Caminho térreo para a Índia...*

Templo Dourado, Amritsar
Escrevo à beira-rio, a ver os elefantes passarem... Em Chitwan, a cidade de onde regressarei à Índia daqui a uns dias, com intenção de visitar Dharamshala, no Estado Himachal Pradesh. Aí vive Dalai Lama, exilado do seu país, o Tibete, considerado território chinês desde 1950. A invasão da China transformou, adulterou, destruiu uma cultura, um país, em nome da sua 'libertação pacífica' face ao império da Índia britânica. Invasão, sobre invasão, o Tibete continua a ser um anexo chinês, cujo controlo se repercute muito para além da geografia.
 
Cerimónia Kalachacra, Templo Dalai Lama, Dharamshala

Os assuntos geopolíticos não são um assunto fácil. Não obstante, quando se adentra um pouco mais por outras realidades e contextos, as influências sócio-políticas ficam mais evidentes, com implicações e repercussões não apenas sobre os destinos a conhecer, mas sobretudo nas práticas quotidianas das respectivas populações. É difícil ficar indiferente, mesmo que o tema da territorialidade e das fronteiras políticas me intimide. É com demasiada frequência que estas linhas - imaginárias que os homens criam -, resultem em conflitos, na sua maioria armados. Conflitos apenas termináveis para os que perecem durante essas guerras.

Dada a natureza pacífica do povo tibetano, o "acordo" foi assinado, mas uma grande parte das gentes exilou-se no mencionado Estado do norte da Índia - Himachal Pradesh. Arrisco, por isso, a atravessar novamente a fronteira de autocarro (o corpo ainda se lembra das quase 40 horas sobre rodas) em direcção a Déli.

Não arrisco ir à ainda mais populosa Calcutá onde, no dia 20 de Maio de 1498, terá chegado Vasco da Gama. O explorador cumpria assim o sonho de D. João II: o de descobrir o caminho marítimo para a Índia. Ainda que o rei português já não fosse vivo para celebrar a descoberta.

As incursões dos portugueses pela Índia, ao longo da História, não se ficaram por aí. Goa é um exemplo de como Portugal terá expandido o seu império à escala global. Invasão atrás de invasão, soberania, sobre soberania. É difícil aceitar de braços cruzados a necessidade que certos homens sentem em dominar, controlar, subjugar tantos outros homens.

Recorro novamente à 'nossa' História para ilustrar, de forma pouco colorida, aquele que é, a meu ver, o início de uma das épocas mais negras da vida portuguesa: o estabelecimento da 'santa'(???) inquisição em Portugal. A 23 de Maio de 1536 começava oficialmente a perseguição aos 'hereges'. Mais um pretexto, creio, para alguns aumentarem o seu poder sobre muitos outros.

Corro o risco. Mas pergunto: em nome de deus? qual deus? o do cristianismo? o do islão? o do judaísmo? ou em nome dos milhares do hinduísmo? o do sikhismo ou o do janaísmo? ou em nome das pessoas que terão dado origem ao budismo, confucionismo ou taoísmo?
Serve esta enumeração para realçar a pluralidade e a diversidade, sem com isso pretender fazer sobressair ou apagar qualquer das incontáveis crenças religiosas.
Templo Sique, Amritsar


Na génese de (quase) todas está a necessidade humana de dotar sentido à existência. Ao mesmo tempo, podemos entrever em todas elas uma  base compassiva, cujos princípios são, afinal, semelhantes e coincidentes entre si na sua essência: os do amor compassivo e incondicional.

O amor infinito que a Natureza nos demonstra a cada instante, providenciando de forma amorosa e incondicional o necessário para todos os seres vivos. Estejam eles atentos. Todavia, quando um homem se põe a pensar, transforma e quantas vezes adultera aquela ideia básica de compaixão. Criando uma ideia de poder. E, sem que se dê conta, surge aqui e ali uma luta de deuses (humanos) pelo poder... em nome de outros deuses. Ah... Como pode ser triste a vitória do deus do islão sobre o deus cristão e vice-versa.

Tristezas, angústias e pessimismo à parte, em alguns países é possível observar a co-existência de diferentes crenças religiosas. O Nepal e a Índia são disso exemplo. A entrada em algumas cidades nepalesas suscita, até, certas dúvidas. É no Nepal que encontramos o hinduísmo como religião oficial, mesmo que em Lumbini existam centenas de templos dedicados a Buda. Não fosse esta a cidade-berço de Siddhartha Guatama Buda. Aqui, os templos construídos e doados por muitos países asiáticos, como a Coreia do Sul, Myanmar, Camboja, Índia, concorrem entre si, em termos de grandiosidade, e com os pequenos templos dedicados a Shiva ou a Krishna ou a outros deuses hindus.
Lumbini, Cidade berço de Buda


Esta convivência cultural estende-se aos níveis mais prosaicos da vida quotidiana. Ao ponto de por vezes me perguntar se estou no Nepal ou na Índia. As vestes coloridas das mulheres, os cabelos pintados de quase todas as pessoas com cabelos brancos - quantas vezes ficando de cor alaranjada, pela fraca qualidade da tinta -, a música, os filmes de Bollywood, a mescla culinária entre o dal bath nepalês e o curry indiano, alguns hábitos como o de mascar paan (uma semente a que se junta nicotina e outras forma de tabaco, enrolado em folhas da árvore bétele) são facilmente visíveis em Chitwan - a  cidade que dá acesso ao Parque Nacional com o mesmo nome.

No 'parque protegido', (ainda) se podem observar muitos animais selvagens, como o rinoceronte, veados, crocodilos ou elefantes. Quanto a estes, a maioria já não é assim tão selvagem, e o uso e abuso a que estão sujeitos para satisfazer os caprichos turísticos, sugerem muitas outras questões. Ficarão para outro dia.


Mas as semelhanças entre os dois países, pelo menos na proximidades fronteiriças, são de tal modo visíveis que se pode perguntar se as guerras a que assistimos fazem sentido... Sobretudo num tempo em que a globalização promove o intercâmbio de culturas, tornando ainda mais difícil encontrar diferenças de substância. Daí que me questione cada vez mais acerca da necessidade de manter as fronteiras territoriais, geopolíticas... Claro que este assunto é sensível, mas fica uma semente para reflectirmos acerca do que queremos para as gerações vindouras...

Ironicamente, a data de 23 de Maio serve para evocar a proclamação da independência a Portugal, em 1179, concedida pelo Papa Alexandre III, através da bula 'Manifestis Probatum".

