O voo d’ A borboleta azul

Fotografia de Miguel Gonçalves


A borboleta azul iniciou voo n’A Casa da Boavista. A casa senhorial onde reside o Chiado Café Literário. A casa onde, há quase quinze dias, se realizou o lançamento d’A borboleta Azul. Nenhum livro foi atirado ao ar, como alguns amigos brincaram. Muitas borboletas azuis voaram para outras mãos – quem sabe seguindo a sugestão de Luís Pires: o representante da Chiado Editora.
Durante a sua intervenção, Luís Pires soprou palavras doces e suaves, num tom de voz igualmente macio e sereno. O tempo parou. O tempo voou. Isso sentiu a C, que há pouco me dizia isso mesmo. Luís interveio num pestanejar tão rápido, como intenso. Sugeriu a todas as pessoas presentes que cuidassem dos livros, dando-lhes vida. O livro ganha vida quando é aberto, quando é folheado, quando os olhos percorrem e absorvem as palavras ansiosas por serem lidas e acolhidas.

Na sala Fernando Pessoa, uma das inúmeras divisões mágicas d’A Casa da Boavista, Luís propunha aos muitos amigos presentes que, em vez de colocar este livro, assim como qualquer outro, de imediato numa estante, se lhe desse uma oportunidade para existir. À entrada de casa, por exemplo, ou na mesinha de cabeceira; o caso da C... A C que, por estes dias, tem a companhia nocturna de uma borboleta azul, estando deste modo, receptiva à metamorfose onírica.
Na véspera da sessão de lançamento, Luís deixou-me apreensiva ao lembrar-me do inevitável. Estava prestes a dar asas à borboleta, qual mãe resignada que vê partir os filhos para viverem as suas vidas de forma autónoma. Na perspetiva de Luís, publicar é um acto de coragem. Só então me dava conta que deixaria de ter ‘poder’ sobre aquela borboleta. Enquanto agrilhoada no mundo virtual, tinha capacidade de a mudar ou mesmo eliminar ou ‘deletar’, como dizem os amigos brasileiros. Está livre. Cada palavra, cada linha, cada frase será lida, interpretada sem que eu tenha como dizer: “ah, não era isso que eu queria escrever; ah, que giro, foi isso que entendeste; ah esquece, ah...”
Ah... Nada a fazer a partir de agora. O papel regista e guarda para quem desejar ler o que há muito escrevi, de uma forma mais ou menos pessoal, ficcional; enfim, de forma sentimental – a interpretação da G. A amiga que telefonou a felicitar as histórias publicadas. “Expões-te muito” - acrescentava. Ah, ah. Arrisquei sem estar a pensar se estaria ou não a expor a pessoa que em mim vive as experiências... Mas a vida vai sendo vivida com a mesma intenção consciente... Só quando me entrego, sem medo!, aprendo, apreendo, experiencio cada instante que me é concedido viver.
As rugas de expressão ganharam profundidade através do sorriso que cada pessoa presente estimulava. A gratidão crescia minuto a minuto, envolvendo-me numa cápsula intemporal.
A sessão prosseguiu com o professor José Manuel Constantino, que apresentou com a delicadeza e cuidado, ao mesmo tempo com a graça, boa-disposição e descontracção que lhe reconheço. A escolha perfeita para a lagarta que, libertando-se do casulo, se transforma – neste caso ainda insegura – num livro com asas... azuis. As palavras escritas e pronunciadas, pelo amigo professor, com carinho confirmaram, novamente, como estou tão bem rodeada.

Com efeito, a sala estava cheia de gente linda e muito querida que na mesma medida me fazia sentir querida e linda. Os meus olhos captavam sinais que se repercutiam tumultuosamente pelas veias e artérias. O sorriso, captado na fotografia de Miguel Gonçalves, era a minha reacção. Como não?
Na sala Florbela Espanca, que a Maria Noronha preparara para os autógrafos, os abraços sucediam-se. Agradecia, assim, de forma modesta às pessoas amigas que me presentearam com a sua presença, enquanto bebericavam o Porto de Honra na sala contígua – mais um dos muitos recantos acolhedores, expirando inspiração, d’A Casa da Boavista. Um espaço que me chamou novamente e onde, enquanto degusto um chocolate quente delicioso (com leite de soja, ah, ah), sem pensar nos meses que esta bebida quente se deterá nas coxas, escrevo estas linhas. Era impossível guardar para mim o sentimento de gratidão que me enche, mesmo que, mais uma vez, me exponha... Expondo, talvez, a fragilidade que me sustenta. Afinal, a vida é uma dádiva, que nem na aparência é garantida. Como uma borboleta, é frágil, efémera e voa, voa...
Fotografia de Miguel Gonçalves
2 de Março de 2017
Porto, Portugal

Borboleta Azul

  Assista ao Spot Televisivo da Borboleta Azul

 Borboleta Azul - um postal América Latina





Já está disponível e à venda numa loja ou no mundo virtual  
Para as muitas pessoas amigas do Brasil, podem encontrar/encomendar nos seguintes locais:

Cultura
Galileu
Janina
Cia dos Livros
Travessa
EasyBooks
Livrarias Curitiba
Blooks e Saraiva
Desejo boas leituras... azuis

