Na cidade dos mortos - Tikal



Entrei na cidade dos mortos, lado a lado com Christine. O calor que nos envolvia na floresta tropical de Tikal confirmava-nos que ambas estávamos bem vivas e em boa forma para descobrir, na sombra irrecuperável, o possível da profundidade cultural de um povo tão inigualável, quanto misterioso.
Tikal é um dos complexos funerários mais importantes desta cultura, e de tal modo sofisticada, que me fez voar desde a Colômbia até à Guatemala. Ao fim de dois meses nesse país, que tanto me encheu, senti uma espécie de chamamento para o desconhecido mágico e mitológico do mundo Maia. Muito ficou, ainda, por conhecer em terras de Gabriel Garcia Marquez... Quem sabe surja uma nova oportunidade.
Foi em Villa de Leyva (Colômbia) que comprei a passagem aérea para a Guatemala com o objectivo de visitar Tikal. Para mim, era sem dúvida obrigatório que a visita a este parque, povoado de templos-pirâmide de pedra, de animais mais ou menos visíveis como os ‘monos’ e jaguares secretos, se realizasse com o devido acompanhamento. Como tal, em Flores contratei o serviço de uma agência, para assim ser integrada num grupo com guia. E que grupo... também o de Christine! Ao receber o seu sorriso sereno e cintilante, adivinhei que, independentemente, da qualidade do guia ou das informações e histórias, o dinheiro havia sido muito bem empregue.
A visita começou com o guia a descrever ao grupo a ressonância arquitectónica da cidade, através da explicação da maqueta na entrada. As visitas guiadas tendem a ser muito interessantes e elucidativas, em particular em lugares como este, cujas ruínas descontextualizadas pouco ou nada sugerem (falo por mim...). Não obstante, nem sempre são fáceis de seguir e de lhes prestar a atenção devida. Sobretudo pela companhia com que havia sido agraciada. Para além de Christine, estava uma alemã – a Miriam – que conhecera dias antes em Semuc Champey. Novos encontros, novos acasos... A empatia foi igualmente fácil com Bob, um israelita que me chamou a atenção pelo calçado. Trazia umas sapatilhas de trail (ainda não participei em nenhum, mas pelo tanto que tenho escutado pressinto que, mais dia menos dia, isso venha a acontecer). Com Bob, a conversa correu imediatamente para as corridas e para outros lugares (por acaso ou não, voltámos a encontrar-nos ainda nesse dia em Flores e dias mais tarde numa ilha do Belize – Caye Caulker!).
Antes disso, pela manhã, as conversas que se iam desenrolando enquanto caminhávamos pelo xibalba – o termo para designar o lugar dos mortos – não nos impediram de escutar as explicações do guia sobre a existência dos calendários Maias. Plural, fiquei então a saber. Os Maias desenvolveram quase tantos calendários, quantas as actividades que integravam o seu modo de vida. Um calendário solar para o ano ritual, um calendário do ciclo lunar, um para a contagem dos dias, entre outros. Nos códices estão descritas todas estas informações e muitas mais, como a relevância primordial das árvores.
A árvore do Mundo, ou a árvore cósmica. Foi numa dessas árvores que me encostei durante algum tempo. As minhas mãos sentiam a superfície acinzentada e levemente rugosa com o intuito de captar alguma magia – afinal a árvore era o eixo central daquele mundo fabuloso, impregnado de alegorias. Através das raízes da árvore cósmica, os Maias ligavam-se ao mundo dos mortos, ou inframundo. O tronco estabelecia a ligação com o mundo terreno. A união com o mundo celestial era possível com os ramos; de braços erguidos como quem reza – assim cantaria Florbela Espanca.
Mas as árvores eram ‘apenas’ uma das incontáveis e maravilhosas atracções de Tikal. Quando alcançámos a praça central e após mais explicações do guia, passeámos tranquila e atentamente pelo espaço milenar, onde facilmente se podia observar o quão avançada e complexa era a compreensão e vivência do cosmos, por parte desta civilização, que me atraía a cada instante pela sua sabedoria, ao mesmo tempo que me causava questionamentos devido a certas práticas. Nomeadamente, os sacrifícios de animais e mesmo de pessoas com o propósito de apaziguarem os deuses, entre os quais aqueles que lhes garantiam boas colheitas de milho – a base da sua alimentação.
Essas práticas de outros tempos não me impediam de reconhecer a complexidade do seu conhecimento da astronomia e matemática, a partir do qual construíram os templos-pirâmides de forma calculada e simbólica. As pirâmides, para além de representarem as montanhas – para si sagradas –, eram templos para os cultos e rituais inerentes à organização do seu quotidiano, repleto de celebrações e rituais. Estas construções, cuja inclinação pode chegar aos setenta graus, eram igualmente monumentos, nos quais se ‘alojavam’ criptas extraordinariamente trabalhadas, para os soberanos defuntos.
Foi numa dessas pirâmides da praça central, dedicada ao Sol, que eu e as duas alemãs tirámos uma fotografia para a posteridade. Ainda nesse dia partilhámos essa e outras fotografias, bem como histórias e experiências de viagens. Combinámos encontrar-nos na vila de Flores. Ao fim da tarde, após o merecido duche e descanso, na varanda de um bar guatemalteco saboreámos um ‘mojito’ – que Miriam fez questão de oferecer: muito obrigada! Por acaso, ou não, o israelita passava na rua; juntou-se a nós. E assim tivemos oportunidade de confirmar que estávamos ali não por mero acaso; sentíamos que aprendíamos uns com os outros. Na verdade, fiquei com a sensação que esse encontro não terminou. Estou certa que se tivermos algo mais a partilhar entre nós, a vida tratará de nos providenciar novas e adequadas circunstâncias. E assim é!