Também nesta data, mas já em 1977, nascia uma pessoa muito especial, por isso, sinto-me compelida a abusar deste espaço para desejar feliz aniversário ao meu querido irmão...

Para terminar e tentando fazê-lo com mais cor, o mês de Maio é, a meu ver, um mês muito propício à contemplação em todo o território 'português'. De norte a sul, as flores oferecem-se aos insectos que espalham, voando, ainda mais cor e possibilidade para germinar muitas outras vidas. Uma celebração constante, iluminada e pintada pelas vozes das aves que cantam, em modo contínuo, para quem quiser escutar.

Depende, pois, de cada um de nós reconhecer e receber a generosidade infinita da Natureza. E depende, sem dúvida de nós, humanos, estar atentos e conscientes para A proteger e preservar. Se quisermos proteger e preservar a vida... Humana. E que seja uma vida mais humana...



*Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

Avicii - uma estrada (in)terminável *



https://youtu.be/IcrbM1l_BoI


A estrada é interminável.
O vento acorda o poeta.
Posso ser o sol do teu coração. Mas sou imparável.
Desperto todos os dias contigo.
Os braços estão quase abertos com a cor do teu amor, sem gravidade.
Podemos ser tudo. Os olhos não são suficientes para agarrar a estrada.
Acorda-me. Mesmo que não tenhas planos. O que posso eu fazer? Estou fora de controlo. Fui apanhada de surpresa.
Vamos pelo mar do teu mundo.
A magia está no sol dos teus olhos.
Sinto-me bem quando escuto a voz do teu rosto - uma estrada interminável...

21 de Abril de 2018
Nova Déli, Índia


*Avicii desapareceu esta noite. Tinha 28 anos! 

Na pele de um rinoceronte



Posso tocar? O cuidador anuiu. Não hesitei. A pele do rinoceronte bebé era muito mais dura, muito mais grossa e, ao mesmo tempo, muito mais macia do que imaginava.

O dorso cinzento da cria de nove meses era uma camada protectora forte. O relevo das marcas na pele jovem era tão suave como o seu olhar - quando se desviava dos ramos e folhas para perscrutar a sua observadora.

Saltitei, deslumbrada como se tivesse seis anos, na sua direcção logo que o avistei. A indiferença do animal selvagem surpreendeu-me. Talvez por estar entretido na sua ruminação, como se meditasse. Sentado a seu lado, um homem de cabelo preto recentemente pintado, com olhos rasgados no seu rosto tisnado pelo sol nepalês: o seu cuidador. Informou-me quase no final do encontro. Ah... Até aí ignorava a razão da sua presença, tão-pouco a utilidade da cana de bambu à sua frente e menos ainda o esforço que aparentava fazer para não a usar.

Tenderi estava ferido. Caiu na casa (?), justificou o homem, sem tirar os olhos do telemóvel. Vi sangue em várias partes do corpo. Uma ferida no focinho, uma ferida numa pata, duas feridas no dorso, uma outra numa perna. O jovem animal continuava a intrigar-me. Não parecia nada de grave, mas tendo em conta que os rinocerontes órfãos ficam sob cuidado humano até aos três anos, antes de regressarem à selva - neste caso, para o parque nacional de Chitwan -, presume-se que seja para estarem protegidos dos grandes predadores e outros perigos.


Foi Raj Indra, o guia do sítio onde me hospedei, que me deu a saber a origem do jovem Tenderi. Durante a conversa com o seu cuidador, se é que se pode considerar conversa (as poucas palavras que aprendi em nepalês eram insuficientes para aprofundar o assunto), não me foi possível perceber que o rinoceronte bebé era órfão. Na verdade, a proximidade que me permitiu tocá-lo, sentir a sua pele, escutá-lo e observar a sua boca ruminante, emocionou-me ao ponto de ficar confusa quanto à causa das lágrimas que tentei reprimir. Os olhos húmidos resultavam da alegria da minha criança e da tristeza que o eventual (?) sofrimento da 'criança' rinoceronte estaria a sofrer.

O guia atenuou parte da angústia causada por aquele encontro. Pelo menos existem alguns cuidados em relação às crias que perdem os seus progenitores. Pelo que percebi, esta é uma forma de os proteger de grandes predadores, como o leopardo, uma das espécies que vivem naquela área protegida.

Na manhã seguinte, durante o passeio ao amanhecer: outro bebé, outro toque, outra emoção, mais angústias. Um elefante bebé. Outro cuidador que o trazia a passear, como se de um animal de estimação se tratasse. Também senti a pele desta cria, cuja reacção me fez novamente transbordar. O som que emitia era um novidade, uma espécie de guincho, dando-me a sensação de que estaria a gostar e queria mais (ou talvez fosse o que a minha criança queria acreditar).

Mas o seu cuidador estava com pressa e tive de me contentar em passar a mão por um minuto. E que minuto... Os pêlos negros da pele cinzenta esbatiam a sua rugosidade. Enquanto a mão se movia, tentando agarrar as sensações, para mais tarde as transpor em palavras, o cérebro processava as novidades que o tacto lhe providenciava. A memória deste sentido ficou ainda mais rica.

A minha criança deslumbrava-se.

Não obstante, a pessoa que em mim habita ficava ainda mais em cuidado. Aquele jovem elefante, como muitos outros em Chitwan e outras partes do mundo, estava a a ser domesticado, a fim de ser mais um dos entretenimentos para os milhares de visitantes do Parque Nacional.

Pergunto-me se, pelo menos por algum momento, se, pelo menos um ou outro visitante se tenta colocar na pele de um rinoceronte ou de um elefante... quando se deixa passear em cima da sua pele...


15 e 18/04/2018
Chitwan, Nepal
Nova Déli, Índia

O banho dos elefantes


 O banho dos elefantes é uma das atracções de Sauraha, uma das vilas que dá acesso ao Parque Nacional de Chitwan, Nepal. São inúmeras as agências turísticas que oferecem uma série de actividades aos visitantes. Caminhadas de um ou vários dias na selva, passeios de jipe na selva ou até ao lago 20000, passeios de canoa, passeios nocturnos, a pé ou de jipe, noites na torre - presume-se que numa das muitas torres de militares, aqueles que fazem a vigilância do parque nacional -, observação de aves, passeios de elefantes e banhos dos elefantes.

Aluguei uma bicicleta e ontem pedalei até ao lago 20000, onde subi a uma das tais torres de madeira e tecto de alumínio azul. Os seus dois andares têm um impacto discreto na paisagem. O mesmo não se pode dizer das garrafas de plástico à beira-lago, tão-pouco do pó que engoli antes de me sentar num dos bancos providenciados para a contemplação.

