Mostrar mensagens com a etiqueta músicas em mim;. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta músicas em mim;. Mostrar todas as mensagens

Ode a uma Música!


https://youtu.be/G6Kspj3OO0s?list=RDy_6ak9CYx48

            Escrevo no dia seguinte à morte de Dolores O’Riordan. Para mim, era uma pessoa muito querida. Não que a conhecesse, mas o facto de ter passado uns bons dias na sua cidade natal, Limerick, na Irlanda, faz-me sentir um pouco mais próxima da sua voz encantadora.
Dolores O’Riordan era a vocalista de uma banda de música rock que muito aprecio. E a sua morte emocionou-me profundamente. Por vários motivos. Desde logo pela sua juventude. Dolores, a cantora dos The Cranberries, viveu ‘apenas’ 46 anos. As aspas devem-se às expectativas que a famigerada esperança de vida contemporânea nos cria. Além disso, como me faltam ‘apenas’ dois anos para alcançar aquela idade, as circunstâncias da sua morte aumentam, diria de forma inevitável, a minha apreensão. Morte súbita – causa desconhecida.
Foi num romance de Pascal Mercier – Comboio Nocturno para Lisboa – que certas indagações ganharam forma, no que à morte concerne. Curioso é o facto de estar a escrever enquanto viajo de comboio desde Lisboa.... Dizia eu que certas questões se materializaram em palavras, dado que o autor suíço me ajudou a visualizar e assim a compreender a angústia face à possibilidade de morrer, bem como o receio, digamos assim, da morte de pessoas que me são mais ou menos próximas.
Quando me reporto à proximidade refiro-me em termos abrangentes. Há pessoas que desconheço fisicamente, mas em relação às quais sinto uma espécie de ligação. É o caso de Dolores O’Riordan. Ainda que não tenha tido sequer a oportunidade de assistir a um concerto da sua banda, o choque que a sua partida me causou ainda reverbera no meu ser.
Na verdade, a morte de outros artistas, cantores, intelectuais e outras pessoas publicamente reconhecidas, suscita-me tristeza. Claro que quando se trata de pessoas jovens, mais ou menos famosas, a incerteza quanto ao derradeiro fim, associada ao questionamento do sentido de viver, assalta-me, qual larápio dos homens.
Foi em 2009. Na primeira vez que li a passagem seguinte do referido livro, gastei uma boa quantidade de folhas a especular acerca da vida que projectara. Estaria eu a VIVER? 
 “E assim poderíamos descrever o medo da morte como o medo de podermos não vir a ser aquilo que aspirávamos ser, ou para o qual nos projectámos”.
Desde então que engendrei formas para estar aqui com outra atitude... Nem sempre do melhor modo.
De resto, os CD’s dos The cranberries foram a banda sonora de muitas viagens de carro, onde a voz de Dolores era posta em causa pelo volume da minha própria voz, ou das pessoas que me acompanhavam. Mais da minha. Gosto de partilhar a boa disposição, mesmo sabendo que por vezes posso ser excessiva, nomeadamente ferindo os ouvidos dos meus acompanhantes. Ou bem que se juntam à cantoria, ou têm de ser deveras pacientes e compassivos para comigo.
Voltando à experiência sonora que a esta artista me providenciou, e que muito agradeço, reconheço nela, bem como em todos os músicos e cantores, o poder de tornar certas vivências inesquecíveis e intemporais, nem que sejam ‘apenas’ alguns instantes num local, com alguém mais ou menos especial.
Quem não se lembra de lugares, pessoas ou mesmo experiências ao escutar determinadas canções? É o caso de Linger – é uma das minhas músicas preferidas. Há 25 anos que a escuto; quase sempre com os olhos emudecidos. Há músicas assim. Há vozes assim. E a de Dolores continuará a ecoar no meu coração...