Abril, 2016
Matosinhos, Portugal

Nota: Como se deve calcular, não tirei apontamentos durante a visita (apesar de vontade não faltar). A visita ao museu dos Maias em Mérida, algumas semanas depois, estimulou ainda mais o meu interesse pela cultura Maia. Não obstante, é de referir que foi na biblioteca Florbela Espanca, em Matosinhos, que confirmei e recolhi informação para este texto.

De Lanquin a Tikal




Cheguei a Flores, Guatemala, desde Lanquin – a vila mais Maia onde estive até ao momento. Em Lanquin, os locais falavam todos quishé entre si. A única palavra que compreendi, numa das vezes em que fui comprar pão, foi ‘gringa’. A vendedora reportava-se a mim, enquanto eu esperava, mais ou menos pacientemente, observando-a a atender uma série de pessoas à minha frente. Até que a paciência se esgotou quando aquela palavra se insurgiu como um espirro sobre mim. “Desculpe, mas não sou ‘gringa’ e se não se importa também sou cliente e gostava que me atendesse” – escutei-me numa hostilidade irónica e com voz enfática, no espanhol mais elaborado que me era possível à época – já estava há dois meses e meio em modo hispânico, como tal, sentia confiança até para discutir. Claro que a minha pretensão em aprender a saber esperar ficava em causa. Não obstante, uma coisa é ser tolerante, outra é permitir que gozem na minha cara. Ainda muito a aprender, já se sabe...
Tendo em conta o lugar tão fora de circulação em que me encontrava – a viagem até Lanquin mostrara-me a lonjura de tudo e mais alguma coisa –, achei que o melhor era repetir o modo de deslocação desde Xela: em shuttle. As mais de vinte horas que os diversos chicken bus me ‘obrigariam’ a experimentar, contrastavam com as teóricas nove horas que este transporte privado me prometia. Na Guatemala, apesar do valor escandalosamente mais elevado, esta é a opção mais frequente entre os estrangeiros, nomeadamente Marco e Daniela. Um casal de italianos, que, tal como eu, tinham passado uma noite em Semuc Champey – um lugar que de tão belo, merece um postal por si mesmo.
Flores era então o nosso destino seguinte, de onde saem as visitas a Tikal – a maior das cidades Maias, na região de Petén. Isso implicava atravessar quase metade da Guatemala; daí que me tenha rendido ao shuttle. Às oito da manhã, as minhas coisas estavam na carrinha de nove lugares. Aproveitava a espera pelos demais passageiros para observar, divertida, a conversa animada entre o casal de italianos e um israelita, aquele que os trouxera de Semuc Champey nessa manhã. O israelita vivia na Guatemala; era o proprietário do alojamento onde os italianos haviam pernoitado, para desfrutar daquele outro paraíso de águas cristalinas.
A minha escolha foi outra. Regressara de Semuc Champey na manhã anterior à boleia, depois de mais de uma hora em pé a aguardar um ‘colectivo’ que nunca chegou a aparecer. Felizmente, uma família guatemalteca apercebeu-se da minha espera em vão. De pé, na sua carrinha de caixa aberta e recebendo o pó da estrada de terra batida durante mais de hora e meia, cheguei a Lanquin, onde, ao apear-me, os mais jovens da família fizeram questão de tirar fotografias com a estrangeira com pele da cor de argila - noutros tempos de canela; naquele dia era mesmo uma camada de pó, que um duche de água morna rapidamente resolveu.
No dia seguinte despedia-me da vila Maia, sorrindo com o à vontade com que Daniela conversava, em espanhol arranhado e mesclado de inglês, com o homem israelita. Reporto-me a este casal simpático e muito gentil, pois este foi o primeiro de diversos encontros que partilhámos. Viviam há um ano na Cidade do México. Marco, professor de inglês na capital mexicana. Daniela, em ano sabático para acompanhar o marido e aproveitar o tempo para aprender espanhol numa das universidades da cidade.
Entre nós, alternávamos entre o inglês e o espanhol. Quando, por acaso, nos encontrámos posteriormente em Caye Caulker, o inglês era o idioma preferido, até pelo local. Nessa ilha ficámos definitivamente ‘amigos’ através da rede social mais conhecida. Umas semanas depois, quando me abriram a porta de sua casa, tinham uma chave para me emprestar enquanto eu desejasse apreciar a cidade, que dizem ser uma das perigosas do mundo. Além da chave, Daniela preparara o segundo quarto da casa para meu conforto! Muito obrigada!
Antes desse novo abraço, a partir do qual a amizade se tornou mais quente e vivida que numa rede social, viajámos bem-dispostos desde Lanquin, contemplando a paisagem extraordinária que a estrada até Flores nos proporcionava.
Resgato algumas fotografias para avivar a memória. Faz parte do processo recordatório, é sabido. Apesar da fraca qualidade que o iPad concede – aproveito a ocasião para justificar a qualidade dúbia das fotografias que publiquei até ao momento; confio que me seja dado esse desconto –, os pêlos ralos, e às vezes loiros, dos braços reagiram reavivando a emoção sentida, durante as largas horas na carinha com pessoas de diversas partes do mundo.
Para além do casal de italianos e viver no México, destaco o casal de argentinos: a Valentina e o Marcelo. Bailarinos a viajarem há pelo menos um ano, pagando as suas despesas com as mandalas de arame do Marcelo e dos acessórios femininos de Valentina – a quem comprei um crachá de madeira com o desenho de um golfinho azul. Dois dias depois desapareceu... Confirmando-se a ideia de que mais é, com frequência, menos. Valeu pela ajuda ao casal. Estavam determinados a avançar nas suas andanças apenas e somente com o que obtinham da sua manufactura.
Foi com os dois argentinos que segui em busca de alojamento em Flores – o casal de italianos estava de férias, como tal o seu orçamento era substancialmente distinto do nosso. Encontrámos um sítio muito económico, que se revelou ainda mais acessível quando descobrimos que no terraço se podia dormir em palapas. Para mim, mais uma estreia no que a camas e dormidas diz respeito. Se tal poderia significar uma interrupção na continuidade do tempo ou do sono ele mesmo, revelou-se antes uma excelente opção. Com efeito, dormir num nível mais elevado sob um tecto de palha seca, não só me proporcionou uma vista sobre o lago, como ainda me salvou de uma noite sob o ar condicionado – um dos aparatos modernos que mais me afecta. Não é raro ficar com uma tosse que assusta aqueles que não me conhecem. Também não é raro que aqueles que o apreciam me façam sentir um animal raro. Enfim, nada a fazer. Quando o calor é de facto insuportável rendo-me à tecnologia; apesar das minhas eventuais ‘manias’ não me tenho como uma pessoa fundamentalista.
Depois de me instalar num dos terraços mais altos de Flores – a história quase se repetiu em alguns pormenores – contactei Christine. Também ela planeara visitar Tikal. Quem sabe estivesse a caminho de Flores. E, com efeito! Mas isso só soube depois de ter tudo ‘arranjado’. O dia seguinte na vila foi para me organizar, quer na decisão por uma visita guiada à maior cidade Maia, quer como prosseguir. Encontrei uma agência de viagens que ofereceu um pacote muito interessante: transporte e visita guiada a Tikal, mais viagem de autocarro para o Belize, dois dias depois.
Apesar do desencontro e das reservas efectuadas em separado foi com grande satisfação que avistei Christine na entrada do Parque Maia. Integrávamos o mesmo grupo para a visita a Tikal!
Não obstante ter aberto a sebenta com intenção de passear pela cidade misteriosa, a esferográfica deslizou por outras vias. Confio que na próxima investida ela me conduza às ruínas dos Maias. Até já...

