Aprendendo Japonês


 


Comecei a aprender japonês.
O sol está quente. No exterior não sei. Aqui na sala, recebo os raios de sol que atravessam sem embaraço a janela de vidros duplos, tocando o meu rosto, aquecendo-o. Um carinho que me dá um certo alento para o momento que vivo.
Comecei a aprender japonês. Talvez seja mais correcto afirmar: comecei a assistir às aulas do nível um de japonês, na faculdade de letras. A distância que existe entre o que a senhora professora ensina e o que eu aprendo é como a distância que me separa desta janela para o mar e um quarto em Tóquio – dificilmente alcançável. Quem sabe um dia seja levada nas asas de um condor...
Estou no oitavo andar do prédio onde hoje resido. Uma altura significativa – ainda que o desespero não seja (ainda) tão aflitivo.
Os caracteres hirigana provocam as minhas mãos sobejamente habituadas a outra escrita. O olhar move-se entre a tabela dos hiragana e as quadrículas para o , que é como quem tenta escrever o be, a, ba. Esse esquema mental do alfabeto latino é um verdadeiro óbice para a (minha) aprendizagem. É que os meus olhos ficam em bico quando miro a outra tabela, a dos katakana. O mesmo é dizer para a outra série de caracteres que se seguem uns aos outros para construir as palavras estrangeiras. Até que não seria assim tão complicado se os japoneses se limitassem aos hirigana e katakana. Os dois alfabetos são mais do que suficientes para os meus neurónios, que ficam completamente à toa. A existência de dois caracteres para os fonemas ji e zu são apenas dois exemplos.
Contudo, como se os hirigana e katakana não bastassem, ainda tenho de decifrar e desenhar na mesma frase os símbolos kanji – adoptado do Chinês!!! Três alfabetos numa só frase?? E ainda só vou para a quinta aula. Sendo certo que a diversidade não se ficará por aqui.
De maneira que este desafio é para ir vivendo de aula em aula, estudando em casa pelo menos quatro ou cinco horas por semana – era o que estava a fazer; interrompi-me para este curto desabafo. Está visto, porém, que não é tempo suficiente. Pelo menos para mim. Não é que a senhora professora Reiko me perguntou por duas vezes: “A Ana tem dificuldades, não tem?” Ups! Sabe o meu nome, o que por si só pode ter algum significado para além do que prefiro descortinar.
As minhas amigas professoras (não de japonês, mas de Educação Física) mostraram-se solidárias com as minhas questões de aprendizagem e quase em uníssono perguntaram à laia de afirmação: “Tu és a aluna NEE da turma?!!” Leia-se, aluna com necessidades educativas especiais. Já não se pode desabafar com as amigas...
Enquanto tiver estofo para aguentar o estigma de NEE, vou estudar e desenhar hirigana e katakana e mais uns quantos kanji. Mesmo que isso implique gastar energia e eventualmente queimar neurónios em algo inútil, como dizia um amigo. Mas também, quem disse que a vida tem de ser prática?
Quem escreveアンナ – o meu nome em katakana – como eu, certamente compreenderá que existem certas práticas que ultrapassam a sua praticabilidade...
É melhor ficar por aqui, daqui a pouco vou para as aulas e ainda não me dediquei o necessário... pelo menos por hoje.
7 de Novembro de 2016
Matosinhos, Portugal