16 de Janeiro, 2018
IC Lisboa-Porto

Porto, um caso de amor *




You know I love you so – cantavam dois dos muitos músicos que nos dias de hoje pintam a cidade do Porto. Em frente ao Cubo, na Praça da Ribeira, escutava um sentimento confirmado numa versão com sotaque desconhecido de Yellow.
A expressão ‘nos dias de hoje’ não é despicienda, tão-pouco é estranho escutar sotaques e idiomas diferentes entre o número crescente de estrangeiros que a visita. 












A cidade do Porto: quem a viu, quem a ouve. Os tons musicais variam em cada esquina, ou em frente a uma casa amarela, ou vermelha ou azul, com sons e ecos diversos. 

O centro histórico vai-se transformando, rejuvenescendo numa paleta de azulejos multicores, procurando manter a sua marca registada nas fachadas. É possível que a Rua das Flores seja um dos exemplos mais ilustrativos dessa renovação tão colorida e musical, quanto polémica, como se lê num protector de obra – ‘o turismo mata os bairros’. Será que quem escreveu se refere à Ourivesaria Aliança, onde a jóia é o chá, ou à mercearia das flores, onde há quem se deleite a degustar os produtos regionais, de preferência biológicos?

You know I love you so: Porto! No cais da Ribeira, local onde terminou a nossa visita, os acordes da guitarra embalavam como um barco rabelo. Se antes este tipo de embarcação trazia as pipas de vinho do Alto Douro, hoje é uma das opções para contemplar o Porto ao longo do rio. O Douro, que nessa quase noite de céu limpo, espalhava as luzes do Mosteiro da Serra do Pilar. Eram estrelas cintilantes que, na varanda do mosteiro da outra margem, convidavam à travessia da Ponte Luís I – um dos miradouros mais altos para apreciar a cidade. Outros há, como seja o da Vitória ou o do Jardim das Virtudes. Este é, aliás, um lugar muito apreciado para tomar um copo ao fim do dia, enquanto o sol se deita... devagar. O pôr-do-sol que a câmara fotográfica de Miguel, de origem senegalesa a viver em Barcelona, gravou quando lhe perguntei qual era a sua melhor fotografia até ao momento.
Também o nosso grupo aí se detivera antes de descer as escadas da Vitória, não apenas para registar o momento para a posteridade, mas igualmente para guardar uma memória gustativa. Por sugestão de um dos elementos do grupo, deixámo-nos ficar algum tempo na Taberna Santo António, numa das esquinas do Passeio das Virtudes. Rissóis de queijo, pasteis de bacalhau e mousse de chocolate: algumas especialidades da casa que tivemos oportunidade de provar, acompanhando com o vinho da casa, como o fizeram a Rita e o Filipe.

Isso foi depois da visita ao Centro Português de Fotografia, alojado na antiga Cadeia da Relação na Praça dos Mártires da Pátria. A exposição permanente do espólio de António Pedro Vicente, com uma quantidade e variedade de máquinas e material fotográfico desde a origem da fotografia, é imperdível para os amantes da fotografia. Também para os amantes da literatura do período do romantismo, já que foi nessa antiga prisão que Camilo Castelo Branco terá escrito, em duas semanas!, Amor de Perdição. Da sua então cela, a vista é de cortar a respiração, sendo a Sé Catedral o elemento mais proeminente de quem se deixa ficar por instantes que seja, e assim captar um pouco da magia da Sé... do Porto.

A magia pairou através de um casal de meia idade. Os chapéus que o senhor e a senhora traziam, aliados à elegância com que se moviam, como que flanando por entre as ‘celas fotográficas’, provocavam o nosso grupo, originando uma curiosidade quase generalizada. Não resisti. Sorrindo, elogiei o casal e perguntei se poderia fotografar duas pessoas tão bonitas como elas. Do alto de dez centímetros dos saltos dourados, a senhora de cabelos louros presos sob o chapéu preto anuiu com simpatia. Agradeci. A fotografia é apenas uma das provas de um amor sem perdição, mas em crescendo... Porto, you know I love so!


