Contemplando a chegada do Outono*


É com profunda gratidão que me detenho a contemplar a passagem das estações. Este sentimento envolve-me com cada vez mais frequência e, no que respeita às quatro estações, acontece sempre que se nota a respectiva transmudação.  Desde logo, por viver num local onde que as quatro estações ainda (ainda!) são facilmente perceptíveis.
Não é necessário ser a pessoa mais atenta para reparar na diminuição crescente dos dias ou no acentuado arrefecimento nocturno – cada vez mais acentuado e cada vez mais arrefecido. Assim como não é difícil observar o solo pejado de folhas secas, ora mais amareladas, ora mais acastanhadas até ao tom mais avermelhado – que nos lembra o porquê de ser a estação das cores quentes –, como acontece com as folhas dos plátanos que povoam as cidades do Porto e de Matosinhos.
É facilmente reconhecível que me reporto, neste caso em concreto, à transformação dos dias, cada vez mais outonais... não estivesse o Outono tão próximo – escrevo a três dias do Equinócio de Outono (que começa – começou quando estiver a ler – no dia 22 de Setembro às 20h02!).
Se bem que já me tenha debruçado sobre o Outono neste espaço, é mais forte do que eu! Talvez por pressentir e sentir que é, sem dúvida, um enorme privilégio observar, percepcionar com mais ou menos atenção os pormenores anteriormente mencionados. Pormenores, só na aparência – a minha opinião.
Como ficar indiferente à mudança de tonalidades das copas das árvores que, lentamente,  se vão despojando das suas folhas?
Como ficar indiferente à neblina matinal, cuja camada espessa cobrindo os lagos do Parque da Cidade (do Porto) me dá a sensação de estar num local misterioso?
Como ficar indiferente à distinta posição do Sol quando se despede diariamente?... cada vez mais cedo. Já reparou? Ainda há umas semanas podíamos ler sem luz artificial até às nove da noite...
Como ficar indiferente ao nascer do Sol, cada vez mais tardio? Nas últimas semanas tenho despertado com a Lua no céu... índigo.
E como ficar indiferente ao facto de ser possível percepcionar estas transformações num país no qual, ainda (reforço), se distinguem as quatros estações?
E, mais ainda, como ficar indiferente ao facto de me ser possível observar, sentir, cheirar, escutar os elementos da Natureza?
Não é um pormenor ver, escutar, sentir, cheirar e até degustar os frutos da estação. As laranjas da Quinta voltam a ser muito saborosas. Os marmelos já estão em formato marmelada e geleia (adoro!) e as castanhas começam a pintar os corredores dos jardins.
Ah...
E, quando Outubro chegar, tudo isto será ainda mais exuberante... até o frio!
Pode ser que haja tarefas, afazeres, actividades, ocupações, trabalhos, etc., muito mais relevantes do que a ‘mera’ contemplação. Pelo menos é esse o lema das nossas sociedades híper produtivas: “Seja produtivo!”  Sociedades em que o trabalho (ainda) é a condição humana, como defendia Hannah Arendt.
Mas não será a contemplação uma dimensão humana tão importante quanto o trabalho? Mais um pormenor, enaltecendo a Arquitectura (e também a Paisagista) – celebrada mundialmente na primeira segunda-feira de Outubro – que se repercute em espaços como o Parque da Cidade do Porto: este parque terá sido projectado por Sidónio Pardal, com o objectivo que este fosse um espaço, sobretudo, contemplativo. Os bancos de jardim, estrategicamente posicionados, em frente aos diversos lagos são disso exemplo.
Contemplar é um verbo – logo implica acção. Só na aparência a contemplação é passiva. Com efeito, estar de forma consciente em contemplação, a contemplar, contemplando, é uma decisão. É escolher admirar e reconhecer com gratidão a beleza que nos rodeia, que nos envolve... e que (ainda) nos está disponível.
Contemplar, para mim, é reconhecer que essa a beleza e harmonia da Natureza (por exemplo) não é um dado adquirido e que, só na aparência, acontece por acaso... Acontece, É!, também para nos lembrar que a vida não é garantida, que a sua precariedade é tão ou mais palpável que a morte. E que, assim sendo, é primordial contemplar cada instante, cada gesto, cada som, cada cheiro, cada cor, cada sabor, cada folha avermelhada que cada plátano nos oferece, só porque sim... aparentemente.
Bem-vindo (ao) Outono!

*Este texto foi publicado no Jornal Champninheiro

Em 2017, 71 a 17...*



           
            
