Atrapa sueños - Bogotá III



Despedi-me de Bogotá com um “até muito breve!”. Em Dezembro de 2104, procurava alguns regalos pelas ruas da La Candelaria. Parei numa feira de artesanato. Produtos e artefactos dos Andes. Pulseiras, colares e brincos de todas as cores a preços convidativos. Lembranças leves e pouco espaçosas que podia e desejava adquirir para, à chegada a Portugal, oferecer às pessoas de quem gosto, demonstrando-lhes assim que me lembrara delas e que sim senhora, gosto muito de vocês.
De entre a panóplia multicolor exposta, os brincos com borboletas e as pulseiras ‘atrapa sueños’ foram os acessórios que mais me cativaram. Os primeiros eram peças sui generis – brincos elaborados com as bagas que os eucaliptos suavemente soltam para o solo. Ali estavam sobre o balcão de venda, trabalhadas por mãos inspiradas, que as haviam transformado em objectos de decoração corporal. Brincos com borboletas incrustadas – um do símbolos da Colômbia. Comprei vários pares com borboletas azul índigo – aquelas que me provocam anseios e desejos de também eu me metamorfosear. Como comprei três pares, a jovem vendedora ofereceu outro para mim própria – agradeci com um sorriso ainda mais largo.
Ainda mais, uma vez que a mesma ‘señorita’ me concedera anteriormente uma pulseira ‘atrapa sueños’. Encantada com esse objecto fino de protecção, escolhi uma dezena para as amigas, não resistindo em obter uma para mim. Presenteou-me, colocando ela mesma a pulseira, apertando com três nós ao pulso, enquanto murmurava palavras que me soavam encantatórias, como uma lenga-lenga a enviar protecção e boa-sorte. Uma pulseira com uma teia a imitar a de aranha, onde os sonhos são guardados; uma pulseira que protege dos pesadelos, agarrados que ficam na teia, firmemente entrelaçada.
A minha permaneceu no pulso até Junho seguinte, quando regressei a Bogotá após mais um retiro de Vipassana. Durante esses dez dias de silêncio resolvi retirar todas as pulseiras – tinha uma série delas, cada uma com a memória de um lugar e de uma pessoa ‘atrapada’ no meu coração. Várias da viagem do ano anterior, cujas recordações sorridas me instigaram a regressar ao país da América do Sul que até ao momento mais me encheu. E a cidade de Bogotá, com as suas gentes é, sem dúvida, malgrado a fama de perigosa, um dos lugares que me faz sentir em casa.
Em Dezembro de 2014, além do teatro e das aulas de salsa e das corridas sofridas pela altitude, calcorreei a Séptima. A ‘Carrera Séptima’ é uma das principais artérias que percorre a capital colombiana de norte a sul, sendo na mesma que se encontram algumas das principais atracções turísticas, nomeadamente o Museo del Oro, o Museo Nacional, o Planetário, o Parque Nacional – onde corri e corri e fraquejei e fraquejei... – entre outros edifícios, como seja a La Catedral de la Inmaculada Concepción.

Sabia de antemão que o Museo del Oro era imperdível. Informação obtida no Peru, através de outros viajantes que por aí haviam passado. E, com efeito, as peças de ouro, expostas nas salas organizadas por épocas, não deixam ninguém indiferente. É possível compreender a história das tradições andinas, assim como a evolução da arte de trabalhar esse mineral tão precioso, quanto cobiçado. De facto, as vidas que se perderam aquando da chegada – uma forma suave de dizer invasão pouco pacífica... – dos espanhóis, reflectem parte dessa avidez. Foi a sala de cosmologia e simbolismo que mais me atraiu. O xamanismo encanta-me e o modo como este tema é explorado no museu transportou-me para épocas ancestrais.

Para além deste museu, aproveitei a entrada gratuita no Museo Botero, no qual se encontra a obra e colecção do artista plástico Fernando Botero. Um Maestro de Medellin, muito apreciado e admirado em todo o país. A forma como explorou as proporções e dimensões das figuras é uma das suas marcas artísticas quer na pintura, quer na escultura, sendo a sua obra facilmente reconhecida.

