Na Casa do Povo de Nogueira do Cravo*

Fotografia de Amadeu Pereira


É inevitável, para mim, que a crónica deste mês se reporte à apresentação do livro, Borboleta Azul – um postal da América Latina.
Após o lançamento em Fevereiro passado, foram realizadas três sessões de apresentação, a última das quais na Casa do Povo de Nogueira do Cravo, no dia 7 de Maio.
Foi com grande alegria e satisfação que regressei ao Porto no final da tarde desse Domingo, o corolário de um processo que envolveu diversas pessoas e entidades. É por esse mesmo motivo que me sinto impelida a referenciar essa sessão. O cuidado e atenção de que fui alvo confirmam-me, mais uma vez, como sou uma pessoa privilegiada. De facto, as pessoas que me rodeiam e as circunstâncias que me são concedidas viver provocam-me constantemente um profundo sentimento de gratidão.
Quando entrei na Casa do Povo fiquei extasiada. A sala de soalho, onde tantas vezes dancei nos bailaricos e festas da Aldeia, estava diligentemente preparada. Nas cadeiras enfileiradas sentaram-se muitos familiares e amigos que fizeram questão de demonstrar o seu apoio e afecto à neta da Tia Altina.
Por detrás da cortina do palco, onde fui atriz de teatro durante um Verão da minha adolescência, ensaiava o Grupo de Danças e Cantares de Nogueira do Cravo. Quando tudo ficou a postos, escutei e meneei-me com as alegres canções do grupo, amorosamente empenhado, que dava então início à sessão.
A mesa estava linda. O centro de flores coloridas enchia o meu coração, sobre a toalha cujo bordado reconheci – o desenho e o ponto de flor eram seguramente da avó Altina e da tia Lurdes. Na parte frontal da mesa encontrava-se pousada uma borboleta azul. Houve alguém que com muita arte e bom gosto desenhou, recortou, pintou e decorou uma bela mariposa índigo! Ah!
As palavras escutadas enaltecendo o livro e a autora comoveram-me sobremaneira, mostrando-me que sem dúvida alguma estava em casa; tão bem acolhida me sentia.
No final, depois de autografar os inúmeros livros que as pessoas Presentes adquiriram (muito obrigada!) foi tempo de lanchar. Sim, porque para além da mesa central, havia uma outra repleta de variados doces e salgados. E não é que também o delicioso bolo de chocolate estava decorado com borboletas??!!
As dádivas não se ficaram por aqui. Para além de ter a ocasião de rever pessoas queridas com quem há muito não estava, fui agraciada com uma peça laboriosamente executada para o dia: a ferramenta do ardina – o símbolo de Nogueira do Cravo, com uma dedicatória alusiva à apresentação da Borboleta Azul na Casa do Povo de Nogueira do Cravo.
Torna-se, por consequência imperioso, agradecer, mais uma vez, a todos quantos estiveram implicados na organização e preparação da sessão. Desde as pessoas do Jornal Chapinheiro, às pessoas da Casa do Povo, da Junta de Freguesia de Nogueira, da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital e, claro, do Grupo de Danças e Cantares.
Se o/a leitor/a me permite, coíbo-me de citar nomes. Não vá dar-se o caso de, por lapso, alguém ser omitido. Como sou humana, não seria estranho que tal acontecesse. E não quero, de todo, incorrer em erros ou indelicadezas. Acredito que todas as pessoas que contribuíram para a minha felicidade se sintam incluídas. E foram todas as que estavam na sala e todas as que por algum motivo não lhes foi possível estar.
De facto, sinto-me feliz e profundamente grata. Cabe-me, no entanto, referir, que a minha felicidade só será total quando receber o testemunho de que o livro ganhou novas vidas.
A(s) vida(s) de ser aberto e lido e partilhado. Afinal, como muito bem afirmou um dos queridos intervenientes durante a sessão, a obra só está completa quando é lida. Assim sendo, convido todos os leitores e leitoras do Chapinheiro a abrirem o livro numa página ao acaso e a lerem uma das curtas histórias. Desse modo, em cada visita ao livro, este renascerá e terá oportunidade de continuar a viver, novas vidas...
O livro, seja este ou qualquer outro, é muito mais do que um objecto. É um transporte que deseja sair da estante. Convida à leitura e, através desta, à viagem.
Para mim, essa é uma das grandes riquezas de um Livro: ser um passaporte para outros mundos, para outras culturas, para outras pessoas, para outras vidas. Atrevo-me a dizer, para mais Vida. E sem grande esforço, sem sair de casa. Ler, para mim, é viajar, é conhecer e aprender.
Quem sabe o voo da borboleta estimule o leitor e a leitora a continuarem a ler, a viajar, nem que seja de uma página para outra, de um livro para outro... 

* Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

Expandir



Expandir. Um verbo muito utilizado por P no regresso do último retiro de Vipassana em que participei, em Janeiro passado.
O contexto e o modo como P proferia a palavra, frisando diversas vezes a necessidade de contemplar o mar e a linha do horizonte, paira, desde então. Este é o segundo ensaio para a sua integração, tal o impacto que o termo me causou.
Passaram mais de três meses desde a viagem de Tavira para Lisboa. Uma alteração de boleias, meia hora antes da saída, proporciono-me um passeio pela Costa Algarvia e pela Costa Vicentina. Se é verdade que poderia ter chegado ao Porto dez ou onze horas antes, também é verdade que o passeio de carro expandiu o meu vocabulário sensorial.
Após dez dias em silêncio meditativo, a P avisara à saída que desejava ver o mar, pela necessidade que sentia de se expandir. O retiro de Vipassana ampliara o seu ser e a linha azul do vasto horizonte seria um modo de abraçar a infinitude do seu ser – dentro do possível.
À época morava num apartamento, no oitavo e último andar de um edifício, cuja altitude e proximidade ao mar me permitiam a sua contemplação constante. Enquanto realizava as refeições diárias e me sentava para trabalhar na mesa da sala, o meu olhar era insuficiente para abarcar a vastidão oceânica. A Qualidade e a força do verbo, sugeridas por P, ajudaram-me finalmente a atentar e a captar o seu significado, experienciando-o de forma consciente. Desde então que a linha do horizonte se tem insinuado dia após dia, num azul distinto em cada manhã, mostrando-me irrevogavelmente uma vida sem limites.
Se aquela necessidade de P me chegou a impacientar pelo avançar das horas, hoje reconheço que a linha do horizonte, o mar, o oceano se tornaram elementos ainda mais relevantes para mim, consagrando o seu estatuto venerável.
Em cada passeio à beira-mar, em cada regresso a casa que me proporcione um  percurso ladeando as praias, sou envolvida pelo sentimento de gratidão. Sou igualmente estimulada a reflectir sobre o termo que P aplicou ao abrir os braços na Ponta de Sagres.
A imensidão do oceano é comparável à vastidão que me esmagou quando estive no deserto ou quando caminhei na cordilheira dos Andes.  A comparação que arrisco deve-se à angústia que me assoberbou. A confirmação vívida da minha pequenez ante o infinito, incomensurável, a grandeza que a Natureza exibe sem hesitar.
Compreendo finalmente, dentro do que me é possível, experienciando e indo, por isso, para além da teoria, um conceito muito caro a Kant: sublime. Um conceito em que me detive anos a fio, nos estudos académicos sobre o a vivência do Risco.
Os meses que tive o privilégio de me sentar à janela do oitavo andar encetaram transformações no modo de apreender a incomensurabilidade da linha do horizonte. Se, por um lado, entrevia o infinito como imensidade, como expansão; por outro lado, era assaltada pela noção de limite e fronteira. Se, em ocasiões decisivas, a tranquilidade era o estado perante um porvir desconhecido – a possibilidade de ser imenso, vasto, ilimitado, infinito: podia ser qualquer coisa, em qualquer lugar, com qualquer pessoa –; ocasiões houve em que me observei iminentemente limitada.

A frase seguinte, de Mempo Giardinelli, ajuda a expressar-me: “A imensidão tem essa virtude: de tão ilimitada impõe limites”1. O limite da minha própria existência, da minha própria finitude, das minhas limitações físicas, psicológicas e emocionais. Sou, pois, impelida a questionar-me de forma constante: Qual é o meu limite? Até onde posso ir?
Essa imensidade, essa impossibilidade de abarcar a totalidade da vida, por vezes influencia-me negativamente, como diria Ryzard Kapuscinsky. Pois como continua o autor referindo-se à Rússia, tudo perde o vigor, se dilui, se afunda na imensidão disforme. Se, por um lado, o mundo, a vida ela própria, é “um espaço amplo, aberto e infinito, por outro, essa mesma imensidão sufoca tanto que nos tira a coragem e não conseguimos respirar”2.
Creio que os limites que pressinto e amiúde me imponho ressurgem pelo receio do desconhecido: estabeleço (mesmo que de modo inconsciente) uma linha intransponível e, no medo, escuto a voz interior: só posso ir até aqui, para lá deste muro (mesmo que invisível) está o incognoscível; quero eu atravessar essa passagem apenas visível ao medo? Mesmo sabendo que esse medo me terá sido incutido socialmente... mesmo sabendo que é um produto cultural e historicamente desenvolvido?
Das fronteiras físicas que o meu corpo impõe emergem os desassossegos face à vastidão do deserto, das altas montanhas, dos mares e dos oceanos.
De quando em vez sinto uma certa coragem e abro-me e dou espaço ao silêncio apaziguador. Coloco-me frente a frente com o desconhecido, com o que está para além de mim.
E compreendo então que a fronteira que me limita é um corpo permeável, cuja entropia permite a expansão do ser que em mim habita. Se me permitir à mudança, se me permitir despir do medo construído pelos acordos sociais a que fui submetida pela formatação social e histórica, tenho possibilidade de multiplicar as perspectivas do meu olhar que, ganhando novos ângulos, provoca inevitavelmente um aumento da amplitude do ser em mim.
E rendo-me então: talvez o céu azul celeste não é seja o limite, talvez a noite mais ou menos estrelada, com ou sem luar seja alcançável.
E lembro-me então que o corpo em que me escondo é um limite só para mim intransponível – se acaso me esquecer que o universo é ilimitado.
Se me entender como um fractal, relaxo e compreendo que em mim cabe o mar imenso, a vastidão do deserto e o horizonte infinito.
Abro os braços, como fez P, e deixo-me invadir pelo som ondulatório na areia, pelo odor fresco da maresia e pelo céu azul e expando-me. Sou muito mais que o corpo físico. Sou o universo inteiro, infinito, ilimitado. Sou o oceano da vida, expandindo-me em cada P que importo em mim, em cada grão de areia do deserto, em cada gota de água da chuva, do mar, em cada estrela e noite de luar.
E o mar à vista é, enfim, o meu limite infinito, se me permitir expandir.


