Amélia... escutando Yann Tiersen






Uma garota. Quase mulher. Cabelos negros, vaporosos. Uma sala de leitura num sótão embaciado pelas janelas há muito esquecidas de um pano limpo. Uma garota sonhadora. Sonha a realidade possível pelo encontro de olhares amorosos. Nas estantes bafientas encontra cartas perdidas, reveladoras de paixões memoradas em corações agora gelados.
Desdobra papéis amarelados e amarfanhados pelo tempo. “Tenho muitas saudades tuas, dos teus beijos macios...” – declarações esquecidas pelas horas que se tornaram dias; dias que se alongaram em meses, anos. Amélia. Assim a chamam quando querem dizer-lhe alguma coisa ou abraçar o seu corpo menino quase pronto para ser mulher.
Amélia encontra também gritos abafados por narrações montanhosas. Grumos verbais materializados em palavras escritas há muito desvanecidas. Escuta as vozes interiores num frémito espesso: “Tens que entregar estes sentimentos por revelar”. A ideia que se vai enformando em cada outra carta velha descoberta no interior de livros, cujo sonho é serem lidos. As bibliotecas – para que servem? Noutros tempos para as elites; neste tempo, das massas, quase para nada. Preferem-se ecrãs tácteis descomprometidos do esforço de pensar e viajar na leitura.
Amélia lê. Amélia quer escrever. Lembra a máquina da avó de pele encarquilhada pelo tempo. As teclas resguardadas por um pano também ressequido pelos Invernos. Pelas Primaveras também. No banco do jardim perfumado, ao sabor de brisas suaves de muitos Verões, essa máquina revelou declarações intencionalmente amorosas, tal qual estas cartas vasculhadas, sedentas de serem respondidas. O propósito da adolescente quase adulta que já compreende a importância de um beijo perdido.
Num envelope envelhecido pelo pó seco do sótão encontrado sem acaso, a morada endereçada. O ponto de partida. O nome em letra arquitecturada cuidadosamente, amorosamente. Lê. Decide-se. Será o remetente sonhado e desejado. Senta-se à mesa escurecida pelo verniz que ainda confere brilho, outro que não o do sótão apagado. A máquina do tempo em teclas ávidas de serem premidas. Resolve-se em palavras. Quais, ainda em esboço mental. Rapidamente deixam de ser ideias vãs para se concretizarem numa declaração esperada... eternamente – tua.
No entardecer que se faz longo, Amélia sorri para as letras que se impregnam numa folha branca que deixa de ser vazia. “Meu amor só hoje encontrei a tua carta numa gaveta trancada. Soubera eu que me amavas do mesmo modo que eu e teria ido ao fim do mundo para te encher de beijos. Quero-te muito, ainda. As minhas pernas já carregam muitos Outonos, mas as flores do meu sentimento ainda são coloridas como rosas de um jardim principesco. Anda, vem ter comigo. Vou ter contigo. Tenho um abraço para te dar, levo-te ou vens buscar? Assinado: o teu eterno admirador que se deseja reconhecido”.
A imagem da carta escrita em frémito convulsivo de Amélia. Próximo passo. Um envelope endereçado à amante, que talvez ainda possa ser amada. Os dias que se tornaram anos não apagaram aquele sentimento profundo. A crença de Amélia na sua inocência bucólica.
No lento circuito do tempo, o olhar vasto em sorriso intenso de Amélia esquadrinha um plano. As nuvens informes rasgam as saudades sepultadas dos que se escreveram sem resposta. Será a réplica, Amélia. Desdobra-se em várias e encontra o lugar da primeira remetente. Termina em tom declarativo o plano: “Vou deixar esta carta no correio!”
Esconde-se. Na casa caída do lado existe um portão sempre aberto que lhe dá um lugar de primeira plateia. Invisível – pensa estar. Olha em redor. A carta há minutos numa caixa pouco usada. A hora do carteiro é certa. Aguarda o tempo da leitora, urdindo a estrutura de um beijo de um futuro adiado pelo silêncio inadvertidamente fechado numa gaveta desossada. Amélia desenha contrastes de lágrimas que hão-de sulcar dois rostos anosos. Nem por isso desapaixonados. A expectativa de uma jovem gentil que sonha os sonhos sepultados pelos remetentes nunca lidos, engavetados que foram por mãos ardilosas e controladoras de um amor materno, quase sempre inspeccionador.
A porta abre-se. A casa que perscruta tem vida. Uma mulher. Incalculável o número de anos gravados em rugas que a memória carrega. Atenta – Amélia – a cada movimento lento soado e pouco escutado deste lado da casa recentemente caiada de portão receptivo a estranhos. A caixa de correio. Uma carta inesperada por quem nada espera há tantos anos que não se lembra.
O rosto idoso muda a sua forma para deleite do rosto ainda juvenil. Um sorriso que hesita nas lágrimas que se empurram umas às outras num olhar que repentinamente se quer refrescar na emoção ainda vaga. Os pensamentos vão ganhando volume na lentidão de uma mão que agarra o envelope e o conduz ao lugar do corpo que guarda as saudades de um amor nunca esquecido. Amélia observa uma pessoa abundante no tempo. Retira-se. Discretamente rasa pela porta em transformação. Fechou-se para que a leitora se encontrasse num passado... ainda presente.
Na claridade parda da tarde que se esvai, Amélia repara no céu polvilhado. Quantas cartas para responder? A sua missão: entregar amores perdidos, guardados em memórias alheias insondáveis, talvez. Ou não... Saltitando em pés elegantes e infantis ainda, escorre-se pelas ruas do bairro em direcção à máquina de escrever onde a aguardam palavras amoráveis...

Sem comentários:

Enviar um comentário