Wakeboard... Ou... tricô no rio


https://www.youtube.com/watch?v=e5kCRwES_cw&feature=share



A minha primeira experiência de Wakeboard foi como espectadora na Ilha do Ermal, Vieira do Minho. Fui com a S e uma amiga sua. Fomos assistir a uma competição integrada no campeonato nacional, após um dia bem passado na Serra do Gerês – um dos meus lugares. Diria mesmo que a Serra do Gerês é dos locais mais belos que conheço. Bem sei que nas muitas caminhadas pelos trilhos muito verdes, nos passeios de ‘bicla’ sempre a abrir, nos inúmeros banhos nas cascatas de água gelada e na contemplação do silêncio da natureza, tive sempre uma companhia à altura – um ingrediente deveras relevante para tornar aquela serra num lugar ainda mais especial.
A dois ou em grupo, a Serra do Gerês é, sem dúvida alguma, um dos lugares mais extraordinários para mim. De tal modo aprecio o seu esplendor, que quase me desviei da intenção inicial: a de contar uma das experiências mais frustrantes da minha vida. A de me sentir uma nulidade, incompetente e demais adjectivos que se possam aplicar à incapacidade de realizar uma prática, neste caso, a prática de Wakeboard.
Foi num Domingo azul. Amanheceu cinzento, mas o céu sabia que nós iríamos passear de barco no Rio Douro. Nós: as amigas, as ‘as gajas’ que nos reunimos uma vez por mês para nos rirmos (muito), para chorarmos (às vezes), para comermos e bebermos (demasiado). Nesse Domingo encontrámo-nos (não todas) para experimentar Wakeboard. A M convidou-nos para nos deliciarmos a bordo da lancha do N, o seu mais que tudo.
Uma estreia para mim, em relação à qual não sentia particular entusiasmo. A água gelada é sempre um óbice às actividades aquáticas, quer no rio, quer no mar. Mesmo vivendo perto do mar por estes dias (o que muito me alegra), nunca senti vontade de experimentar o Surf – uma prática comum aos meus companheiros da Quinta de Monserrate, bem como da minha amiga P: está quase pró. Assim como também nunca experimentei o mergulho: fiquei-me pelo snorkeling (as potenciais otites também concorrem para evitar as profundezas). Digam o que disserem, os fatos com vários centímetros de protecção não são suficientes para esta menina. Não é à toa que prefiro os países mais cálidos. Mesmo sendo uma bela tarde de Maio, a temperatura no Porto ainda não (me) convidava a grandes aventuras na água – a opinião de uma friorenta certificada.
A eventual renitência em entrar na água quase se dissipou ao contemplar o N a deslizar com muita graça e elegância, sobre a ondulação provocada pela deslocação da lancha. Foi o único que se aventurou a entrar na água antes do repasto, que entretanto foi servido no barco. A M, sempre muito gentil e cuidadosa, preparou uma quiche vegetariana para mim, enquanto os demais se lambuzaram com satisfação com um senhor frango assado. O acompanhamento líquido estava à altura da ocasião: caipiroscas de caramelo e frutos vermelhos. Um elemento que incrementou ainda mais os níveis da boa-disposição, estimulando as línguas mais ou menos viperinas e as conversas mais ou menos picantes, só refreadas pela presença de duas crianças: as filhas da P e do N.
De disparate em disparate, tive a infeliz ideia de lhes contar o meu passatempo à época (estávamos em 2013): tricotar – para mim, uma prática meditativa, durante a qual tomei grandes decisões nesse ano: partir três meses em viagem pela Austrália (só estive um, mas isso fica para depois) e retirar-me da faculdade (onde trabalhei os treze anos anteriores).
O tricô – o mote para justificar o maior fracasso desportivo da minha vida. Depois de um café numa esplanada à beira-rio sob um sol aprazível, regressámos às águas verdes e tranquilas do Douro. A P foi a primeira a aventurar-se com a prancha colorida. Vê-la entusiasmada e muito empenhada, estimulou-me. Voltar a apreciar o N a patinar nas ondas criadas pelo deslocamento do barco à sua frente, animou-me ainda mais. O cabo puxava-o. Ele deixava-se levar, movendo-se com graciosidade sobre a prancha – a sua figura concorria com a paisagem majestosa do rio Douro, ladeado pelas encostas mágicas, onde crescem as uvas para um dos melhores vinhos do mundo. A M conduzia a lancha de forma segura e arriscada, também – hoje em dia é patroa local (o que quer que isso seja), mas à época navegávamos ilegais.
Vesti o fato depois da P. Ela tinha conseguido levantar-se e planar sobre a prancha alguns segundos. Se todas conseguiam, eu também seria capaz. Porque carga de água haveria eu de ser diferente? o meu monólogo interior, como que adivinhando as dificuldades por vir. Além disso, estava extasiada pelo deslize proporcionado pela velocidade que a M imprimia à embarcação – mesmo que sem autorização para o efeito.
O frio ao lado. Queria experimentar. Não parecia fácil. Não parecia difícil. A M disse-nos, com laivos de orgulho, que se levantou da prancha na sua primeira tentativa. Para mim era uma novidade e só nesse dia vislumbrava a dinâmica da actividade: lançarmo-nos à água com as botas apropriadas calçadas e já encaixadas na prancha; agarrar o cabo que está preso à lancha; à medida que a velocidade aumenta tomamos impulso para nos levantarmos e ficarmos na vertical sobre a prancha... até ao momento de ser eu, tudo era teoria – quase tudo permaneceu na teoria...
Sim senhora, a M fê-lo na sua estreia. Era igualmente a da P. Teve êxito: à sétima tentativa. O sete é um número mágico; eu ficaria muito feliz se esse número fosse o meu, não para entrar nas portas do céu, mas para me levantar e deslizar, nem que fosse por sete segundos.
Chegou a minha vez e de fato preto vestido e de botas calçadas e depois de encaixar os pés na prancha, mergulhei: uau! Nem com fato a água era agradável. Um pormenor que podia ser facilmente resolvido – mas o fato não era meu e o esforço físico rapidamente ajudou a aquecer. Já para não falar daquele calor que me começou a envolver, aquele que se espalha quando a vergonha se atravessa.
Na água, com o manípulo do cabo nas mãos, a lancha puxou-me. E eu larguei o cabo... e engoli pirolitos. E voltei a agarrar o cabo, que ao fim de alguns segundos voltei a largar e engoli mais uns pirolitos. E voltei a agarrar o cabo e a tentar levantar-me e voltei a largar o cabo e a beber mais pirolitos... e mais umas vezes nesse filme: sem força para me erguer, sem força para me manter firme com o manípulo do cabo nas mãos, sem força para continuar a ‘pirolitar’, sem força para continuar a testemunhar o meu insucesso e de não ser capaz de dizer como as outras: “Consegui! Consegui!” A única coisa que consegui foi engolir pirolitos e engolir as piadas que não tardaram. Enquanto subia para a lancha, as vozes eram de gozo: “ah ah ah, continua a tricotar e não treines que vais longe, ah ah ah”. As horas seguintes foram neste fartote: “sim, sim, faz tricô que vais longe... ah ah ah”. Dias depois acabava a minha obra: umas caneleiras de lã castanhas para o Inverno seguinte.
Falhanço e frustração à parte, foi um dia muito divertido. Nada a fazer, não se pode ser boa em tudo! Para o caso não interessa; ver as minhas amigas a deslizarem foi um contentamento por si só. Observar a desenvoltura do N foi uma delícia. Brincava com a prancha. Saltos e piruetas, dando voltas à corda: um regalo para o espírito aventureiro que mora em mim. Nesse dia, só mesmo em espírito... Não voltei a tentar!
4 de Novembro de 2016
Matosinhos, Portugal