10 de Maio, de 2017
Porto, Portugal

1.     Fim de Novela na Patagónia, Mempo Giardinelli, Quetzal
2.     O Império, Ryzard Kapuscinsky, Campo das Letras

Maio, ao Sol*

       
         Quando se desliza de forma elegante pela superfície dos dias, ou de modo consciente pelos caminhos do tempo, é possível distinguir o sorriso de uma criança.
            Desenrugando a testa, elevando o olhar e estendendo os braços, é possível captar os raios silenciosos da grande estrela: o Sol. Para a sua celebração, para além de muitas outras ocasiões mais ou menos festivas, estipulou-se o dia três de Maio, para que nos lembremos de homenagear - pelo menos neste dia - a nossa principal fonte de luz, fonte de vida.
            Num céu de silêncio, ao amanhecer, escolho, com frequência, alongar os meus dias, iniciando-os em contemplação. Caminhar, correr ou mesmo sentar-me na primeira hora do dia, dá-me oportunidade de inspirar a espessura do Sol nascente. Observo a transmudação das cores: o cor-de-laranja passa a amarelo dourado e, sem que me dê conta, o sol está mais alto num amarelo pálido, quase branco. Os seus raios atravessam as árvores, escorrendo em fios de luz até ao solo vibrante. As copas resplandecem num verde exuberante e as folhas exalam o vapor de um orvalho que se vai dissipando... devagar.

            Maio, quando a Primavera segue embalada no azul dos dias imensos, ao som da sinfonia das aves multicolores, é o mês que mais aprecio. O meu mano faz anos, por exemplo. Mas não só.
            Enquanto estudante universitária, havia uma semana de boas razões para a minha preferência. A enxurrada de memórias formiga incessante... o sorriso é acto contínuo.
            Enquanto professora na faculdade era, igualmente, com regozijo que recebia essa semana académica: uma semana sem aulas - umas quase férias.
            Nos dias que correm, o meu olhar inunda-se de emoção, pelas minhas amigas que recentemente são mães pela primeira vez. Aquelas que admiro profundamente pela coragem de seguir os seus anseios maternais, mesmo depois dos quarenta anos.
            As noites serenas e suaves, em que a lua cheia nos presenteia com a sua luz morna, enchem-me o coração, recordando-me que a liberdade vai e vem, quantas vezes como as marés. Talvez seja por esse motivo que se terá instituído um dia para celebrar mundialmente a liberdade de imprensa, também a três de Maio.
            Inspiro profundamente, uma, duas, três vezes e prossigo, reflectindo sobre a liberdade de um modo geral e a de imprensa em particular. Os olhos doem-me com as notícias que a cada dia nos pesam, enfraquecendo e, em muitos locais, aniquilando as acções e operações de quem se arrisca a divulgar o que nem sempre é desejável que se torne púbico.
            A realidade contaminada rompe muitos corações. Mas a resignação fatalista também não é visível, tão-pouco, aceite por aqueles que se entregam a salvar vidas. Refiro-me aos médicos e enfermeiros que edificam uma das maiores, senão mesmo a maior instituição humanitária do mundo: a Cruz Vermelha. Como o seu fundador, Henry Dunant, nasceu a oito de Maio, escolheu-se esse dia para enaltecer todos quantos se dedicam às vítimas, tendo como princípios de acção a humanidade, a imparcialidade, a neutralidade, a independência, a unidade, a universalidade e o voluntariado. Princípios que, apenas na aparência, são facilmente colocados em prática no quotidiano de todos nós. Com efeito, as notícias que nos chegam de muitos lugares mais ou menos distantes revelam, tristemente, como os homens agem sem qualquer sentido de humanidade.
            A mim, cabe-me, com a liberdade que me é conferida, pelo menos lembrar que, mesmo que não tenha capacidade de acção ou de decisão a um nível macro, tenho o poder de contribuir a cada instante para o bem-estar das pessoas que me rodeiam. Cabe-me, dentro do que me é possível, aplicar e viver os mesmos princípios da Cruz Vermelha, em cada interação social em que me envolvo. Sejam as pessoas mais ou menos próximas. Todas são, sem excepção, seres da mesma Natureza.
            Além de outras comemorações em Maio, o dia vinte e dois é dedicado ao autor português. É-me impossível deixar passar esta oportunidade... No dia sete estaremos na Casa do Povo de Nogueira, a fim de apresentar o livro Borboleta Azul, um postal da América Latina. Aí, o leitor e a leitora encontrarão diversas crónicas do Chapinheiro que foram escritas enquanto além-mar. Será, certamente, um dia muito feliz para mim, pois haverá tempo e espaço para partilhar as experiências vividas com as pessoas de Nogueira. São, pois, todos muito bem-vindos nessa tarde do dia de todas as Mães.
            Desta vez posso terminar esta crónica com um até já, Nogueira do Cravo! E muito obrigada ao Chapinheiro pela alegria de poder contribuir, de alguma maneira, para o jornal da nossa Aldeia. 