11 de Janeiro, de 2018
Porto, Portugal

* Texto escrito no âmbito do workshop de escrita de viagens ministrado por Filipe Morato Gomes

No último Natal


https://www.youtube.com/watch?v=E8gmARGvPlI 




Com ou sem certezas, a minha adolescência começou quando saíram os calendários com os cantores de música Pop, no início da década de 1980. Na revista Bravo, as fotografias de cantores como os Wham eram cortadas, coladas e admiradas por mim, pela Tété e pela Cristina nos Olivais Sul. Para além de participarmos e organizarmos campeonatos de bilas e de pião e de espeta, éramos acérrimas admiradoras dos ídolos que se começavam a formar nos nossos corações adolescentes.
Passávamos tardes no quarto da Cristina. Era ela quem tinha o álbum de vinil dos Wham, que incluía canções como Careless Whisper, Wake me up before you go... Ah, como nos imaginávamos nos braços daquele loiro de brinco na orelha: que ‘giro’, que ‘gato’, que ‘pão’... os termos utilizados para nos referirmos àquele que para nós era, seguramente, o cantor mais bonito à face da terra.
Com toda a certeza, a minha adolescência ficou marcada por uma figura paternal pouco exemplar, ahahah, mas também com certeza, marcada por uma figura assaz corajosa. Pelo menos é desse modo que fui interpretando as metamorfoses que o tornaram ‘older’. Amores rápidos, últimas tentativas com muita fé, em diferentes esquinas, íamos lá para fora, cantando com ele contra a xenofobia, contra o preconceito.
Escutando as músicas do ‘Last Century’, em liberdade, dancei, cantei muito feliz com a M.A em Coimbra, quando o George Michael nos presenteou em concerto, ao vivo! Terá sido odiado, criticado, mas certamente muito amado por quem sempre o admirou e cantou, escutando com respeito as letras que ao longo do tempo nos ofereceu, que connosco partilhou.
A notícia de hoje provocou uma torrente de doces memórias. Há que dizer, no entanto, que antes de viajar pelas recordações vívidas promovidas pelas músicas que ouço desde as onze da manhã, telefonei a chorar baba e ranha à L... Já não falávamos há quase dois anos, mas quando me atendeu, a L sabia muito bem a razão do meu telefonema. “As pessoas estão a ligar-me, como se eu fosse uma espécie de viúva...” As lágrimas eram assim facilmente substituídas pelo riso. Como não rir? O George Michael faz parte de nós, desde que despertámos para a música...
Morreu ontem, no dia de Natal. É quase certo que no próximo Natal o seu ‘Last Christmas’ seja ainda mais emotivo. Curiosa a data em que partiu, aos cinquenta e três anos: tão novo. Foi tão cedo... Neste ano que está prestes a terminar, as perdas são já algumas. Em Janeiro David Bowie, seguido de Prince em Abril e, há tão poucas semanas, Leonard Cohen...
Claro que a palavra ‘perda’ tem um sentido muito relativo quando é de vida ou morte que se trata. Não obstante, cada vez que alguma pessoa que me é querida se despede para sempre, o carácter definitivo do advérbio de predicado com valor temporal ‘sempre’ ganha novos significados. Neste caso, é provável que me venha a lembrar sempre do dia da sua morte, associando sempre a um último natal...

