda mais difícil encontrar diferenças de substância. Daí que me questione cada vez mais acerca da necessidade de manter as fronteiras territoriais, geopolíticas... Claro que este assunto é sensível, mas fica uma semente para reflectirmos acerca do que queremos para as gerações vindouras...

Ironicamente, a data de 23 de Maio serve para evocar a proclamação da independência a Portugal, em 1179, concedida pelo Papa Alexandre III, através da bula "Manifestis Probatum".

Também nesta data, mas já em 1977, nascia uma pessoa muito especial, por isso, sinto-me compelida a abusar deste espaço para desejar feliz aniversário ao meu querido irmão...

Para terminar e tentando fazê-lo com mais cor, o mês de Maio é, a meu ver, um mês muito propício à contemplação em todo o território 'português'. De norte a sul, as flores oferecem-se aos insectos que espalham, voando, ainda mais cor e possibilidade para germinar muitas outras vidas. Uma celebração constante, iluminada e pintada pelas vozes das aves que cantam, em modo contínuo, para quem quiser escutar.

Depende, pois, de cada um de nós reconhecer e receber a generosidade infinita da Natureza. E depende, sem dúvida de nós, humanos, estar atentos e conscientes para A proteger e preservar. Se quisermos proteger e preservar a vida... Humana. E que seja uma vida mais humana...



*Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

De Varanasi a Katmandu... de autocarro! (Da Índia para o Nepal)


"No seu rosto a vida inteira" - uma expressão que guardei de Owen, quando me chamou a atenção para um homem que víamos da janela... do autocarro.

Owen, um inglês a viajar há cinco meses pela Índia. Alto, magro e de longos cabelos ondulados, Owen chegou à estação de Varanasi com Matheo, um eslovaco de 40 anos a viver desde os 18 anos nos EUA. Conheceram-se em Goa, duas semanas antes, juntando-se na partilha de despesas de alojamento. Um compromisso temporário que sugeria conferir alguma segurança ao inglês. Os seus quase 37 anos de vida (a completar dias depois) concediam-lhe uma enorme vontade de crescer, de se conhecer e de ultrapassar o receio da solidão. Esperou quatro semanas pela ex-namorada, que acabou por não chegar. Seguiu com Matheo, viajante solitário e independente, que terá reconhecido na sua companhia a necessidade de alguma orientação, ao mesmo tempo que lhe providenciaria ajuda nos custos.

A entrada dos dois homens europeus, altos, de tez e cabelos claros, na estação de Varanasi não foi discreta. Sobretudo por serem os únicos estrangeiros, além da portuguesa que escreve. O local para onde atiraram as mochilas fazia adivinhar que teriam o mesmo destino que eu: Sunauli - a cidade fronteiriça com o Nepal.

A pesquisa efectuada anteriormente sugeria ser mais seguro ou, pelo menos, mais confortável recorrer ao comboio como meio de transporte, ainda que em termos práticos me parecesse mais aborrecido. Isso mesmo me confirmou Atul, o guia do hosteLavie, onde fiquei alojada em Varanasi. Além do percurso sobre carris, seria necessário trocar para um autocarro, antes de atravessar a fronteira. Por conseguinte, acabei por seguir o conselho do indiano, apanhando o mesmo autocarro que Owen e Matheo. Fiquei entretanto a saber que o horário de saída não era o melhor para a viagem em causa. Ou antes, o autocarro nocturno teria sido a opção mais conveniente, uma vez que seria directo. Ignorava tal facto, contrariamente aos que se tornaram então os meus companheiros de viagem. Eles, sim, haviam tentado esse mesmo autocarro. Em vão, estava lotado.

Assim, em vez das dez da noite, o horário de saída seria às 19:45h. A partida tardou em meia hora. O tempo necessário para que o autocarro ficasse cheio. Nem um lugar vago. Os três estrangeiros escarrapachados contra a janela do autocarro. É que cada um se havia sentado numa fila de três lugares contíguos, na expectativa de se atravessar ao comprido
Mas a maioria dos passageiros saiu na penúltima paragem. Pelo menos ainda tínhamos quase duas horas até nosso destino para nos estendermos. Quer dizer, Owen não teve a mesma sorte e manteve-se estacado contra o vidro. Não foi, pois, estranho observar os olhos ainda mais encovados de Owen quando finalmente os pés tocaram o chão, ainda indiano.