 Entre a bilheteira e o parque de estacionamento percorri cerca de cinco quilómetros em terra batida na companhia de um militar, com quem ia trocando impressões acerca de Portugal e Nepal. O cheiro a queimado era resultado de um incêndio recente provocado por algum fumador distraído. Ali, na floresta de Chitwan. A conversa ia sendo interrompida pelo motor e o pó dos jipes, o que me obrigou a lavar o cabelo à chegada a casa.

 Contemplei os muitos verdes das águas e da vegetação em torno do lago, melhor dizendo, lagos. Os diversos leitos de água faziam adivinhar dezenas, não milhares de pequenos lagos. Um local também apreciado pelos mais jovens, a ver pelos pares amorosos que ali se encontravam a passear. Também duas famílias nepalesas desfrutavam do lugar.

 No regresso a Sauraha, cruzei-me com muitos nepaleses deslocando-se bicicleta, sendo abordada inúmeras vezes com um sorriso acompanhado de Namastê. Não era a única estrangeira, mas os poucos que escolhem a bicicleta para conhecerem as redondezas faziam de mim uma atracção local. Os óculos de lentes azuladas e espelhadas também cativavam as crianças sorridentes e curiosas.

 Nas proximidades da vila ultrapassei vários elefantes transportando algumas pessoas no seu dorso. Tão altivas que não tinham como vislumbrar, só assim entendo a sua opção, o olhar tão pesado, quanto triste dos animais. A sensação que tive foi a de que a sua angústia era proporcional ao seu tamanho. Mas o olhar dos turistas não terá captado o rio perdido dos seus transportadores.

 Quando, hoje, me dirigia para o lugar onde os elefantes vão a banhos, não sabia o que ia ver. No dia em que cheguei, Raj Indra, um dos funcionários e guia do hostel, conduziu-me por um curto passeio pelas redondezas, assinalando-me à distância este local, informado-me a hora estipulada para o efeito: onze da manhã.

Passava-me pela cabeça que seriam às dezenas, os maiores mamíferos terrestres no rio, dado o número de locais que oferecem os seus serviços. Durante o caminho observava uma espécie de discurso interior, como que a preparar-me psicologicamente: muito bem, pelo menos levam os pobres animais ao rio; talvez assim se sintam um pouco livres dos seus deveres.
 Qual quê!

Ainda era cedo, dez e pouco, quando alcancei a margem do rio e vi três elefantes. Imagino que o número tenha subido ao longo da manhã. Em cima de cada um deles, estavam outros animais, os humanos. Nem ali os trombudos estavam em paz. Pelo contrário, eram estimulados - espicaçados, melhor dizendo, com um pau - para molharem os humanos com as suas trombas, à laia de mangueira.



 Os grandes paquidermes tinham a pele manchada, parecia gasta e doente. Perguntava-me se as escovas seriam adequadas para aquela pele sem a sua camada de lama protectora face aos raios solares. Acredito que em Chitwan essa protecção seja necessária, uma vez que a cor avermelhada do sol, aquando das suas fases nascente e poente, confirma os elevados níveis de poluição.

 Sentei-me debaixo da palhota com cerca de dois metros de largura e cinco de cumprimento. Insuficiente para a plateia que chegara com antecedência.

Ao meu lado, uma jovem turista perguntava ao seu guia se este iria ao banho, com um dos elefantes. Ele respondeu com a mesma questão. A jovem loira de olhos azuis parecia na dúvida. Talvez estivesse céptica quanto à qualidade das águas. O fraco caudal - estamos em meados de Abril - aguarda o início da monção para recuperar deste clima mais quente e seco. O verde acastanhado era pouco convidativo, pelo menos para esta estrangeira. Mas à beira rio adivinhava-se uma fila de gente a querer saltar para as costas dos elefantes e assim levar com a sua tromba... de água. Escutava a conversa de ambos com curiosidade e até expectativa. O guia dizia à moça que podia tomar banho quando lhe apetecesse, enquanto que ela teria ali a sua oportunidade... única.

Engoli em seco as palavras que voaram numa voz doce e num inglês não nativo, tentando captar traços de ironia: "eu gostava de te ver a tomar banho com o elefante". Sim senhora, um dois em um. O maior animal terrestre, aqui domesticado (na melhor das hipóteses), subjugado aos caprichos dos turistas e a dar banho ao guia local. Uma bela fotografia para postar nas redes sociais.

Não consegui esperar pelo ponto alto do espectáculo circense. Ainda que não tenha poder para evitar este tipo de prática, o facto de estar aqui implica-me o suficiente para, pelo menos, partilhar este texto, ao mesmo tempo que reflicto acerca dos meus próprios comportamentos e atitudes, questionando-me: como posso eu contribuir para um mundo um pouco mais justo, um pouco mais
amoroso e mais sustentável?...


12/04/2018
Chitwan, Nepal




Vislumbres do Nepal *



Sentada à beira do lago de Pokhara. Parapentes coloridos pintam o céu azul sobre as mais altas montanhas do planeta. A brisa permite que esvoacem com facilidade, distraindo os dedos do teclado, ao mesmo tempo que lembram o privilégio de estar a cumprir o sonho de tocar, cheirar, escutar os Himalaias.

Pokhara é uma cidade muito turística, com gente de todo o mundo, dado ser um dos pontos de partida para as longas caminhadas pela cordilheira mais alta do mundo. Os primeiros vislumbres do Annapurna, um dos picos com mais de oito mil metros, justificam o desconforto sentido durante as viagens de autocarro, desde Varanasi, na Índia, até Katmandu e, da capital do Nepal até à cidade lago, Pokhara. De facto, as estradas em obras, percorridas em autocarros rústicos, demonstraram ser duras provas de resistência. Ninguém disse que seria fácil...

Todavia, quando se recupera o motivo pelo qual as estradas se encontram ainda num estado deplorável, aquele desconforto é despiciendo. O sismo ocorrido a 25 de Abril de 2015, com a magnitude de 7,8 na escola de Richter, resultou em milhares de vítimas e na destruição de outras milhares de infraestruturas, entre as quais algumas património da humanidade, como a Praça Darbar, em Katmandu.

Na capital e arredores, as consequências são ainda muito visíveis, quer pelas obras de recuperação, quer pela dificuldade em transitar pelas estradas. O indizível sofrimento que o povo nepalês terá vivido, e certamente ainda sentirá, não destruiu a generosidade, tão-pouco apagou o sorriso das gentes dos Himalaias.