26 de Dezembro de 2016
Matosinhos, Portugal

Amigas de infância




Brincávamos muito. As borboletas azuis eram as nossas guias. Barcos de infância irrequietos que nos faziam correr. E corríamos, corríamos atrás delas, sobre as folhas secas do Outono se era a estação que vivíamos. Corríamos, corríamos, sem que o objectivo fosse agarrá-las. Não era necessário. O paraíso morava ali e às vezes as borboletas azuis regressavam a nós e tocavam-nos nos cabelos cortados à escovinha. Ali paravam como bandoletes coloridas. Aí estacionavam por milionésimos de segundo. O tempo suficiente para nos questionarmos, como Lao Tse Tung, se éramos meninas sonhando serem borboletas ou se borboletas azuis sonhando serem meninas.
Perfeitas na nossa ingenuidade infantil, estávamos sempre a brincar e, com frequência, vestíamo-nos com esse mesmo propósito: saloias no carnaval, bailarinas nos corredores da casa, ciclistas no pátio do prédio, cozinheiras de plasticina no quarto ou cantoras famosas imitando a Maria Armanda no seu ‘Eu vi um sapo com guardanapo’. Havia mesmo quem nos estimulasse nessa cantoria colorida pouco afinada, sob o céu pejado de nuvens perfeitas. Mas, na maior parte das vezes éramos só as duas. Bastávamo-nos mutuamente, com a lua a tocar-nos com a sua luz intemporal. As duas, de rosto colado. Eu e a Ana. A Ana e eu.
Uma das facetas que eu mais gostava na minha amiga Ana, era a sua prontidão incontida em acompanhar-me no que eu desejasse brincar. Acabávamos por dar as mãos e envolver-nos naquilo que afinal ela preferia: jogar ao elástico ou rodopiar de bicicleta, ah e também jogar às escondidas. Mas isso era quando também estavam outros meninos do prédio.
Jogar às escondidas era um dos nossos jogos preferidos. E no quarto escuro, ainda mais. Ah, ah, ah... Não, não havia nada disso que estará eventualmente a pensar, caro leitor ou cara leitora. Ainda éramos muito inocentes e o que nos deliciava era a hipótese, mesmo que remota, de não sermos encontradas ou reconhecidas num espaço de dez metros quadrados. Especulo que seria mais ou menos essa a área do meu quarto, que também a Ana preferia. Não é que não gostássemos de estar em sua casa. O que acontecia era que éramos nós, eu e o meu irmão kiko, que tínhamos mais brinquedos. Era mesmo um exagero a quantidade de coisas que os nossos pais nos compravam ou a família oferecia no natal e outras festividades. Partilhávamos o que nos estava disponível. Hoje, ao reflectir sobre o assunto – a Ana pediu-me –, acho que tem mesmo a ver com esse facto. Nós tínhamos tantos brinquedos, que quando juntávamos os nossos com os deles – os da Ana e do seu mano Miguel –, as salas ou os quartos transformavam-se em verdadeiras feiras. Naquele caso comparáveis não à da Vandoma, mas da Ladra.
Por vezes restringíamos o tema: cozinhar no meu quarto. A plasticina de todas as cores e os utensílios de variadas formas eram um estímulo para confeccionar pratos se não suculentos, pelo menos criativos, selvagens ou saloios.
No quarto da Ana reinventávamos uma das suas brincadeiras favoritas: brincar aos escritórios. Quando a Ana acompanhava o pai ou a mãe ao banco trazia uma série de formulários ou fichas, com papel químico com os quais depositávamos dinheiro a fingir, levantávamos dinheiro a fingir, fingindo-nos muito organizadas, muito atarefadas com muitas reuniões agendadas, que desenvolvíamos as duas, pairando no ar como belas borboletas azuis, muito saloias.
Como saloio era o pão que ajudávamos a cozinhar quando o nosso lugar era a quinta dos meus avós em Meruje. Uma vila próxima à aldeia dos avós da Ana que, como eu, passava grande parte das férias grandes, longe da cidade. À época, a cidade de Lisboa. Mas a Ana foi-se embora. Foi viver para o Porto.
Foi um acaso que finalmente nos permitiu um reencontro. A Ana virá muito em breve a Lisboa. O seu projecto mais recente implica a sua presença na capital. Combinámos combinar um chá no Chiado. Estou ansiosa por abraçá-la.
Até já Ana.