Quarto com vista para o mar*



Desde há muito que quero escrever sobre o apartamento onde estou a viver desde o início de Novembro passado. Pela primeira vez na vida, tenho o extraordinário privilégio de, em cada manhã, tomar o pequeno-almoço contemplando o mar, assim como em todas as refeições que realize em casa. Quer dizer, a escuridão é uma cortina quase impenetrável. A linha do horizonte só é possível vislumbrar em noites de lua cheia e de céu limpo.
De quando em quando, o reflexo do luar espalha-se de forma visível para contentamento dos olhos, cuja recepção desses espelhos reflectidos no mar se repercute em sensações agradáveis pelo corpo.
Apesar da manhã ter começado chuvosa, alguns farrapos de azul claro (mesmo que esbatido), no céu, são elementos que me sopram. Alertam-me, convocando o olhar para o azul mais escuro que me é possível captar na linha do horizonte.
O navio de mercadorias, a centenas de milhas da costa, e o barco de pesca vermelho são fácil e nitidamente observáveis. Confirmo, assim, a boa saúde do meu sentido de visão. A informação visual vai-se tornando cada vez mais azul, alastrando-se no espaço abstracto da pele – a exibição do sentido sensorial da pele confirma o seu bom estado de saúde. De quando em vez, as gaivotas esvoaçam perto das janelas grasnando com jovialidade1, banindo qualquer dúvida que existisse quanto às capacidades auditivas. Quanto ao olfacto e ao paladar, o pequeno-almoço tomado meia hora antes consolida o fulgor de todos os sistemas e órgãos biológicos, que me permitem fruir (com gratidão) pelas linhas que se vão escrevendo.
Poderia continuar a enumerar todos os bens materiais e imateriais que me estão disponíveis e me rodeiam, concedendo-me uma sensação de conforto e bem-estar, muito para além do que as palavras possam expressar.
As experiências vividas raramente são percepcionadas ou compreendidas através dos outros. Quando muito, podem gerar reacções. Se, por ventura, as houver, resultarão da interpretação das palavras escutadas ou lidas e não da experiência de quem as, pelo menos, tenta partilhar.
Se me alongasse naquele inventário, encontraria elementos, sem dúvida, suficientes, para, sem leviandade alguma, afirmar: “Sou e tenho tudo o que necessito!” A felicidade é a minha opção e prioridade diária, a qual aproveito para celebrar no dia 20 deste mês – o dia internacional da Felicidade. As Nações Unidas instituíram este dia com a seguinte resolução: “A busca da felicidade é um objectivo humano fundamental”.
Foi com surpresa que, ao pesquisar sobre as datas comemorativas e efemérides de Março, me deparei com esta informação. Não obstante, esse quase espanto rapidamente se transmudou para a aquiescência. Se é verdade que, na maioria das vezes, se instituem datas comemorativas para (re)lembrar que muito há ainda a realizar em determinadas dimensões da vida – e aqui incluo todas as formas de vida –, pergunto-me, então, sobre a necessidade de nos recordar essa busca pela felicidade. Sempre pensei que, como eu, todas as pessoas tivessem como grande objectivo de vida ser feliz.
Até que comecei a estar mais atenta às palavras (acompanhadas de gestos e atitudes) das pessoas que me rodeiam e com quem me vou cruzando. E quando escuto as pessoas que me são queridas afirmarem de forma lacónica e resignada “pelo menos não sou infeliz”, com uma certa tristeza, apreendo melhor a ideia das Nações Unidas: a de provocarem, pelo menos, um laivo de ensejo pela busca da felicidade.
Essa busca é, aliás, uma constante na minha vida, promovendo debates internos de quando em quando. As reflexões têm resultado em mudanças no meu modo de viver e compreender o conceito de felicidade, para além da teoria. Isto significa, que também a minha maneira de estar se tem modificado ao longo do tempo. Entender esta característica – a de tudo ser impermanente e estar em constante mudança – inerente à natureza e à vida, tem sido o que mais tem contribuído para apreender o que para mim é fundamental para me sentir feliz.
Hoje, no dia em que escrevo, para mim ser feliz é trabalhar com um propósito, ao mesmo tempo que é ser e estar serena e em paz, quaisquer que sejam as circunstâncias em que me encontre. Aceitando, por exemplo, cada instante de alegria do mesmo modo que aprendo a aceitar cada instante de desconforto ou mesmo tristeza. Acima de tudo, sabendo que tudo passa, tudo muda... Por isso, trabalhando em algo em que acredito, e desfrutando e aprendendo com serenidade e tranquilidade tudo o que me é concedido viver; assim é hoje, para mim, ser feliz!
No mesmo dia 20, acontece o equinócio da Primavera – a minha estação preferida. É com grande alegria que dou as boas-vindas à estação das flores, dos amores primaveris... O Inverno passou, dando assim entrada à poesia, que se celebra mundialmente no dia seguinte, juntamente com o dia europeu da criatividade artística. Com mais ou menos criatividade podemos comemorar outras datas através da partilha. Um desses dias é a 27, o dia Nacional do Dador de Sangue. Uma data que nos recorda que até nos é possível a dádiva de vida, através de um gesto tão simples como estender o braço durante alguns minutos...
Aproveito para assinalar que a dádiva é igualmente incomensurável por parte dos pais. Por isso, no dia 19 temos mais uma oportunidade de agradecer ao nosso pai, mostrando-lhe (novamente) como ele é importante e como terá contribuído para que sejamos quem somos...

1. Com jovialidade a mais... minutos depois de enviar a crónica para o jornal, uma senhora gaivota lembrou-se de marcar território na janela da sala! Confesso que só me ri durante breves segundos pelo caricato da situação – limpar os seus dejectos é coisa que não me agrada particularmente. Enfim, viver perto do mar é uma surpresa a cada dia...

* Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

T2 Trainsppoting

https://www.youtube.com/watch?v=01vXD623q2w&index=3&list=PLRH10Bl5Og1ikB5c3L9F0euFZuB9dIxRP