Os dias em voluntariado, num 'ashram' de meditação, permitiram desfrutar dessa generosidade, bem como captar alguns vislumbres de costumes e hábitos da cultura do Nepal.

Namastê! - A divindade que em mim habita, reconhece a divindade que em ti se manifesta. Namastê! A primeira palavra proferida, acompanhada de um gesto de reverência e respeito, por todos os que se encontram pela primeira vez em cada novo dia. A uma desconhecida e estrangeira, esse gesto era iluminado por um sorriso aberto, como que indagando se estaria bem, ou se precisaria de alguma coisa para ficar melhor.

O almoço era sempre uma experiência incógnita. A cada dia um novo prato, mais ou menos picante, mas sempre saboroso. As 'chapatis' acompanhavam os legumes e leguminosas cozinhados com uma diversidade imensa. Sozinha na minha refeição, dava por mim a sorrir no primeira colherada a tocar as glândulas gustativas. Sim, colher, sobretudo para as pessoas estrangeiras. A grande maioria das nepalesas, como as indianas, dispensam os talheres.
Se me reporto apenas às mulheres, deve-se ao facto de, naquele espaço de meditação, a segregação entre os sexos ser obrigatória. Se noutros retiros isso acontecia somente entre os estudantes de vipassana, ali, essa separação mantinha-se igualmente entre os servidores e voluntários. A vigilância mantinha-se ainda durante as refeições, sendo que havia uma sala de jantar para as mulheres e outra para os homens. Quanto às servidoras e voluntárias, sugeria-se que se recolhessem numa arrecadação na última refeição do dia.

Por vezes, também era chamada a almoçar na arrecadação. Mas o objectivo era outro: uma das servidoras mais velhas fazia questão de me providenciar novos paladares. Na última refeição tive direito a cinco 'mo-mo', um dos pratos típicos do Nepal. Uns rolinhos de massa (crua, pareceu-me) recheados de legumes acompanhados de um molho mais ou menos picante. Delicioso!

À semelhança de outras paragens e culturas, também aqui as vestes das mulheres procuram manter o recato, protegendo todo o corpo, com excepção das extremidades, não apenas do sol, mas sobretudo do olhar alheio. No Nepal, as mulheres hindus, tal como as suas congéneres indianas, usam calças e saris de todas as cores. Percebe-se alguma predominância do verde e do cor-de-rosa. Já as muçulmanas, como em quase todos os lugares, cobrem a cabeça e muitas o rosto, conferindo, com frequência, mistério ao seu olhar impenetrável.

Não era o caso de Sudharta, a minha companheira de serviço. Sempre pronta a ajudar-me em todas as tarefas e respectiva compreensão, a tez morena de Sudharta revelava toda a sua vida na sua expressão. O olhar negro e profundo vagueava entre as memórias das dificuldades já vividas e a alegria de servir e ser útil.

A minha companheira de voluntariado vive há cinco anos na Dinamarca, com a sua família. Foi o marido que a escolheu para dela desposar, quando a jovem tinha 18 anos. Apesar do amor que Sudharta desde o início sentiu pelo homem que a seleccionou, a sua família ainda hoje discorda do seu casamento. Também foi o marido que decidiu a nova morada, com a esperança que o filho, hoje com 17 anos, tivesse mais oportunidades de educação e futuro profissional.

A experiência num país do norte da Europa mostrou a Sudharta outras formas de vida, outros hábitos e outros costumes. Era com algum descontentamento que Sudharta se referia e comparava algumas práticas do seu povo, em particular aquelas relacionadas com o tratamento do lixo, ou a ausência de tratamento e cuidado.



É curioso como as perspectivas transformam o olhar. As semanas anteriores, passadas no norte da Índia, amenizaram aquelas palavras em tom de crítica da minha companheira. Depois de me ter emocionado com a pobreza, aliada à falta de higiene (segundo os meus padrões) na Índia, os meus olhos observavam e observam, no Nepal, pessoas continuamente a limpar o chão, tornando as ruas transitáveis sem a preocupação constante de estar atenta por onde colocar os pés. Desse modo, podia, posso, contemplar tranquilamente as cores das flores, dos pássaros, das borboletas.

Ah, e tantas borboletas serpenteiam à minha volta. Brancas e pintalgadas, amarelas e riscadas. Ainda nenhuma azul... Quem sabe vislumbre outras tantas borboletas aquando do circuito do Annapurna que iniciarei dentro de dois dias.

Namastê!


*Este texto foi publicado no jornal Chapinheiro

De Varanasi a Katmandu... de autocarro! (Da Índia para o Nepal)