           Dizem que o Natal é quando uma pessoa quiser. Partindo desta premissa, creio que posso dizer o mesmo em relação a qualquer outra data invocativa de uma qualquer celebração ou comemoração. Por exemplo, pegar na data de aniversário de alguém que represente uma figura comummente celebrada e enaltecer essa figura, um símbolo ou até a própria pessoa.
            Assim sendo, recorro ao espaço que me é concedido neste jornal de Nogueira do Cravo para evocar e exaltar o dia do pai. Neste caso, aproveito a data de aniversário do meu pai, o Amadeu Pereira, que em 2017 completa 71 anos no dia 17 de Setembro. Que engraçado... só quando registei no papel é que me apercebi da capicua: 71 a 17 (em 2017). Ora, ainda bem que pela primeira vez, em quase quatro anos, decidi escrever directamente sobre o aniversário do meu pai, do Pai.
            Parabéns!, pai Amadeu. Parabéns! por teres alcançado esta idade tão bonita, de forma tão jovem e jovial. Parabéns, pai!
            Obrigada, pai, por sempre me apoiares, até nas decisões mais difíceis, em que nem sempre terás compreendido os meus modos, as minhas escolhas, os meus caminhos... Obrigada!
Obrigada por me fazeres sentir protegida.
Poderia continuar a usar e abusar deste espaço no Chapinheiro para enaltecer o meu pai, prefiro, no entanto, louvar todos os pais e lembrar a todos aqueles que, como eu, têm o privilégio de ser filho ou filha de uma pessoa que fez, que faz e sabemos que fará tudo o que esteve, que está e estará (para lá do) ao seu alcance para nos ajudar, apoiar no que for (e até nem) for necessário – mesmo que em determinadas momentos lhes seja difícil lidar com aquilo que até nem concordam, com aquilo que até lhes causa algum desgaste. Mas acreditando sempre, como é o caso do Amadeu – e acredito que seja o caso de muitos pais –, que o caminho escolhido pelos filhos terminará num destino que afinal era o que eles, de um ou outro modo, sempre desejaram, sonharam e trabalharam para que fosse atingido: a felicidade dos seus filhos.
Sim, porque sei que não estou a escrever sobre um amadeu ou um pai em particular. Reporto-me a qualquer progenitor. Todos, sem excepção, fazem o melhor que sabem e (quase) sempre o melhor que podem para assegurar o bem-estar e felicidade dos seus filhos. Ainda que não saibam quais os princípios para a felicidade dos mesmos. Afinal, esse conceito é tão abrangente quanto relativo, tão desejado quanto ambíguo e tão simples como difícil de o viver na prática. Não obstante, é sem dúvida esse o objectivo da maioria dos seres humanos: ser feliz. Sabendo que num mundo onde os valores são vividos de forma relativa, em que tudo depende de tudo (ou até de nada).
Por aquela razão relativa, também sei que o que me faz feliz é (ainda) distinto daquilo que faz o meu pai feliz. Como é distinto em todas as pessoas que têm entre si, pelo menos, duas décadas de vida vivida.
Importa-me destacar a ideia de que ser filha de um pai como o Amadeu, é, indubitavelmente, um privilégio. Um privilégio do qual me sinto profundamente grata – ainda que em determinadas épocas tenha sido eu a não compreender certas decisões suas. E isto é válido, estou certa, para quase todos os filhos que nem sempre concordaram em seguir o caminho apontado e até escolhido pelo seu pai.
Repito-me: o meu pai, sei e sinto hoje, fez e escolheu e decidiu de acordo com a informação que lhe estava disponível e, como tal, do melhor modo que lhe era possível. Muito obrigada, pai!
Bom, agora que tive os meus dez minutos, não de fama, mas de atenção do querido ou querida leitora, faço-lhe um convite: vamos ao cinema. Humm... não é uma ida ao cinema vulgar. Convido o leitor ou leitora a sentar-se na poltrona da sala – aquela em que o pai se costuma sentar para ver o jogo do Sporting (ahah), para ler o jornal ou fazer a sesta. Não sem antes resgatar uma fotografia da sua infância em que está a jogar à bola, ou a andar de bicicleta ou a jogar ou a brincar ao que quer que seja com o seu pai. Observe a imagem, já sem cor, mas vívida na memória. Pouse a fotografia e feche os olhos, em silêncio, e viaje até esse instante e deixe-se levar pelas cores, pelos cheiros, pelos sons das gargalhadas...ahhhhh

*Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

Fotografia de um instante*



Há palavras que nos tocam como beijos de uma criança.
Há sons que nos adentram como o abraço da avó.
Há cores que se espalham tão brilhantes que nos iluminam o caminho.
Há gestos simples que, de tão subtis, se sentem como uma leve brisa de Primavera à beira-mar.
Há bebidas tão suaves, que nos alimentam tanto como um fausto jantar.
Comecei deste modo, a propósito da obra “A quinta dos animais”, inicialmente traduzida para português como “O triunfo dos Porcos”. A sua publicação remonta a 17 de Agosto de 1945. Um livro da autoria de George Orwell que me tocou profundamente. Há palavras que continuam (e continuarão) a reverberar em mim. A parábola do autor é, na minha perspectiva, uma metáfora muito actual. Actual em demasia, diria até. Em particular quando se resgata o último dos princípios instituídos pelos animais. Um princípio adulterado pelos porcos que se encarregaram de liderar, de forma totalitária, os restantes animais em revolta contra os proprietários da Quinta do Infantado: “Os animais são todos iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”. Na sua origem, o mandamento era ‘apenas’: “Os animais são todos iguais”.