Apesar de estarmos apenas a 500 metros da fronteira - informação que ignorávamos - fomos 'assaltados', 'atacados', assoberbados por meia dúzia de motoristas de riquexó. A sua insistência era de tal modo agressiva, que quase nos obrigaram a subir para os seus bólides a pedais. Matheo mostrou a sua raça e negou de forma veemente e audível. Até que o caminho se mostrou à nossa frente quando alguns candeeiros iluminaram a estrada principal. A escuridão das seis da manhã ainda era negra. Perguntávamo-nos por que raio o autocarro parara num sítio tão ermo e sem referência. Agradeci a presença dos dois viajantes estrangeiros...


Terá sido esse devaneio que me fez distrair... e tropeçar, e cair, e sem conseguir levantar-me: tinha duas mochilas atreladas ao corpo cansado. Owen estava atento e ajudou-me. Matheo só olhou para trás quando finalmente sacudi o embaraço. Isso aconteceu depois do carimbo de saída da Índia no passaporte e do 'masala chai' que os dois homens beberam para ajudar o caminho até ao outro lado da fronteira.

Já era dia quando entrámos no Nepal. Um sonho a cumprir-se... sem grande entusiasmo. E se pensava que o autocolante com o carimbo do visto adquirido por cem dólares me encheria de alegria, a entrada no autocarro, que nos conduziria até à capital, afogou qualquer esperança de regozijo para as primeiras horas no país dos Himalaias.

O bilhete comprado cinco minutos depois de sair do gabinete fronteiriço nepalês prometia o lugar num autocarro turístico, teoricamente mais confortável que o da noite anterior. Digamos que fomos ligeiramente enganados. Turistas éramos só nós, num transporte cujos lugares de passageiros eram ainda mais exíguos. Talvez pelo facto dos nepaleses serem também mais pequenos. As mochilas foram lançadas para o topo do veículo, onde terão recebido muito do pó reminiscente do terramoto de 2015.

Eram sete da manhã quando nos mandaram - literalmente - sentar em determinados lugares. Não obedecemos. Tínhamos esperança de conseguir estender um pouco as pernas no espaço para duas pessoas, em especial os dois homens. Ao fim de dez minutos estávamos novamente escarrapachados contra as janelas.
Houve paragens consecutivas nas primeiras horas. Gente a entrar, café ou chá aqui, casa de banho ali, combustível acolá, vendedores de fruta, de bolos, de salgados, de bebidas e disto e daquilo....

Numa das paragens aproveitei para comprar fruta. Fiquei surpreendida com a atitude de um miúdo. Pediu-me uma tangerina. Ou melhor, os seus modos eram os de quem exigia que lhe desse uma tangerina. Talvez por isso, não me sentia na melhor das boas vontades. O que é certo é que o miúdo de calças esfarrapadas entrou comigo no autocarro, e não foi embora enquanto eu não lhe dei uma peça de fruta. A minha percepção foi a de que, sendo eu estrangeira, era mais do que minha obrigação dar-lhe qualquer coisa.

É difícil dizer o número de vezes que o autocarro terá parado antes do almoço, cerca das 12:30h. A paragem foi à beira da estrada, onde havia uma série de barracas, com tectos de alumínio e bancos e mesas de madeira, a servirem de lojas, restaurantes e bares. Como nem toda a gente estava pronta para sair antes das 13h, aí ficámos até às quatro da tarde!!!

A estrada fechou nesse período para se trabalhar nas obras em curso. Inacreditável!, para os três estrangeiros. Assim como era, para nós, surpreendente a passividade dos restantes passageiros. Três horas parados, e? A maioria nem saiu, apesar do sol quente a radiar pelas janelas adentro.

Matheo considerou que o melhor modo de passar aquele tempo de espera seria a experimentar o Red Bull local... misturado com vodka. Convidou Owen para o acompanhar, o que para o inglês era um sinal  de alcoolismo. Aceitou o convite. Posteriormente, Matheo juntou um pouco do seu elixir da paciência ao meu sumo de manga. E não é que resultou? Passado pouco tempo eram quatro horas da tarde e nós em movimento. Mas pouco. Com as filas intermináveis após aquela paragem, mais o estado miserável da estrada, mais as obras em curso, descemos do autocarro perto das onze da noite. Eram quase onze e meia quando chegámos à porta do hostel, no bairro Thamel, em Katmandu. Foram necessárias mais de 16 horas para percorrer cerca de 280 quilómetros.