Viagem(ens) à Índia I – Goa





          
           Num meio de um azul sereno, Goa e Pune. Pela noite, pairando ao de leve em Mumbai. As cidades em que estive na Índia. Dias felizes, onde me rendi por duas vezes no mesmo ano. Mas se me perguntam onde quero/tenho de ir, respondo: quero perder-me e conhecer a Índia – um dos países desconhecidos que anseio visitar, um dos países que sinto necessidade de explorar antes que esta vida se esfume. Como se esfumam os dias. Como escorrem as semanas... os meses.
            O tempo é tão abstracto como nos sonhos, onde o azul do mar se esbate até à cor sépia e a minha voz é inaudível, como se no fundo daquele mar em sépia. A loucura dos segundos manifesta-se de forma concreta nos olhos cada vez mais profundos do Gonçalo ou no corpito em crescimento do Rodrigo. Despertam-me. Às vezes distraio-me, flanando de forma inconsciente e esquecendo-me que respirar é uma função fisiológica garantida apenas na aparência. Como só na aparência estive na  Índia. Duas vezes no mesmo ano: 2012.
            Da primeira vez, estive em Goa dez dias a fim de leccionar no colégio D. Bosco. “Goa não é Índia!” – o que escutei quando, exultante, manifestei regozijo por finalmente ir àquele país imenso – para muitos um subcontinente – que exerce um fascínio sobre tanta gente do Ocidente – eu incluída.
Em Fevereiro de 2012 aterrei no aeroporto de Goa com roupa de Inverno. Vivia-se no Porto um dos Invernos mais frios que as minhas mãos alguma vez haviam experimentado. Comichão e ardor constantes: as frieiras ‘atacavam’ as minhas belas e delicadas mãos, transformando-as numa ferida só.
O Frade WF e a directora do colégio esperavam-me com uma coroa de flores digna de reportagem. O que veio a suceder – guardo o jornal em que a notícia foi publicada. De camisola de lã e gola alta, casaco polar e botas de cano alto, a longa e intrincada grinalda de rosas brancas e amarelas foi o toque refinado que envolveu o meu corpo suado – estavam trinta e três graus às sete e meia da manhã –, onde habitavam uns olhos mortiços de quem não é capaz de dormir no avião. Nessa época ainda desconhecia alguns métodos milagrosos... Milagrosa era a temperatura que em três tempos curou as minhas mãos, devolvendo-lhes a finura de ‘pianista’. Só a finura...
Logo no segundo dia em Goa, apresentei uma palestra perante os mais altos dignitários do Desporto de Goa – pelo menos foi o que me disseram. Nova reportagem pelo jornal local. Tenho uma capa de arquivo com todas as notícias que foram publicadas a propósito da minha presença em Goa. Ainda fui entrevistada por um jornalista bilingue, com direito a programa de televisão.
Há que esmiuçar dois pormenores. O bilingue durante a entrevista foi só para ‘inglês ver’. A única pessoa que conheci a falar português foi precisamente aquele jornalista muito activo. Quanto ao segundo detalhe: se as linhas anteriores transparecem presunção, auto-promoção, jactância e outras demonstrações de vaidade, isso deve-se aos instantes de glória que passaram enquanto aquelas palavras foram lidas. Percebi, entretanto, que todos os que são recebidos no Colégio D. Bosco assim são tratados, não sendo eu uma aspirante a estrela de Bollywood. Fiquei mesmo com a impressão que o jornal e a televisão locais eram propriedades daquela instituição, cuja audiência talvez se restringisse à mesma. Não tem importância. Isso não retira a relevância da experiência, tão-pouco a responsabilidade que sentia, muito menos a ansiedade que o meu corpo experimentava. Era a primeira vez que dava aulas em inglês. Se a participação em congressos me providenciara ocasiões para aprimorar as minhas habilidades naquele idioma, estar uma semana em modo inglês era algo totalmente distinto.
Foi ao terceiro dia que esta menina professora quase colapsou por efeito do ‘jet lag’. Digam o que disserem, a diferença horária tem repercussões que, no meu caso, são por demais evidentes. Cinco horas e meia: a diferença horária em relação a Portugal. E a senhora insónia bateu à porta do quarto. E não preguei olho durante toda a noite. E no dia seguinte não percebia patavina do que os indianos me diziam ou perguntavam na aula. Nem sei como consegui dar a aula. “Could you repeat, please?” Não faço ideia de quantas vezes pedi para que repetissem o que diziam, enquanto fazia um esforço para refrear as tonturas que as suas nucas em oscilação contínua me provocavam. Se para mim era um desafio dar aulas em inglês, compreender o ‘inglês’ dos indianos de Goa foi, seguramente, a maior dificuldade daqueles dias. Depois de mais de cento e um “could you repeat, please?”, a aula chegou finalmente ao fim – e o enjoo passou despercebido - quero acreditar que sim. Isso não significava, porém, ficar livre e por minha conta.
Durante os dez dias que estive em Goa, jantei uma vez sozinha – foi na noite da chegada. O pequeno-almoço incluído no hotel foi a única refeição diária que realizei sem companhia. A gentileza, cuidado e simpatia das pessoas que me convidaram não lhes permitia aceitar uma qualquer recusa da minha parte. De maneira que isso me possibilitou conhecer diversas famílias, vários restaurantes e uma diversidade de lugares em Goa e arredores. Bom, arredores, apenas uma vez, mas valeu a pena. Passei um dia num resort; a gerente garantiu-me que as casas de luxo do sítio eram alugadas por pessoas pouco ordinárias, como o senhor Brad Pitt. Com muita pena minha, não era a sua época de férias; às tantas estava a filmar Babel ou A árvore da vida. Esse dia extraordinário, num resort extraordinário, numa praia extraordinária ficou marcado por um escaldão só comparável ao que apanhei este ano no Rio de Janeiro. E pelo mesmo motivo: a febre de querer aproveitar, no caso de Goa, o único dia de praia possível na agenda preenchida (no Rio não foi um, mas três dias de praia... em quase quatro meses). Era possível estrelar um ovo nas minhas costas. Vá, não em toda a superfície... mas quase.
A existência de um sem número de igrejas católicas é apenas um exemplo da influência portuguesa naquela antiga colónia. A religião ao serviço da colonização é bem visível na Old Goa, com especial destaque para Basílica do Bom Jesus, onde a altura do pé direito era de tal ordem que quase fiquei com um torcicolo. As marcas portuguesas estendem-se às ruas da cidade, onde os solares e casarões nos lembram como, em outros tempos, os serviçais mantinham os alpendres, as janelas senhoriais e jardins cuidados e amplos, impecavelmente limpos – marcas indeléveis da cultura portuguesa em terras além-mar.