      “Tu choras sempre: ou porque choras, ou porque te ris” - um amigo com quem fui ontem cinema. Há umas semanas fomos ver ‘Lion – um Jornada para casa’. A história verídica de um jovem indiano adoptado por uma família da Austrália, onde vivia com os seus pais. A sua busca, pela mãe na Índia, fez-me chorar baba e ranho. Ontem, as lágrimas resultaram das muitas gargalhadas motivadas pelas diversas situações hilariantes da comédia negra ‘T2 Trainsppoting’.
Quem me conhece sabe que sou de lágrima fácil e sabe, igualmente, que, com frequência, as risadas são longas. Em particular se forem provocadas por um bom estímulo, como aliás era, sem dúvida, o caso. Foi de forma consciente que me contive. Estava numa sala cheia de gente que, como eu, estaria curiosa acerca do modo como Danny Boyle daria continuidade à história de um assalto, ocorrido duas décadas antes. O termo de comparação era elevado para aqueles que, como eu, viram o primeiro filme. Era, pois, necessário ter em atenção que as outras pessoas não tinham de levar com o meu riso, o qual, confesso, não me importaria de continuar – afinal, rir é tão bom quanto dançar e cantar.
            O que me transporta para outro filme, a que assisti no final do ano passado com o amor da minha vida: “Trolls”. Um filme animado com personagens tão coloridas como divertidas, cujas cenas alegremente deliciosas também me fizeram rir e rir. Os Trolls tinham como actividades de vida diária cantar, dançar e abraçar... Tão bom! Como não gostar? Como não gostar com um sentimento que não se pode conter, ou parar, como canta Justin Timberlake (os gostos não se discutem...). Os cabelos azuis, cor-de-rosa, lilases, prateados dos bonecos animados reanimaram a criança que eu quero (continuar, sempre) alimentar. O G olhava para mim admirado, para não dizer perplexo. Senti que também ele apreciou. Não obstante, não sei se terei sido eu a ser levada ao cinema. Ah, ah. Apesar dos seus oito aninhos, o G já viu tantos filmes que o seu sentido crítico deve ser tomado em consideração, até pelas questões que me coloca sempre no final: “O que é que gostaste mais e porquê? O que é que não gostaste e porquê?” – Se lhe respondo que não terá havido nada que me tivesse desagradado, insiste: “Então, o que é que gostaste menos...”
            É com os auriculares, ligada no YouTube, que escrevo enquanto escuto a banda sonora do ‘T2 Trainsppoting’ – uma das dimensões que, no filme de há vinte anos, me agradou sobremaneira. O efeito foi semelhante em mim e, presumo, em todos aqueles que tiveram oportunidade de o ver e depois dançar com a respectiva banda sonora. Se, na época, a sua originalidade impressionou, vinte anos depois a música é igualmente estimulante.
            É-me impossível ficar indiferente ao ritmo de Fujiya & Miyagy. Do mesmo jeito que as bandas The Prodigy e Underworld me fazem oscilar a cabeça e pescoço, as pernas... Estou sentada na biblioteca. Aposto que se estivesse em casa teria feito uma pausa para dançar... A música tem este dom. Razão pela qual admiro e respeito profundamente os artistas que me tocam desta maneira através da vibração e mesmo arrepios na pele. Iggy Pop, Frankie goes to Hollywood são mais dois exemplos da banda sonora deste segundo episódio.
            Houve várias cenas que me fizeram rir até as lágrimas, mas existem outras que me convidaram à reflexão. Nomeadamente quando Mark – interpretado por Ewan McGregor – disserta a uma velocidade estonteante sobre a expressão: ‘escolhe a tua vida’ – o lema da sua juventude. Após alguns minutos sem fôlego, pára repentinamente. Como se fosse picado por um moscardo. Como se se desse conta de que se terá esquecido que só ele tem o poder de escolher a sua vida, de decidir sobre a sua vida.
            Os Run-DMC regressam, como a chave de um baú de memórias... As ‘trips’ são poucas e, juntamente com as ressacas do Spud – a personagem que escreve para se libertar heroína –, lembram que por mais interessantes que aparente e ilusoriamente possam ser, as consequências são (quase) sempre devastadoras. Mas até sobre isso podemos rir – o ser humano tem a capacidade de tornar a vida ainda mais leve e aliciante quando sabe rir de si próprio.

            Resta-me agradecer à minha querida amiga MA, que me enviou o convite da Big Picture Films e assim ter, não só o prazer de ir ao cinema e rir e dançar assistindo a um filme cinco estrelas (é a minha opinião; vale o que vale), mas também de assistir, como diz o G vaidoso, antes de toda a gente, ah, ah. Muito obrigada!


23 de Fevereiro, 2017
Matosinhos, Portugal

Para o dia dos Namorados...*



Entre as diversas datas comemorativas de Fevereiro, este mês detenho-me no dia 14 – o dia dos namorados ou dia de São Valentim.
            O dia dos namorados sempre me encantou. Mesmo que nesta fase não seja namorada de ninguém, ou, como se diz em certas regiões, não namoro para ninguém.
            Quando fomos morar para uma vila da Maia, perguntavam-me amiúde para quem namorava eu – note-se que não tinha mais de catorze anos. Uma expressão bizarra, para mim. Não apenas pela minha tenra idade (coíbo-me de confirmar se teria ou não um namorico, ah, ah), mas também pelos termos incluídos: namorar para este ou aquela.
            Namora-se para alguém ou com alguém? Preciosismos à parte, há uns tempos, a questão transformou-se durante uma conversa com uma desconhecida, que me dizia: “Ah, o meu namorado... Não é meu nada. Não é uma coisa que possa trazer comigo no bolso. Isso é apenas uma etiqueta social...”
Na perspectiva daquela mulher, o ‘meu namorado’ carregava o peso da possessão. O ‘meu’ namorado, o ‘meu’ marido... O pronome possessivo antes do sujeito, neste caso de um namorado, passa-me ao lado, nos dias de hoje. De qualquer modo, a palavra namorado e as da sua família, como enamorado, ou enamoramento sugerem-me devaneios em forma de sorriso.
Estar enamorada por alguém ou por uma causa ou por um lugar, é um estado que, em meu entender, imprime energia amorosa aos gestos, às palavras, às acções, até às mais corriqueiras. Até mesmo na fisionomia. O rosto de alguém profundamente enamorado resplandece e, com muita facilidade, reflecte e espalha e projecta o seu enamoramento naqueles que o/a rodeiam.
Os olhos de quem está enamorado são especialmente selectivos: observam beleza e alegria em quase tudo e todos – daí as expressões prosaicas: o amor é cego ou quem feio ama, feio lhe parece. Ainda assim, é de salientar esta possibilidade manifestamente doce aquando do enamoramento (e reforço, seja por uma pessoa, causa ou lugar): a de a pessoa enamorada admirar amorosamente o mundo em redor. Ao ponto, creio eu, de se desviar de forma consciente do que aparentemente seria desagradável, desconfortável e outros adjectivos que os namorados tendem a ignorar naquele estado de deleite.
Também aprecio esta data pelo simbolismo decorrente de uma das lendas que estará na sua génese: a história de São Valentim.
De acordo com a informação recolhida, as comemorações no dia 14 de Fevereiro estão associadas a uma festa de fertilidade na Roma Antiga: o festival Lupercalia – uma festa de homenagem a Juno – deusa da mulher e do casamento – e a Pan – o deus da natureza.
É provável que a relação com os namorados decorra, no entanto, de uma lenda sobre o bispo Valentim que, no século III d.C., terá infringido o decreto imperial de Cláudio II. O imperador havia proibido a realização de qualquer casamento. Garantia, dessa maneira, a disponibilidade dos homens solteiros para serem soldados e assim integrarem os exércitos e as legiões, uma vez que os solteiros seriam os melhores combatentes.
O sacerdote continuou a casar todos aqueles que lho pediam, até ao dia em que foi descoberto e preso e torturado e condenado à morte. Enquanto esperava a execução da sua sentença, muitos foram os jovens que lhe enviaram flores e bilhetes afirmando que continuavam a acreditar no amor. Ah, o amor...
Existe ainda outra história para o mesmo sacerdote. A de que com efeito teria sido condenado à morte pelo mesmo imperador. Enquanto esteve preso ter-se-á apaixonado pela filha de um carcereiro. A donzela terá sido tocada pelo bispo, vivendo então um milagre: o de ganhar a visão, uma vez que, segundo a lenda, a bela mulher seria cega1. Ora, no seu último adeus, Valentim sabendo que a sua apaixonada poderia então ler, escreveu-lhe uma mensagem, assinando ‘Seu Valentim’ ou ‘Seu namorado’.
Qualquer invenção ou semelhança com a vida real é irrelevante, na medida em que está mais do que visto que o dia 14 de Fevereiro está aí para dar e vender postais, prendas, presentes, jantares e tudo o que se quiser ou puder, com o dia dos namorados.
Ora, escrever um postal ou uma carta (e, claro, receber um postal ou uma carta) é uma das demonstrações amorosas que mais me delicia (fica a dica). Por conseguinte, vou aproveitar a inspiração deste dia para enviar uma carta ou postal a alguém. Quem sabe eu própria venha a encontrar algo na caixa do correio...