Owen abraçou-me para me consolar quando, estarrecida, escutei o recepcionista do 'Family Peace house' dizer que a minha reserva fora cancelada. A meio da viagem, o que me dava algum alento, paciência e até tranquilidade era saber que me esperava um quarto só para mim, numa zona sossegada. Mas o funcionário tinha um argumento de peso (?) para às nove da noite dar o 'meu' quarto a outros hóspedes. Na minha reserva constava que eu chegaria às cinco.

O desalento foi curto. Como optara pela zona turística da cidade, havia lugar numa guesthouse a menos de cem metros. Agradeci o abraço e a cama.
No dia seguinte era feriado. Holi day em Katmandu para os hindus da cidade. Uma grande maioria. E as ruas encheram-se de cor e de alegria e de gente local e estrangeiros, com tinta na roupa e nos cabelos e no rosto, encharcados com os baldes de água que eram atirados das janelas e varandas.

O cansaço e o pó da estrada apagaram-se com as cores molhadas...






     11/03/2018
Pokhara, Nepal

Um postal de Varanasi


O último pequeno-almoço em Varanasi foi na companhia de Askhay. Estávamos os dois de partida do 'hosteLa vie'. O jovem blogger escreve sobre os conteúdos e respectivos modos de divulgação nos media. Askhay regressaria nesse dia a Mumbai, a sua terra natal, e iniciava a sua primeira refeição: uma omelete, uma banana, duas torradas, acompanhadas de masala chai, o típico chá indiano. Juntei-me a ele. No dia anterior fora ele a tomar a iniciativa. Estava curiosa. Askhay iria ao Templo Kashi Vishwanath. Eu tentara duas vezes, mas as filas intermináveis, com os pés descalços, detiveram-me.

Naqueles dias, vésperas do Holi Festival, a afluência era crescente. Também Askhay desistiu; no dia dedicado a Shiva, os devotos eram ainda mais. Por conseguinte, o jovem indiano 'terá' de voltar à cidade sagrada, para então se banhar no rio Ganges e, assim, alcançar a libertação. A redenção dos seus 'pecados' e 'mau karma' apenas será possível com obtenção da bênção de Shiva, no Templo Dourado - a outra denominação para a casa do deus da destruição: Shiva, ele próprio.

Indestrutível, Askhay (o significado do seu nome) ainda não se sente preparado para atingir o estado superior de purificação, tão-pouco para assistir e participar no festival das cores, a começar dois dias depois. O festival comemora a vitória do bem sobre o mal, ou seja, a vitória de Vishnu sobre Holika.

Ao final dessa última manhã pelas ruas e ruelas da cidade mais importante do hinduísmo, já se sentiam as cores da festa sagrada, não apenas com as crianças e jovens que surgiam pintalgados de roxo, amarelo, verde, vermelho ou laranja, mas também na afluência às cerimónias bi-diárias, na margem citadina, ao longo dos mais de oitenta ghats.

 No primeiro, o Assi Ghat, as práticas têm início às cinco da manhã, com concertos de música clássica, seguidos de ioga e/ou meditação. Ao longo da margem, em especial nos ghats mais importantes e de maior dimensão, como o Dasashwamedh, desde o amanhecer que chegam os devotos para obter a bênção e orientação dos bramas ou gurus, ao mesmo tempo que contribuem com os seus donativos para a vida ascética dos mediadores dos deuses.

Um negócio, diz Atul o guia do hostel que, pertencendo à casta dos bramas, considera que negócio por negócio, prefere trabalhar e ganhar o seu próprio sustento. Também o guia assegura que os banhos no rio são um modo de encontrar um equilíbrio entre as acções do passado e a salvação no futuro. Já no que concerne ao significado de outras crenças, Atul é mais céptico.