Abril, 2016
Matosinhos, Portugal


Christine




            Christine. Nos seus olhos brilhavam esperanças esverdeadas. Do seu rosto suave emanava uma espécie de afago. Quem sabe fosse do tom de voz, no limiar do audível. Na esplanada do terraço do hostal em Xela: a melhor vista sobre a cidade, gabava o anúncio exterior. Conhecemo-nos durante uma das refeições. Fim de tarde, lanche ajantarado, o meu: um abacate com tomate, temperado com um fio de azeite e sal com sabor a alho. Encontrei na cozinha do albergue, disponível para aqueles que se serviam da cozinha. O meu caso, o de Christine, também. No seu prato algo semelhante ao meu. Estávamos as duas a iniciar a refeição e sozinhas. Por pouco tempo. Com natural naturalidade, uma de nós terá entabulado conversa. A redundância não é despicienda. É com naturalidade que aqueles que viajam aparentemente sozinhos se encontrem ou se dêem a encontrar. Tínhamo-nos encontrado, o que senti em relação a mais esta alemã.  
Christine estava de férias na Guatemala. Era professora numa instituição para pessoas com deficiência - pressinto que a sua vocação se tenha desenvolvido pelo facto do seu irmão viver com síndrome de Down. Também fiquei com a sensação que a sua opção de residir em Zurique fora uma maneira de se distanciar, o suficiente, da sua família. Das suas palavras, depreendi que esperavam demais dela. Contudo, é possível que a sua percepção fosse antes resultado de dilemas interiores. Quantas vezes dou por mim a julgar-me; com frequência percebo que era eu que me exigia algo que aos outros nem sequer passara pela cabeça. Não é raro, por isso, que sejamos nós próprios as pessoas mais críticas relativamente à nossa forma de ser e estar. De qualquer modo, aquela sua circunstância familiar provocou-me algumas cogitações sobre os laços mais ou menos lassos, mais ou menos fortes que nos (des)ligam aos que nos são mais próximos por via genealógica.
            Como eu, Christine passara uns dias em Antígua, a antiga capital da Guatemala. Não como eu, passou toda a primeira quinzena de Julho na cidade mais turística do país. Uma cidade muito limpa, com a maioria das casas em estilo colonial muito arranjadas e coloridas. Até o turista mais distraído reconheceria a influência da cultura (forma simpática de dizer imposição, invasão...) espanhola. As amplas e rasgadas varandas de madeira escura contrastando com cores garridas, como o amarelo torrado, o azul eléctrico ou cor-de-laranja eram alvo de fotografia e admiração por aqueles que passeavam nas ruas e ruelas em paralelo esbatido pelos cascos de cavalos de outrora.
            Uma das razões para que Antígua seja muito visitada, sobretudo por pessoas dos Estados Unidos, é a fama das suas escolas de espanhol. Local onde se aprende esse idioma da forma mais correcta em toda a América Central: um dos slogans, ao qual Christine não ficou indiferente. Aí se alojou numa família de acolhimento, enquanto frequentou uma das inúmeras escolas, sentindo-se comprometida em comunicar dia após dia em espanhol.
            Foi, pois, nessa língua envolvente que começámos a conversar, partilhando experiências e histórias que se foram transformando em confidências à medida que os dias se alongavam em nós. Estivemos as duas no hostal o tempo suficiente para conhecer a cidade e para irmos juntas num trekking ao vulcão Santa Maria. Um dos mais emblemáticos nos arredores de Xela. O plural, já que a Guatemala é um país cuja geografia se caracteriza pela existência dessas formações vulcânicas. Havia outros, mais altos, mas que implicavam mais dias e acampamento. Nem eu nem a alemã tínhamos a intenção de subir mais alto que os quase quatro mil metros que o vulcão de Santa Maria impunha. Desde logo pela preparação fisiológica que tal pressupunha. E, mesmo assim, a nossa escolha era já arriscada para Christine, como de facto se veio a confirmar. A alemã não estava habituada a tão longas caminhadas, nem tão-pouco à altitude.