*Este texto foi publicado no Jornal O Chapinheiro

Fora da caixa...*




            A Primavera chegou e o azul do céu está mais azul. Um dos motivos que torna esta estação fonte da minha predilecção. Outros elementos irrefutáveis há, nomeadamente a exuberância dos aromas das árvores em flor, os cantos apaixonados dos pássaros esvoaçantes, o toque dos raios solares mais quentes, que se estendem cada vez mais e por cada vez mais minutos ao longo do dia.
            É tempo de renovação. O clima convida à limpeza, abrindo as janelas que durante o Inverno permaneceram fechadas; abrindo armários e libertando-os das roupas mais quentes, mais escuras. Uma das práticas habituais nesta mudança de estação é a de examinar a roupa: aquela que não é usada há pelo menos dois anos é oferecida a quem eventualmente possa dar-lhe mais e melhor utilidade. Desse modo, cria-se espaço no armário, ao mesmo tempo que outra pessoa lhe dá uma nova vida.
            Num dia de Primavera1, os olhos podem demorar-se numa amendoeira em flor, enquanto o polegar e o indicador podem segurar uma gota do orvalho reflectindo os primeiros raios de sol. Num resplandecente amanhecer, os ouvidos podem dilatar-se com o trinar de um rouxinol ou o assobio de um melro.
Num pôr-do-sol, à beira-mar, as mãos e os pés podem refrescar-se nas águas salgadas que as ondas mais ou menos rasas conduzem até ao areal (não arrisco a mais que isso nas águas gélidas das praias do Porto).
            Entre o mar e o parque, entre o parque e o mar, a exuberância de cada segundo é uma manifestação guardada pelos sentidos, enquanto os pés, apoiados nos pedais, pressionam languidamente de maneira a prolongar uma cena que só na aparência é banal. Pedalando com atenção, a experiência de uma manhã de Primavera pode providenciar uma renovação há muito desejada, pelo menos inconscientemente.
            Os sentidos expandem-se, abrem-se, receptivos à generosidade da Natureza. Perfumes sem fim, fragrâncias silvestres multicolores espalham-se pelos jardins, desabrochando curiosidades nas borboletas... azuis, brancas, amarelas. Que aroma é este? Que odor é aquele?
Assim sopram as flores azuis florescendo viçosas... Oferecem-se, partilham-se aos olfactos mais ou menos atentos. Durante as deslocações de bicicleta pelas ruas do Porto e arredores, tenho tido o privilégio de inspirar estes e outros odores. Enquanto pedalo por entre os caminhos, ruas e ruelas surgem-me no pensamento inúmeras coisas. E pergunto-me, então, se as caixas em que vivemos e nos movemos nos concedem esses encontros com a ternura primaveril? E se os compartimentos, em que nos guardamos, nos protegerem ao ponto de nem sequer nos apercebermos do sentido do mundo, dos sentidos do mundo?
            Nessas deslocações diárias, se bem que seja fundamental permanecer em estado de alerta, observo-me inspirando e pedalando, ao mesmo tempo que o meu olhar pára no interior das caixas automóveis, nas quais ‘jazem’, com frequência, seres adormecidos que ignoram aqueles que pedalam a seu lado, por vezes também distraídos, e até embriagados, pelas cascatas de flores que se sacodem lançando pétalas (azuis) pelo ar e para a estrada. Note-se que quando o dia acorda de uma noite com chuva primaveril, essa desconcentração tende a aumentar, por parte de certos ciclistas. As camélias vermelhas luxuriantes inclinam-se para os moradores das cidades, oferecendo os seus aromas... quase em vão.

            Em vão... Existe uma grande maioria das gentes das cidades que, sem se aperceber, vive numa moldura. O alarme que vibra de uma caixa sonora assusta o mais inocente dos sonhadores. De compartimento em compartimento desloca-se pela casa até à hora de sair. Da porta de casa caminha sonâmbulo para outra caixa que, em sentido descendente, o transporta até à garagem, onde entra num compartimento ambulante. Nesse recipiente fechado segue para outra garagem, a partir da qual subirá noutra caixa para outro compartimento onde permanecerá grande parte do dia...
            De caixa em caixa, de compartimento em compartimento, está ausente e protegido do exterior. A pele deixa de sentir o ar ameno da Primavera, o olfacto não distingue o cheiro de uma rosa e de uma erva molhada; o olhar só capta, como se de um écran de televisão se tratasse, imagens fragmentadas: vermelho e pára; verde e avança; amarelo e abranda. Como pode ser frágil o corpo que vive sem o vento perfumado de um salgueiro, sem a maresia fresca num dia de Primavera.
            Numa curta viagem de bicicleta os sentidos estão todos abertos ao mundo. De um lado, golfadas de aromas flores de todas as cores. Do outro, golfadas de gases dos canos de escape. Como os que alguns autocarros da área metropolitana do Porto lançam sem prurido nos trajectos entre Leça, Matosinhos, Porto e concelhos próximos. Os da Resende (é forçosa a sua alusão) serpenteiam a velocidades inquietantes com o objectivo de cumprir horários. O seu pára-arranque é um atentado ao ciclista e aos transeuntes que com eles se cruzam. Desfazem-se na rua, ardem nas ruelas, soltando nuvens negras. Às vezes tenho a sensação que recebo ondas de alfazema de um lado e baforadas de pura poluição do outro. É desconcertante; ao mesmo tempo, confesso que é em sorriso que ultrapasso esses autocarros azuis. Não sem sentir um pouco de tristeza por aqueles que parecem viver de forma contínua em caixas, vendo tudo através de um écran, como se encaixados numa moldura, ainda que protectora...
            Mas é tempo de celebrar o toque de uma libelinha, em noite de lua cheia. À beira-mar ou à beira-rio, contemplando o reflexo do luar. Mas que se cante fora da caixa, qualquer caixa, caso contrário é impossível sentir a Primavera no espelho decorado com amendoeiras, camélias ou crisântemos...