Diz Atul que a migração das almas aquando da cremação é um mito. Ainda que existam práticas nesse sentido. Isto é, há quem acredite que se o corpo de uma pessoa recentemente morta for cremado na presença de crianças muito jovens ou mulheres grávidas, há possibilidade de ocorrer a transmigração da sua alma para um novo receptor. Atul negou convictamente, acrescentando que as mulheres estão proibidas de assistir à incineração dos corpos, para não macularem a viagem do morto, uma vez que as lágrimas femininas são impuras.

A cremação acontece em dois ghats, sendo o Manikarnika o maior e principal, onde diariamente se queimam cerca de 250 corpos. Este é, aliás, um dos 'pontos de interesse' durante os passeios de barco que diariamente navegam cheios de turistas e afins ao nascer do sol. Apesar de se alertar para o facto de ser inconveniente fotografar, os cliques dos engenhos concorrem com o crepitar da carne a assar. Não é raro que alguns dos milhares de cães doentes e famintos da cidade aproveitem a oportunidade de obter carne, já que isso não é fácil encontrar entre os restos dos hindus, na sua maioria vegetarianos.

Ao fim da tarde, o rio volta a vibrar.  As cerimónias de agradecimento ao Rio Ganges e à Deusa Ganga, aquela que terá descido do céu para viver no rio, ocorrem todos os dias a partir das seis da tarde. Os monges dançam lenta e meticulosamente com as velas e sinos. Enquanto os ghats são preparados para o ritual, os crentes têm mais uma ocasião para as oferendas aos deuses e ao rio, como sejam flores, arroz e doces.
A natureza sagrada das águas onde o bem destruiu o mal são o motivo pelo qual a maioria dos hindus anseia ir, pelo menos uma vez na vida, a Varanasi e banhar-se no rio para a sua purificação.

Uma prática arrojada para a maioria dos estrangeiros, mas são alguns os que se rendem à atmosfera e mergulham nas águas imundamente sagradas. Impossível saber se estas pessoas terão ido primeiro ao Templo Dourado, mas Askhay, o meu companheiro de pequeno-almoço, garante que só desse modo a libertação acontece.

27 de Fevereiro, de 2018
Varanasi, Índia

Um postal de Déli *



Aterrei em Déli no dia dois de Fevereiro. Ainda estou nesta grande metrópole e, no dia em que escrevo, ainda é uma incógnita o lugar onde estarei neste subcontinente, aquando da leitura deste postal - chamemos-lhe assim.

É possível que as experiências anteriores, em cidades tão ou mais populosas, tão ou mais "caóticas" (para mim), tão ou mais coloridas, tão ou mais intensamente olorosas, com tantos ou maiores contrastes, me tenham 'preparado' para eventuais "choques". As ideias pré-concebidas, as expectativas (ainda) têm alguma influência no modo como dou os primeiros passos no desconhecido.

Foi necessário realizar algum 'trabalho de casa' antes de voar desde o Porto. De qualquer maneira, gostaria de ter a capacidade de me deslumbrar, qual criança sem passado, que se extasia com tudo, num contínuo de novidades.

Dentro das minhas óbvias limitações nessa matéria, procuro estar atenta e deter-me nos lugares sem comparar, sem julgar, sobretudo desfrutando, saboreando, escutando. Ou seja, percepcionando com receptividade o ambiente em que me encontro, que me rodeia, deixando-me envolver.

É com algum esforço, confesso, que aceito o ruído do trânsito (ora aí está uma classificação, e preconceituosa). Mas quando me abstraio dos sons mais fortes e intensos das buzinas a tocar continuamente  faz efectivamente parte das suas regras de condução , estou apta a levantar o olhar, a erguer os ombros e a inspirar profundamente, não apenas para sentir a imensidão dos aromas que se misturam, mas igualmente para apreciar as tonalidades que os envolvem, que lhes dão forma visual.

Iniciei o périplo no Sul de Déli, a pouco mais de cem metros do meu local de alojamento. Perguntei ao gerente do hostel se existia algo interessante nas redondezas. Rufu, o jovem moreno, ainda que de tez pálida, talvez pelos anos vividos fora da Índia, sugeriu-me ir até ao parque dos veados Deer Park. Se é verdade que reservei um quarto fora do centro, sabendo que existiria um parque nas proximidades, há que dizer que, pouco depois de ter entrado, estava agradavelmente surpreendida. O facto de não ter qualquer ideia quanto ao espaço, desencadeou uma série de sensações aprazíveis.