Mas foi no Planetário que a criança que em mim habita mais se regozijou. As histórias e mitos por detrás das constelações enfeitiçaram-me de tal maneira, que projectei no meu querido sobrinho mais velho, o G., o desejo de estudar e saber mais acerca do céu nocturno. Comecei nesse mesmo Natal de 2014, oferecendo-lhe um livro sobre o assunto. Posteriormente, levei-o para uma visita aos Planetários de Espinho e do Porto. Quando as noites se tornarem mais longas e agradáveis vamos observar o céu do Porto com o seu telescópio. Quem sabe as duas ursas nos mostrem a posição da estrela polar... para melhor apreender o sentido do sul...


Janeiro, 2016
Matosinhos, Portugal



Monserrate - Bogotá II



A primeira vez que fui a Bogotá havia uma razão muito concreta. Servir num retiro de meditação Vipassana. Existem centros em todo o mundo e de entre os locais possíveis de visitar nessa viagem de 2014, o local que mais me adequava na América do Sul era Bogotá. De maneira que parte da viagem foi organizada de forma a estar na Colômbia no final de Novembro desse ano.
Valeu a pena o esforço da viagem desde Arequipa. Ao fim de vinte e quatro horas chegava à estação das Águas, onde um rapaz muito prestável me levou até à rua do hostal Sue. Tal como Vivian e Victor, também este era estrangeiro em Bogotá. De facto, reparei numa Bogotá muito cosmopolita, sendo-me difícil discernir quem era de origem colombiana. Tal como a maioria das capitais, esta cidade recebe gente de todo o país e de todo o mundo. Uma cidade com mais de oito milhões de habitantes, cuja imensidão contemplei quando subi de teleférico até ao Santuário de Monserrate – o último local que visitei em Dezembro de 2014.

Um pormenor que me mereceu a máxima atenção: um mês depois de regressar a Portugal, estava a morar numa quinta com o mesmo nome (!), em Matosinhos – para mim, outro santuário. Como não acredito em coincidências, guardo determinadas memórias com o máximo de cuidado, como aliás me merecem as pessoas que conheci em Bogotá. De tal modo me trataram bem, que quando voltei, meses depois, nos reencontrámos e nos abraçámos e nos prometemos tornar a encontrar e a abraçar... Como é o caso de Paola – agora a tentar a sua sorte na terra dos cangurus – e de Stephany, estudante de arte dramática. Amigas para a vida, com quem servi durante dez dias num retiro, não com muito silêncio, como é apanágio da Vipassana.
Na primeira corrida nessa cidade, em 2014, fiquei totalmente esgotada ao fim de trinta minutos (geralmente, gosto de correr pelo menos uma hora). Só posteriormente reparei na altitude a que a cidade está localizada – o altiplano Cundiboyacence encontra-se a mais de 2600 metros de altitude –, cuja repercussão senti, em particular por ter estado semanas sem dar corda às sapatilhas.
As corridas terminavam antes das oito da manhã. O nível de poluição assim me ‘obrigava’; não gosto de correr lado a lado com o trânsito e muito menos com nuvens de gazes não muito saudáveis. Apesar de esta ser uma das formas que mais me cativa para conhecer os lugares que visito, existem cidades onde não fui capaz de o fazer pelo mesmo motivo, como é o caso de Banguecoque e Kuala Lumpur.
Em Bogotá havia muito que visitar a pé. Como em 2014 ficou muito por conhecer, em Maio de 2015 integrei o grupo que Freddy formou para a visita guiada gratuita. Não foi a primeira; a minha estreia nesse tipo de visita foi em La Paz, sabendo que no final deixaria a minha gratificação (mais ou menos ao critério do turista e/ou viajante).