1: Intertexto com ‘O eremita viajante’ de Matsuo Bashô
* Este foi publicado no Jornal Chapinheiro

O voo d’ A borboleta azul

Fotografia de Miguel Gonçalves


A borboleta azul iniciou voo n’A Casa da Boavista. A casa senhorial onde reside o Chiado Café Literário. A casa onde, há quase quinze dias, se realizou o lançamento d’A borboleta Azul. Nenhum livro foi atirado ao ar, como alguns amigos brincaram. Muitas borboletas azuis voaram para outras mãos – quem sabe seguindo a sugestão de Luís Pires: o representante da Chiado Editora.
Durante a sua intervenção, Luís Pires soprou palavras doces e suaves, num tom de voz igualmente macio e sereno. O tempo parou. O tempo voou. Isso sentiu a C, que há pouco me dizia isso mesmo. Luís interveio num pestanejar tão rápido, como intenso. Sugeriu a todas as pessoas presentes que cuidassem dos livros, dando-lhes vida. O livro ganha vida quando é aberto, quando é folheado, quando os olhos percorrem e absorvem as palavras ansiosas por serem lidas e acolhidas.

Na sala Fernando Pessoa, uma das inúmeras divisões mágicas d’A Casa da Boavista, Luís propunha aos muitos amigos presentes que, em vez de colocar este livro, assim como qualquer outro, de imediato numa estante, se lhe desse uma oportunidade para existir. À entrada de casa, por exemplo, ou na mesinha de cabeceira; o caso da C... A C que, por estes dias, tem a companhia nocturna de uma borboleta azul, estando deste modo, receptiva à metamorfose onírica.
Na véspera da sessão de lançamento, Luís deixou-me apreensiva ao lembrar-me do inevitável. Estava prestes a dar asas à borboleta, qual mãe resignada que vê partir os filhos para viverem as suas vidas de forma autónoma. Na perspetiva de Luís, publicar é um acto de coragem. Só então me dava conta que deixaria de ter ‘poder’ sobre aquela borboleta. Enquanto agrilhoada no mundo virtual, tinha capacidade de a mudar ou mesmo eliminar ou ‘deletar’, como dizem os amigos brasileiros. Está livre. Cada palavra, cada linha, cada frase será lida, interpretada sem que eu tenha como dizer: “ah, não era isso que eu queria escrever; ah, que giro, foi isso que entendeste; ah esquece, ah...”
Ah... Nada a fazer a partir de agora. O papel regista e guarda para quem desejar ler o que há muito escrevi, de uma forma mais ou menos pessoal, ficcional; enfim, de forma sentimental – a interpretação da G. A amiga que telefonou a felicitar as histórias publicadas. “Expões-te muito” - acrescentava. Ah, ah. Arrisquei sem estar a pensar se estaria ou não a expor a pessoa que em mim vive as experiências... Mas a vida vai sendo vivida com a mesma intenção consciente... Só quando me entrego, sem medo!, aprendo, apreendo, experiencio cada instante que me é concedido viver.
As rugas de expressão ganharam profundidade através do sorriso que cada pessoa presente estimulava. A gratidão crescia minuto a minuto, envolvendo-me numa cápsula intemporal.
A sessão prosseguiu com o professor José Manuel Constantino, que apresentou com a delicadeza e cuidado, ao mesmo tempo com a graça, boa-disposição e descontracção que lhe reconheço. A escolha perfeita para a lagarta que, libertando-se do casulo, se transforma – neste caso ainda insegura – num livro com asas... azuis. As palavras escritas e pronunciadas, pelo amigo professor, com carinho confirmaram, novamente, como estou tão bem rodeada.

Com efeito, a sala estava cheia de gente linda e muito querida que na mesma medida me fazia sentir querida e linda. Os meus olhos captavam sinais que se repercutiam tumultuosamente pelas veias e artérias. O sorriso, captado na fotografia de Miguel Gonçalves, era a minha reacção. Como não?
Na sala Florbela Espanca, que a Maria Noronha preparara para os autógrafos, os abraços sucediam-se. Agradecia, assim, de forma modesta às pessoas amigas que me presentearam com a sua presença, enquanto bebericavam o Porto de Honra na sala contígua – mais um dos muitos recantos acolhedores, expirando inspiração, d’A Casa da Boavista. Um espaço que me chamou novamente e onde, enquanto degusto um chocolate quente delicioso (com leite de soja, ah, ah), sem pensar nos meses que esta bebida quente se deterá nas coxas, escrevo estas linhas. Era impossível guardar para mim o sentimento de gratidão que me enche, mesmo que, mais uma vez, me exponha... Expondo, talvez, a fragilidade que me sustenta. Afinal, a vida é uma dádiva, que nem na aparência é garantida. Como uma borboleta, é frágil, efémera e voa, voa...
Fotografia de Miguel Gonçalves
2 de Março de 2017
Porto, Portugal

Borboleta Azul

  Assista ao Spot Televisivo da Borboleta Azul

 Borboleta Azul - um postal América Latina





Já está disponível e à venda numa loja ou no mundo virtual  
Para as muitas pessoas amigas do Brasil, podem encontrar/encomendar nos seguintes locais:

Cultura
Galileu
Janina
Cia dos Livros
Travessa
EasyBooks
Livrarias Curitiba
Blooks e Saraiva
Desejo boas leituras... azuis

Quarto com vista para o mar*



Desde há muito que quero escrever sobre o apartamento onde estou a viver desde o início de Novembro passado. Pela primeira vez na vida, tenho o extraordinário privilégio de, em cada manhã, tomar o pequeno-almoço contemplando o mar, assim como em todas as refeições que realize em casa. Quer dizer, a escuridão é uma cortina quase impenetrável. A linha do horizonte só é possível vislumbrar em noites de lua cheia e de céu limpo.
De quando em quando, o reflexo do luar espalha-se de forma visível para contentamento dos olhos, cuja recepção desses espelhos reflectidos no mar se repercute em sensações agradáveis pelo corpo.
Apesar da manhã ter começado chuvosa, alguns farrapos de azul claro (mesmo que esbatido), no céu, são elementos que me sopram. Alertam-me, convocando o olhar para o azul mais escuro que me é possível captar na linha do horizonte.
O navio de mercadorias, a centenas de milhas da costa, e o barco de pesca vermelho são fácil e nitidamente observáveis. Confirmo, assim, a boa saúde do meu sentido de visão. A informação visual vai-se tornando cada vez mais azul, alastrando-se no espaço abstracto da pele – a exibição do sentido sensorial da pele confirma o seu bom estado de saúde. De quando em vez, as gaivotas esvoaçam perto das janelas grasnando com jovialidade1, banindo qualquer dúvida que existisse quanto às capacidades auditivas. Quanto ao olfacto e ao paladar, o pequeno-almoço tomado meia hora antes consolida o fulgor de todos os sistemas e órgãos biológicos, que me permitem fruir (com gratidão) pelas linhas que se vão escrevendo.
Poderia continuar a enumerar todos os bens materiais e imateriais que me estão disponíveis e me rodeiam, concedendo-me uma sensação de conforto e bem-estar, muito para além do que as palavras possam expressar.
As experiências vividas raramente são percepcionadas ou compreendidas através dos outros. Quando muito, podem gerar reacções. Se, por ventura, as houver, resultarão da interpretação das palavras escutadas ou lidas e não da experiência de quem as, pelo menos, tenta partilhar.
Se me alongasse naquele inventário, encontraria elementos, sem dúvida, suficientes, para, sem leviandade alguma, afirmar: “Sou e tenho tudo o que necessito!” A felicidade é a minha opção e prioridade diária, a qual aproveito para celebrar no dia 20 deste mês – o dia internacional da Felicidade. As Nações Unidas instituíram este dia com a seguinte resolução: “A busca da felicidade é um objectivo humano fundamental”.
Foi com surpresa que, ao pesquisar sobre as datas comemorativas e efemérides de Março, me deparei com esta informação. Não obstante, esse quase espanto rapidamente se transmudou para a aquiescência. Se é verdade que, na maioria das vezes, se instituem datas comemorativas para (re)lembrar que muito há ainda a realizar em determinadas dimensões da vida – e aqui incluo todas as formas de vida –, pergunto-me, então, sobre a necessidade de nos recordar essa busca pela felicidade. Sempre pensei que, como eu, todas as pessoas tivessem como grande objectivo de vida ser feliz.
Até que comecei a estar mais atenta às palavras (acompanhadas de gestos e atitudes) das pessoas que me rodeiam e com quem me vou cruzando. E quando escuto as pessoas que me são queridas afirmarem de forma lacónica e resignada “pelo menos não sou infeliz”, com uma certa tristeza, apreendo melhor a ideia das Nações Unidas: a de provocarem, pelo menos, um laivo de ensejo pela busca da felicidade.
Essa busca é, aliás, uma constante na minha vida, promovendo debates internos de quando em quando. As reflexões têm resultado em mudanças no meu modo de viver e compreender o conceito de felicidade, para além da teoria. Isto significa, que também a minha maneira de estar se tem modificado ao longo do tempo. Entender esta característica – a de tudo ser impermanente e estar em constante mudança – inerente à natureza e à vida, tem sido o que mais tem contribuído para apreender o que para mim é fundamental para me sentir feliz.
Hoje, no dia em que escrevo, para mim ser feliz é trabalhar com um propósito, ao mesmo tempo que é ser e estar serena e em paz, quaisquer que sejam as circunstâncias em que me encontre. Aceitando, por exemplo, cada instante de alegria do mesmo modo que aprendo a aceitar cada instante de desconforto ou mesmo tristeza. Acima de tudo, sabendo que tudo passa, tudo muda... Por isso, trabalhando em algo em que acredito, e desfrutando e aprendendo com serenidade e tranquilidade tudo o que me é concedido viver; assim é hoje, para mim, ser feliz!
No mesmo dia 20, acontece o equinócio da Primavera – a minha estação preferida. É com grande alegria que dou as boas-vindas à estação das flores, dos amores primaveris... O Inverno passou, dando assim entrada à poesia, que se celebra mundialmente no dia seguinte, juntamente com o dia europeu da criatividade artística. Com mais ou menos criatividade podemos comemorar outras datas através da partilha. Um desses dias é a 27, o dia Nacional do Dador de Sangue. Uma data que nos recorda que até nos é possível a dádiva de vida, através de um gesto tão simples como estender o braço durante alguns minutos...
Aproveito para assinalar que a dádiva é igualmente incomensurável por parte dos pais. Por isso, no dia 19 temos mais uma oportunidade de agradecer ao nosso pai, mostrando-lhe (novamente) como ele é importante e como terá contribuído para que sejamos quem somos...