 Por incrível que pareça não vi gente a dormir nas ruas e os corvos que escutei cingiam-se à praia urbana de Pangim, a duzentos metros do ‘meu’ hotel. Os corvos que crocitavam de modo contínuo não eram adversários à altura das buzinas, buzinões e apitadelas constantes do tráfego automóvel. “Horn me please” – o que li em muitas placas pregadas nas traseiras dos veículos. A legenda que me esclarecia que carregar na buzina é uma das técnicas de condução: uma apitadela para virar à direita, duas apitadelas para virar à esquerda e três apitadelas para lembrar aos demais condutores que não estão sozinhos na estrada: as senhoras vacas têm prioridade sagrada. Estão, pois, a salvo das mesas dos comensais.
Foi na mesa do Frade WF que tive uma excelente ocasião para desfrutar da gastronomia de Pangim.  O Frade WF convidou-me para o seu aniversário em sua casa com toda a sua família. Suei água em bica, bebendo pelo menos três litros de água durante a refeição. Na verdade, a roupa ficava sempre encharcada e não era pelo calor, uma vez que o ar condicionado estava sempre ao rubro. Transpirava qualquer que fosse a comida, qualquer que fosse o lugar. Apaziguava os meus anfitriões afirmando repetidamente que estava bem e servindo-me pelo menos duas vezes. A comida era deliciosa. Quente, picante, flamejante para o meu paladar europeu – mas inigualavelmente saborosa: a gastronomia indiana ficou no meu top três, ascendendo ao lugar cimeiro meses depois, quando regressei à Índia. Beber água era a forma (mesmo que não a mais aconselhável) de acalmar as minhas glândulas gustativas. Prosseguia na degustação de cada novo prato, sem pruridos da vermelhidão do meu rosto.
Sempre que chegava ao hotel confirmava os receios remanescentes dos atentados em Mumbai. A segurança era severa. Antes de entrar no parque do hotel, com portão sempre cerrado, um polícia pedia que se abrisse o capô e a mala, efectuando a respectiva vistoria. Depois de sair do carro e me despedir, abria a carteira e era sujeita a um controlo de metais e afins. O mesmo sucedia em todos os locais públicos fechados. Esse controlo contínuo não obstou a que me deliciasse com as gentes, cores, sabores e odores de Goa – mesmo que não tenha estado na Índia, convivi com indianos maravilhosos.
A par da agenda social e académica cheia, encontrava espaço para vaguear durante algumas horas pelas ruas de Goa. Saía do hotel após uma sesta – sou uma defensora acérrima de uma curta viagem ao mundo onírico depois do almoço; vinte minutos em brasa que me transportam para um qualquer sonho. Para além dos palacetes e casarões de estilo colonial português, o comércio era diverso nas suas configurações e produtos.
Deambulei várias vezes por um mercado, onde os meus sentidos captaram múltiplos estímulos sensoriais, bem distintos do que estava acostumada. Desde logo o odor a especiarias, entre as quais o açafrão amarelo torrado, que se adentrava pelos olhos e pelas narinas. Com esta fragrância peculiar que dá cor a pratos de ‘curry’ muito saborosos, concorriam muitas outras cores e cheiros ainda mais fortes, como o vermelho – a fazer adivinhar algo bem quente. O cor-de-laranja forte e outras matizes estavam em exposição nos balcões de vendas organizados de forma aprumada. Cravo, canela, gengibre e muitas pimentas que se confundiam com um dos aromas predominantes, o cominho. Outras vendas se expunham com tecidos ricamente sedosos e macios. Comprei uma echarpe para a minha mãe e guardo uma outra que a delicada directora do colégio me ofereceu na última aula do colégio, juntamente com outra grinalda colorida e muito olorosa.
Naquele mercado fechado, com corredores exíguos a roçar o claustrofóbico à boa maneira de uma medina marroquina, onde os meus sentidos eram assaltados continuamente, foi muito penoso manter a carteira fechada. Não me foi possível resistir a uma túnica azul, com cornucópias brancas e debruada com fios prateados e vermelhos e a um conjunto de pulseiras a condizer: peças que entretanto voaram aquando do ‘Bazar porque vou Bazar’ (a senda da venda de garagem mais original de Paranhos e arredores fica para outro registo).