"No seu rosto a vida inteira" - uma expressão que guardei de Owen, quando me chamou a atenção para um homem que víamos da janela... do autocarro.
Owen, um inglês a viajar há cinco meses pela Índia. Alto, magro e de longos cabelos ondulados, Owen chegou à estação de Varanasi com Matheo, um eslovaco de 40 anos a viver desde os 18 anos nos EUA. Conheceram-se em Goa, duas semanas antes, juntando-se na partilha de despesas de alojamento. Um compromisso temporário que sugeria conferir alguma segurança ao inglês. Os seus quase 37 anos de vida (a completar dias depois) concediam-lhe uma enorme vontade de crescer, de se conhecer e de ultrapassar o receio da solidão. Esperou quatro semanas pela ex-namorada, que acabou por não chegar. Seguiu com Matheo, viajante solitário e independente, que terá reconhecido na sua companhia a necessidade de alguma orientação, ao mesmo tempo que lhe providenciaria ajuda nos custos.
A entrada dos dois homens europeus, altos, de tez e cabelos claros, na estação de Varanasi não foi discreta. Sobretudo por serem os únicos estrangeiros, para além da portuguesa que escreve. O local para onde atiraram as mochilas fazia adivinhar que teriam o mesmo destino que eu: Sunauli - a cidade fronteiriça com o Nepal.
A pesquisa efectuada anteriormente sugeria ser mais seguro ou, pelo menos, mais confortável recorrer ao comboio como meio de transporte, ainda que em termos práticos me parecesse mais aborrecido. Isso mesmo me confirmou Atul, o guia do hosteLavie, onde fiquei alojada em Varanasi. Para além do percurso sobre carris, seria necessário trocar para um autocarro, antes de atravessar a fronteira. Por conseguinte, acabei por seguir o conselho do indiano, apanhando o mesmo autocarro que Owen e Matheo. Fiquei entretanto a saber que o horário de saída não era o melhor para a viagem em causa. Ou antes, o autocarro nocturno teria sido a opção mais conveniente, uma vez que seria directo. Ignorava tal facto, contrariamente aos que se tornaram então os meus companheiros de viagem. Eles, sim, haviam tentado esse mesmo autocarro. Em vão, estava lotado.
Assim, em vez das dez da noite, o horário de saída seria às 19:45h. A partida tardou em meia hora. O tempo necessário para que o autocarro ficasse cheio. Nem um lugar vago. Os três estrangeiros escarrapachados contra a janela do autocarro. É que cada um se havia sentado numa fila de três lugares contíguos, na expectativa de se atravessar ao comprido.
Mas a maioria dos passageiros saiu na penúltima paragem. Pelo menos ainda tínhamos quase duas horas até nosso destino para nos estendermos. Quer dizer, Owen não teve a mesma sorte e manteve-se estacado contra o vidro. Não foi, pois, estranho observar os olhos ainda mais encovados de Owen quando finalmente os pés tocaram o chão, ainda indiano.
Apesar de estarmos apenas a 500 metros da fronteira - informação que ignorávamos - fomos 'assaltados', 'atacados', assoberbados por meia dúzia de motoristas de riquexó. A sua insistência era de tal modo agressiva, que quase nos obrigaram a subir para os seus bólides a pedais. Matheo mostrou a sua raça e negou de forma veemente e audível. Até que o caminho se mostrou à nossa frente quando alguns candeeiros iluminaram a estrada principal. A escuridão das seis da manhã ainda era negra. Perguntávamos-nos por que raio o autocarro parara num sítio tão ermo e sem referência. Agradeci a presença dos dois viajantes estrangeiros...
Terá sido esse devaneio que me fez distrair... e tropeçar, e cair, e sem conseguir levantar-me: tinha duas mochilas atreladas ao corpo cansado. Owen estava atento e ajudou-me. Matheo só olhou para trás quando finalmente sacudi o embaraço. Isso aconteceu depois do carimbo de saída da Índia no passaporte e do 'masala chai' que os dois homens beberam para ajudar o caminho até ao outro lado da fronteira.
Já era dia quando entrámos no Nepal. Um sonho a cumprir-se... sem grande entusiasmo. E se pensava que o autocolante com o carimbo do visto adquirido por cem dólares me encheria de alegria, a entrada no autocarro, que nos conduziria até à capital, afogou qualquer esperança de regozijo para as primeiras horas no país dos Himalaias.
O bilhete comprado cinco minutos depois de sair do gabinete fronteiriço nepalês prometia o lugar num autocarro turístico, teoricamente mais confortável que o da noite anterior. Digamos que fomos ligeiramente enganados. Turistas éramos só nós, num transporte cujos lugares de passageiros eram ainda mais exíguos. Talvez pelo facto dos nepaleses serem também mais pequenos. As mochilas foram lançadas para o topo do veículo, onde terão recebido muito do pó reminescente do terramoto de 2015.
Eram sete da manhã quando nos mandaram - literalmente - sentar em determinados lugares. Não obedecemos. Tínhamos esperança de conseguir estender um pouco as pernas no espaço para duas pessoas, em especial os dois homens. Ao fim de dez minutos estávamos novamente escarrapachados contra as janelas.
Houve paragens consecutivas nas primeiras horas. Gente a entrar, café ou chá aqui, casa de banho ali, combustível acolá, vendedores de fruta, de bolos, de salgados, de bebidas e disto e daquilo....
Numa das paragens aproveitei para comprar fruta. Fiquei surpreendida com a atitude de um miúdo. Pediu-me uma tangerina. Ou melhor, os seus modos eram os de quem exigia que lhe desse uma tangerina. Talvez por isso, não me sentia na melhor das boas vontades. O que é certo é que o miúdo de calças esfarrapadas entrou comigo no autocarro, e não foi embora enquanto eu não lhe dei uma peça de fruta. A minha percepção foi a de que, sendo eu estrangeira, era mais do que minha obrigação dar-lhe qualquer coisa.
É difícil dizer o número de vezes que o autocarro terá parado antes do almoço, cerca das 12:30h. A paragem foi à beira da estrada, onde havia uma série de barracas, com tectos de alumínio e bancos e mesas de madeira, a servirem de lojas, restaurantes e bares. Como nem toda a gente estava pronta para sair antes das 13h, aí ficámos até às quatro da tarde!!!
A estrada fechou nesse período para se trabalhar nas obras em curso. Inacreditável!, para os três estrangeiros. Assim como era, para nós, surpreendente a passividade dos restantes passageiros. Três horas parados, e? A maioria nem saiu, apesar do sol quente a radiar pelas janelas adentro.
Matheo considerou que o melhor modo de passar aquele tempo de espera seria a experimentar o Red Bull local... misturado com vodka. Convidou Owen para o acompanhar, o que para o inglês era um sinal  de alcoolismo. Aceitou o convite. Posteriormente, Matheo juntou um pouco do seu elixir da paciência ao meu sumo de manga. E não é que resultou? Passado pouco tempo eram quatro horas da tarde e nós em movimento. Mas pouco. Com as filas intermináveis após aquela paragem, mais o estado miserável da estrada, mais as obras em curso, descemos do autocarro perto das onze da noite. Eram quase onze e meia quando chegámos à porta do hostel, no bairro Thamel, em Katmandu. Foram necessárias mais de 16 horas para percorrer cerca de 280 quilómetros.
Owen abraçou-me para me consolar quando, estarrecida, escutei o recepcionista do 'Family Peace house' dizer que a minha reserva fora cancelada. A meio da viagem, o que me dava algum alento, paciência e até tranquilidade era saber que me esperava um quarto só para mim, numa zona sossegada. Mas o funcionário tinha um argumento de peso (?) para às nove da noite dar o 'meu' quarto a outros hóspedes. Na minha reserva constava que eu chegaria às cinco.
O desalento foi curto. Como optara pela zona turística da cidade, havia lugar numa guesthouse a menos de cem metros. Agradeci o abraço e a cama.
No dia seguinte era feriado. Holi day em Katmandu para os hindus da cidade. Uma grande maioria. E as ruas encheram-se de cor e de alegria e de gente local e estrangeiros, com tinta na roupa e nos cabelos e no rosto, encharcados com os baldes de água que eram atirados das janelas e varandas.
O cansaço e o pó da estrada apagaram-se com as cores molhadas...