O que resta da essência da Política? Aquela que se reportava à organização de uma cidade-estado, a cidade dos cidadãos. Quando os cidadãos que a ‘administram’ se posicionam como mais iguais do que os outros, com mais direitos do que aqueles a quem, em teoria, estão a servir...
Servir ou controlar. Como noutra obra tão ou mais emblemática do mesmo autor: “1984”. O fictício (?) ‘grande irmão’ é de tal ordem visível na sua ‘invisibilidade’ aparente, que a distopia publicada em 1949 continua a ser fonte de fervorosos debates. Actualmente, quando se pára para reflectir um pouco – neste tema, nem sequer é necessário aprofundar o nível de reflexão –, é facilmente perceptível que não existe (quase) nada que escape ao controlo e escrutínio alheio.
Se parte da responsabilidade é individual, uma grande parte é totalmente incontrolável e mesmo desconhecida do comum dos mortais. Só quando nos detemos em determinados pormenores (só na aparência) despiciendos é que nos ocorre questionar: Como diabo é que isto veio aqui parar? Como diabo se sabe que estou aqui ou acolá a fazer isto ou a comprar aquilo?
Dá que pensar...
As teorias da conspiração – se é que são teorias e se é que são conspirativas – deixaram, no entanto, de ser uma fonte de ‘pre-ocupação’ para mim. Há muito que compreendi que não tenho controlo sobre quase nada, tão-pouco sobre a minha própria privacidade. Desisti de me incomodar. Guardo a energia para dimensões mais relevantes e enriquecedoras.
Procuro ler mais, por exemplo.
Escuto mais música.
Abro mais os olhos para caminhar de forma mais atenta.
Uso menos roupa, menos coisas, para assim captar melhor a temperatura dourada do sol de Verão.
Saboreio mais lentamente um refresco de melancia, sentindo o abraço dos meus sobrinhos, que são cada vez mais.
“Tiaaaaa!!” – o Rodi, a Matilde e a Carlota. Uau! As lágrimas até saltam quando o Gu me pergunta expectante: “E tu vens, tia?” (ao espectáculo de Dança onde, entretanto, actuou muito feliz por estar em palco a realizar o que adora).
Quando a Íris sorri e ri... Ah, um ano já: a Íris, no dia 9 de Agosto! A minha ‘sobrinha’ mais nova. Há mais ‘sobrinhas’ e ‘sobrinhos’ das minhas amigas – ‘irmãs’ que me acompanham e enchem o coração.
Que bom que temos máquinas fotográficas; desse modo temos como gravar instantes de alegria; desse modo temos como tornar esses instantes eternos, não apenas no coração, mas também na memória futura.
No dia 19 deste mês comemora-se mundialmente a fotografia. A data que a Academia Francesa anunciou como sendo da invenção do daguerreótipo, em 1837, por Louis Daguerre. O daguerreótipo foi considerado, então, como um presente de Daguerre para o mundo. E nós agradecemos a possibilidade de fotografar, mesmo que as fotografias se fiquem pelo formato digital. Pelo menos assim não se gastam recursos...

Contudo, tenho de confessar que a fotografia impressa dos meus sobrinhos e das pessoas que me são queridas são e serão um dos presentes que me acompanham, também nas viagens. Até porque me transportam em viagens... no tempo e no espaço.

* Texto publicado no Jornal Chapinheiro

Mapas e fronteiras...*



 No dia 1 de Julho, a TAP – transportadora aérea portuguesa – celebra mais um aniversário. A sua inauguração ocorreu em 1953. Mas em Portugal, é sabido, esse é apenas o corolário de séculos de histórias, de séculos na História dos Descobrimentos. Não fosse o povo português um povo ávido pela descoberta de novos ‘mundos’.
Foi em Julho, também, mas no dia 8 em 1497, que Vasco da Gama iniciou a viagem marítima desde a Europa, até à Índia. É possível que o ensejo para os Descobrimentos tenha sido suscitado pela necessidade de expansão, de expansão do território. Sendo certo que não existia mais espaço terreno a conquistar e descobrir nas imediações, o mar, o além-mar tornou-se o desconhecido a descobrir... a conquistar, também...
É de realçar o contributo que os portugueses, desde o início do século XV até meados do século XVI, tiveram na composição dos mapas através das explorações marítimas por todo o mundo. O ‘Planisfério de Cantino’ ilustra isso mesmo, sendo a mais antiga carta náutica portuguesa conhecida. Data de 1502 e resulta daquela mesma viagem de Vasco da Gama, juntamente com a de Cristóvão Colombo à América Central, Gaspar Corte-Real à Terra Nova e a de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, em 1500.

Já no século XX, outras viagens se estrearam. Viagens que, pelo menos na minha perspectiva, demonstram o desejo incontestável da humanidade em descobrir novos lugares, lugares além do limite planetário. E assim, em 1969, no dia 16 de Julho, era lançada Apollo 11 – a primeira missão espacial tripulada que quatro dias depois (contabilizados pelo relógio terreno) aterrava na Lua. E assim, no dia 20 de Julho de 1969, Neil Armstrong era o primeiro homem a pisar solo lunar. Materializava, deste modo, o mapa lunar, ampliando, por consequência, a espacialidade ‘palpável’ do universo.
Se este evento já aqui foi referido, o tema desta crónica motiva-me à sua alusão. Tão-somente demonstra a necessidade que o ser humano tem de conhecer e expandir os seus limites. A necessidade, parece-me, de ultrapassar as suas próprias fronteiras, sejam elas físicas, territoriais, sejam psicológicas, emocionais, ou de qualquer outra índole. Por conseguinte, questiono-me amiúde acerca da possibilidade de vivermos sem limites, sem fronteiras – reporto-me, em concreto, à ausência de limites e fronteiras territoriais, à ausência de muros fronteiriços e todos os sinónimos que se possam aqui incluir.
É muito provável que as viagens me tenham aberto os olhos, bem como ampliado os outros sentidos para outras experiências sensoriais. Sim, são incontáveis os estímulos a que tenho estado sujeita, através do espaço além-fronteiras e, por consequência, experimentando a passagem de fronteiras; uma passagem tantas vezes aborrecida.
‘Aborrecida’ é um adjectivo aplicável para quem se vê obrigado aos procedimentos de segurança, controlo e vigilância dos serviços de estrangeiros e fronteiras. É uma situação ‘aborrecida’ pelos incómodos que causa a todos quantos viajam por uma razão ou por outra. Todavia, esse é apenas um dos inconvenientes das fronteiras. Talvez seja o mais facilmente aceite, de todos os aspectos desconfortáveis inerentes às viagens. Pode passar a imagem de uma menina petulante e/ou mimada. Mas trata-se, sob o meu ponto de vista, muito mais do que um contratempo. Para mim, é a constatação da fronteira, do limite, do muro construído que obsta a um passo livre no território, a mais um passo no mundo, no planeta.
Por isso, mimada ou petulante, em cada passagem pelos corredores fronteiriços, em cada carimbo no passaporte, questiono-me sobre a necessidade, para mim vazia de sentido, em abrir ou passar pela câmara de vigilância os meus poucos pertences, como se de uma criminosa se tratasse. Ademais, nos dias de hoje, a distância que separa o criminoso de um terrorista é uma separação apenas aparente. Aos olhos de quem controla os postos fronteiriços todos são suspeitos, todos sem excepção são alvo de controlo. Todos sem excepção são vigiados: para quê? Para manter a ilusão: “O meu país está seguro”, ou, “No meu país, só entra quem eu quero”, ou “No meu país quem manda sou eu”. No limite: “Este país é só para quem eu deixo entrar”.
Estou a exagerar, é certo. Mas o exagero permite a caricatura e a caricatura também é o excesso possível: um excesso visível!
Seria interessante perscrutar os políticos – os presidentes das repúblicas, ou federações por exemplo – e incitá-los a desenhar o mapa do mundo à luz dos seus desejos mais recônditos, mesmo que insidiosos. Seria interessante observar a dimensão que cada um daria ao ‘seu país’. Talvez baste abrir os manuais de geografia e história de cada país. Talvez a comparação mostre diferenças no destaque. O mapa-múndi da Rússia será certamente díspar do mapa-múndi dos EUA.
Pergunto-me, ainda, se a perspectiva com que nos são mostrados os mapas é casual. Porquê o norte assim e o sul assado, colocando no hemisfério norte os países ditos desenvolvidos... quando o planeta Terra é redondo.