Matosinhos, 20 de Outubro de 2016

Borboleta azul índigo


O primeiro deslumbramento foi na Estrada da morte, em La Paz. Novembro de 2014 - descia de bicicleta aquela que dizem ser a estrada mais perigosa da América do Sul.* Actualmente está encerrada ao trânsito. As mortes que aí aconteceram durante décadas obrigaram à construção de uma via mais segura. Apenas os ciclistas mais afoitos, ou que assim se sintam, se aventuram a percorrê-la com mais ou menos velocidade.
Ia na esgalha. O vento no rosto era uma sensação saborosa. Apenas um vislumbre. Apenas e tanto. Desde então os meus olhos procuram sempre por mais esse azul a esvoaçar. Aquele que uma borboleta azul índigo, maior que a minha palma da mão, me ofereceu. Voava, cruzando o meu caminho. Longe do oceano Pacífico, a vegetação exuberante era o cenário para pedalar a 125 azul em direcção à morte. É inevitável. O azul do céu é efémero. Assim como é efémera a borboleta morpho peleides. A imagem dessa borboleta gravou-se na íris.

Com ou sem nuvens, o céu azul tranquiliza-me. Com ou sem ondas, o azul do mar inspira-me. Tenho a sensação que a minha vida está plena de instantes azuis. Gosto do azul real, do azul índigo, do azul celeste. Gosto dos setes azuis que metamorfoseiam a Lagoa de Bacalar, do azul das águas cálidas que contrastam com o frio glaciar da Lagoa de Reiquejavique. Em voos mais ou menos longos, as asas do avião cortam sempre um novo céu... azul.
Foi apenas no início de 2013, em Melbourne, que pela primeira vez me apercebi que as tonalidades do azul são passíveis de se distinguirem consoante o lugar e a estação do ano. Se até aí não me cansava do azul do céu, desde então comecei a desejar tocar cada um dos tectos das cidades e vilas, montanhas e vales, praias e rios por onde tenho vagueado.
As asas daquela borboleta permanecem na minha memória visual.
Este ano regressei à América Latina. Em cada borboleta um sinal divino. Os pensamentos que povoam o meu caminho são um labirinto nem sempre azul. Aceito essa prolixidade. Suponho que seja natural que o antes e o depois me continuem a habitar, sobretudo quando os pés pisam o caminho em direcção a novos lugares. Em cada pequena decisão para o futuro (sempre muito próximo) reparo numa borboleta. Não é exagero. De tal modo me sinto confiante, que um sorriso se desenha. Se uma borboleta surge no meu caminho, um sorriso sela o pensamento. Fica resolvido e prossigo o mais consciente que me é possível. Ainda muito a aprender, ainda um longo caminho até à totalidade do presente.

A borboleta morpho peleides visita-me amiúde. É com frequência que o meu olhar capta esse insecto, transmitindo informação aos neurónios que em sobressalto entram em sinapses contínuas. A pele arrepia-se, o sorriso rasga-se, o ritmo cardíaco acelera. Quase salto como uma criança deslumbrada em cada borboleta azul. Dádivas a que o corpo reage num agradecimento somático.
A última vez que tal ocorreu foi há uma semana na floresta tropical do parque Corcovado. O mar de água cristalina reflectindo o céu limpo contrastava com a vegetação densa da floresta. Algumas árvores estavam unidas entre si, abraçando-se mutuamente - o que eu vi. O guia explicou. São árvores que se asfixiam umas às outras, como que se engolindo em pura competição. Prefiro a realidade que os meus olhos percepcionaram sob o azul resplandecente da Costa Rica. Outro azul enchia os meus olhos. O das borboletas morpho peleides. Os dedos das mãos não foram suficientes para as contabilizar. O oceano Pacífico enviava ondas numa melodia perfeita, acompanhada das vozes incansáveis das lapas. Os grilos gigantes quase despertavam os morcegos bebés que dormiam enroscados nos colos providenciados pelas folhas imensas.
A cada passo um sorriso infantil. Uau!, um pelicano. Uau!, um tucano. Uau!, um macaco aranha, nas Ceibas e Pilons. Troncos tão altos como largos. De focinho a esgravatar o solo, as famílias de quatis deliciavam-se com os caranguejos que encontravam. De quando em quando, as borboletas multicolores despertavam a minha consciência que de quando em vez se esvaía. As asas do tamanho das palmas da mão mantêm-se em mim.