Entrei pelo portão que dava acesso ao campo dos veados, eram dezenas a materializarem o bambi da minha infância. Pacíficos e relaxados, nas suas vestes castanhas pintalgadas de branco, mantinham-se indiferentes aos humanos que os admiravam e guardavam memórias fotográficas.

Prossegui e quase fui atacada por um dos muitos macacos à solta, em busca de comida, saltando sobre alguém para arrepanhar o que tivesse nas mãos. Quis tirar uma fotografia e ter-me-ei aproximado em demasia, diria, e senti que estava a ser tão ou mais atrevida que os próprios 'monos'.

Essa primeira tarde em Déli foi intencionalmente descontraída, a fim de me adaptar ao fuso horário. As cinco horas e meia têm, sem dúvida alguma, efeito no meu ritmo circadiano. Passeando pelo parque, ia apreciando o lago habitado por patos cantantes e as ruínas que se impunham como barreira aos sons urbanos, nas quais muitos pares de namorados se compraziam no último fim de tarde da semana de escola.

Voltei ao parque dois dias depois para uma caminhada matinal. Os trilhos multiplicaram-se, os espaços ampliaram-se e muitos recantos revelaram-se. Muita gente a realizar as suas actividades mais ou menos físicas, mais ou menos meditativas: corrida ou caminhada estugada nos trilhos, musculação nas máquinas disponíveis, ioga no prado, meditação sob uma árvore. O parque dos veados exalava energia.

Os primeiros dias na capital política foram a visitar locais de referência. Comecei pelo Forte Vermelho, património mundial da Unesco, construído no século XVII, em Velha Déli. Surgiu da vontade do mesmo soberano mudar a capital do reino, depois da morte da sua mulher, para quem aliás terá mandado erigir uma das sete maravilhas do mundo Taj Mahal,. A denominação do Forte resulta da coloração das pedras que o edificam e ladeiam vários hectares que serviram de base à nova capital.

Talvez por ser Sábado, havia centenas de visitantes locais. Aliás, observei uma enorme afluência aos lugares com história ao longo dos dias. Merendei num dos muitos jardins do Forte, degustando duas 'samosas' vegetarianas (chamuças). Na verdade, a degustação tem sido um dos pratos fortes desta viagem. A cozinha hindu é rica em pratos vegetarianos, o que facilita a escolha. As especiarias tornam as comidas realmente quentes, picantes e até adocicadas. Um pormenor: a minha transpiração está picante e por vezes pressinto odor a caril.

Essas chamuças macias de vegetais foram apenas o início da aventura degustativa. Alguns dias depois fui a um casamento. Foi Sagar, um amigo que fiz no Rio de Janeiro, aquando dos Jogos Olímpicos, que me convidou a juntar-me à sua família. Essa foi uma experiência explosiva de sabores, com mais de cem bancas com iguarias de todo o país. Entradas, saladas, sopas, pães diversos, pratos principais, sobremesas, acompanhamentos, bebidas refrescantes que me demonstraram que o picante é muito diversificado, em especial quando mesclado com algo fresco ou doce.

Saí da cerimónia com pelo menos mais três quilos. No entanto, pensei que aquela era uma oportunidade única para experimentar a multiplicidade gastronómica, acompanhada de explicações precisas sobre o que comia e a sua origem.

Naturalmente que o casamento, com cerca de 800 convidados, ultrapassou a prova de delícias gustativas e aromas indianos. As vestes riquíssimas da maioria das mulheres enchiam os meus olhos. Cor de laranja, matizes de vermelho, cor de rosa, lado a lado com azuis e verdes diversos, roxo, cor de salmão, nos vestidos, saris e túnicas debruados a dourado nos mais finos tecidos. Não era o caso de Samiksha, a irmã de Sagar. A jovem de 22 anos, com bochechas cor de chocolate, explicou-me que quanto maior a proximidade à família dos noivos, mais cuidada e imponente é a indumentária. Não era, pois, o caso da família simpática que me acolheu em sua casa, cuja afinidade distante lhe permitiu fazer-se acompanhar-se de uma estrangeira.