Bem sei que estes são assuntos algo polémicos. Na verdade, se se pensar no primeiro Rei de Portugal, nascido no dia 25 de Julho de 1109, e se se pensar no seu cognome – o Conquistador –, logo se encontram mais achas para a fogueira da territorialidade e para o desenho dos mapas políticos... e quantas vidas se continuam a perder para ganhar mais um centímetro de poder...
Para terminar e terminar de um modo mais terno, relembro o dia 26 de Julho: o dia dedicado aos avós. Este ano exaltarei os avós dos meus queridos sobrinhos, e o leitor e a leitora?

*Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

Na Casa do Povo de Nogueira do Cravo*

Fotografia de Amadeu Pereira


É inevitável, para mim, que a crónica deste mês se reporte à apresentação do livro, Borboleta Azul – um postal da América Latina.
Após o lançamento em Fevereiro passado, foram realizadas três sessões de apresentação, a última das quais na Casa do Povo de Nogueira do Cravo, no dia 7 de Maio.
Foi com grande alegria e satisfação que regressei ao Porto no final da tarde desse Domingo, o corolário de um processo que envolveu diversas pessoas e entidades. É por esse mesmo motivo que me sinto impelida a referenciar essa sessão. O cuidado e atenção de que fui alvo confirmam-me, mais uma vez, como sou uma pessoa privilegiada. De facto, as pessoas que me rodeiam e as circunstâncias que me são concedidas viver provocam-me constantemente um profundo sentimento de gratidão.
Quando entrei na Casa do Povo fiquei extasiada. A sala de soalho, onde tantas vezes dancei nos bailaricos e festas da Aldeia, estava diligentemente preparada. Nas cadeiras enfileiradas sentaram-se muitos familiares e amigos que fizeram questão de demonstrar o seu apoio e afecto à neta da Tia Altina.
Por detrás da cortina do palco, onde fui atriz de teatro durante um Verão da minha adolescência, ensaiava o Grupo de Danças e Cantares de Nogueira do Cravo. Quando tudo ficou a postos, escutei e meneei-me com as alegres canções do grupo, amorosamente empenhado, que dava então início à sessão.
A mesa estava linda. O centro de flores coloridas enchia o meu coração, sobre a toalha cujo bordado reconheci – o desenho e o ponto de flor eram seguramente da avó Altina e da tia Lurdes. Na parte frontal da mesa encontrava-se pousada uma borboleta azul. Houve alguém que com muita arte e bom gosto desenhou, recortou, pintou e decorou uma bela mariposa índigo! Ah!
As palavras escutadas enaltecendo o livro e a autora comoveram-me sobremaneira, mostrando-me que sem dúvida alguma estava em casa; tão bem acolhida me sentia.
No final, depois de autografar os inúmeros livros que as pessoas Presentes adquiriram (muito obrigada!) foi tempo de lanchar. Sim, porque para além da mesa central, havia uma outra repleta de variados doces e salgados. E não é que também o delicioso bolo de chocolate estava decorado com borboletas??!!
As dádivas não se ficaram por aqui. Para além de ter a ocasião de rever pessoas queridas com quem há muito não estava, fui agraciada com uma peça laboriosamente executada para o dia: a ferramenta do ardina – o símbolo de Nogueira do Cravo, com uma dedicatória alusiva à apresentação da Borboleta Azul na Casa do Povo de Nogueira do Cravo.
Torna-se, por consequência imperioso, agradecer, mais uma vez, a todos quantos estiveram implicados na organização e preparação da sessão. Desde as pessoas do Jornal Chapinheiro, às pessoas da Casa do Povo, da Junta de Freguesia de Nogueira, da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital e, claro, do Grupo de Danças e Cantares.
Se o/a leitor/a me permite, coíbo-me de citar nomes. Não vá dar-se o caso de, por lapso, alguém ser omitido. Como sou humana, não seria estranho que tal acontecesse. E não quero, de todo, incorrer em erros ou indelicadezas. Acredito que todas as pessoas que contribuíram para a minha felicidade se sintam incluídas. E foram todas as que estavam na sala e todas as que por algum motivo não lhes foi possível estar.
De facto, sinto-me feliz e profundamente grata. Cabe-me, no entanto, referir, que a minha felicidade só será total quando receber o testemunho de que o livro ganhou novas vidas.
A(s) vida(s) de ser aberto e lido e partilhado. Afinal, como muito bem afirmou um dos queridos intervenientes durante a sessão, a obra só está completa quando é lida. Assim sendo, convido todos os leitores e leitoras do Chapinheiro a abrirem o livro numa página ao acaso e a lerem uma das curtas histórias. Desse modo, em cada visita ao livro, este renascerá e terá oportunidade de continuar a viver, novas vidas...
O livro, seja este ou qualquer outro, é muito mais do que um objecto. É um transporte que deseja sair da estante. Convida à leitura e, através desta, à viagem.
Para mim, essa é uma das grandes riquezas de um Livro: ser um passaporte para outros mundos, para outras culturas, para outras pessoas, para outras vidas. Atrevo-me a dizer, para mais Vida. E sem grande esforço, sem sair de casa. Ler, para mim, é viajar, é conhecer e aprender.
Quem sabe o voo da borboleta estimule o leitor e a leitora a continuarem a ler, a viajar, nem que seja de uma página para outra, de um livro para outro... 

* Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

Expandir



Expandir. Um verbo muito utilizado por P no regresso do último retiro de Vipassana em que participei, em Janeiro passado.
O contexto e o modo como P proferia a palavra, frisando diversas vezes a necessidade de contemplar o mar e a linha do horizonte, paira, desde então. Este é o segundo ensaio para a sua integração, tal o impacto que o termo me causou.
Passaram mais de três meses desde a viagem de Tavira para Lisboa. A alteração da boleia, meia hora antes da saída, proporcionou-me um passeio pela Costa Algarvia e pela Costa Vicentina. Se é verdade que poderia ter chegado ao Porto dez ou onze horas antes, também é verdade que o passeio de carro expandiu o meu vocabulário sensorial.
Após dez dias em silêncio meditativo, a P avisara à saída que desejava ver o mar, pela necessidade que sentia de se expandir. O retiro de Vipassana ampliara o seu ser e a linha azul do vasto horizonte seria um modo de abraçar a infinitude do seu ser – dentro do possível.
À época morava num apartamento, no oitavo e último andar de um edifício, cuja altitude e proximidade ao mar me permitiam a sua contemplação constante. Enquanto realizava as refeições diárias e me sentava para trabalhar na mesa da sala, o meu olhar era insuficiente para abarcar a vastidão oceânica. A Qualidade e a Força do verbo, sugeridas por P, ajudaram-me finalmente a atentar e a captar o seu significado, experienciando-o de forma consciente. Desde então, a linha do horizonte insinua-se dia após dia, num azul distinto em cada manhã, mostrando-me irrevogavelmente uma vida sem limites.
Se aquela necessidade de P me chegou a impacientar pelo avançar das horas, hoje reconheço que a linha do horizonte, o mar, o oceano se tornaram elementos ainda mais relevantes para mim, consagrando o seu estatuto venerável.
Em cada passeio à beira-mar, em cada regresso a casa que me proporcione um  percurso ladeando as praias, sou envolvida pelo sentimento de gratidão. Sou igualmente estimulada a reflectir sobre o termo que P aplicou ao abrir os braços na Ponta de Sagres.
A imensidão do oceano é comparável à vastidão que me esmagou quando estive no deserto de Atacama ou quando caminhei na cordilheira dos Andes.  A comparação que arrisco deve-se à angústia que me assoberbou. A confirmação vívida da minha pequenez ante o infinito, incomensurável, a grandeza que a Natureza exibe e oferece sem hesitar.
Compreendo finalmente, dentro do que me é possível, experienciando e indo, por isso, para além da teoria, um conceito muito caro a Kant: sublime. Um conceito em que me detive anos a fio, nos estudos académicos sobre o a vivência do Risco.
Os meses que tive o privilégio de me sentar à janela do oitavo andar encetaram transformações no modo de apreender a incomensurabilidade da linha do horizonte. Se, por um lado, entrevia o infinito como imensidade, como expansão; por outro lado, era assaltada pela noção de limite e fronteira. Se, em ocasiões decisivas, a tranquilidade era o estado perante um porvir desconhecido – a possibilidade de ser imenso, vasto, ilimitado, infinito: podia ser qualquer coisa, em qualquer lugar, com qualquer pessoa –; ocasiões houve em que me observei eminentemente limitada.

A frase seguinte, de Mempo Giardinelli, ajuda a expressar-me: “A imensidão tem essa virtude: de tão ilimitada impõe limites”1. O limite da minha própria existência, da minha própria finitude, das minhas limitações físicas, psicológicas e emocionais. Sou, pois, impelida a questionar-me de forma constante: Qual é o meu limite? Até onde posso ir?
Essa imensidade, essa impossibilidade de abarcar a totalidade da vida, por vezes influencia-me negativamente, como diria Ryzard Kapuscinsky. Pois como continua o autor, referindo-se à Rússia, tudo perde o vigor, se dilui, se afunda na imensidão disforme. Se, por um lado, o mundo, a vida ela própria, é “um espaço amplo, aberto e infinito, por outro, essa mesma imensidão sufoca tanto que nos tira a coragem e não conseguimos respirar”2.
Creio que os limites que pressinto, e amiúde me imponho, ressurgem pelo receio do desconhecido: estabeleço (mesmo que de modo inconsciente) uma linha intransponível e, no medo, escuto a voz interior: só posso ir até aqui, para lá deste muro (mesmo que invisível) está o incognoscível; quero eu atravessar essa passagem apenas visível ao medo? Mesmo sabendo que esse medo me terá sido incutido socialmente... mesmo sabendo que é um produto cultural e historicamente desenvolvido?
Das fronteiras físicas que o meu corpo impõe emergem os desassossegos face à vastidão do deserto, das altas montanhas, dos mares e dos oceanos.
De quando em vez sinto uma certa coragem e abro-me e dou espaço ao silêncio apaziguador. Coloco-me frente a frente com o desconhecido, com o que está para além de mim.
E compreendo então que a fronteira que me limita é um corpo permeável, cuja entropia permite a expansão do ser que em mim habita. Se me permitir à mudança, se me permitir despir do medo construído pelos acordos sociais a que fui submetida pela formatação social e histórica, tenho possibilidade de multiplicar as perspectivas do meu olhar que, ganhando novos ângulos, provoca inevitavelmente um aumento da amplitude do ser em mim.
E rendo-me então: talvez o céu azul celeste não é seja o limite, talvez a noite mais ou menos estrelada, com ou sem luar seja alcançável.
E lembro-me então que o corpo em que me escondo é um limite só para mim intransponível – se acaso me esquecer que o universo é ilimitado.
Se me entender como um fractal, relaxo e compreendo que em mim cabe o mar imenso, a vastidão do deserto e o horizonte infinito.
Abro os braços, como fez P, e deixo-me invadir pelo som ondulatório na areia, pelo odor fresco da maresia e pelo céu azul e expando-me. Sou muito mais que o corpo físico. Sou o universo inteiro, infinito, ilimitado. Sou o oceano da vida, expandindo-me em cada P que importo em mim, em cada grão de areia do deserto, em cada gota de água da chuva, do mar, em cada estrela e noite de luar.
E o mar à vista é, enfim, o meu limite infinito, se me permitir expandir.


