Feliz ano novo! *






Feliz ano novo!
Começa um novo ciclo de vida. Janeiro convida, inevitavelmente, a que se olhe para dentro, para que se sinta o privilégio de estar vivo e de se estar com energia revigorada para novos projectos. O Inverno, o frio, o vento, a neve nas serras, o sol a brilhar num azul pálido... elementos que, se acolhidos de braços abertos, podem ser transformadores e estimulantes para o movimento, para a renovação.
Se o solstício de Inverno nos recorda que a temperatura será um teste às mãos, também percepcionamos um aumento gradual da luz. Ainda que lentamente, os dias ganham mais um minuto, mais um raio de luz. E é tão bom observar, sentir a dádiva diária de um nascer e de um pôr do sol mais cedo, mais tarde...
Em Nogueira do Cravo, Janeiro também é o mês de degustar o queijo da Serra. Dizem os entendidos que o melhor queijo é produzido neste mês, resultante das ricas pastagens de Dezembro. E oportunidades para o saborear e partilhar não faltam. No dia de reis, por exemplo, temos mais uma ocasião de convidar e cear e, enfim, juntar o extraordinário e divino queijo amanteigado com ou sem pão, mas certamente com um bom vinho maduro tinto que, na zona do Dão, também o há e de muito boa qualidade.
Apesar de ser recorrente aludir ao dia um de Janeiro como uma data a enaltecer, repito-me. O Dia Mundial da Paz assinala, sem dúvida alguma, a importância de despendermos pelo menos alguns minutos sobre o que significa, na prática, o conceito de Paz. Se a ausência de guerra não me satisfaz para viver essa ideia de forma plena, confesso que neste ano que começa, essa ausência proporcionar-me-ia, pelo menos, uma certa tranquilidade. As imagens que nos chegam de países, como a Síria, são tão cruéis e devastadoras, que me impelem a tocar no assunto. A minha incompreensão face às razões que conduzem homens a matar outros homens, crianças, mulheres, suscita-me uma tristeza indizível, em particular pela sensação de impotência de fazer o que quer que seja, para evitar tal derramamento de sangue e destruição.
É verdade que a distância física sugere incapacidade de intervenção. Porém, existem gestos insignificantes que, acumulados e reproduzidos, têm o poder de, pelo menos, despertar consciências. Estar atento e não permitir injustiças ao nosso redor é desde logo um meio para auxiliar à Paz. Estar atento e agir de forma consciente e cuidada, em relação às pessoas que nos rodeiam, é desde logo um meio de promover a Paz. E de gesto em gesto, de cuidado em cuidado, passo a passo, vamos caminhando, podendo assim contribuir para a Paz.
Se é utopia não sei, mas sei que também está nas minhas mãos fazer algo por alguém que até desconhecerei. Isso não invalida de todo que outro alguém beneficie de um acto, mesmo que anónimo. Talvez suscite repercussões mais amplas, estendendo-se para outros ‘alguém’ anónimos e assim sucessivamente... Parecendo pouco, quem sabe seja uma gota de água. E um oceano mais não é que muitas gotas de água. Sejamos, pois, a cada dia uma gota de água através de um gesto, por mais pequeno ou insignificante que aparente ser.
A liberdade que se celebra no dia vinte e três ao nível mundial é uma data que nos lembra que há tanto e tanto a fazer para que todos, mesmo todos, possamos sentir que está nas nossas mãos viver de acordo com os nossos princípios, valores, sentimentos. Escolher em consonância com o que sentimos ser o melhor para nós e para os que nos rodeiam. E se a liberdade total está longe de ser alcançada, está seguramente, perto, de se promover, mais uma vez, através de pequenos, mas importantes, gestos diários. Como terá escrito Lao Tse Tung, uma viagem de mil quilómetros começa pelo primeiro passo. Quer isto dizer, se bem compreendo, que para qualquer grande empresa, por enormes e imensos que se afigurem os esforços, é quase sempre uma questão de perspectiva. Pequenos passos, a um ritmo possível, qual caracol ou tartaruga, podem ser o suficiente, o necessário para se alcançarem grandes distâncias, para se realizarem enormes empreendimentos.
Este mês também lembra pessoas idas... Este ano é a primeira vez que não uso deste espaço para parabenizar a Avó Altina, que no dia onze celebraria mais um aniversário. Se tal não acontece nesta dimensão, quem sabe numa outra qualquer... Na nossa memória, por exemplo. Pressinto que a morte física acontece, mas as pessoas que nos são queridas permanecem para sempre... nos nossos corações.
Feliz 2017! Que seja um ano repleto de pequenos e intensos momentos, repleto de pequenos e inúmeros gestos... Amorosos!

*Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

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