1. Com jovialidade a mais... minutos depois de enviar a crónica para o jornal, uma senhora gaivota lembrou-se de marcar território na janela da sala! Confesso que só me ri durante breves segundos pelo caricato da situação – limpar os seus dejectos é coisa que não me agrada particularmente. Enfim, viver perto do mar é uma surpresa a cada dia...

* Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

T2 Trainsppoting

https://www.youtube.com/watch?v=01vXD623q2w&index=3&list=PLRH10Bl5Og1ikB5c3L9F0euFZuB9dIxRP


      “Tu choras sempre: ou porque choras, ou porque te ris” - um amigo com quem fui ontem cinema. Há umas semanas fomos ver ‘Lion – um Jornada para casa’. A história verídica de um jovem indiano adoptado por uma família da Austrália, onde vivia com os seus pais. A sua busca, pela mãe na Índia, fez-me chorar baba e ranho. Ontem, as lágrimas resultaram das muitas gargalhadas motivadas pelas diversas situações hilariantes da comédia negra ‘T2 Trainsppoting’.
Quem me conhece sabe que sou de lágrima fácil e sabe, igualmente, que, com frequência, as risadas são longas. Em particular se forem provocadas por um bom estímulo, como aliás era, sem dúvida, o caso. Foi de forma consciente que me contive. Estava numa sala cheia de gente que, como eu, estaria curiosa acerca do modo como Danny Boyle daria continuidade à história de um assalto, ocorrido duas décadas antes. O termo de comparação era elevado para aqueles que, como eu, viram o primeiro filme. Era, pois, necessário ter em atenção que as outras pessoas não tinham de levar com o meu riso, o qual, confesso, não me importaria de continuar – afinal, rir é tão bom quanto dançar e cantar.
            O que me transporta para outro filme, a que assisti no final do ano passado com o amor da minha vida: “Trolls”. Um filme animado com personagens tão coloridas como divertidas, cujas cenas alegremente deliciosas também me fizeram rir e rir. Os Trolls tinham como actividades de vida diária cantar, dançar e abraçar... Tão bom! Como não gostar? Como não gostar com um sentimento que não se pode conter, ou parar, como canta Justin Timberlake (os gostos não se discutem...). Os cabelos azuis, cor-de-rosa, lilases, prateados dos bonecos animados reanimaram a criança que eu quero (continuar, sempre) alimentar. O G olhava para mim admirado, para não dizer perplexo. Senti que também ele apreciou. Não obstante, não sei se terei sido eu a ser levada ao cinema. Ah, ah. Apesar dos seus oito aninhos, o G já viu tantos filmes que o seu sentido crítico deve ser tomado em consideração, até pelas questões que me coloca sempre no final: “O que é que gostaste mais e porquê? O que é que não gostaste e porquê?” – Se lhe respondo que não terá havido nada que me tivesse desagradado, insiste: “Então, o que é que gostaste menos...”
            É com os auriculares, ligada no YouTube, que escrevo enquanto escuto a banda sonora do ‘T2 Trainsppoting’ – uma das dimensões que, no filme de há vinte anos, me agradou sobremaneira. O efeito foi semelhante em mim e, presumo, em todos aqueles que tiveram oportunidade de o ver e depois dançar com a respectiva banda sonora. Se, na época, a sua originalidade impressionou, vinte anos depois a música é igualmente estimulante.
            É-me impossível ficar indiferente ao ritmo de Fujiya & Miyagy. Do mesmo jeito que as bandas The Prodigy e Underworld me fazem oscilar a cabeça e pescoço, as pernas... Estou sentada na biblioteca. Aposto que se estivesse em casa teria feito uma pausa para dançar... A música tem este dom. Razão pela qual admiro e respeito profundamente os artistas que me tocam desta maneira através da vibração e mesmo arrepios na pele. Iggy Pop, Frankie goes to Hollywood são mais dois exemplos da banda sonora deste segundo episódio.
            Houve várias cenas que me fizeram rir até as lágrimas, mas existem outras que me convidaram à reflexão. Nomeadamente quando Mark – interpretado por Ewan McGregor – disserta a uma velocidade estonteante sobre a expressão: ‘escolhe a tua vida’ – o lema da sua juventude. Após alguns minutos sem fôlego, pára repentinamente. Como se fosse picado por um moscardo. Como se se desse conta de que se terá esquecido que só ele tem o poder de escolher a sua vida, de decidir sobre a sua vida.
            Os Run-DMC regressam, como a chave de um baú de memórias... As ‘trips’ são poucas e, juntamente com as ressacas do Spud – a personagem que escreve para se libertar heroína –, lembram que por mais interessantes que aparente e ilusoriamente possam ser, as consequências são (quase) sempre devastadoras. Mas até sobre isso podemos rir – o ser humano tem a capacidade de tornar a vida ainda mais leve e aliciante quando sabe rir de si próprio.