10 de Maio, de 2017
Porto, Portugal

1.     Fim de Novela na Patagónia, Mempo Giardinelli, Quetzal
2.     O Império, Ryzard Kapuscinsky, Campo das Letras

Maio, ao Sol*

       
         Quando se desliza de forma elegante pela superfície dos dias, ou de modo consciente pelos caminhos do tempo, é possível distinguir o sorriso de uma criança.
            Desenrugando a testa, elevando o olhar e estendendo os braços, é possível captar os raios silenciosos da grande estrela: o Sol. Para a sua celebração, para além de muitas outras ocasiões mais ou menos festivas, estipulou-se o dia três de Maio, para que nos lembremos de homenagear - pelo menos neste dia - a nossa principal fonte de luz, fonte de vida.
            Num céu de silêncio, ao amanhecer, escolho, com frequência, alongar os meus dias, iniciando-os em contemplação. Caminhar, correr ou mesmo sentar-me na primeira hora do dia, dá-me oportunidade de inspirar a espessura do Sol nascente. Observo a transmudação das cores: o cor-de-laranja passa a amarelo dourado e, sem que me dê conta, o sol está mais alto num amarelo pálido, quase branco. Os seus raios atravessam as árvores, escorrendo em fios de luz até ao solo vibrante. As copas resplandecem num verde exuberante e as folhas exalam o vapor de um orvalho que se vai dissipando... devagar.

            Maio, quando a Primavera segue embalada no azul dos dias imensos, ao som da sinfonia das aves multicolores, é o mês que mais aprecio. O meu mano faz anos, por exemplo. Mas não só.
            Enquanto estudante universitária, havia uma semana de boas razões para a minha preferência. A enxurrada de memórias formiga incessante... o sorriso é acto contínuo.
            Enquanto professora na faculdade era, igualmente, com regozijo que recebia essa semana académica: uma semana sem aulas - umas quase férias.
            Nos dias que correm, o meu olhar inunda-se de emoção, pelas minhas amigas que recentemente são mães pela primeira vez. Aquelas que admiro profundamente pela coragem de seguir os seus anseios maternais, mesmo depois dos quarenta anos.
            As noites serenas e suaves, em que a lua cheia nos presenteia com a sua luz morna, enchem-me o coração, recordando-me que a liberdade vai e vem, quantas vezes como as marés. Talvez seja por esse motivo que se terá instituído um dia para celebrar mundialmente a liberdade de imprensa, também a três de Maio.
            Inspiro profundamente, uma, duas, três vezes e prossigo, reflectindo sobre a liberdade de um modo geral e a de imprensa em particular. Os olhos doem-me com as notícias que a cada dia nos pesam, enfraquecendo e, em muitos locais, aniquilando as acções e operações de quem se arrisca a divulgar o que nem sempre é desejável que se torne púbico.
            A realidade contaminada rompe muitos corações. Mas a resignação fatalista também não é visível, tão-pouco, aceite por aqueles que se entregam a salvar vidas. Refiro-me aos médicos e enfermeiros que edificam uma das maiores, senão mesmo a maior instituição humanitária do mundo: a Cruz Vermelha. Como o seu fundador, Henry Dunant, nasceu a oito de Maio, escolheu-se esse dia para enaltecer todos quantos se dedicam às vítimas, tendo como princípios de acção a humanidade, a imparcialidade, a neutralidade, a independência, a unidade, a universalidade e o voluntariado. Princípios que, apenas na aparência, são facilmente colocados em prática no quotidiano de todos nós. Com efeito, as notícias que nos chegam de muitos lugares mais ou menos distantes revelam, tristemente, como os homens agem sem qualquer sentido de humanidade.
            A mim, cabe-me, com a liberdade que me é conferida, pelo menos lembrar que, mesmo que não tenha capacidade de acção ou de decisão a um nível macro, tenho o poder de contribuir a cada instante para o bem-estar das pessoas que me rodeiam. Cabe-me, dentro do que me é possível, aplicar e viver os mesmos princípios da Cruz Vermelha, em cada interação social em que me envolvo. Sejam as pessoas mais ou menos próximas. Todas são, sem excepção, seres da mesma Natureza.
            Além de outras comemorações em Maio, o dia vinte e dois é dedicado ao autor português. É-me impossível deixar passar esta oportunidade... No dia sete estaremos na Casa do Povo de Nogueira, a fim de apresentar o livro Borboleta Azul, um postal da América Latina. Aí, o leitor e a leitora encontrarão diversas crónicas do Chapinheiro que foram escritas enquanto além-mar. Será, certamente, um dia muito feliz para mim, pois haverá tempo e espaço para partilhar as experiências vividas com as pessoas de Nogueira. São, pois, todos muito bem-vindos nessa tarde do dia de todas as Mães.
            Desta vez posso terminar esta crónica com um até já, Nogueira do Cravo! E muito obrigada ao Chapinheiro pela alegria de poder contribuir, de alguma maneira, para o jornal da nossa Aldeia. 