            Eram cinco da manhã quando saímos do carro que nos transportou ao início do trekking. Connosco, mais um casal de belgas, esse sim, bem preparado física e fisiologicamente. Mantive sempre a tranquilidade suficiente para assegurar que Christine nos acompanhasse sem receio de não ser capaz. Caminhávamos devagar, a fim de permitir que os nossos corpos se adaptassem à crescente altitude. Apesar de 3700 metros não ser uma altitude muito elevada, para quem não estava acostumada como a professora, era já o suficiente para que algum mal-estar interviesse no seu modo ascendente. Ademais, o ritmo lento permitia que fruíssemos e apreciássemos a paisagem circundante.
            O dia flutuava sobre a montanha que íamos subindo, passo a passo, sentindo o ar que se ia tornando um pouco rarefeito. Lado a lado, quando o ‘sendero’ oferecia a largura para ambas. Eu atrás quando assim era necessário. Escutava os passos como em sonhos. Auscultava a respiração mais forte, como quem quer inspirar o mundo num arfar que se ia aprofundando. A bruma matinal ocultava o recorte das serras que os olhos ansiavam vislumbrar. A partir das oito horas o sol jorrava já sem pruridos ou filtros os seus raios de luz límpidos. Agradecemos.
            Eram nove e meia quando, no alto do vulcão e num fulgor de um instante, os sentidos se abriram ainda mais para captar a névoa quente que nos tocava a pele. Abaixo do topo outro vulcão. Santiaguito, mais pequeno mas em contínua actividade desde que se formou. De quando em vez uma erupção. Os jactos de vapor que Santiaguito lançava sobre nós lembravam os contornos de fantasmas, enquanto sentadas fazíamos o merecido descanso, ao mesmo tempo que compartilhávamos o lanche já necessário. Ali ficámos meia hora a contemplar a cidade, o vulcão e as serras. Não as de Almeida Garrett, mas as que o nosso coração guardou como um segredo.

Em segredo pareciam estar as pessoas que se haviam descolado desde a povoação até ao topo da montanha, para realizarem um ritual pagão com laivos cristãos mesclados com as práticas Maias. Pelo que o guia nos contou, era muito frequente que os nativos de Xela fossem até ao cume do Vulcão Santa Maria. Saíam de madrugada, a fim de alcançarem o topo antes do amanhecer. Realizavam o seu ritual de agradecimento à Mãe Terra pelos campos cultivados e respectivas colheitas. Desde o início do nosso percurso que reparámos em grupos de duas ou mais pessoas. O ritmo que imprimiam ao seu andamento não nos era indiferente, à medida que nos ultrapassavam numa leveza invejável. “Caramba, tão rápido e nós aqui quase a morrer...”