Foi muito interessante escutar as histórias por detrás das ruas de La Candelaria, da Praça Bolívar, assim como experimentar o forte e saboroso café colombiano e jogar o Tejo: um jogo tradicional, semelhante à ‘nossa’ malha, mas dentro de paredes, onde os pesos lançados têm de cair numa caixa de argila, na qual fica a marca de cada lance.
Durante essa visita perdi mais um par de óculos. Deve ser a minha sina (ou descuido sem conserto). Habituei-me, pois, a prescindir desse objecto. Os chamados pés de galinha têm crescido a olhos vistos. Talvez um dos motivos para que Tairrong – um rapaz de Taiwan que conheci no meu primeiro retiro de meditação, em 2012 na Índia – me tratasse por ‘big fish eyes’. Só porque eu estava sempre a rir-me.
Rugas de expressão à parte, quem ri também é mais feliz e, no hostal Sue, a boa-disposição imperava sempre que aí pernoitei. Freddy era, aliás, um grande animador do local. Na primeira vez que me alojei em La Candelaria (em Novembro de 2014), o colombiano convidou quem estava para assistir a uma ópera rock – também gratuita! Apesar de ter apenas duas aulas de espanhol, os dois meses em terras latinas ajudaram-me a compreender e a rir muito com Luciano, a personagem principal da ópera rock, ‘Los agentes invisibles’.


Janeiro, 2016
Matosinhos, Portugal

La Candelaria - Bogotá I

“Vais para a Colômbia? Sozinha? A sério, não tens medo?”
Medo de quê? Estivera na capital da Colômbia em finais de Novembro de 2014 e senti-me em casa durante os dias em que me alojei no hostal Sue de La Candelaria – o bairro mais conhecido da cidade.
Em Maio de 2015 voava novamente para o outro lado do oceano e em direcção à cidade onde terminara a viagem de dois meses e meio no ano anterior. O valor do bilhete de avião justificava essa opção. Pouco mais de quinhentos euros pela ida e volta desde o Porto, com a certeza (quase absoluta) de que o regresso seria quando me desse na real gana (aconteceu mais de cinco meses depois).
Em 2014 fui parar a La Candelaria. A localização do hostal Sue pareceu-me interessante: na zona histórica de Bogotá, onde os inimigos nocturnos não são despiciendos. Em particular para quem, como eu, aterrava sozinha naquela que dizem ser a capital do narcotráfico – em momento algum percepcionei perigo. Como usual, quando cheguei ao aeroporto dirigi-me ao balcão de informação turística: havia autocarros para a zona da cidade onde reservara cama. Como chegava de uma longa viagem, decidira-me por um quarto privado que incluía o pequeno-almoço. À saída do aeroporto, apanhei o chamado alimentador, que gratuitamente me transportou até um dos terminais do Metrobus – guardei o cartão recarregável... – onde apanhei o autocarro até à estação das Águas (uma das saídas para La Candelaria).
Antes de sair do Porto, no dia cinco de Maio de 2015, reservei uma cama num dos dormitórios do hostal do ano anterior. Pasme-se quando reencontrei Victor e Lina – dois dos amigos que fizera meses antes. Victor – de Santiago do Chile, vivia em Bogotá há quase um ano – comemorava o seu quadragésimo aniversário duas noites após a minha chegada. Depois de muitas cubas livres e galhofa à mistura, fomos dançar salsa a um dos inúmeros bares de La Candelaria – razão pela qual o bairro é conhecido em toda a Colômbia e arredores. Se as universidades lhe dão muita vida, também os incontáveis turistas preferem este lado da cidade, como é o caso de Kevin, com quem tive oportunidade de dar gosto ao pé em danças de tal modo arrebatadoras que ninguém parecia indiferente. Com ou sem modéstia, pouco importa, relevante é o facto de haver alguém com quem partilhar uma das coisas que mais me dá prazer. Como diz o meu querido irmão M.: “quem dança é mais feliz”.