PS: O dia 10 também passou a ser uma data relevante para mim – foi há um ano que a avó Altina partiu...

1. Neste texto utilizo o termo ‘cega’, pois depreendo que na época as discussões (teóricas) sobre a concepção de deficiência estivessem ausentes. Prefiro, no entanto, a expressão ‘pessoa com deficiência visual’. Desta forma, a deficiência é secundária à pessoa, sendo uma característica e não um rótulo limitador (é a minha perspectiva).

*Este texto foi publicado no jornal Chapinheiro

Borboleta Azul - um postal da América Latina



Este livro resulta de um conjunto de textos escritos ao longo de dois anos, sobre as viagens que tenho vivido. São, por esse motivo, curtas viagens sob o olhar de quem as viveu e sentiu. Umas vezes o olhar deteve-se no lugar, outras tantas o coração importou pessoas que marcaram os lugares. Escrever foi o modo encontrado para gravar as emoções e sentimentos que as experiências, pessoas e lugares providenciaram. Afinal, a vida é um caminho repleto de instantes, sendo certo, para mim, que a intensidade desses momentos não é quantificável pelas medidas do tempo cronológico, tão-pouco das distâncias mais ou menos percorridas.
As viagens escritas e selecionadas decorreram quase todas na América Latina, daí a escolha do título. Estão ainda incluídas algumas crónicas do Jornal Chapinheiro, um jornal da aldeia do meu pai. Aquelas que se escreveram enquanto vagueando além mar.
Alguns dos textos sobre pessoas que se impregnaram em mim são ficcionados. O modo encontrado para que essas pessoas se mantenham em mim pelo que me suscitaram, através das mais ou menos longas conversas partilhadas. 