Quem sabe ganhe coragem e me decida a gravar na pele uma borboleta azul índigo. Quem sabe as suas asas me relembrem como efémera é a existência e como a transformação é um acto contínuo. Quem sabe a magia me envolva e eu toque no céu nocturno, encontrando-me com as estrelas.  



2 de Outubro, 2015
Cidade do Panamá, Panamá

É Carnaval... ninguém leva a mal*


No Carnaval ninguém leva a mal... ninguém levava a mal as bombas de mau-cheiro. Quer dizer, mais ou menos... mas era tão engraçado. Comprávamos as bombinhas na papelaria e depois entrávamos à zurrapa nos estabelecimentos comerciais. Ou pelo menos tentávamos. O nosso ar reguila e os risos incontidos denunciavam-nos logo à partida. O que nos ríamos. Deixávamos a bombinha e saímos a correr. Escondíamo-nos nas proximidades para podermos ver as reacções. E como nos ríamos, ríamos. Por algo tão simples como deixar o mau cheiro que provocava a irritação nos adultos. Era tão simples. E os adultos ficavam a ralhar durante alguns minutos e nós ríamos e ríamos.
Também comprávamos bombinhas de raspar que depois se estalavam no interior das mãos fechadas em concha. Havia outras bombinhas que se atiravam e faziam um ruído seco que assustava quem passava. Nessa época essas brincadeiras eram permitidas. Assim como muitas outras mais ou menos perigosas. Deviam ser. Todos os anos havia notícias de acidentes. Crianças que se queimavam. Crianças que se magoavam seriamente. Mas isso não nos demovia. Nem que tivéssemos que comprar às escondidas com as semanadas.
Não é uma apologia das bombinhas. Na verdade, nunca mais ouvi falar disso. Devem ter sido retiradas do mercado. Às tantas houve mais acidentes do que eu penso e às tantas eram realmente sérios. Não é desfaçatez. Perdoem-me os leitores e as leitoras se por ventura uma das crianças era familiar. Mas as brincadeiras quer sejam no Carnaval, ou não, são uma forma de viver a vida com mais alegria. Viver com alegria, rindo, rindo muito, comporta riscos. Nem que seja um risco tão simples como o de se ser acusado de tolo. Talvez por isso tanta gente tenha deixado de brincar, guardando-se apenas para a época do Carnaval, quando ninguém leva mal. Como se no resto do ano não se pudesse brincar.
Brincadeiras à parte, o Carnaval é um tempo de/para excessos. De deleite e prazeres e muita festa e muita cor. Em Nogueira do Cravo já se está a tornar uma tradição. O desfile é preparado com semanas de antecedência e tem direito a fanfarra. Os tratores saem dos campos e transformam-se em carros alegóricos. As vestes são cuidadosamente preparadas e costuradas colorindo as ruas da aldeia durante o corso. As ruas enchem-se de gente vindas das aldeias e vilas vizinhas. Há cada vez mais gente a aplaudir, a rir... e a participar e a cantar e dançar. Até porque, como diz alguém: quem dança é mais feliz.
O mês de Fevereiro convida a outras celebrações. O dia 21, por exemplo, é o dia Internacional da Língua Materna. Como afirmava um digno filósofo, “a língua de um povo é a sua alma”. É por meio das palavras que cada cultura tem a sua forma de interpretar o mundo, o seu mundo. Por vezes não encontro, não tenho palavras para descrever o que sinto, o que observo, o que escuto... É então que percebo a importância da palavra; fico com a impressão que se soubesse como me expressar o meu mundo ficaria muito maior, muito mais rico. Se conhecesse todas as palavras e as soubesse juntar em frases que ilustrassem o que me vai na alma...
No entanto, e talvez porque a língua de um povo seja mesmo a sua alma, observamos como determinadas línguas se impõem sobre outras. Ao ponto de certos idiomas, como os animais, se extinguirem. Existem também acordos ortográficos que pretendem uniformizar, no nosso caso, a língua portuguesa. Para mim, que estou em desacordo com o acordo, a uniformização é um modo de aniquilação da palavra pensada... da alma portuguesa?
            O português que se fala em Portugal é diferente do português que se fala no Brasil, como aquele que se fala nos diferentes países africanos. Tão-somente porque a cultura desses povos, pese embora com grandes e profundas influências da cultura portuguesa é, naturalmente, distinta.
Cada falar português é um modo de expressar a diversidade cultural. A uniformização apaga as diferenças que ao invés de serem obstáculos são, pelo menos para mim, particularidades e especificidades que detêm a essência cultural de um povo e até de uma nação. Nacionalismos à parte – não é disso que se trata – cada falar português envolve uma oralidade também distinta e local com História. Apagar a Cultura e a História é, na minha perspectiva, uma forma de violência!
Outra data que desafia a reflexão é o dia 22: Dia Europeu da Vítima. Infelizmente, (ainda) é necessário marcar no calendário este tipo de celebrações. Infelizmente, (ainda) são tantas e demasiadas e incontáveis as violências que os humanos exercem uns sobre os outros que seriam necessários muitos mais dias no calendário para nos lembrar que há tanto, mas tanto a fazer para que os seres humanos, pelo menos, se respeitem... não podemos salvar e mudar o mundo... Não? Claro que podemos. Cada um de nós pode salvar o seu mundo, pode salvar o seu dia.
Se cada um nós tiver um gesto de cuidado e atenção com cada pessoa com que se cruzar anulará a violência próxima. E depois é como a ideia dos favores em cadeia. Quem for bem tratado e cuidado quererá retribuir e assim sucessivamente. Podemos não salvar o mundo, mas com toda a certeza que salvaremos o dia de alguém.