As ruas habitadas por lojas coloridas e roulottes de comida picante forneceram sensações extraordinárias, cujas memórias gostaria de reviver, nem que fosse por um breve instante eterno... mas a vida é assim, efémera e há que vivê-la enquanto acontece. Senão, pode dar-se o caso, como às vezes sucede, de me perder nos labirintos do passado, sem que desfrute do presente que me é concedido, por exemplo, na forma de um sorriso.
Estava atenta, porém, quando me sentei no avião para regressar ao Porto e peguei no livro de um autor indiano – um guru da meditação. Um livro em português, que teve o condão de provocar a minha vizinha de viagem: no seu colo um livro do mesmo autor! A brasileira que me abordou regressava a casa após um mês em Pune, no ‘ashram’ daquele guru – Osho. As palavras serenas, ao mesmo tempo cheias de entusiasmo da carioca, ficaram gravadas. Cinco meses depois voltei à Índia, a Pune, àquele mesmo ‘ashram’, onde ‘meditei’ durante um mês. Como tal, não tenho autoridade suficiente para afirmar que conheço a Índia... Terei de voltar...
30 de Outubro de 2016
Matosinhos, Portugal

Outono em Monserrate*

Foto de Ema Magalhães: http://awondrousday.blogspot.pt/2016/09/balanco-verao-taking-stock-verao.html

Outono em Nogueira do Cravo. Outono no Porto, em Matosinhos, onde me encontro no momento.
Outono no Parque da Cidade.
As folhas caídas no piso de terra gentilmente batida pelos jardineiros cuidadosos. Aqueles que todos os dias abraçam o céu silencioso. Umas vezes mais azul, como hoje, outras vezes mais escuro.
Hoje, o céu era de muitas cores ao amanhecer. O sol nascia extravagante, irradiando-se com requintada elegância para todos aqueles que de manhã cedo caminhavam com mais ou menos vigor, prestando mais ou menos atenção à beleza que se espraiava de forma bondosa.
De olhos bem abertos, recebia o amarelo dourado que tocava as minhas retinas. Inspirava o suave odor do Outono e guardava, sem acorrentar, a sinfonia matinal das aves que, parecendo bordejar, se organizavam antes num coro altruísta para quem quisesse escutar.
No chão macio, folhas e folhas e folhas. Tonalidades diversas que variavam entre o castanho terra até ao vermelho quente, com formas que confisquei em três ou quatro para terminarem o seu processo de secagem no meio de outras folhas – as de um livro...
Outono na Quinta de Monserrate.
O marmeleiro continua a oferecer fruta madura. A tigela de marmelada já se esvaziou. O pote de geleia ainda permite alguns lanches.
A generosidade prolifera e o castanheiro lança a cada dia algumas castanhas, como quem sabe que o Magusto não tarda. Acumulando o suficiente – o suficiente é suficiente – para que a mesa seja farta de castanhas assadas ou cozidas, com sal, muito sal.
Mesmo que a tensão esteja um pouco alta – no meu caso com frequência muito baixa – não há como segurar a mão, quando se trata de espalhar as castanhas num tabuleiro pronto a entrar no forno. Um pequeno delito à saúde, que se compensará, decompondo sem esmorecer os resquícios de uma tarde ou noite bem passada, em boa companhia regada como outra dádiva da natureza: jeropiga ou vinho ou chá. Ou o que apetecer ou mais se apreciar. A Natureza é farta e deveras generosa. Partilha o tanto que tem ‘sem olhar a quem’ e sem esperar nada em troca. Não necessita de um dia para se lembrar que a ‘gentileza gera gentileza’ – um dos slogans do Rio de Janeiro, que no dia 13 deste mês se recorda, me recorda, nos recorda que a bondade, a gentileza é natural, faz parte da nossa natureza, é o estado natural da Mãe Natureza.
A abundância que a Natureza gera é gentilmente concedida em cada instante.
As cores, os cheiros, os sons, as texturas e as formas do Parque da Cidade nesta manhã, são apenas uma das suas contínuas oferendas.
Ao chegar a casa, outras havia. Do castanheiro saltavam mais umas quantas castanhas. O marmeleiro estremecia como quem se abana para soltar o que tem a mais: marmelos maduros prontos para se transformarem em marmelada e geleia deliciosas.
Questiono-me, então, que tenho eu em mim, quem sou eu um pouco mais para, como a Natureza, gerar uma gentileza que gere outra gentileza... a cada dia...

*Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

O meu primeiro namorado



As vozes chegam longínquas, audíveis, porém. Desde há muito que uma das minhas vozes interiores sussurrava palavras sobre o início da adolescência, marcada não apenas pelo primeiro beijo, mas igualmente pelo primeiro namorado.
“Quanto, quanto me queres?” – perguntou dias depois de nos conhecermos. E sem cruzar os braços, sentada num jardim, deixei cair as mãos. Queria dizer-lhe que sim, sem que acreditasse no que escutava: o miúdo mais giro da vila queria namorar comigo.
A minha incredulidade ressoava sobretudo por duas razões. Por um lado, acabava de me mudar para uma zona residencial nos subúrbios do Porto; por outro, não me tinha em grande conta.
“A sério? O ‘puto’ mais giro do sítio gosta de mim? A sério, o P quer namorar comigo?”
Ainda por cima apanhou-me de surpresa: só nos tínhamos cruzado duas vezes. A primeira foi numa escola da Maia. Como mudei de residência, os meus pais pediram transferência para essa escola. Foi no dia das matrículas que eu e a minha mãe fomos à escola, para escolher a área a seguir: optei por saúde. Era essa via ou a área de administração (as duas únicas possibilidades). Na sala onde estava a minha futura directora de turma e professora de saúde, entrava um rapazito muito engraçado: olhos azuis, muito loiro, de cabelo rebelde – o sonho de muitas adolescentes como eu –, com umas bochechas rechonchudas que transformavam o seu rosto num postal angelical de Miguel Ângelo, tal qual no tecto da Capela Celestina.
Um sorriso tímido que me tocou. Um à-vontade com as meninas mais velhas que me encantava. E que também me era estranho; (ainda) não conhecia os modos dos rapazes. Ele tinha onze ou doze anos. Não tenho a certeza. Só me recordo de eu ser mais velha que ele, com dois anos de distância na vida escolar (entrei aos cinco anos para a primária e isso colocava-me na dianteira – se é que se pode considerar dianteira na vida).
A torrente de memórias soltou-se ontem à tarde, quando nos encontrámos no centro de saúde da vila onde nos conhecemos. A última vez que o terei visto foi com a sua namorada, hoje sua mulher, muito grávida do seu filho mais velho. Tem vinte e dois anos. Além dele, tem uma menina linda de dez anos. Os seus nomes não importam.
Importante foi o P, quando eu me sentia uma extra-terrestre a aterrar na terra de ninguém aos treze anos. Receosa em conhecer a minha quinta escola, apreensiva em recomeçar mais um ano lectivo e assaz ansiosa quanto aos novos amigos que a vida me proporcionaria.
Foi precisamente um dos novos amigos do bairro para onde fomos viver, a minha vizinha Y, que me apresentou o rapaz que eu fugazmente conhecera na escola. A minha vizinha era amiga do P, o ‘puto’ mais giro que alguma vez conhecera. A sua pressa em nos facultar um encontro no meio das sombras só muito mais tarde compreendi. Nessa época não reflectia sobre os comportamentos, tão-pouco sobre as motivações dos outros. Os outros são um inferno, escrevia Jean Paul Sartre – um inferno que nessa altura era o paraíso.
A Y apresentou-me o P que logo me deu dois beijinhos na cara. ‘O que é isto?’ Perguntava-me em silêncio para não fazer má figura, ao mesmo tempo que correspondia ao gesto. Era a primeira vez que um rapaz me cumprimentava desse modo, para mim tão adulto, partilhado apenas em família. Um costume que rapidamente aprendi, mas não muito. Por vezes roço mesmo a má educação. Continuo um pouco renitente em relação a esse tipo de contacto físico... Deve ser essa uma das razões que entretanto conduziram a rótulos semelhantes aos de peneirenta, convencida, mal-educada e afins.
Que posso eu dizer em minha defesa? Poderia argumentar que todas essas etiquetas são de quem não me conhece ou simplesmente não avançar com qualquer alegação e passar ao lado. Como aliás tem vindo a acontecer.
Nessa época, porém, eu ficava muito afectada com todas as novidades que me assaltavam todos os dias. O que os outros pensavam ou especulavam era com efeito um inferno que me atormentava. De tal modo, que importava em mim uma série de novos hábitos e um modus vivendis – no qual se integrava cumprimentar os novos amigos ou conhecidos; era mais isso – com dois beijinhos, alguns quase lambidos. Foi esse tipo de lambuzeira que contribuiu sobremaneira para uma certa aversão a essa prática.
Aos treze anos, para uma menina a caminho de se tornar rapariga, a opinião dos pares era reconhecida. E oh, como reconhecia aqueles olhos azuis. O P dizia-me que gostava de mim, que eu era muito gira, pedia-me em namoro...
E eu, filha de uma mãe muito preocupada com as más companhias, e que afirmava com frequência, ‘diz-me com quem andas, que eu direi quem és’, tinha medo que ela descobrisse que sim, senhora, crescera e até já tinha um namorado, por sinal o mais bonito da vila e arredores e, para mim, do mundo... Ou quase, no ano anterior também me apaixonara loucamente por um rapaz: o Tom Cruise.
Claro que não há como enganar uma mãe galinha como era (e continua a ser) a minha, transformando-me numa menina da mamã e quem sabe até mimada, como posteriormente escutei, tinha já trinta anos. Mas isso são outras histórias.
Quanto a esta história, a memória é muito doce. O que disse ontem ao P, quando me pedia desculpas por qualquer coisa que houvesse feito ou dito há... uau!... há quase trinta anos!
Hoje, sentada noutro jardim, recordo a Ana de treze anos. Vejo-a maravilhada, extasiada e completamente apaixonada (o Tom Cruise que me desculpasse, mas o P era de longe mais bonito e estava ali, a meu lado, oferecendo-me ao vivo e a cores as primeiras experiências de um namoro juvenil). O possível para uma menina daquela idade, para quem era mesmo muito ‘fixe’ ter um namorado tão giro e que ainda por cima tinha mota. Não era bem uma mota, era uma scooter. Ia dar ao mesmo. Até porque hoje tem uma senhora mota... enquanto eu tenho uma senhora bicicleta. Para ambas é necessário um capacete.
Foi o capacete, aliás, que o convidou a vir falar comigo ontem. O P queria ver qual era a minha mota quando lhe sorri, ao sair do centro de saúde, com o capacete pendurado no antebraço.
Não era uma mota, já se sabe. Mas os tombos podem acontecer quer a 200km quer a 60km – a minha velocidade máxima até ao momento... de bicla.
A paixão por duas rodas mantém-se, mas por meios diferentes, como distintas foram as vias que entretanto seguimos quando ainda éramos adolescentes de doze e treze anos. É forçoso reportar-me ao fim desse namorico, que durou pouco tempo. O P conheceu outra miúda, mais velha que eu... mas não mais gira que eu, ah ah ah. Com certeza mais interessante para aqueles olhos azuis enternecedores e muito lânguidos.
Não me lembro se os meus se alagaram num rio de lágrimas com o primeiro desgosto de amor. Não foi bem amor. Pouco tempo depois as aulas começaram e, sendo eu uma novidade na escola, os níveis de auto-estima não se foram abaixo. O número de rapazes que desejava conhecer-me fez crescer as razões para que as raparigas da escola me considerassem uma valente convencida.
Essa confiança foi efémera, como quase tudo na vida. No ano seguinte foi necessário mudar outra vez de escola. No Garcia da Orta eu era só mais uma na multidão de adolescentes e voltei a sentir-me muito pequena. Pelo menos nessa matéria.
Como muitas mulheres, a minha auto-estima foi-se alterando ao longo da vida. Com frequência por influência dos pares ou namorado. Hoje em dia essa relevância é residual. Refiro-me ao que os outros pensam de mim. O inferno era mesmo eu que o construía. Quando me miro no espelho, olho com os meus olhos. Sem atender aos que batem à porta... quase sempre.
Quanto ao P, observei um homem tranquilo do alto dos seus, talvez, quarenta anos, mal-grado as dores de estômago que o impeliram à mesma médica.
A memória é doce e agradeço-lhe a ilusão de ter sido infantilmente amada pelo miúdo mais giro que conhecia... mesmo que por pouco tempo. Mas isso não é novidade: um instante pode ser uma eternidade. Obrigada, P.