*Este texto foi publicado no Jornal O Chapinheiro

Fora da caixa...*




            A Primavera chegou e o azul do céu está mais azul. Um dos motivos que torna esta estação fonte da minha predilecção. Outros elementos irrefutáveis há, nomeadamente a exuberância dos aromas das árvores em flor, os cantos apaixonados dos pássaros esvoaçantes, o toque dos raios solares mais quentes, que se estendem cada vez mais e por cada vez mais minutos ao longo do dia.
            É tempo de renovação. O clima convida à limpeza, abrindo as janelas que durante o Inverno permaneceram fechadas; abrindo armários e libertando-os das roupas mais quentes, mais escuras. Uma das práticas habituais nesta mudança de estação é a de examinar a roupa: aquela que não é usada há pelo menos dois anos é oferecida a quem eventualmente possa dar-lhe mais e melhor utilidade. Desse modo, cria-se espaço no armário, ao mesmo tempo que outra pessoa lhe dá uma nova vida.
            Num dia de Primavera1, os olhos podem demorar-se numa amendoeira em flor, enquanto o polegar e o indicador podem segurar uma gota do orvalho reflectindo os primeiros raios de sol. Num resplandecente amanhecer, os ouvidos podem dilatar-se com o trinar de um rouxinol ou o assobio de um melro.
Num pôr-do-sol, à beira-mar, as mãos e os pés podem refrescar-se nas águas salgadas que as ondas mais ou menos rasas conduzem até ao areal (não arrisco a mais que isso nas águas gélidas das praias do Porto).
            Entre o mar e o parque, entre o parque e o mar, a exuberância de cada segundo é uma manifestação guardada pelos sentidos, enquanto os pés, apoiados nos pedais, pressionam languidamente de maneira a prolongar uma cena que só na aparência é banal. Pedalando com atenção, a experiência de uma manhã de Primavera pode providenciar uma renovação há muito desejada, pelo menos inconscientemente.
            Os sentidos expandem-se, abrem-se, receptivos à generosidade da Natureza. Perfumes sem fim, fragrâncias silvestres multicolores espalham-se pelos jardins, desabrochando curiosidades nas borboletas... azuis, brancas, amarelas. Que aroma é este? Que odor é aquele?
Assim sopram as flores azuis florescendo viçosas... Oferecem-se, partilham-se aos olfactos mais ou menos atentos. Durante as deslocações de bicicleta pelas ruas do Porto e arredores, tenho tido o privilégio de inspirar estes e outros odores. Enquanto pedalo por entre os caminhos, ruas e ruelas surgem-me no pensamento inúmeras coisas. E pergunto-me, então, se as caixas em que vivemos e nos movemos nos concedem esses encontros com a ternura primaveril? E se os compartimentos, em que nos guardamos, nos protegerem ao ponto de nem sequer nos apercebermos do sentido do mundo, dos sentidos do mundo?
            Nessas deslocações diárias, se bem que seja fundamental permanecer em estado de alerta, observo-me inspirando e pedalando, ao mesmo tempo que o meu olhar pára no interior das caixas automóveis, nas quais ‘jazem’, com frequência, seres adormecidos que ignoram aqueles que pedalam a seu lado, por vezes também distraídos, e até embriagados, pelas cascatas de flores que se sacodem lançando pétalas (azuis) pelo ar e para a estrada. Note-se que quando o dia acorda de uma noite com chuva primaveril, essa desconcentração tende a aumentar, por parte de certos ciclistas. As camélias vermelhas luxuriantes inclinam-se para os moradores das cidades, oferecendo os seus aromas... quase em vão.

            Em vão... Existe uma grande maioria das gentes das cidades que, sem se aperceber, vive numa moldura. O alarme que vibra de uma caixa sonora assusta o mais inocente dos sonhadores. De compartimento em compartimento desloca-se pela casa até à hora de sair. Da porta de casa caminha sonâmbulo para outra caixa que, em sentido descendente, o transporta até à garagem, onde entra num compartimento ambulante. Nesse recipiente fechado segue para outra garagem, a partir da qual subirá noutra caixa para outro compartimento onde permanecerá grande parte do dia...
            De caixa em caixa, de compartimento em compartimento, está ausente e protegido do exterior. A pele deixa de sentir o ar ameno da Primavera, o olfacto não distingue o cheiro de uma rosa e de uma erva molhada; o olhar só capta, como se de um écran de televisão se tratasse, imagens fragmentadas: vermelho e pára; verde e avança; amarelo e abranda. Como pode ser frágil o corpo que vive sem o vento perfumado de um salgueiro, sem a maresia fresca num dia de Primavera.
            Numa curta viagem de bicicleta os sentidos estão todos abertos ao mundo. De um lado, golfadas de aromas flores de todas as cores. Do outro, golfadas de gases dos canos de escape. Como os que alguns autocarros da área metropolitana do Porto lançam sem prurido nos trajectos entre Leça, Matosinhos, Porto e concelhos próximos. Os da Resende (é forçosa a sua alusão) serpenteiam a velocidades inquietantes com o objectivo de cumprir horários. O seu pára-arranque é um atentado ao ciclista e aos transeuntes que com eles se cruzam. Desfazem-se na rua, ardem nas ruelas, soltando nuvens negras. Às vezes tenho a sensação que recebo ondas de alfazema de um lado e baforadas de pura poluição do outro. É desconcertante; ao mesmo tempo, confesso que é em sorriso que ultrapasso esses autocarros azuis. Não sem sentir um pouco de tristeza por aqueles que parecem viver de forma contínua em caixas, vendo tudo através de um écran, como se encaixados numa moldura, ainda que protectora...
            Mas é tempo de celebrar o toque de uma libelinha, em noite de lua cheia. À beira-mar ou à beira-rio, contemplando o reflexo do luar. Mas que se cante fora da caixa, qualquer caixa, caso contrário é impossível sentir a Primavera no espelho decorado com amendoeiras, camélias ou crisântemos...