30 de Janeiro de 2017
Matosinhos, Portugal

Feliz ano novo! *






Feliz ano novo!
Começa um novo ciclo de vida. Janeiro convida, inevitavelmente, a que se olhe para dentro, para que se sinta o privilégio de estar vivo e de se estar com energia revigorada para novos projectos. O Inverno, o frio, o vento, a neve nas serras, o sol a brilhar num azul pálido... elementos que, se acolhidos de braços abertos, podem ser transformadores e estimulantes para o movimento, para a renovação.
Se o solstício de Inverno nos recorda que a temperatura será um teste às mãos, também percepcionamos um aumento gradual da luz. Ainda que lentamente, os dias ganham mais um minuto, mais um raio de luz. E é tão bom observar, sentir a dádiva diária de um nascer e de um pôr do sol mais cedo, mais tarde...
Em Nogueira do Cravo, Janeiro também é o mês de degustar o queijo da Serra. Dizem os entendidos que o melhor queijo é produzido neste mês, resultante das ricas pastagens de Dezembro. E oportunidades para o saborear e partilhar não faltam. No dia de reis, por exemplo, temos mais uma ocasião de convidar e cear e, enfim, juntar o extraordinário e divino queijo amanteigado com ou sem pão, mas certamente com um bom vinho maduro tinto que, na zona do Dão, também o há e de muito boa qualidade.
Apesar de ser recorrente aludir ao dia um de Janeiro como uma data a enaltecer, repito-me. O Dia Mundial da Paz assinala, sem dúvida alguma, a importância de despendermos pelo menos alguns minutos sobre o que significa, na prática, o conceito de Paz. Se a ausência de guerra não me satisfaz para viver essa ideia de forma plena, confesso que neste ano que começa, essa ausência proporcionar-me-ia, pelo menos, uma certa tranquilidade. As imagens que nos chegam de países, como a Síria, são tão cruéis e devastadoras, que me impelem a tocar no assunto. A minha incompreensão face às razões que conduzem homens a matar outros homens, crianças, mulheres, suscita-me uma tristeza indizível, em particular pela sensação de impotência de fazer o que quer que seja, para evitar tal derramamento de sangue e destruição.
É verdade que a distância física sugere incapacidade de intervenção. Porém, existem gestos insignificantes que, acumulados e reproduzidos, têm o poder de, pelo menos, despertar consciências. Estar atento e não permitir injustiças ao nosso redor é desde logo um meio para auxiliar à Paz. Estar atento e agir de forma consciente e cuidada, em relação às pessoas que nos rodeiam, é desde logo um meio de promover a Paz. E de gesto em gesto, de cuidado em cuidado, passo a passo, vamos caminhando, podendo assim contribuir para a Paz.
Se é utopia não sei, mas sei que também está nas minhas mãos fazer algo por alguém que até desconhecerei. Isso não invalida de todo que outro alguém beneficie de um acto, mesmo que anónimo. Talvez suscite repercussões mais amplas, estendendo-se para outros ‘alguém’ anónimos e assim sucessivamente... Parecendo pouco, quem sabe seja uma gota de água. E um oceano mais não é que muitas gotas de água. Sejamos, pois, a cada dia uma gota de água através de um gesto, por mais pequeno ou insignificante que aparente ser.
A liberdade que se celebra no dia vinte e três ao nível mundial é uma data que nos lembra que há tanto e tanto a fazer para que todos, mesmo todos, possamos sentir que está nas nossas mãos viver de acordo com os nossos princípios, valores, sentimentos. Escolher em consonância com o que sentimos ser o melhor para nós e para os que nos rodeiam. E se a liberdade total está longe de ser alcançada, está seguramente, perto, de se promover, mais uma vez, através de pequenos, mas importantes, gestos diários. Como terá escrito Lao Tse Tung, uma viagem de mil quilómetros começa pelo primeiro passo. Quer isto dizer, se bem compreendo, que para qualquer grande empresa, por enormes e imensos que se afigurem os esforços, é quase sempre uma questão de perspectiva. Pequenos passos, a um ritmo possível, qual caracol ou tartaruga, podem ser o suficiente, o necessário para se alcançarem grandes distâncias, para se realizarem enormes empreendimentos.
Este mês também lembra pessoas idas... Este ano é a primeira vez que não uso deste espaço para parabenizar a Avó Altina, que no dia onze celebraria mais um aniversário. Se tal não acontece nesta dimensão, quem sabe numa outra qualquer... Na nossa memória, por exemplo. Pressinto que a morte física acontece, mas as pessoas que nos são queridas permanecem para sempre... nos nossos corações.
Feliz 2017! Que seja um ano repleto de pequenos e intensos momentos, repleto de pequenos e inúmeros gestos... Amorosos!

*Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

No último Natal


https://www.youtube.com/watch?v=E8gmARGvPlI 




Com ou sem certezas, a minha adolescência começou quando saíram os calendários com os cantores de música Pop, no início da década de 1980. Na revista Bravo, as fotografias de cantores como os Wham eram cortadas, coladas e admiradas por mim, pela Tété e pela Cristina nos Olivais Sul. Para além de participarmos e organizarmos campeonatos de bilas e de pião e de espeta, éramos acérrimas admiradoras dos ídolos que se começavam a formar nos nossos corações adolescentes.
Passávamos tardes no quarto da Cristina. Era ela quem tinha o álbum de vinil dos Wham, que incluía canções como Careless Whisper, Wake me up before you go... Ah, como nos imaginávamos nos braços daquele loiro de brinco na orelha: que ‘giro’, que ‘gato’, que ‘pão’... os termos utilizados para nos referirmos àquele que para nós era, seguramente, o cantor mais bonito à face da terra.
Com toda a certeza, a minha adolescência ficou marcada por uma figura paternal pouco exemplar, ahahah, mas também com certeza, marcada por uma figura assaz corajosa. Pelo menos é desse modo que fui interpretando as metamorfoses que o tornaram ‘older’. Amores rápidos, últimas tentativas com muita fé, em diferentes esquinas, íamos lá para fora, cantando com ele contra a xenofobia, contra o preconceito.
Escutando as músicas do ‘Last Century’, em liberdade, dancei, cantei muito feliz com a M.A em Coimbra, quando o George Michael nos presenteou em concerto, ao vivo! Terá sido odiado, criticado, mas certamente muito amado por quem sempre o admirou e cantou, escutando com respeito as letras que ao longo do tempo nos ofereceu, que connosco partilhou.
A notícia de hoje provocou uma torrente de doces memórias. Há que dizer, no entanto, que antes de viajar pelas recordações vívidas promovidas pelas músicas que ouço desde as onze da manhã, telefonei a chorar baba e ranha à L... Já não falávamos há quase dois anos, mas quando me atendeu, a L sabia muito bem a razão do meu telefonema. “As pessoas estão a ligar-me, como se eu fosse uma espécie de viúva...” As lágrimas eram assim facilmente substituídas pelo riso. Como não rir? O George Michael faz parte de nós, desde que despertámos para a música...
Morreu ontem, no dia de Natal. É quase certo que no próximo Natal o seu ‘Last Christmas’ seja ainda mais emotivo. Curiosa a data em que partiu, aos cinquenta e três anos: tão novo. Foi tão cedo... Neste ano que está prestes a terminar, as perdas são já algumas. Em Janeiro David Bowie, seguido de Prince em Abril e, há tão poucas semanas, Leonard Cohen...
Claro que a palavra ‘perda’ tem um sentido muito relativo quando é de vida ou morte que se trata. Não obstante, cada vez que alguma pessoa que me é querida se despede para sempre, o carácter definitivo do advérbio de predicado com valor temporal ‘sempre’ ganha novos significados. Neste caso, é provável que me venha a lembrar sempre do dia da sua morte, associando sempre a um último natal...