Matosinhos, 20 de Outubro de 2016

Amigas de infância




Brincávamos muito. As borboletas azuis eram as nossas guias. Barcos de infância irrequietos que nos faziam correr. E corríamos, corríamos atrás delas, sobre as folhas secas do Outono se era a estação que vivíamos. Corríamos, corríamos, sem que o objectivo fosse agarrá-las. Não era necessário. O paraíso morava ali e às vezes as borboletas azuis regressavam a nós e tocavam-nos nos cabelos cortados à escovinha. Ali paravam como bandoletes coloridas. Aí estacionavam por milionésimos de segundo. O tempo suficiente para nos questionarmos, como Lao Tse Tung, se éramos meninas sonhando serem borboletas ou se borboletas azuis sonhando serem meninas.
Perfeitas na nossa ingenuidade infantil, estávamos sempre a brincar e, com frequência, vestíamo-nos com esse mesmo propósito: saloias no carnaval, bailarinas nos corredores da casa, ciclistas no pátio do prédio, cozinheiras de plasticina no quarto ou cantoras famosas imitando a Maria Armanda no seu ‘Eu vi um sapo com guardanapo’. Havia mesmo quem nos estimulasse nessa cantoria colorida pouco afinada, sob o céu pejado de nuvens perfeitas. Mas, na maior parte das vezes éramos só as duas. Bastávamo-nos mutuamente, com a lua a tocar-nos com a sua luz intemporal. As duas, de rosto colado. Eu e a Ana. A Ana e eu.
Uma das facetas que eu mais gostava na minha amiga Ana, era a sua prontidão incontida em acompanhar-me no que eu desejasse brincar. Acabávamos por dar as mãos e envolver-nos naquilo que afinal ela preferia: jogar ao elástico ou rodopiar de bicicleta, ah e também jogar às escondidas. Mas isso era quando também estavam outros meninos do prédio.
Jogar às escondidas era um dos nossos jogos preferidos. E no quarto escuro, ainda mais. Ah, ah, ah... Não, não havia nada disso que estará eventualmente a pensar, caro leitor ou cara leitora. Ainda éramos muito inocentes e o que nos deliciava era a hipótese, mesmo que remota, de não sermos encontradas ou reconhecidas num espaço de dez metros quadrados. Especulo que seria mais ou menos essa a área do meu quarto, que também a Ana preferia. Não é que não gostássemos de estar em sua casa. O que acontecia era que éramos nós, eu e o meu irmão kiko, que tínhamos mais brinquedos. Era mesmo um exagero a quantidade de coisas que os nossos pais nos compravam ou a família oferecia no natal e outras festividades. Partilhávamos o que nos estava disponível. Hoje, ao reflectir sobre o assunto – a Ana pediu-me –, acho que tem mesmo a ver com esse facto. Nós tínhamos tantos brinquedos, que quando juntávamos os nossos com os deles – os da Ana e do seu mano Miguel –, as salas ou os quartos transformavam-se em verdadeiras feiras. Naquele caso comparáveis não à da Vandoma, mas da Ladra.
Por vezes restringíamos o tema: cozinhar no meu quarto. A plasticina de todas as cores e os utensílios de variadas formas eram um estímulo para confeccionar pratos se não suculentos, pelo menos criativos, selvagens ou saloios.
No quarto da Ana reinventávamos uma das suas brincadeiras favoritas: brincar aos escritórios. Quando a Ana acompanhava o pai ou a mãe ao banco trazia uma série de formulários ou fichas, com papel químico com os quais depositávamos dinheiro a fingir, levantávamos dinheiro a fingir, fingindo-nos muito organizadas, muito atarefadas com muitas reuniões agendadas, que desenvolvíamos as duas, pairando no ar como belas borboletas azuis, muito saloias.
Como saloio era o pão que ajudávamos a cozinhar quando o nosso lugar era a quinta dos meus avós em Meruje. Uma vila próxima à aldeia dos avós da Ana que, como eu, passava grande parte das férias grandes, longe da cidade. À época, a cidade de Lisboa. Mas a Ana foi-se embora. Foi viver para o Porto.
Foi um acaso que finalmente nos permitiu um reencontro. A Ana virá muito em breve a Lisboa. O seu projecto mais recente implica a sua presença na capital. Combinámos combinar um chá no Chiado. Estou ansiosa por abraçá-la.
Até já Ana.