     11/03/2018
Pokhara, Nepal

Um postal de Varanasi


O último pequeno-almoço em Varanasi foi na companhia de Askhay. Estávamos os dois de partida do 'hosteLa vie'. O jovem blogger escreve sobre os conteúdos e respectivos modos de divulgação nos media. Askhay regressaria nesse dia a Mumbai, a sua terra natal, e iniciava a sua primeira refeição: uma omelete, uma banana, duas torradas, acompanhadas de masala chai, o típico chá indiano. Juntei-me a ele. No dia anterior fora ele a tomar a iniciativa. Estava curiosa. Askhay iria ao Templo Kashi Vishwanath. Eu tentara duas vezes, mas as filas intermináveis, com os pés descalços, detiveram-me.

Naqueles dias, vésperas do Holi Festival, a afluência era crescente. Também Askhay desistiu; no dia dedicado a Shiva, os devotos eram ainda mais. Por conseguinte, o jovem indiano 'terá' de voltar à cidade sagrada, para então se banhar no rio Ganges e, assim, alcançar a libertação. A redenção dos seus 'pecados' e 'mau karma' apenas será possível com obtenção da benção de Shiva, no Templo Dourado - a outra denominação para a casa do deus da destruição: Shiva, ele próprio.

Indestrutível, Askhay (o significado do seu nome) ainda não se sente preparado para atingir o estado superior de purificação, tão-pouco para assistir e participar no festival das cores, a começar dois dias depois. O festival comemora a vitória do bem sobre o mal, ou seja, a vitória de Vishnu sobre Holika.

Ao final dessa última manhã pelas ruas e ruelas da cidade mais importante do hinduísmo, já se sentiam as cores da festa sagrada, não apenas com as crianças e jovens que surgiam pintalgados de roxo, amarelo, verde, vermelho ou laranja, mas também na afluência às cerimónias bi-diárias, na margem citadina, ao longo dos mais de oitenta ghats.

 No primeiro, o Assi Ghat, as práticas têm início às cinco da manhã, com concertos de música clássica, seguidos de ioga e/ou meditação. Ao longo da margem, em especial nos ghats mais importantes e de maior dimensão, como o Dasashwamedh, desde o amanhecer que chegam os devotos para obter a benção e orientação dos bramas ou gurus, ao mesmo tempo que contribuem com os seus donativos para a vida ascética dos mediadores dos deuses.

Um negócio, diz Atul o guia do hostel que, pertencendo à casta dos bramas, considera que negócio por negócio, prefere trabalhar e ganhar o seu próprio sustento. Também o guia assegura que os banhos no rio são um modo de encontrar um equilíbrio entre as acções do passado e a salvação no futuro. Já no que concerne ao significado de outras crenças, Atul é mais céptico.

Diz Atul que a migração das almas aquando da cremação é um mito. Ainda que existam práticas nesse sentido. Isto é, há quem acredite que se o corpo de uma pessoa recentemente morta for cremado na presença de crianças muito jovens ou mulheres grávidas, há possibilidade de ocorrer a transmigrassão da sua alma para um novo receptor. Atul negou convictamente, acrescentando que as mulheres estão proibidas de assistir à incineração dos corpos, para não macularem a viagem do morto, uma vez que as lágrimas femininas são impuras.

A cremação acontece em dois ghats, sendo o Manikarnika o maior e principal, onde diariamente se queimam cerca de 250 corpos. Este é, aliás, um dos 'pontos de interesse' durante os passeios de barco que diariamente navegam cheios de turistas e afins ao nascer do sol. Apesar de se alertar para o facto de ser inconveniente fotografar, os cliques dos engenhos concorrem com o crepitar da carne a assar. Não é raro que alguns dos milhares de cães doentes e famintos da cidade aproveitem a oportunidade de obter carne, já que isso não é fácil encontrar entre os restos dos hindus, na sua maioria vegetarianos.

Ao fim da tarde, o rio volta a vibrar.  As cerimónias de agradecimento ao Rio Ganges e à Deusa Ganga, aquela que terá descido do céu para viver no rio, ocorrem todos os dias a partir das seis da tarde. Os monges dançam lenta e meticulosamente com as velas e sinos. Enquanto os ghats são preparados para o ritual, os crentes têm mais uma ocasião para as oferendas aos deuses e ao rio, como sejam flores, arroz e doces.
A natureza sagrada das águas onde o bem destruiu o mal são o motivo pelo qual a maioria dos hindus anseia ir, pelo menos uma vez na vida, a Varanasi e banhar-se no rio para a sua purificação.

Uma prática arrojada para a maioria dos estrangeiros, mas são alguns os que se rendem à atmosfera e mergulham nas águas imundamente sagradas. Impossível saber se estas pessoas terão ido primeiro ao Templo Dourado, mas Askhay, o meu companheiro de pequeno-almoço, garante que só desse modo a libertação acontece.

27 de Fevereiro, de 2018
Varanasi, Índia

Um postal de Déli *



Aterrei em Déli no dia dois de Fevereiro. Ainda estou nesta grande metrópole e, no dia em que escrevo, ainda é uma incógnita o lugar onde estarei neste subcontinente, aquando da leitura deste postal - chamemos-lhe assim.

É possível que as experiências anteriores, em cidades tão ou mais populosas, tão ou mais "caóticas" (para mim), tão ou mais coloridas, tão ou mais intensamente olorosas, com tantos ou maiores contrastes, me tenham 'preparado' para eventuais "choques". As ideias pré-concedidas, as expectativas (ainda) têm alguma influência no modo como dou os primeiros passos no desconhecido.
Foi necessário realizar algum 'trabalho de casa' antes de voar desde o Porto. De qualquer maneira, gostaria de ter a capacidade de me deslumbrar, qual criança sem passado, que se extasia com tudo, num contínuo de novidades.

Dentro das minhas óbvias limitações nessa matéria, procuro estar atenta e deter-me nos lugares sem comparar, sem julgar, sobretudo desfrutando, saboreando, escutando. Ou seja, percepcionando com receptividade o ambiente em que me encontro, que me rodeia, deixando-me envolver.
É com algum esforço, confesso, que aceito o ruído do trânsito (ora aí está uma classificação, e preconceituosa). Mas quando me abstraio dos sons mais fortes e intensos das buzinas a tocar continuamente - faz efectivamente parte das suas regras de condução -, estou apta a levantar o olhar, a erguer os ombros e a inspirar profundamente, não apenas para sentir a imensidão dos aromas que se misturam, mas igualmente para apreciar as tonalidades que os envolvem, que lhes dão 'forma visual'.