26 de Dezembro de 2016
Matosinhos, Portugal

Presa no elevador




Fiquei ‘presa’ no elevador.
Em primeiro lugar, há que dizer em minha defesa, àquele que me perguntou num tom de acusação – “mas tu andas de elevador?! Eu subo e desço sempre a escadas... e moro no sexto andar” – que “Eu também, não sempre, mas quase sempre”. O carácter definitivo do ‘sempre’ é muito difícil de ultrapassar; o mesmo se aplica ao advérbio de predicado com valor temporal, ‘nunca’.
Ora, o apartamento onde vivo nestes meses fica no oitavo andar. É com muita frequência que subo os oito lances de escadas (ainda não contei os degraus) e raramente desço de elevador. Nem quando vou para a garagem (no piso menos 1), onde está estacionada a bicicleta, que me leva a quase todo o lado. Como não me levaria ao aeroporto na sexta-feira passada, telefonei para a agência de táxis na véspera. Teria de sair de casa às cinco da manhã. Assim sendo, nem de metro poderia deslocar-me para tomar o voo para Lisboa.
Neste assunto esbarro nas eventuais argumentações para desconstruir a quase delação do meu amigo, com quem converso acerca de temas como reduzir a pegada ecológica. Se é certo que opto pela força motriz e evito o uso do elevador, as contradições e discussões interiores não cessaram, porém, nesta matéria (como em muitas outras... ainda muito a aprender).
O valor da viagem aérea era inferior à do comboio e o tempo a gastar, teoricamente, também compensaria. Chegando ao início da manhã teria a oportunidade de estar com pelo menos duas das pessoas amigas que residem em Lisboa. Por sua vez, o regresso seria pouco depois das oito da noite; o voo atrasou de tal modo, que entrei em casa à meia-noite. O que significa que o jantar – reles e caro no terminal 2 (também reles) – no aeroporto ficou por minha conta. Por conseguinte, não apenas aumentei estupidamente a minha pegada ecológica (o meu eterno dilema para as viagens...), como acabei por gastar mais que o previsto. Pior, corri o risco de nem sequer chegar a tempo do voo matinal – fiquei presa no elevador: às cinco da manha!
Acrescento que respondi plácida e serenamente ao meu amigo que a descida de elevador àquela hora da manhã se justificava: o tempo naquela caixa em sentido descendente permitiria confirmar a imagem, ainda que pouco tratada, no espelho. Um argumento deveras aceitável, que sustenta sem dúvida a ‘necessidade’ de utilizar o meio de transporte que também está ali para me servir – quando necessário for.
Até aqui tudo bem, não fosse o caso do elevador parar, bloquear, suspender o seu movimento, antes de alcançar o meu destino: o piso zero.
Foi uma estreia não muito agradável: havia um voo para apanhar. Não é propriamente o género de veículo a quem podemos acenar, espere um bocadinho, senhor piloto, que estou a chegar. Tão-pouco há como apresentar desculpas a uma companhia do tipo baixo custo – que, mais uma vez confirmei, de baixo custo pouco tem (pelo menos nas minhas andanças). A tal companhia, assim como outras, até aceitam razões para cancelar ou alterar datas de viagem, mas por motivos de força muito maior. Sei perfeitamente que ficar detida num elevador não é absolutamente nada de especial, mesmo que seja às cinco da manhã.
De qualquer modo, as primeiras imagens que assomaram, quando o elevador teimoso não respondeu às minhas tentativas para prosseguir até ao zero, foram as cenas de filmes onde há um criminoso entre os reféns dentro de um elevador bloqueado, onde o ar começa a ficar saturado até à asfixia quase total (o final feliz é recorrente), ou onde não há ninguém no edifício, eventualmente devoluto. Se a imaginação logo disparou, a primeira coisa que fiz foi verificar os pauzinhos no telemóvel, aqueles que me informaram que sim, podia estar descansada em relação à necessidade de efectuar chamadas telefónicas. Menos mal, não fosse o caso de na empresa do ascensor não existir ninguém no outro lado da linha... não obstante a placa informativa ter a indicação do contacto possível vinte quatro horas por dia.
Era o dia em que tal não se verificava. Logo no dia em que eu decidira dar asas à vaidade e logo no dia em que me deslocaria com as asas de um engenho, cuja pegada ecológica me fazia sentir imensamente culpada – vá, naquele momento isso não me passava pela cabeça.
O corpo reagia de forma natural à situação: suores quentes e frios, alguns tremores. Até porque foram várias as tentativas em vão para a empresa de manutenção. O alarme foi a estratégia seguinte, os vizinhos que me desculpassem da hora, mas estava cada vez mais assustada; precisava de ajuda! Apesar do som soar tão alto como uma sirene do INEM – para os meus ouvidos, pelo menos – depreendi que tal impressão auditiva, não passasse disso mesmo. Nenhum vizinho dava o ar da sua graça! Sete pisos com pelo menos seis habitações e não surgia viva-alma... às cinco da manhã.
E se supunha estar muito fresquinha e arranjadinha à saída de casa para me deslocar para a capital, as gotas grossas de suor que escorriam sem pudor pelas costas e peito eram um pormenor do qual me desviava – em particular por serem a expressão de uma emoção que começava a roçar o medo – ou um pouco mais forte, como o pânico... nah, não chegou a tal, só estava presa num elevador... às cinco da manhã.
O ensaio seguinte foi telefonar para a agência de táxis. Um, dois, três, quatro, cinco toques: atenderam! A minha voz era já embargada, para não dizer aos soluços e até mesmo temperada de sal pelas lágrimas que não se seguraram ao escutar a voz do homem do outro lado. De maneira que para além de estar a suar, lá se ia a pintura no olho. Felizmente decidira reduzir esse pormenor ao usual – um risco preto na linha de água. Água essa que apagou o leve artifício. Aquando dos preparos hesitei na aplicação da máscara para as pestanas; dispensei. Uma opção que se veio a revelar acertada, pois naquela altura os olhos estariam seguramente negros e esborratados – qual madalena.