Os farrapos de felicidade que nos cobriam eram mais que suficientes para que aceitássemos as nossas limitações, desviando-nos das comparações que em nada contribuíam para desfrutar de um lugar, onde a magia se fazia sentir no ar frio e quente da manhã. A nossa fadiga era já invisível, estava lá atrás. Apenas assomou quando, na descida, os joelhos nos lembraram que a descer existem alguns inimigos para as articulações. Um discurso que, apesar de parecer hiperbólico, resulta antes da ressonância do trilho pejado de pedras e rochas, em relação às quais importava dar a devida atenção.
            A chuva que nos visitou a um terço do caminho de regresso foi um estímulo ao avanço mais rápido, sem com isso ignorar a necessidade de manter os olhos bem abertos e as mãos sempre alerta.
            As sombras de um azul molhado, no verde exuberante da vegetação, dissiparam o tremor das pernas e o sol, que entretanto regressou dardejando os seus raios quase escaldantes, contribuíram para uma serenidade líquida. Uma serenidade calada que só aqueles que se aventuram no desconhecido conhecem e agradecem no regresso a casa... Neste caso ao hostal em Xela.
            No dia seguinte, almoçámos juntas na esplanada com a melhor vista sobre a cidade. A despedida que sabíamos ser um até já. Christine seguiu para o Lago Atitlán, onde eu estivera anteriormente. Mas duas semanas depois, a vida quis que nos voltássemos a abraçar. Ainda na Guatemala, na cidade ancestral Tikal, fizemos a visita guiada num mesmo grupo...

Março, 2016
Matosinhos

À espera




            Guardo segredos na mochila. Memórias de odores de assentos de autocarro, barco e comboio. Cheiros de chão de muitos lugares onde parei para esperar. Saber esperar – uma das três aprendizagens de Siddhartha. Aprender a jejuar e a pensar, as outras duas que a personagem de Hermann Hesse tinha como objectivos de vida.
É com muita frequência que me observo em situações, nas quais escuto uma voz interior sussurrar-me com veemência: Tens de aprender a esperar; confia. Sem que nada faças, nada ficará por fazer – conforme um dos versos do Tao. E, com efeito, há cerca de três anos que pressinto que essa é uma das grandes aprendizagens da minha vida. Saber esperar. Confiar que tudo acontece no tempo e espaço certos.
Não significa isto que não tenha de realizar, de trabalhar, colocar em prática o que é necessário para continuar a caminhar. Quer antes dizer que, após efectuar e empenhar-me o melhor que sei e posso em determinada tarefa para alcançar o que me propus, nada mais há a fazer. Sem precipitar os acontecimentos, sem forçar as situações, sem insistir com as pessoas de quem aguardo resposta, sem provocar encontros, sem desejar que os meus objectivos se concretizem do modo que eventualmente gostaria que acontecessem. Nada disso.
Como num jardim ideal e idílico, preparo a terra, arando-a. Aguardo que seja o tempo mais propício para plantar as sementes. Depois, com cuidado, verifico a necessidade de regar. Depois, vou observando atentamente, sem pressa o que é visível, compreendendo que a semente soterrada, sem luz, vai germinando. E, no tempo certo, surge o primeiro laivo de vida apreensível aos meus olhos. Sem que nada fizesse, mas sem que nada ficasse por fazer. A chuva terá feito o resto. Afinal, nem sequer era necessário regar. Bastou observar e confiar.
E, no tempo certo, aquele primeiro centímetro visível vai crescendo, crescendo. Até que finalmente o botão ganha forma. Até que finalmente com um raio de luz a iluminar aquela vida sem pressa, as pétalas abrem, qual palete divina. E a flor resplandece e o sorriso da testemunha transmuda-se em riso.
As mãos não resistem. Tocam sem agarrar no tecido colorido das tulipas de fogo em flor. Sentem a textura e chamam as narinas. O rosto desce e o nariz inala mais um odor e outro odor. A terra ainda húmida da noite de chuva, o aroma adocicado do gineceu e androceu.

Contemplando, sob o céu azul saturado, a testemunha recebe, enfim, o esperado telefonema. No início de mais uma tarde no jardim, escrevendo... nem sempre... os olhos como que se desviam para as laranjeiras, para as camélias cor-de-rosa e para as tulipas, desta vez muito vermelhas. Num desses devaneios as mãos interromperam-se, desta feita para atender uma voz a falar português, é certo, mas do Brasil! Diga-se de passagem que ao visualizar um número tão extenso, reconheci a aceleração do ritmo cardíaco. Seria? Era! “Oi, Ana! É para saber se está disponível para trabalhar connosco na coordenação dos Jogos Olímpicos. Gostámos da sua prestação como voluntária no evento-teste em Outubro passado, analisámos seu currículo e queremos saber se está interessada em se juntar ao nosso time... para trabalhar!”
A mochila estremeceu de contentamento. A testemunha prepara-se, agora, para voar novamente para o outro lado do mundo... A mochila regozija-se; está pronta para guardar mais segredos, para arquivar mais lugares de comboio, autocarros e, em quem sabe, barcos e lanchas...