Matosinhos, 20 de Outubro de 2016

            A primeira vez que vi o teu rosto. O sol reflectia-se nas nuvens. O vento estimulava-as. Passavam umas atrás das outras.
            A primeira vez que reparei nos teus olhos. O dourado repercutia-se. O batimento do meu coração acelerava.
            Na primeira vez que me beijaste, o azul do ocaso fazia-me acreditar que seria um beijo eterno.
            No primeiro brilho que vislumbrei no teu sorriso, o sol dava o último suspiro da tarde.
            A primeira vez que senti a tua pele na minha pensei que o sol se espelhava nas tuas mãos. Aquecias-me o peito e o céu transformava-se num vazio pleno.
            A primeira vez que beijei a tua boca, senti o oceano. Transbordava dos meus olhos. Tremia. O controlo estava desprovido de sentido.
            A primeira vez que te abracei, a terra estremeceu. O oráculo de Diana calava todas as palavras. O silêncio.
            A primeira vez que o teu corpo era o meu. A primeira vez que o meu corpo desaparecia no teu abraço. A eternidade.
            A primeira vez que vi o teu rosto. Tudo. Nada mais era. O teu rosto. O teu rosto.


23 de Junho, 2015
Iguaque, Colômbia



* Escutando "The first time ever I saw your face", G. M.

Depois dos Jogos...*

 
Foto da UCI


Até logo. Hasta pronto! Nos vemos. Até já. Ontem escutei muitas vezes estas e outras expressões do género: dia em que acabaram os Jogos Paralímpicos.
Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos terminaram, mas as palavras que ouvi de muitos voluntários foram de recomeços, de aprendizagens vividas, pelas experiências partilhadas em cada dia. Também eu senti algo semelhante.
Se trabalhar nos Jogos Olímpicos foi uma vivência extraordinária para mim, contribuir para a realização dos Paralímpicos foi ainda mais emocionante. Os atletas super humanos demonstraram, a quem quis ver, que o impossível é uma limitação que se vive antes como um desafio, através da vontade de superação - a superação de si.
A linguagem é um código que pode, em muitas ocasiões, ser ela própria um obstáculo. Todavia, se quisermos, podemos escolher ultrapassar a barreira das palavras. Todos somos capazes: sim, sou capaz - como no lema da selecção britânica: “yes, I can!” Posso trabalhar, posso esforçar-me, posso empenhar-me e descobrir que afinal o meu limite é, com frequência, uma construção social. Prefiro descobrir que afinal sou infinita e ilimitada. Este foi, para mim, o maior legado dos últimos três meses e meio: a experiência mais intensa no tempo que alguma vez vivi.
O discurso circulante por entre as pessoas que colaboraram nas competições Paralímpicas também confirma isso: podemos escolher observar as dificuldades como desafios. Barreiras que são transpostas - isso me mostraram os ciclistas dos Paralímpicos.
Pedalar com as mãos ou com os pés, pedalar só com uma perna ou sem as duas, pedalar sem ver com os seus olhos, confiando no guia, pedalar sem um braço ou sem os dois... Apenas alguns exemplos de que as limitações existem, mas nem sempre são incapacitantes.
E agora? Quem sou eu? Perfeita e saudável, sem limitações físicas. De que me posso queixar? De nada! Pelo contrário! Quero antes agradecer a oportunidade de viver esta experiência única (eu sei, repito-me...). Uma experiência única sem dúvida, a de compreender que ser uma gota de água pode fazer a diferença. Juntamente com todas as outras gotas de água, fomos um oceano.
Outra grande lição que se fortalece em cada dia: foi na partilha, cooperação e colaboração que se tornou possível providenciar, organizar e realizar cada uma das competições. Cada pessoa, com o seu agir particular, foi fundamental no seu papel, para que tudo se concretizasse.
Compreendi, experienciando, que a igualdade se alcança na aceitação da diversidade e esse é outro legado que guardo em mim. Confio que também tenha ficado em cada um dos voluntários do Rio 2016. Aqueles que auxiliei a recrutar. Aqueles que me disseram vezes sem conta como estavam felizes por contribuírem com o seu tempo. Recebiam muito mais do estavam a doar.
E é tão bom sentir que estamos cheios. Cheios de amizades em florescimento, cheios de gente que se tornou importante. Cada um de nós teve a possibilidade de importar, para si, quantas pessoas permitiu que entrassem no seu coração. Bastou, para tal, abrir as portas do coração e mantê-las abertas. Desse modo, o amor foi-se espalhando, sentindo, doando e recebendo muito, muito.
É indubitável que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos podem espalhar muito amor e alegria. Alegria: cantou Yvete Sangalo na cerimónia de encerramento. Alegria e amor são palavras que, se sentidas, têm o poder de transformar o mundo. Uma gota de água em cada dia, para um mundo um pouco melhor em cada dia. Alegria! 


*Este texto foi publicado no jornal 'O Chapinheiro'