“Pode dizer ao senhor taxista que estou presa no elevador e pedir-lhe o favor de tocar à campainha de algum vizinho?” – uma das frases que consegui dizer à pessoa que, do outro lado, me tentava acalmar. É de notar que a simpatia alheia não se ficou por aqui. Entretanto soaram vozes no exterior: duas vizinhas e o taxista.
A sorte parecia começar. Fiquei a saber que estava muito perto do piso zero – uma informação seriamente relevante para o desenlace. Uma das vizinhas logo contactou a empresa. Alguém atendeu e assegurou que um funcionário chegaria em vinte minutos. Eram cinco e dez. A percepção dos dez minutos anteriores fora equivalente a um dia inteiro. Eram cinco e dez. O funcionário estaria, com muita sorte, em vinte minutos no prédio. O voo era às seis e vinte. E eu acabara de dizer ao senhor taxista que a porta de embarque fecharia às cinco e quarenta e cinco. Eram cinco e doze. Perguntava-me se os vinte minutos seriam efectivamente vinte minutos.
Por esta altura estava mais serena. O pior que poderia acontecer era perder o voo. De resto, as histórias que uma das vizinhas partilhava não eram nada animadoras – uma delas ficara presa duas vezes naquele mesmo elevador, o da direita. Acrescentava pormenores quanto aos truques e manhas do ascensor. O que me mostrava que não só não era nada de extraordinário ter tido a pouca sorte de ficar presa no elevador, como seria apenas uma questão de tempo para dali escapar. Ora, tempo era ‘coisa’ que naquela madrugada não abundava, para mim.
Quer dizer, até tinha tempo ir para Campanhã e apanhar um comboio. A reunião que me conduzia a Lisboa estava marcada para o início da tarde – como tal, nem sequer tinha justificação para usar das asas para voar, por mais que seja uma metáfora que muito me encante.
E sentada no chão, com as mãos a segurarem ora a cabeça, ora a boina castanha, ora o lenço que limpava o ranho e secava as últimas lágrimas, visualizava-me num filme de Hollywood com a diferença que era a vida real – uma das diferenças; presume-se, e bem, que o glamour não me assistia.
Abri a carteira e verifiquei a impressão do cartão de embarque. Um laivo de esperança. O fecho da porta de embarque afinal era às 5:55h e não às 5:45h. De qualquer modo, havia dito diversas vezes ao senhor Dinis - o taxista a quem entretanto perguntara o nome - para se ir embora. Não me parecia de todo possível que o avião esperasse por mim. O senhor Dinis não ia nada embora enquanto não chegasse o tal funcionário da empresa de manutenção. A senhora Susana – a vizinha que se mantinha de pedra e cal, continuava a apoiar-me, adicionando mais detalhes às suas experiências naquele mesmo elevador. Ao mesmo tempo que se lamentava dos “vizinhos que temos”. Foi o seu cachorro quem me salvou. Latia e latia. Não se calou enquanto a dona não reagiu ao alarme que soava há uma dezena de minutos.
Pela sua experiência, fiquei informada que podia ser muito fácil ou muito complicado resolver aquele incidente. Podia ser uma tarefa muito morosa e sujeita a cuidados acrescidos. O que aumentava a minha sensação de estar a viver num filme, de cujo argumento e desfecho era ignara. Saber da necessidade do elevador ser manuseado desde a casa das máquinas – no nono e último piso – de forma manual para que a caixa não caísse despencada até ao piso mais baixo... comigo lá dentro!, não me tranquilizava. Dali não podia saltar. A queda podia ser no entanto a única saída.
Ou então, podia ser um exercício muito fácil. Bastava que o funcionário usasse da chave-mestra do elevador e a porta abrisse ali mesmo, onde me encontrava. Funcionário que finalmente chegou. Eram 5:35h quando ouvi a vizinha dizer-lhe que estaria muito perto do piso zero.
E não é que estava mesmo? No minuto seguinte, a porta abria-se e três pessoas olhavam para mim, que ainda estava sentada no chão. Só teria de saltar de um metro de altura. E saltei! Saí do elevador, dei dois beijinhos à senhora Susana que, desgrenhada e de roupão, aceitou a minha forma de agradecer o seu cuidado e ajuda. E saí rapidamente com o senhor Dinis, um homem todo aprumado, de fato e gravata pretos, debaixo de um sobretudo da mesma cor - estava frio!
De Mercedes e na esgalha, o taxista deixou-me na zona das partidas do aeroporto às 5:50h! Num corre-corre do balcão do check-in – que afinal podia ter evitado, uma vez que o tinha realizado anteriormente no site da companhia – segui a correr para o corredor de controlo e segurança e refreei os movimentos. Havia que esperar pela minha vez. O bulício àquela hora continua a surpreender-me. Após proceder de acordo com aquelas normas de segurança – que continuam a aborrecer-me – voltei ao passo de corrida. De cinto na mão, com os casacos pendurados, lá cheguei ofegante à porta de embarque. Onde ainda esperei... vinte minutos.
Eram 6:25h quando o avião descolou comigo lá dentro, rumo à capital. Ah, Lisboa... O susto ficou lá atrás, quando do lugar da janela os olhos se arregalaram com o céu em metamorfose. O azul índigo ia sendo substituído pelo laranja e o amarelo dourado e outros azuis. A tela que vislumbrava do rectângulo aéreo promovia mais emoções, dessa feita de gratidão por ter oportunidade de contemplar o nascer do sol, a pelo menos dez mil metros de altitude. Agradecia o dia que havia começado com a percepção de estar rodeada de pessoas que teimam em ser generosas para pessoas desconhecidas...