1: Intertexto com ‘O eremita viajante’ de Matsuo Bashô
* Este foi publicado no Jornal Chapinheiro

O voo d’ A borboleta azul

Fotografia de Miguel Gonçalves


A borboleta azul iniciou voo n’A Casa da Boavista. A casa senhorial onde reside o Chiado Café Literário. A casa onde, há quase quinze dias, se realizou o lançamento d’A borboleta Azul. Nenhum livro foi atirado ao ar, como alguns amigos brincaram. Muitas borboletas azuis voaram para outras mãos – quem sabe seguindo a sugestão de Luís Pires: o representante da Chiado Editora.
Durante a sua intervenção, Luís Pires soprou palavras doces e suaves, num tom de voz igualmente macio e sereno. O tempo parou. O tempo voou. Isso sentiu a C, que há pouco me dizia isso mesmo. Luís interveio num pestanejar tão rápido, como intenso. Sugeriu a todas as pessoas presentes que cuidassem dos livros, dando-lhes vida. O livro ganha vida quando é aberto, quando é folheado, quando os olhos percorrem e absorvem as palavras ansiosas por serem lidas e acolhidas.

Na sala Fernando Pessoa, uma das inúmeras divisões mágicas d’A Casa da Boavista, Luís propunha aos muitos amigos presentes que, em vez de colocar este livro, assim como qualquer outro, de imediato numa estante, se lhe desse uma oportunidade para existir. À entrada de casa, por exemplo, ou na mesinha de cabeceira; o caso da C... A C que, por estes dias, tem a companhia nocturna de uma borboleta azul, estando deste modo, receptiva à metamorfose onírica.
Na véspera da sessão de lançamento, Luís deixou-me apreensiva ao lembrar-me do inevitável. Estava prestes a dar asas à borboleta, qual mãe resignada que vê partir os filhos para viverem as suas vidas de forma autónoma. Na perspetiva de Luís, publicar é um acto de coragem. Só então me dava conta que deixaria de ter ‘poder’ sobre aquela borboleta. Enquanto agrilhoada no mundo virtual, tinha capacidade de a mudar ou mesmo eliminar ou ‘deletar’, como dizem os amigos brasileiros. Está livre. Cada palavra, cada linha, cada frase será lida, interpretada sem que eu tenha como dizer: “ah, não era isso que eu queria escrever; ah, que giro, foi isso que entendeste; ah esquece, ah...”
Ah... Nada a fazer a partir de agora. O papel regista e guarda para quem desejar ler o que há muito escrevi, de uma forma mais ou menos pessoal, ficcional; enfim, de forma sentimental – a interpretação da G. A amiga que telefonou a felicitar as histórias publicadas. “Expões-te muito” - acrescentava. Ah, ah. Arrisquei sem estar a pensar se estaria ou não a expor a pessoa que em mim vive as experiências... Mas a vida vai sendo vivida com a mesma intenção consciente... Só quando me entrego, sem medo!, aprendo, apreendo, experiencio cada instante que me é concedido viver.
As rugas de expressão ganharam profundidade através do sorriso que cada pessoa presente estimulava. A gratidão crescia minuto a minuto, envolvendo-me numa cápsula intemporal.
A sessão prosseguiu com o professor José Manuel Constantino, que apresentou com a delicadeza e cuidado, ao mesmo tempo com a graça, boa-disposição e descontracção que lhe reconheço. A escolha perfeita para a lagarta que, libertando-se do casulo, se transforma – neste caso ainda insegura – num livro com asas... azuis. As palavras escritas e pronunciadas, pelo amigo professor, com carinho confirmaram, novamente, como estou tão bem rodeada.

Com efeito, a sala estava cheia de gente linda e muito querida que na mesma medida me fazia sentir querida e linda. Os meus olhos captavam sinais que se repercutiam tumultuosamente pelas veias e artérias. O sorriso, captado na fotografia de Miguel Gonçalves, era a minha reacção. Como não?
Na sala Florbela Espanca, que a Maria Noronha preparara para os autógrafos, os abraços sucediam-se. Agradecia, assim, de forma modesta às pessoas amigas que me presentearam com a sua presença, enquanto bebericavam o Porto de Honra na sala contígua – mais um dos muitos recantos acolhedores, expirando inspiração, d’A Casa da Boavista. Um espaço que me chamou novamente e onde, enquanto degusto um chocolate quente delicioso (com leite de soja, ah, ah), sem pensar nos meses que esta bebida quente se deterá nas coxas, escrevo estas linhas. Era impossível guardar para mim o sentimento de gratidão que me enche, mesmo que, mais uma vez, me exponha... Expondo, talvez, a fragilidade que me sustenta. Afinal, a vida é uma dádiva, que nem na aparência é garantida. Como uma borboleta, é frágil, efémera e voa, voa...
Fotografia de Miguel Gonçalves
2 de Março de 2017
Porto, Portugal