            Resta-me agradecer à minha querida amiga MA, que me enviou o convite da Big Picture Films e assim ter, não só o prazer de ir ao cinema e rir e dançar assistindo a um filme cinco estrelas (é a minha opinião; vale o que vale), mas também de assistir, como diz o G vaidoso, antes de toda a gente, ah, ah. Muito obrigada!


23 de Fevereiro, 2017
Matosinhos, Portugal

Para o dia dos Namorados...*



Entre as diversas datas comemorativas de Fevereiro, este mês detenho-me no dia 14 – o dia dos namorados ou dia de São Valentim.
            O dia dos namorados sempre me encantou. Mesmo que nesta fase não seja namorada de ninguém, ou, como se diz em certas regiões, não namoro para ninguém.
            Quando fomos morar para uma vila da Maia, perguntavam-me amiúde para quem namorava eu – note-se que não tinha mais de catorze anos. Uma expressão bizarra, para mim. Não apenas pela minha tenra idade (coíbo-me de confirmar se teria ou não um namorico, ah, ah), mas também pelos termos incluídos: namorar para este ou aquela.
            Namora-se para alguém ou com alguém? Preciosismos à parte, há uns tempos, a questão transformou-se durante uma conversa com uma desconhecida, que me dizia: “Ah, o meu namorado... Não é meu nada. Não é uma coisa que possa trazer comigo no bolso. Isso é apenas uma etiqueta social...”
Na perspectiva daquela mulher, o ‘meu namorado’ carregava o peso da possessão. O ‘meu’ namorado, o ‘meu’ marido... O pronome possessivo antes do sujeito, neste caso de um namorado, passa-me ao lado, nos dias de hoje. De qualquer modo, a palavra namorado e as da sua família, como enamorado, ou enamoramento sugerem-me devaneios em forma de sorriso.
Estar enamorada por alguém ou por uma causa ou por um lugar, é um estado que, em meu entender, imprime energia amorosa aos gestos, às palavras, às acções, até às mais corriqueiras. Até mesmo na fisionomia. O rosto de alguém profundamente enamorado resplandece e, com muita facilidade, reflecte e espalha e projecta o seu enamoramento naqueles que o/a rodeiam.
Os olhos de quem está enamorado são especialmente selectivos: observam beleza e alegria em quase tudo e todos – daí as expressões prosaicas: o amor é cego ou quem feio ama, feio lhe parece. Ainda assim, é de salientar esta possibilidade manifestamente doce aquando do enamoramento (e reforço, seja por uma pessoa, causa ou lugar): a de a pessoa enamorada admirar amorosamente o mundo em redor. Ao ponto, creio eu, de se desviar de forma consciente do que aparentemente seria desagradável, desconfortável e outros adjectivos que os namorados tendem a ignorar naquele estado de deleite.
Também aprecio esta data pelo simbolismo decorrente de uma das lendas que estará na sua génese: a história de São Valentim.
De acordo com a informação recolhida, as comemorações no dia 14 de Fevereiro estão associadas a uma festa de fertilidade na Roma Antiga: o festival Lupercalia – uma festa de homenagem a Juno – deusa da mulher e do casamento – e a Pan – o deus da natureza.
É provável que a relação com os namorados decorra, no entanto, de uma lenda sobre o bispo Valentim que, no século III d.C., terá infringido o decreto imperial de Cláudio II. O imperador havia proibido a realização de qualquer casamento. Garantia, dessa maneira, a disponibilidade dos homens solteiros para serem soldados e assim integrarem os exércitos e as legiões, uma vez que os solteiros seriam os melhores combatentes.
O sacerdote continuou a casar todos aqueles que lho pediam, até ao dia em que foi descoberto e preso e torturado e condenado à morte. Enquanto esperava a execução da sua sentença, muitos foram os jovens que lhe enviaram flores e bilhetes afirmando que continuavam a acreditar no amor. Ah, o amor...
Existe ainda outra história para o mesmo sacerdote. A de que com efeito teria sido condenado à morte pelo mesmo imperador. Enquanto esteve preso ter-se-á apaixonado pela filha de um carcereiro. A donzela terá sido tocada pelo bispo, vivendo então um milagre: o de ganhar a visão, uma vez que, segundo a lenda, a bela mulher seria cega1. Ora, no seu último adeus, Valentim sabendo que a sua apaixonada poderia então ler, escreveu-lhe uma mensagem, assinando ‘Seu Valentim’ ou ‘Seu namorado’.
Qualquer invenção ou semelhança com a vida real é irrelevante, na medida em que está mais do que visto que o dia 14 de Fevereiro está aí para dar e vender postais, prendas, presentes, jantares e tudo o que se quiser ou puder, com o dia dos namorados.
Ora, escrever um postal ou uma carta (e, claro, receber um postal ou uma carta) é uma das demonstrações amorosas que mais me delicia (fica a dica). Por conseguinte, vou aproveitar a inspiração deste dia para enviar uma carta ou postal a alguém. Quem sabe eu própria venha a encontrar algo na caixa do correio...

PS: O dia 10 também passou a ser uma data relevante para mim – foi há um ano que a avó Altina partiu...

1. Neste texto utilizo o termo ‘cega’, pois depreendo que na época as discussões (teóricas) sobre a concepção de deficiência estivessem ausentes. Prefiro, no entanto, a expressão ‘pessoa com deficiência visual’. Desta forma, a deficiência é secundária à pessoa, sendo uma característica e não um rótulo limitador (é a minha perspectiva).

*Este texto foi publicado no jornal Chapinheiro