15 de Dezembro, de 2016
Matosinhos, Portugal

Tombos de 'bicla'



O último tralho de ‘bicla’ aconteceu na quinta-feira passada (feriado). O desconforto que acabei de sentir na coxa esquerda, devido a uma senhora nódoa negra, lembrou-me do incidente ocorrido há três dias.
Os dedos das mãos são insuficientes para contabilizar o número de ternos, tralhos, tombos, trambolhões ou quedas – para utilizar um termo mais adequado – de bicicleta.
Pedalava muito satisfeita no passeadouro de gravilha, contemplando o mar muito azul e alvoraçado de ondas espumosas, em Leça da Palmeira. O detalhe do piso em gravilha detém a sua relevância nesta descrição. Aparte da responsabilidade inerente e total da ciclista, as mãos e coxas e mais certas partes do corpo conheceram o chão escorregadio, precisamente pela natureza da via: a gravilha.
A música nos ouvidos foi subitamente interrompida pelo som do resvalar dos pneus – semanas antes inspeccionados e declarados carecas pelo pai; “são assim de origem”, apaziguou o moço da loja, dias depois. Alcatrão. A matéria mais apropriada para a bicicleta citadina em causa. Os cabos dos travões foram remendados horas mais tarde, pelo pai, com uma fita adesiva preta muito lisa e discreta. O cuidado paterno muito apreciado disfarçou a distracção com consequências aquém do desastroso – calças pretas cheias de pó, luvas da mesma cor esbranquiçadas pelo mesmo efeito e a senhora nódoa negra na coxa – essa mesma que invocou o terno e provocou a esferográfica.
“Faz parte” – em sorriso e com a música a ecoar novamente, após revista e ajuste do volante – o qual se ressentiu, mudando, carrancudo de posição. “Faz parte” – para um dos transeuntes que, como eu, desfrutava do final da manhã soalheiro e morno à beira-mar. Como ele, outros a manifestar algum cuidado ao ver uma pessoa estatelada no chão – ainda que por segundos.
A queda – regresso à palavra, possivelmente, mais apropriada – deveu-se à mudança brusca de direcção. Objectivo: sair do caminho de gravilha e ingressar na estrada. Guinar o volante, ou guiador, uma vez que é de uma bicicleta que se trata, resultou numa decisão pouco acertada – naquele instante a intenção era aproveitar o semáforo verde que dava passagem aos peões, para então avançar para estrada no sentido da casa paterna.
E lá fui, respirando fundo e afirmando também para mim, “Faz parte!” Como fazem parte do historial de ‘pseudo-ciclista’ uma série de muitos outros ‘tralhos de bicla’.
Em 2000 adquiri a primeira bike de BTT, muito vermelha e muito vistosa por quem alguém se enamorou, no final de 2013. Aquela que em vão procurei na Feira da Vandoma.  No decorrer desse início de milénio, participei no campeonato nacional de BTT-Orientação e nessas andanças, para além de desorientada e perdida com frequência, também com relativa frequência o verbo cair se concretizava de forma vívida. A queda que recordo desses tempos sucedeu numa experiência sem igual: downhill numa encosta nas redondezas de Chaves com os amigos do L – o amigo que sempre me incentivou para essas lides.
Voei! Literalmente. O pneu de trás ficou no ar e o da frente impulsionou-me num voo directo para a rocha que improvisava um trilho, não sem antes realizar um looping pelo ar que quase me provocou o vómito – talvez exagere. A inclinação do trilho era de tal forma graduada que não arrisco um valor. Felizmente o capacete também faz parte da indumentária sempre que saio com a bicicleta – hum... há uma ou outra excepção: quando vou cortar o cabelo ao F.
O valor do corte e, a bem da verdade, a vaidade, nesses dias ultrapassa o razoável, na mesma proporção da redução dos níveis de segurança – os desejáveis para quem pedala nas ruas de uma cidade, onde muitos automobilistas ainda não estão sensibilizados para a onda de ciclistas urbanos que vai crescendo em vagas. Quem sabe seja mais que uma moda e os responsáveis pela sinalização urbana aumentem o número de ciclovias (se por acaso este texto for lido por alguma pessoa com poder nessa matéria, aqui fica desde já o meu agradecimento antecipado por esse mesmo aditamento). Apresento mais um argumento deveras relevante para que aquelas excepções aconteçam e que é certamente bem compreendido por quase todos os elementos do sexo feminino que se deslocam no máximo três vezes por ano ao cabeleireiro – neste caso ao hairdesigner, como reforça o F. Com uma ‘mise’ fresquinha quem quer amassar, assapar, espalmar ou mesmo amarfanhar os cabelos muito lisos e muito bem penteados pelas mãos glamorosas e criativas (às vezes demais...) do F?
Pese embora o currículo de quedas seja vasto, existe uma quase queda que jamais esquecerei (assumo o carácter definitivo desse advérbio). Não cheguei a conhecer o outra margem do regato onde fui desembocar, após uma descida sempre a abrir numa prova de BTT – uma competição de pares de Road Book que realizei com o N, em Fevereiro de 2014. Um dos companheiros de vida do L e que me desafiou a acompanhá-lo nessa prova, a qual decorreu nos arrabaldes de Chaves. Nessa prova estreava uma bicicleta também muito atractiva para outro alguém. Mas essa espécie de fuga não me instigou a nova investida naquela feira das Fontainhas.

Guardo aquele quase tralho nessa prova de BTT pela frase que o meu companheiro de equipa proferiu. É de notar que ficámos muito bem classificados. Há que ressalvar que o N é um robusto e espadaúdo atleta, com forte espírito de equipa, ajudando-me em muitas fases ascendentes da prova – um simples toque na minha zona lombar tinha o poder de me empurrar pelos trilhos de vegetação densa e enlameada também – chovera na véspera. Um pormenor não despiciendo para alguém longe de ser ‘pró’, como eu. Muito menos agora, com esta bicicleta de cidade – um belo espécimen, há que dizê-lo e que muito me tem auxiliado nas deslocações, desde o natal do ano passado – o Pai Natal continua a ser muito generoso para esta menina, mesmo que nem sempre compreenda os seus representantes.
Quando, naquela famigerada prova, descia sem freios e a uma velocidade que até a mim me assustava, não tive a habilidade nem o discernimento necessários para efectuar a curva no momento certo. De maneira que travei no último instante com a ajuda de uma vedação fraca na sua função, mas suficiente para me segurar e evitar que voasse para a outra margem do regato ou mesmo para as águas geladas de um Fevereiro sempre invernoso. Com muita sorte disse apenas ao N, ainda aterrar do susto: “Ufa... quase caía!”
- Da próxima vez não tens de cair: salta! – ora aí está a sua resposta que fica para os anais da minha existência. Uma frase que quase se tornou numa máxima de vida: não há que cair, posso e escolho saltar. E quando de bicicleta, voltei a estar prestes a conhecer o relevo e protuberâncias de mais um chão, observei-me (nem sempre tranquila, confesso) na trajectória descendente, saltando.
Como é óbvio, saltar não evita as mazelas, mas estas são aceites como ‘ossos do ofício’ e, como é sabido, tudo passa. Todavia, se estiver consciente durante o salto, estarei mais atenta aquando do contacto em terceiro ou quarto grau com o solo, ainda que de forma, por vezes, dolorosa.
Desde então, tenho escolhido saltar e do mais alto que me é possível – quem sabe um dia até possa voar...


11 de Dezembro de 2016
Matosinhos, Portugal