Iniciei o périplo no Sul de Déli, a pouco mais de cem metros do meu local de alojamento. Perguntei ao gerente do hostel se existia algo interessante nas redondezas. Rufu, o jovem moreno, ainda que de tez pálida, talvez pelos anos vividos fora da Índia, sugeriu-me ir até ao parque dos veados - Deer Park. Se é verdade que reservei alojamento fora do centro, sabendo que existiria um parque nas proximidades, há que dizer que, pouco depois de ter entrado, estava agradavelmente surpreendida. O facto de não ter qualquer ideia quanto ao espaço, desencadeou uma série de sensações aprazíveis.
Entrei pelo portão que dava acesso ao campo dos veados, eram dezenas a materializarem o bambi da minha infância. Pacíficos e relaxados, nas suas vestes castanhas pintalgadas de branco, mantinham-se indiferentes aos humanos que os admiravam e guardavam memórias fotográficas.

Prossegui e quase fui atacada por um dos muitos macacos à solta, em busca de comida, saltando sobre alguém para arrepanhar o que tivesse nas mãos. Quis tirar uma fotografia e ter-me-ei aproximado em demasia, diria, e senti que estava a ser tão ou mais atrevida que os próprios 'monos'.
Essa primeira tarde em Déli foi intencionalmente descontraída, a fim de me adaptar ao fuso horário. São mais cinco horas e meia que têm, sem dúvida alguma, efeito no meu ritmo circadiano. Passeando pelo parque, ia apreciando o lago habitado por patos cantantes e as ruínas que se impunham como barreira aos sons urbanos, nas quais muitos pares de namorados se compraziam no último fim de tarde da semana de escola.

Voltei ao parque dois dias depois para uma caminhada matinal. Os trilhos multiplicaram-se, os espaços ampliaram-se e muitos recantos revelaram-se. Muita gente a realizar as suas actividades mais ou menos físicas, mais ou menos meditativas: corrida ou caminhada estugada nos trilhos, musculação nas máquinas disponíveis, ioga no prado, meditação sob uma árvore. O parque dos veados exalava energia.

Os primeiros dias na capital política foram a visitar locais de referência. Comecei pelo Forte Vermelho, património mundial da Unesco, construído no século XVII, em Velha Déli. Surgiu da vontade do mesmo soberano, que mandou construir Taj Mahal, mudar a capital do reino, depois da morte da sua mulher, para quem aliás terá mandado erigir uma das sete maravilhas do mundo. A denominação do Forte resulta da coloração das pedras que o edificam e ladeiam vários hectares que serviram de base à nova capital.
Talvez por ser Sábado, havia centenas de visitantes locais. Aliás, observei uma enorme afluência aos lugares com história ao longo dos dias. Merendei num dos muitos jardins do Forte, degustando duas 'samosas' vegetarianas. Na verdade, a degustação tem sido um dos pratos fortes desta viagem. A cozinha hindu é rica em pratos vegetarianos, o que facilita a escolha. As especiarias tornam as comidas realmente quentes, picantes e até adocicadas. Um pormenor: a minha transpiração está picante e por vezes pressinto odor a caril.

Essas chamuças macias de vegetais foram apenas o início da aventura na  degustação. Alguns dias depois fui a um casamento. Foi Sagar, um amigo que fiz no Rio de Janeiro, aquando dos Jogos Olímpicos, que me convidou a juntar-me à sua família. Essa foi uma experiência explosiva de sabores, com mais de cem bancas com iguarias de todo o país. Entradas, saladas, sopas, pães diversos, pratos principais, sobremesas, acompanhamentos, bebidas refrescantes que me demonstraram que o picante é muito diversificado, em especial quando mesclado com algo fresco ou doce.

Saí da cerimónia com pelo menos mais três quilos. No entanto, pensei que aquela era uma oportunidade única para experimentar a multiplicidade gastronómica, acompanhada de explicações precisas sobre o que comia e a sua origem.
Naturalmente que o casamento, com cerca de 800 convidados, ultrapassou a prova de delícias gustativas e aromas indianos. As vestes riquíssimas da maioria das mulheres enchiam os meus olhos. Cor de laranja, matizes de vermelho, cor de rosa, lado a lado com azuis e verdes diversos, roxo, cor de salmão, nos vestidos, saris e túnicas debruados a dourado nos mais finos tecidos. Não era o caso de Samiksha, a irmã de Sagar. A jovem de 22 anos, com bochechas cor de chocolate, explicou-me que quanto maior a proximidade à família dos noivos, mais cuidada e imponente é a indumentária. Não era, pois, o caso da família simpática que me acolheu em sua casa, cuja afinidade distante lhe permitiu fazer-se acompanhar-se de uma estrangeira.

O casamento foi o término de um dia bem passado com Sagar, que me levou a conhecer alguns dos seus lugares preferidos em Déli, nomeadamente o templo Kalkaji Mandir, onde os devotos da deusa Kali, como o meu amigo, se deslocam para a reverenciar. Aí tive a oportunidade de ser marcada pela tinta vermelha na testa e assim viver uma vida auspiciosa. A ver vamos.
O local estava repleto de pessoas crentes que faziam as suas oferendas - algumas notas, doces, flores muito amarelas, arroz que podiam adquirir numa das bancas - à sua deusa, ao mesmo tempo que proferiam e cantavam as suas preces. Como o templo de Lotus estava encerrado por ser segunda-feira, fomos almoçar ao  mercado Khan que, segundo o meu amigo, é o mais caro da cidade e no qual é possível encontrar muitas marcas internacionais.

O templo que mais apreciei nesse dia foi de outro tipo: os jardins de Lodi. É nesse jardim com cerca de 90 acres que se encontram vários túmulos, entre os quais o de Mohammed Shah, que governou o norte da Índia na segunda metade do século XV e início do século XVI. Sentámo-nos por algum tempo, apreciando o local, observando os esquilos e respirando a vegetação colorida.
Este e outros locais que entretanto fui descobrindo, e certamente irei encontrar, são apenas alguns exemplos do contraste existente e que já me cativou. Se no meio de riquexós e carros e motas e bicicletas e mesmo senhoras vacas, o cenário pode ser cansativo, os espaços tranquilos são muitos e de fácil acesso.

Para além destes lugares e sabores, houve outras experiências. Mas um postal é um postal. Quem sabe envie outros aos leitores do Chapinheiro. Por ora fico por aqui, desejando que no dia 20 de Março a Primavera se espraie por todos os cantos e recantos de Nogueira.

* Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

Mascando paan


Mascando Paan
Conheci Rishabh Jain num dos muitos corredores de Chandni Chowok, o mercado de Velha Deli. Um dos rapazes de uma loja de tecidos desse mesmo mercado. O meu olhar deteve-se durante algum tempo numa pessoa que, bem sentada e muito compenetrada, preparava uma mistura e a espalhava numa larga folha de uma 'qualquer' árvore. Rishabh registou o seu nome no caderno, enquanto eu desfrutava de uma nova experiência. Pedi-lhe que escrevesse o que estaria eu a mascar.
Ficou assim respondida a questão que me havia colocado minutos antes, ao ver um outro senhor muito satisfeito a esticar com todo o cuidado aquelas folhas muito verdes.
 O qualquer ficou esclarecido. Era uma folha de pimenta de bétele. É nesta folha que se embrulha a tal mistura que o segundo artesão preparava com todo a arte: paan ou gutkha.
Paan - noz de areca - é então a semente triturada que, depois de misturada com outras substâncias, como a pimenta e ervas, se masca durante alguns minutos. De acordo com a descrição escrita do jovem vendedor, além da pimenta, paan pode incluir tabaco e nicotina. Isso mesmo me deixara curiosa, enquanto observava  o artesão a espalhar com a sua espátula as diversas substâncias, que ia retirando de diferentes potes. Segundo outras fontes, leva ainda cal e a sua constituição depende da zona onde é consumido. Sendo algo novo, e sendo possível 'personalizar', Rishabh traduziu o meu pedido ao velho homem. Que, por favor, anulasse a nicotina, o tabaco e a cal. Teoricamente algo menos nocivo.
Segundo outras fontes, o paan tem efeitos semelhantes aos do tabaco.
Compreendi assim a razão de ser de tantos homens cuspirem para o chão. Ao fim de poucos minutos eu já não sabia o que fazer com os restos na boca. Fiquei ainda a saber o motivo de tantos homens terem os dentes coloridos de vermelho.
Aparte de resquícios da folha, senti uma espécie de quase náusea, duas horas depois. Tendo sido apenas quase, valeu a pena pelo tempo que contemplei o velho artesão a preparar os embrulhos de paan, assim como pelo parágrafo no caderno. Ainda que Rishabh Jain tenha tido muito gosto em conhecer a senhora Ema.

3 de Fevereiro, 2018
Nova Deli, Índia 

Terminal de aeroporto



Pode dizer-se que esta nova aventura começou ainda no Porto, na chegada ao balcão da companhia aérea turca para efectuar o check-in. Os passageiros com destino a Nova Deli, com ligação em Istambul, ficaram em terra. Exagero.
Foram somente recambiados para Madrid, sendo 'convidados' a voar com uma das subcompanhias da Ibéria. Na capital espanhola, em vez de uma hora de escala, conforme o plano original de voo, seriam sete.
A bem da verdade, esse terá sido um risco tomado pelos próprios passageiros. Quem é que compra uma viagem com uma hora de escala entre dois voos? Várias pessoas!
Ora, como o primeiro voo, desde o Porto em direcção a Istambul atrasou uma hora, a companhia aérea logo agilizou a situação. Por conseguinte, à hora prevista estavam aqueles passageiros mais arrojados, entre os quais duas famílias indianas com diversos volumes devidamente protegidos a plástico aderente e mais duas outras crianças de colo, num outro avião.
Não sei como é que as hospedeiras de terra resolveram essa situação da bagagem, dado que ao verem esse grupo aproximar-se logo se revolveram nas cadeiras, por detrás do balcão.
Isto de viajar com as companhias de baixo custo tem a sua ciência e cumprir ciosamente com o peso estipulado é um exercício nem sempre fácil.
Não seria de estranhar que a aeronave, visivelmente menos robusta, tivesse ficado ainda mais frágil com o acréscimo de malas e bagagens. Há que dizer que foi uma viagem em sobressalto constante. Talvez seja uma palavra muito forte, mas os ventos contra, numa velocidade estonteante, tornaram aquela hora nas nuvens num quase pesadelo.
Quase, uma vez que embora tenha enchido com todo o fulgor uma daquelas almofadas que se encaixam na nuca, não foi possível sequer dormitar. Logo, nem deu para passar duma eventual fase do sonho ao pesadelo.
O passageiro da frente falava como se estivesse num palanque, qual esquina dos falantes no Hide Park. Ainda que jovem estudante ansioso pelo seu segundo semestre de erasmus em Amsterdão, falava com os seus colegas - presume-se - com uma distinta colocação de voz. Augura-se um futuro político.
Daí que a trepidação, juntamente com o discurso (quase monólogo) do jovem apagassem o sonho de uma sesta. Era, com efeito, algo ansiosamente aguardado. Apesar do voo ser às 12:20h, eram cinco da manhã quando as pernas com síndrome de formigueiro não aguentaram mais o conforto da cama.
Desse modo, houve tempo para tudo e mais alguma coisa, nomeadamente para apreciar a Super Lua azul e/ou também  vermelha e tudo o mais no parque da cidade. Por conseguinte, houve oportunidade para mais uma despedida ao lugar mais bonito da cidade do Porto. Foi mais um até já, confiando-se num regresso em meados de Maio.
Por ora há que desfrutar da sanduíche e de do sumo natural que o voucher oferecido pela Turkish airlines permite. Há que dizer, todavia, que no balcão do Porto a informação foi distinta. Ali não podiam providenciar esse suplemento, sendo que os gastos seriam ressarcidos posteriormente. Hum... Além dessa dúvida, permanece a do paradeiro da mochila.
Aquando do check-in no balcão da companhia espanhola, a hospedeira não conseguiu despachar a mochila com olhos amarelos bem abertos para a Índia. A mochila estava bem identificada com uma etiqueta muito original oferecida pela amiga MA.
Assim sendo, seria necessário resgatar a senhora azul de olhos amarelos, com cerca de 18 quilogramas, no terminal 4 de Madrid (a ligação para Deli seria no terminal 1 com mais um check-in). Vá! Desta vez esse peso também se deve a uma garrafa de vinho do Porto muito embalada, mais um livro e mais dois ou três pequenos recuerdos, para alguma eventualidade.
De qualquer maneira, ao embarcar, uma das hospedeiras informou que afinal a mochila havia sido despachada para Nova Deli, actualizando, em conformidade, o canhoto do cartão de embarque. Bom, as expectativas, mesmo que sendo de evitar, são as de que às 11horas indianas de amanhã, aqueles olhinhos amarelos bem abertos sorriam muito ao rebolarem no tapete de entrega das malas. Já agora, o Sagar também agradece (e eu muito mais) que a garrafa de vinho Porto aterre intacta. A ver vamos...

01/02/2018
Aeroporto de Madrid, terminal 1