Março, 2016
Matosinhos, Portugal
 

Para onde voam os papagaios de papel? - Isla del Sol




            É muito raro consultar guias de viagens antes de embarcar. Se pesquiso no mundo virtual informação sobres os locais em que já me encontro, é sobretudo para ter noção do que será mais ou menos interessante conhecer. Parece óbvio. Não é estranho, porém, que essas buscas decorram de forma caótica e sem grande curiosidade.
            Poder-se-ia perguntar então como escolhi este ou aquele destino. Escutando de viva voz quem por lá andou. As histórias, aventuras e desventuras de outros viajantes e/ou turistas são os meus guias preferidos para prosseguir a cada dia.
            Segui para a Isla del Sol em Copacabana, Bolívia, por exemplo, por sugestão de Hanuku. Encontrámo-nos numa das ruas de Cusco, dois dias depois do Salkantay trekking. Vinha com Bastien muito sorridente – como sempre, aliás. “Vou para Puno, quero conhecer o Lago Titicaca”. O lago mais alto do mundo – a cerca de 3800 metros – está entre o Peru e a Bolívia. “Porque não vais antes para Copacabana? Estive lá e penso que é mais interessante que do lado do Peru, desde logo por ser muito menos turístico...” Porque não, pensei. Afinal, até prefiro lugares mais tranquilos. Das palavras de Hanuku (mais do que as expostas aqui) emanava algum mistério.
Na noite do dia seguinte, apanhei o autocarro nocturno rumo a Copacabana, não a do Rio de Janeiro, mas da Bolívia. Uma novidade para mim. A viagem nocturna proporcionou-me um encontro com Arnaud. Um rapaz pouco mais novo que eu, de origem francesa. Tal como em Bastien – o namorado de Hanuku –, denotei aversão ao seu país, parecendo também renegar a sua nacionalidade. Que terão os franceses contra a França? Perguntar-me-ia dois meses depois, ao conhecer Vivian em Bogotá.
Por outro lado, ao longo destas viagens tenho vindo a apreender aquilo que pode ser entendido pela célebre expressão ‘cidadã(o) do mundo’. A partir de certa altura, quando os meses fora do país de origem ultrapassam a mão cheia, torna-se irrelevante a resposta à questão: De onde és? Observo, antes, uma tendência entre os viajantes de longa duração perguntarem e/ou a reflectirem sobre uma possível resposta às perguntas: De onde vens? Para onde vais e porquê?
Durante a viagem para Copacabana, Arnaud contou-me, em castelhano, parte da sua vida pelas ruas, de várias cidades da América do Sul, a tocar trompete. Não me falava em francês, não me falava em inglês. Na sua perspectiva, se estávamos no Peru a caminho da Bolívia, fazia mais sentido que nos ligássemos através do idioma local. Nem sempre era fácil para mim. Aterrara em terras ‘calientes’ havia apenas três semanas. Esforcei-me. Compreendia o que me dizia. Pela minha parte, era sobretudo em inglês que me expressava.
A sua tatuagem no antebraço, desde o início que me suscitou curiosidade. Foi a primeira de muitas semelhantes que, entretanto, observei em muitos estrangeiros, a viverem mais ou menos temporariamente em terras além-mar. Copacabana – um local misterioso, afirmava Arnaud. Como que confirmando a suspeita que sentira em relação à sugestão de Hanaku. Copacabana convoca, acrescentava, mais um ou outro sentido para além dos cinco a que estamos habituados a estimular. Estou a ser optimista; o sentido da visão é o predominante nas sociedades ocidentais e nas cada vez mais ocidentalizadas.
No pulso de Arnaud estava gravado, segundo ele, o símbolo do infinito e da eternidade: duas linhas em torno do pulso separadas por dois ou três centímetros, sendo que uma das linhas apresentava o dobro da largura da outra. Arnaud desejava viver na eternidade do momento.
Enquanto vagueava pelas poucas ruas de Copacabana, percebi ao que Arnaud se referia ao chamar-me a atenção de que seria muito fácil encontrar o que eu quisesse em matéria de estupefacientes. Razão pela qual muitos aí se detinham por tempo indeterminado. Não obstante, ao ver um grande edifício da polícia especial de narcotráfico, não deixei de ficar surpreendida. Era o primeiro que via. Ademais, vinha assistindo a um controlo muito grande das bagagens.
De todo em todo, Copacabana foi o único local na América Latina em que vi mais do que uma pessoa a utilizar seringas para se apaziguar. A última vez que tivera essa infeliz visão (na minha perspectiva, claro) fora em Saigão – ou Ho Chi Minh – um ano e meio antes. Não será estranho que estivesse atenta a alguns pormenores; algumas semanas antes revisitara a vida de Christiane F.
Essas visões não alteraram, todavia, o meu estado de ser ao embarcar na pequena lancha, que saía da vila rumo à Isla del Sol. Eram oito da manhã quando um rapaz sentado ao meu lado entabulou conversa em inglês. Rapidamente passámos ao modo português. Paulo era de São Paulo e estava quase a terminar a sua viagem de seis meses. Um jovem de vinte e sete anos, cuja simpatia transformou as duas horas de ondulação no lago em pouco mais de cinco minutos.
É curioso como a coordenada temporal é experienciada de forma tão distinta, dependendo da pessoa com quem a vivenciamos. Apesar de não me recordar dos inúmeros temas que pintaram o nosso trajecto, o sorriso aberto é a imagem que guardo do jovem brasileiro.
Paulo só tinha duas horas na ilha. Despedimo-nos, pois, com um abraço até um dia destes, quem sabe... Segui pelo lado oposto, com o objectivo de calcorrear tranquila e serenamente a ilha que dizem ser o berço da civilização Inca.
Em cada passo sentido e escutado na ilha do Sol, agradecia a Hanuku a experiência de silêncio colorido que escutava. Os sons corriqueiros das actividades humanas estavam ausentes. O chilrear dos pássaros, o rumorejar das folhas pela brisa que as trespassava, o zurrar das mulas e o ruminar das alpacas e dos lamas: os elementos da minha paisagem sonora.
Merendei debaixo de uma oliveira numa clareira de um pequeno planalto. Os meus olhos abraçavam a vastidão do lago tíbio e azul de loio. Tentavam também agarrar as cores quentes e terrosas da ilha.
No caminho de regresso ao cais, parei uns largos minutos a fim de contemplar as brincadeiras de duas crianças. Corriam e saltavam rindo muito, muito. Espiava o deslumbramento que só as crianças – ou aquelas que permitem as crianças em si – vivenciam. Os seus papagaios amarelos, vermelhos e azuis voavam. E voavam por tão-somente correrem escutando a direcção do vento.
Para onde iriam os papagaios de papel? A lado nenhum. Deixavam-se ir... pelo vento morno e terno que envolvia a Ilha do Sol – no lago Titicaca...