O casamento foi o término de um dia bem passado com Sagar, que me levou a conhecer alguns dos seus lugares preferidos em Déli, nomeadamente o templo Kalkaji Mandir, onde os devotos da deusa Kali, como o meu amigo, se deslocam para a reverenciar. Aí tive a oportunidade de ser marcada pela tinta vermelha na testa e assim viver uma vida auspiciosa. A ver vamos.

O local estava repleto de pessoas crentes que faziam as suas oferendas - algumas notas, doces, flores muito amarelas, arroz que podiam adquirir numa das bancas - à sua deusa, ao mesmo tempo que proferiam e cantavam as suas preces. Como o templo de Lotus estava encerrado por ser segunda-feira, fomos almoçar ao mercado Khan que, segundo o meu amigo, é o mais caro da cidade e no qual é possível encontrar muitas marcas internacionais.

O templo que mais apreciei nesse dia foi de outro tipo: os jardins de Lodi. É nesse jardim com cerca de 90 acres que se encontram vários túmulos, entre os quais o de Mohammed Shah, que governou o norte da Índia na segunda metade do século XV e início do século XVI. Sentámo-nos por algum tempo, apreciando o local, observando os esquilos e respirando a vegetação colorida.

Este e outros locais que entretanto fui descobrindo, e certamente irei encontrar, são apenas alguns exemplos do contraste existente e que já me cativou. Se no meio de riquexós e carros e motas e bicicletas e mesmo senhoras vacas, o cenário pode ser cansativo, os espaços tranquilos são muitos e de fácil acesso.

Para além destes lugares e sabores, houve outras experiências. Mas um postal é um postal. Quem sabe envie outros aos leitores do Chapinheiro. Por ora fico por aqui, desejando que no dia 20 de Março a Primavera se espraie por todos os cantos e recantos de Nogueira.

* Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

Mascando paan



Conheci Rishabh Jain num dos muitos corredores de Chandni Chowok, o mercado de Velha Deli. Um dos rapazes de uma loja de tecidos desse mesmo mercado. O meu olhar deteve-se durante algum tempo numa pessoa que, bem sentada e muito compenetrada, preparava uma mistura e a espalhava numa larga folha de uma 'qualquer' árvore. Rishabh registou o seu nome no caderno, enquanto eu desfrutava de uma nova experiência. Pedi-lhe que escrevesse o que estaria eu a mascar.
Ficou assim respondida a questão que me havia colocado minutos antes, ao ver um outro senhor muito satisfeito a esticar com todo o cuidado aquelas folhas muito verdes.
 O qualquer ficou esclarecido. Era uma folha de pimenta de bétele. É nesta folha que se embrulha a tal mistura que o segundo artesão preparava com todo a arte: paan ou gutkha.
Paan - noz de areca - é então a semente triturada que, depois de misturada com outras substâncias, como a pimenta e ervas, se masca durante alguns minutos. De acordo com a descrição escrita do jovem vendedor, além da pimenta, paan pode incluir tabaco e nicotina. Isso mesmo me deixara curiosa, enquanto observava  o artesão a espalhar com a sua espátula as diversas substâncias, que ia retirando de diferentes potes. Segundo outras fontes, leva ainda cal e a sua constituição depende da zona onde é consumido. Sendo algo novo, e sendo possível 'personalizar', Rishabh traduziu o meu pedido ao velho homem. Que, por favor, anulasse a nicotina, o tabaco e a cal. Teoricamente algo menos nocivo.
Segundo outras fontes, o paan tem efeitos semelhantes aos do tabaco.
Compreendi assim a razão de ser de tantos homens cuspirem para o chão. Ao fim de poucos minutos eu já não sabia o que fazer com os restos na boca. Fiquei ainda a saber o motivo de tantos homens terem os dentes coloridos de vermelho.
Aparte de resquícios da folha, senti uma espécie de quase náusea, duas horas depois. Tendo sido apenas quase, valeu a pena pelo tempo que contemplei o velho artesão a preparar os embrulhos de paan, assim como pelo parágrafo no caderno. Ainda que Rishabh Jain tenha tido muito gosto em conhecer a senhora Ema.

