A minha professora primária. Memória da reguada!




Escola n. 25 dos Olivais Sul. Professora Carolina. Uma reguada – a única entre a primeira e a terceira classe. Não me lembro da razão porque a senhora professora Carolina, alta e esguia, ousou ferver a palma da minha mão com uma régua de madeira. Ui! Ai! A mão a querer fugir desse instrumento punitivo. Quem o segurava e ao mesmo tempo também tentava apanhar a minha mãozita com seis ou sete anos era a professora de bata branca.
Não tenho qualquer recordação das cores com que essa senhora de cabelo curto muito preto se vestia. Era sempre de saias e frequentemente com alguma roda, dando volume à parte inferior do seu corpo elegante, para nós tão alto. A altivez era apenas na compleição – a voz segura e com autoridade era equilibrada com a entoação de alguém que gosta de ensinar crianças. Na sua secretária era raro sentar-se. É de pé que os meus olhos infantis a vêem com o giz no quadro negro ou com as mãos nos bolsos enquanto aguardava que terminássemos os trabalhos escolares – contornar um desenho de um animal premindo o papel numa esponja com o pica-pica.
A reguada terá sido eventualmente merecida – agora uma vaga ideia. Fiquei a brincar mais tempo ao elástico com as minhas coleguinhas da turma no recreio que desejava mais longo. Talvez a Isabel, a sardas, fosse uma delas.
Houve mais uma. Só mais uma. Era muito certinha. Na escola primária da Ponte, no Porto, na quarta classe. Um ano diferente. A chinesinha – assim me chamavam os meus coleguinhas, quase todos muito mais velhos, quase todos repetentes – pelos olhos que se fechavam quando me ria. Estava sempre a rir. Agora também estou quase a sempre com o rosto aberto. Para quê fechá-lo? Em cada fechamento, menos uma oportunidade de ser feliz.
O curioso é que também não me lembro da razão de ser de tal castigo. A memória tem destas coisas. Muito selectiva. Ora para nos proteger, ora para nos poupar de situações pouco relevantes e, consequentemente, para não ocupar espaço. Não sei em qual das duas cabe o esquecimento. Talvez preferisse ter continuado em Lisboa e queira (inconscientemente) esbater esse ano.
As reguadas... Duas. Suficientes. Muitas. Demais diria. A punição não tem necessariamente de ser física e pode até ser que nem as merecesse. 

2 comentários:

  1. Bom texto Luísa

    Para alguém como eu, que frequentei precisamente a escola nº25 dos Olivais (e que também levei umas singelas, mas importantes, reguadas), foi um recuar no espaço e no tempo muito agradável...

    Parabéns pelo estilo de escrita, de que gostei muito. Continue a escrever por favor...

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  2. Muito obrigada pelo comentário e pelo incentivo, Paulo!

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