           
Março de 2016
Matosinhos, Portugal





Pedalando em Ometepe


            Dei por mim a embarcar no ferry com destino a Ometepe por sugestão de uma alemã linda que conheci em Xela – sem dúvida a maneira mais fácil de nos referirmos a Quetzaltenango, a segunda maior cidade da Guatemala. Christine, professora numa instituição que acolhe pessoas com síndrome de down, tal como o seu irmão. Prefere viver em Zurique, a distância necessária em relação a uma família um tudo-nada problemática. A empatia aconteceu desde o primeiro momento em que começámos a conversar, sobretudo em espanhol. A alemã passara duas semanas em Antígua, em casa de uma família para aprender espanhol. Por isso ligávamo-nos nesse idioma. Às vezes em inglês também, quando o nosso vocabulário e gramática não se mostravam suficientes para nos expressarmos.
            “Se estás na Nicarágua, não podes perder a ilha Ometepe” – aconselhou via messenger. Agradeci a sugestão desde o momento em que, na proa do ferry, observava a ilha a aproximar-se.
            Reservei duas noites num hostal e, logo à chegada, indaguei a possibilidade de alugar uma bicicleta. Muito fácil, isso supusera aquando do trajecto entre o cais e o albergue. Às oito horas da manhã seguinte já estava pronta para pedalar pelos caminhos da ilha.

Ah... a criança que em mim habita fica sempre extasiada cada vez que começa uma descida, cada vez que o vento roça no rosto e os cabelos – nessa altura tão compridos como nunca – esvoaçam ao ponto de ficarem todos erriçados, impossíveis de serem posteriormente traspassados pelos dedos. Do que me vou conhecendo, andar de bicicleta é a actividade que mais me rasga sorrisos. Claro que a paisagem arrebatadora era o ingrediente mais relevante.
No caminho até à Playa de Santo Domingo, o vulcão Concepción provocava-me arrepios.  Que imponente! As nuvens muito brancas que o envolviam formavam uma bruma mágica que tornava o meu passeio ainda mais encantatório.
Fiz uma pausa para um ‘café solo’ numa esplanada na praia. A companhia foi bem recebida – uma Calocitta formosa (ou gaio-rabudo, prefiro sua nomenclatura formal). Uma ave curiosa que se ‘sentou’ ao meu lado debicando o pedaço de pão com queijo que com ela partilhei.

Da praia segui para El Ojo de Agua. Estava preparada com o fato de banho, sabendo que as águas termais me deliciariam. E, com efeito... Aí me deleitei num descanso aprazível e merecido, desfrutando das águas cálidas e sorrindo com os mergulhos dos mais arrojados. Dessa vez coibi-me de saltar. Talvez pressentindo a fragilidade dos meus ouvidos.

Os dias, as horas e os minutos voam quando escolho a bicicleta como meio de transporte. Presumo que se deva ao facto de vivenciar um prazer que me preenche sobremaneira. De tal modo, que, quando me apercebo, o dia está quase no fim. Não era bem o caso; ainda tinha tempo para almoçar tranquilamente antes de entrar no Paraíso das Borboletas – uma reserva por onde deambulei pelo menos duas horas. Além das borboletas – posso dizer que fico sempre deslumbrada cada vez que um desses insectos maravilhosos se cruza com o meu olhar –, a vista admirável do Lago Nicarágua comovia-me a cada momento. A vegetação exuberante vivamente habitada era mais um elemento que despertava todos os sentidos. A pele arrepiava-se e os suspiros de gratidão sucediam-se instante a instante.
À saída do paraíso, o olhar colou-se novamente ao vulcão e as pernas, ainda que trémulas pela emoção, voltaram ao movimento que a bicicleta docemente convidou. Em grande velocidade pedalei até ao ponto de partida. Se chegasse antes das seis da tarde teria oportunidade de contemplar – tal como no fim de tarde anterior – o pôr-do-sol.
Cheguei a tempo ao local seleccionado. Na plateia do cais já outras pessoas, também atentas, admiravam a bola de fogo na sua descida exuberante. O cor-de-laranja pintava o céu, que se transmudava em cada instante. Tudo passa, tudo muda, mas muito se pode guardar neste coração infantil. Muito obrigada, Christine!