Quando me despedi da senhora Dina em Dezembro de 2014 – a senhora que nos preparava os ovos mexidos com o croissant e café para o desayuno e sempre com as mesmas perguntas, como quem necessita escutar diversas vezes as respostas que pouco ou nada lhe interessam –, também tive ocasião de exercitar a salsa numa das aulas gratuitas que Freddy (funcionário do hostal) providenciava duas vezes por semana. Pedi a Vivian que gravasse em filme a minha fraca prestação. Vivian, outro amigo que revi em Maio de 2015.
Natural de França, Vivian aproveitava esse facto para leccionar aulas de francês na Colômbia. Nas primeiras conversas que desenvolvemos quando nos conhecemos em 2014, no hostal Sue, partilhámos experiências e histórias muito pessoais; fiquei com a impressão que nos encontrámos para nos ajudarmos mutuamente a compreender as razões porque ali estávamos. Quando regressei meses depois, Vivian conhecera o amor da sua vida, a Johanna, com quem foi viver – convidaram-me e eu aceitei com profunda gratidão ficar em sua casa no regresso de um retiro de meditação.
Foi em casa deste casal que a mochila ficou indelevelmente marcada pelo gato de estimação de Johanna. Uma recordação em forma de cicatriz na mão com que escrevo: quatro meses depois de sair de Bogotá, um gato mexicano, muito cioso do seu território mordeu-me; mostrava-me assim a necessidade de ter cuidado com o sítio onde se deixam as coisas.
Entretanto, Vivian e Johanna casaram e no momento em que escrevo encontram-se a viajar na terra natal de Vivian – a segunda lua-de-mel, na cidade da luz.



Janeiro, 2016
Matosinhos, Portugal

Cruz del Sur




Ao quarto dia em San Pedro de Atacama marquei a viagem desde Lima para Bogotá. No início de Novembro de 2014 cheguei ao Chile com intenção de ficar duas noites no deserto mais seco do mundo. A quietude encantada da beleza, tão lenta quanto terrível, provocava-me uma inércia difícil de combater. No céu azul, as meadas de nuvens flutuantes irradiavam um brilho que me paralisava. Até que cheguei à conclusão que, só marcando a viagem para o destino final a que me propusera, teria um estímulo para arrepiar caminho.
Ao fim de uma semana conseguia finalmente despedir-me – não para sempre – do lugar que mais se adentrou em mim até esse momento: o Salar de Tara. Voltei ao Peru, dirigindo-me para Arequipa, sabendo apenas em que dia deveria estar em Lima para voar para a Colômbia. Também nessa cidade do Peru deixei poisar os bichos carpinteiros por uma semana. Quer dizer, mais ou menos; pelo meio fui arrebatada pelas paisagens e condores do Colca Canyon.
A insolência dos bichinhos que em mim habitam é refreada, pelo menos por alguns dias, quando as pessoas são tão ou mais encantadoras que os lugares onde este corpo descansa, acendendo uma lâmpada no coração. Por essa razão, saí de Arequipa apenas na véspera do voo desde Lima. Também apenas na véspera dessa véspera adquiri o bilhete de autocarro para a capital do Peru, através do sítio virtual da agência Cruz del Sur. Esperavam-me catorze horas de autocarro. O bilhete incluía jantar e filmes e paisagens deslumbrantes enquanto o dia sorrisse por dentro e por fora de mim.
Ao cair da noite, passava um documentário sobre Cantiflas. A lua guiava-nos com a sua luz porosa, resgatando-me ao assento número nove. Quando vi o actor mexicano no écran, a pele dos braços eriçou-se: dias antes conhecera Guilherme – o proprietário do restaurante vegetariano, Mandala, onde almocei diversas vezes enquanto em Arequipa. Guilherme, um senhor cuja fisionomia me fez soletrar o passado de uma infância risonha, marcada pelos filmes daquele cómico mexicano (foi o meu Tio Manuel quem me deu a conhecer esses filmes no cinema do Foco).
Este espírito borbulhante foi interrompido quando o hospedeiro de bordo subiu ao segundo piso do autocarro. O mesmo jovem fardado e de laço aprumado, que anteriormente distribuíra o jantar – para mim uma sande vegetariana com um sumo de laranja e um biscoito –, trazia agora cartões para todos os passageiros que desejassem participar no jogo nocturno – o Bingo! – e assim habilitarem-se a ganhar outra viagem de autocarro com a Cruz del Sur.
Apesar de estar de saída do Peru, aceitei de bom grado um cartão vermelho, com a sombra de um sorriso irónico. Estava curiosa. Além disso, só experimentando se experienciam emoções e sensações – o mesmo é dizer, para mim, que havia que me libertar de preconceitos e pretensiosismo e deixar envolver-me pelo ambiente de boa-disposição dos simpáticos peruanos.
O meu companheiro de lugar ajudou-me a compreender uma ou outra expressão; de vez em quando o hospedeiro lançava perguntas ao estilo de trivial pursuit, em relação às quais eu reagia muito rapidamente com o braço no ar. Divertia-me a olhos vistos. Mais do que isso, a dada altura observei-me em expectativa. A de quem desejava fazer linhas e até mesmo gritar Bingo! Não que me interessasse ganhar um bilhete; mas quando se entra no jogo – falo por mim, como é óbvio –, existe (quase) sempre a vontade de ganhar – independentemente de nos apaziguarmos com as palavras: o importante é participar. E, com efeito, o importante foi participar e escutar ‘linha’ muitas vezes em espanhol, inclusivamente desde a minha própria boca, e muitos risos com as palavras puras desfolhando relâmpagos de motivação, por parte do muito empenhado hospedeiro. Um verdadeiro animador de viagem, cuja duração tinha tudo para ser um tédio e uma valente canseira – o que não se veio a verificar.
O autocarro veio ao rubro quando o rapaz fardado sentenciou à jovem vencedora do Bingo que o seu prémio teria de ser muito merecido. Não lhe bastava ter todas as janelas do cartão vermelho abertas: era imperioso provar a sua vontade de viajar novamente com a Cruz del Sur pelo maravilhoso país do Peru.
O público aplaudiu o apresentador e até assobiou quando os seus lábios sopraram: “Tens de cantar uma canção; podes escolher”. A jovem peruana não se fez rogada. Aclarou a garganta e iniciou a cantoria em falsete. O que logo corrigiu quando os restantes passageiros se lhe juntaram, mostrando que sim senhora, ela era digna da vitória e do respectivo prémio.
Também eu ganhei e muito; várias gargalhadas fazendo jus à publicidade da Cruz del Sur: El placer de viajar en Bus!