3 de Fevereiro, 2018
Nova Deli, Índia 

Terminal de aeroporto



Pode dizer-se que esta nova aventura começou ainda no Porto, na chegada ao balcão da companhia aérea turca para efectuar o check-in. Os passageiros com destino a Nova Deli, com ligação em Istambul, ficaram em terra. Exagero.
Foram somente recambiados para Madrid, sendo 'convidados' a voar com uma das subcompanhias da Ibéria. Na capital espanhola, em vez de uma hora de escala, conforme o plano original de voo, seriam sete.
A bem da verdade, esse terá sido um risco tomado pelos próprios passageiros. Quem é que compra uma viagem com uma hora de escala entre dois voos? Várias pessoas!
Ora, como o primeiro voo, desde o Porto em direcção a Istambul atrasou uma hora, a companhia aérea logo agilizou a situação. Por conseguinte, à hora prevista estavam aqueles passageiros mais arrojados, entre os quais duas famílias indianas com diversos volumes devidamente protegidos a plástico aderente e mais duas outras crianças de colo, num outro avião.
Não sei como é que as hospedeiras de terra resolveram essa situação da bagagem, dado que ao verem esse grupo aproximar-se logo se revolveram nas cadeiras, por detrás do balcão.
Isto de viajar com as companhias de baixo custo tem a sua ciência e cumprir ciosamente com o peso estipulado é um exercício nem sempre fácil.
Não seria de estranhar que a aeronave, visivelmente menos robusta, tivesse ficado ainda mais frágil com o acréscimo de malas e bagagens. Há que dizer que foi uma viagem em sobressalto constante. Talvez seja uma palavra muito forte, mas os ventos contra, numa velocidade estonteante, tornaram aquela hora nas nuvens num quase pesadelo.
Quase, uma vez que embora tenha enchido com todo o fulgor uma daquelas almofadas que se encaixam na nuca, não foi possível sequer dormitar. Logo, nem deu para passar duma eventual fase do sonho ao pesadelo.
O passageiro da frente falava como se estivesse num palanque, qual esquina dos falantes no Hide Park. Ainda que jovem estudante ansioso pelo seu segundo semestre de erasmus em Amsterdão, falava com os seus colegas - presume-se - com uma distinta colocação de voz. Augura-se um futuro político.
Daí que a trepidação, juntamente com o discurso (quase monólogo) do jovem apagassem o sonho de uma sesta. Era, com efeito, algo ansiosamente aguardado. Apesar do voo ser às 12:20h, eram cinco da manhã quando as pernas com síndrome de formigueiro não aguentaram mais o conforto da cama.
Desse modo, houve tempo para tudo e mais alguma coisa, nomeadamente para apreciar a Super Lua azul e/ou também  vermelha e tudo o mais no parque da cidade. Por conseguinte, houve oportunidade para mais uma despedida ao lugar mais bonito da cidade do Porto. Foi mais um até já, confiando-se num regresso em meados de Maio.
Por ora há que desfrutar da sanduíche e de do sumo natural que o voucher oferecido pela Turkish airlines permite. Há que dizer, todavia, que no balcão do Porto a informação foi distinta. Ali não podiam providenciar esse suplemento, sendo que os gastos seriam ressarcidos posteriormente. Hum... Além dessa dúvida, permanece a do paradeiro da mochila.
Aquando do check-in no balcão da companhia espanhola, a hospedeira não conseguiu despachar a mochila com olhos amarelos bem abertos para a Índia. A mochila estava bem identificada com uma etiqueta muito original oferecida pela amiga MA.
Assim sendo, seria necessário resgatar a senhora azul de olhos amarelos, com cerca de 18 quilogramas, no terminal 4 de Madrid (a ligação para Deli seria no terminal 1 com mais um check-in). Vá! Desta vez esse peso também se deve a uma garrafa de vinho do Porto muito embalada, mais um livro e mais dois ou três pequenos recuerdos, para alguma eventualidade.
De qualquer maneira, ao embarcar, uma das hospedeiras informou que afinal a mochila havia sido despachada para Nova Deli, actualizando, em conformidade, o canhoto do cartão de embarque. Bom, as expectativas, mesmo que sendo de evitar, são as de que às 11horas indianas de amanhã, aqueles olhinhos amarelos bem abertos sorriam muito ao rebolarem no tapete de entrega das malas. Já agora, o Sagar também agradece (e eu muito mais) que a garrafa de vinho Porto aterre intacta. A ver vamos...

01/02/2018
Aeroporto de Madrid, terminal 1