 
           
Março de 2016
Matosinhos, Portugal




Isletas de Granada


           Numa noite enorme, o sono foi brando no silêncio pouco negro do hostal ‘Hamacas’, em Granada – Nicarágua. A viagem desde a cidade do México aconselhava a escolher um quarto privado. Partilhei as refeições e experiências com outros viajantes furtivos naqueles dias, mas era fundamental um quarto só para mim.
            Cheguei a Granada no dia nove de Setembro. No dia seguinte começaria o retiro de meditação do qual desisti algum tempo antes. Como tal, informei a organização com a devida antecipação. Desse modo, o lugar que me estava destinado ficou disponível para alguém na lista de espera. Refira-se que a oferta de retiros de Vipassana costuma ser inferior à procura, daí o meu cuidado.
É possível que a 'minha' vaga tenha sido ocupada por Amanda, uma norueguesa com quem conversei na noite de chegada. No dia seguinte, era ela quem iria para o centro de meditação. Recebera a notificação três dias antes: “Ah... que engraçado. Às tantas...”
Fui directamente do aeroporto de Manágua para Granada. Pelo que escutara, seria uma cidade pouco interessante com muitas histórias que não valia a pena confirmar. Não arrisquei e, como tal, continuo sem conhecer Manágua e sem saber qual o impacto da revolução sandinista na capital.
Quando ingressei numa visita guiada de lancha pelas ‘Isletas’ de Granada, percebi que existem muitos europeus a residir em Manágua, pelo menos temporariamente. Julie era disso exemplo – uma alemã de passeio em Granada com a sua mãe. Aproveitara a visita materna para conhecer a cidade do grande Lago Nicarágua e, assim, sair da capital por uns dias. Julie era professora de alemão e inglês numa escola privada em Manágua.
O amor... ah, o amor... Julie apaixonara-se por um ‘nica’ no ano anterior e não hesitou. Mudou-se de armas e bagagens para o outro lado do mundo, pelo menos por um ano. O namorado estava a terminar uma especialização e em breve iria realizar a sua dissertação de mestrado na Alemanha. Se a paixão perdurar ou evoluir para outro estado, Julie regressará à terra natal bem acompanhada.
A alemã, de olhos de um azul morno e sorriso imaculado, partilhou a sua história enquanto vagueávamos languidamente de lancha por entre as centenas de ‘isletas’ ao largo da costa. Ilhotas muito ilhotas que resultam da erupção do vulcão Mombacho há milhares de anos. Numa delas o Forte de San Pablo. Noutras, hotéis de pequenas dimensões – conforme a área disponível. A maioria das ilhotas eram privadas, residências de férias. Casas mais ou menos luxuosas, cuja arquitectura  nos provocava mais ou menos suspiros: ah, que varanda... ah, que janelas... ah, que casa linda para passar uns dias.
O azul esverdeado das águas era rasgado pela língua que a pequena embarcação desenhava com o leme. Sorriamos extasiadas, contornando ‘isleta’ atrás de ‘isleta’. Algumas garças marcavam o seu território, pairando-nos a dúvida se teriam apenas uma pata ou se estariam numa qualquer posição ‘yogui’ ou se estariam apenas a observar-nos, indagando-se, quem sabe nestes termos: “parece que nunca viram uma árvore com ‘monos’”. E de facto havia muitos macacos. Uma das ilhotas, que era propriedade de um médico veterinário e nas poucas árvores que tinham espaço para se expandir, os ramos estavam num frémito contínuo pelos saltos inquietos dos ‘monos’ de Granada.
A visita incluía um lanche de frutas muito coloridas: ananás, pitayas e manga e um sumo natural de ananás para mim e para a Julie e um sumo directo do coco para  a sua mãe – confesso que esta é uma daquelas coisas que sou incapaz de ingerir seja em que estado for... O coco provoca-me vómitos – literalmente. O que é uma pena, já que tem muitas propriedades e ainda por cima é tão económico. Mas as pitayas... encheram-me. Pelo sabor, pela textura e pela cor. A casca de rosa choque e o interior roxo quase me impediam de a comer pela sua beleza exuberante. Uma fruta tão bonita como deliciosa.
Sentadas na esplanada de uma das ilhotas, desfrutámos da vista enquanto nos contámos mais histórias vividas em terras latino-americanas. Dúvidas não havia: o castelhano era encantatório e tínhamos vontade de continuar a aprimorar as nossas competências nesse idioma quente e envolvente. Entre nós, porém, era em inglês que comunicávamos. Eu e Julie. A sua mãe pouco escutei. A senhora só falava alemão e eu ainda não me propus nesse idioma. Talvez seja tempo de pensar nisso. Afinal, com tantas pessoas alemãs lindas que vão entrando na minha vida, começo a achar que é uma falha não conversar na sua língua materna. Quem sabe se para o ano. Por ora tenho é de estudar francês. Amanhã tenho teste e ainda quero rever algumas regras dos COD e dos COI, que é como quem diz, dos complementos directos e indirectos*. À bientôt...

           
Março de 2016
Matosinhos, Portugal

* Alguns dias depois soube a nota: tive 16. Bem bom :)