Janeiro, 2016
Matosinhos, Portugal

Fui mordida - Colca Canyon III

Fui mordida! Pela primeira vez na vida fui atacada por um cachorro. Parecia inofensivo. A marca na perna direita mostrou o contrário. Duas dentadas que avisavam ser péssima ideia avançar no caminho, a não ser que desejasse uma cicatriz para exibir a pretensa coragem.
Tal aconteceu no final do primeiro dia de trekking no Colca Canyon (em Novembro de 2014). O dia começou bem cedo, tendo a primeira paragem acontecido no miradouro mais conhecido e procurado para contemplar os condores que decidem fazer as alegrias dos turistas, viajantes e curiosos. Assim aconteceu e eu agradeci.
Após esse momento de profundo êxtase, uma carrinha de nove lugares transportou-nos para o local onde se iniciaria o trekking. Ainda mal começávamos e já no sentíamos cheios com tal visão maravilhosa.
O caminho iniciou-se, pois, com enorme satisfação e desde logo nos apresentámos entre nós. O casal de ingleses, a Claire e o Kevin, juntamente com duas moças de nacionalidade incerta, eram os elementos do meu grupo de trekking liderado pelo jovem e bem-disposto guia, o Nelson.
Ao fim de seis horas a descer, a descer e a descer pelas encostas íngremes, secas e estreitas do Vale chegámos ao alojamento onde pernoitaríamos a primeira de duas noites.
Uma escada em caracol, mas sem corrimão vai a caminho do sol, mas nunca passa do chão. Contrariamente ao fado de Camané, a nossa escada não nos conduzia  ao sol; sem corrimão e em sentido descendente prosseguíamos para o rio Colca. Sem sustos, sem sobressaltos, os sonhos eram alimentados pela paisagem vulcânica, que de tão assombrosa mal cabia em mim.