*Texto publicado no Jornal O Chapinheiro

A Carta de amor: a única!




11/12/13
Querida Ana Luísa, meu amor

Cheguei-me. Dornes Re-velou-te-me. Hoje quero dizer-te com toda a minha totalidade que te amo profundamente. Já to afirmei novecentas e noventa e nove vezes. Hoje é a primeira vez que me declaro sem ser apenas em palavras. Basta de palavras! Sabes isso melhor que ninguém... com toda a certeza!
Quero expressar-te que finalmente te escuto, que finalmente olho para ti – sem espelhos; sem reflexos. Sem dúvida que o espelho foi muito útil para te reparar mais. No espelho vi-te em mim. Vi o que sabia mas não reparara assim tão bem. Como és linda, como os teus olhos brilham e como expressam tanto... sem que eu tivesse visto.
Hoje quero revelar-te que me revelei em ti. Chego-me a casa, a ti... era tão fácil: sempre estiveste aqui!
Sei o que precisas. E eu dou-te! Recolho-te ao meu colo e embalo-te amorosamente. Trago-te até ao meu coração – que agora se abre plenamente: a ti! Cuido de ti: és a minha adorada filha. Protejo-te no meu colo, aqueço-te – embriago-te de amor!
Faço, farei tudo o que pedires. Sei que tudo o que peças é o que mais precisas. Por isso, ouço-te, reparo-te, faço-te: amo-te. Muito! Revela-me sem pudor, sem vergonha, sem receio e serei tudo o que queiras. Serei tudo contigo. E tu: és muito! Tu és extraordinária. Extra em tudo e ordinária também. Sê tudo, o extra e o ordinário! Sê todas as crianças, adolescentes, mulheres e outros eus que habitem em ti. Não mais calarei uma só voz, uma palavra tua.
A todos esses eus eu acolho e serei com toda a minha presença neste presente. Cuido bem de todas e qualquer que queiras ser em cada instante. Apenas e tanto tu! Tu! Eu! Tu e Eu. Sempre aqui abraçadas amoravelmente.
Um xi-coração
Ana Luísa