Depois dos Jogos...*


 
Foto da UCI


Até logo. Hasta pronto! Nos vemos. Até já. Ontem escutei muitas vezes estas e outras expressões do género: dia em que acabaram os Jogos Paralímpicos.
Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos terminaram, mas as palavras que ouvi de muitos voluntários foram de recomeços, de aprendizagens vividas, pelas experiências partilhadas em cada dia. Também eu senti algo semelhante.
Se trabalhar nos Jogos Olímpicos foi uma vivência extraordinária para mim, contribuir para a realização dos Paralímpicos foi ainda mais emocionante. Os atletas super humanos demonstraram, a quem quis ver, que o impossível é uma limitação que se vive antes como um desafio, através da vontade de superação - a superação de si.
A linguagem é um código que pode, em muitas ocasiões, ser ela própria um obstáculo. Todavia, se quisermos, podemos escolher ultrapassar a barreira das palavras. Todos somos capazes: sim, sou capaz - como no lema da selecção britânica: “yes, I can!” Posso trabalhar, posso esforçar-me, posso empenhar-me e descobrir que afinal o meu limite é, com frequência, uma construção social. Prefiro descobrir que afinal sou infinita e ilimitada. Este foi, para mim, o maior legado dos últimos três meses e meio: a experiência mais intensa no tempo que alguma vez vivi.
O discurso circulante por entre as pessoas que colaboraram nas competições Paralímpicas também confirma isso: podemos escolher observar as dificuldades como desafios. Barreiras que são transpostas - isso me mostraram os ciclistas dos Paralímpicos.
Pedalar com as mãos ou com os pés, pedalar só com uma perna ou sem as duas, pedalar sem ver com os seus olhos, confiando no guia, pedalar sem um braço ou sem os dois... Apenas alguns exemplos de que as limitações existem, mas nem sempre são incapacitantes.
E agora? Quem sou eu? Perfeita e saudável, sem limitações físicas. De que me posso queixar? De nada! Pelo contrário! Quero antes agradecer a oportunidade de viver esta experiência única (eu sei, repito-me...). Uma experiência única sem dúvida, a de compreender que ser uma gota de água pode fazer a diferença. Juntamente com todas as outras gotas de água, fomos um oceano.
Outra grande lição que se fortalece em cada dia: foi na partilha, cooperação e colaboração que se tornou possível providenciar, organizar e realizar cada uma das competições. Cada pessoa, com o seu agir particular, foi fundamental no seu papel, para que tudo se concretizasse.
Compreendi, experienciando, que a igualdade se alcança na aceitação da diversidade e esse é outro legado que guardo em mim. Confio que também tenha ficado em cada um dos voluntários do Rio 2016. Aqueles que auxiliei a recrutar. Aqueles que me disseram vezes sem conta como estavam felizes por contribuírem com o seu tempo. Recebiam muito mais do estavam a doar.
E é tão bom sentir que estamos cheios. Cheios de amizades em florescimento, cheios de gente que se tornou importante. Cada um de nós teve a possibilidade de importar, para si, quantas pessoas permitiu que entrassem no seu coração. Bastou, para tal, abrir as portas do coração e mantê-las abertas. Desse modo, o amor foi-se espalhando, sentindo, doando e recebendo muito, muito.
É indubitável que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos podem espalhar muito amor e alegria. Alegria: cantou Yvete Sangalo na cerimónia de encerramento. Alegria e amor são palavras que, se sentidas, têm o poder de transformar o mundo. Uma gota de água em cada dia, para um mundo um pouco melhor em cada dia. Alegria! 


*Este texto foi publicado no jornal 'O Chapinheiro'

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