As pernas sentiam as ladeiras quando nos aproximávamos daquele que seria o descanso do guerreiro. Eu e as duas jovens instalámo-nos num dos seis quartos da casa de adobe. Sequiosa, quis comprar água na loja. Engoli em seco o preço a que a proprietária vendia esse bem mais do que precioso. Respirei fundo e decidi tentar a minha sorte de outra forma. Eram quase seis horas da tarde, quase no lusco-fusco. Mesmo assim, caminhei pelo trilho que aí nos conduzira. Muito próximo do alojamento havíamos parado por alguns minutos num quintal, onde uma senhora vestida a rigor nos seus trajes Incas vendia água e fruta. Também o seu preço me desmotivara. Porém, não era tão elevado quanto o do alojamento, o qual roçava o escandaloso.
Nestes sítios é o usual; tinha sido alertada. Como prevenida que costumo ser, fui abastecida. A questão é que bebo muita água. Além disso, ser prevenida é uma coisa. Ser masoquista é outra. Uma mochila para duas noites deve ter o suficiente sem com isso se tornar um fardo, que impeça o deleite de uma passagem tão extraordinária como a do Colca Canyon.
Por conseguinte, enquanto a proprietária do alojamento nos preparava o jantar, e já depois da breve paralisação, fui em busca daquela outra senhora inca. Não só não a encontrei, como fui agraciada por outro tipo de encontro: dois cachorros muito ciosos das suas funções de guardas. Fui eu que enfiei o rabo entre as pernas e regressei e paguei sem piar a água que realmente necessitava.
A luz do gerador apagou-se cedo e cedo nos deitámos para descansar, para assim ficarmos novamente fresquinhos na manhã seguinte. E assim foi. Às cinco e meia da manhã do dia seguinte prosseguíamos no trilho do canyon.
O alojamento da segunda noite deixou o grupo sem respiração. Uma piscina com as paredes mais altas do mundo! O que os nossos sentidos percepcionavam. Paredes onde o vento e a erosão gravaram figuras míticas, providenciando-nos viagens pelo mundo onírico. O final da tarde, com as pernas debaixo da água da piscina, auxiliou à merecida recuperação. O dia seguinte prometia um percurso totalmente ascendente e era fundamental que os músculos das coxas, sobretudo os ísquio-tibiais em cujas fibras se mantinham as memórias das descidas, se restabelecessem.

Na manhã seguinte, partíamos à mesma hora da madrugada anterior. Seis horas a subir. Uma ou duas pausas que permitiram a passagem das mulas carregadas e montadas por alguns viajantes mal preparados ou mal calçados, como era o caso de uma das jovens do nosso grupo. A chegada ao topo foi digna de comemoração. Para pessoas amadoras como nós, o sentimento de missão cumprida era exultante. Abraços e fotografias para a posteridade - assim guardávamos os quase três dias de partilha num lugar de beleza incomparável e indizível.
 
Fotografia de Kevin Trew
















Janeiro, 2016
Porto, Portugal

Imagine...*


http://youtu.be/qeiqgkXHvqo.      Clique na ligação 

O primeiro dia do ano remete-me, invariavelmente, para novos recomeços. É com frequência que termino o ano realizando um balanço dos doze meses vividos. Questiono-me acerca do que fui, do que fiz e como, afinal, poderia ter sido e ter feito um pouco melhor, um pouco mais. Não apenas por mim, mas sobretudo pelos outros. De facto, o meu conceito de felicidade tem-se alterado nos últimos anos. Compreendo e sinto cada vez melhor a ideia de que ser feliz também é – e muito! – ser e fazer algo que provoque nos outros um sorriso e lhes conceda, nem que seja de forma ténue, a sensação de bem-estar.
Por conseguinte, quando um novo ano começa preparo-me para os meses seguintes – sem muitos planos; são apenas esboços quase sempre reformulados. E o dia 1 de Janeiro é profícuo para essa reflexão, particularmente pela comemoração que lhe está inerente: Dia Mundial da Paz!
É verdade que na crónica do ano passado aludi a esta celebração. Todavia, seja o leitor ou leitora condescendente para comigo: esta data é incontornável. Pelo menos para mim; atrevo-me a dizer que também para si, que está a ler o Chapinheiro.
Desta vez decidi por algo um pouco diferente. Talvez imbuída pela constatação da necessidade de despertarmos um pouco e, assim, ficarmos um pouco mais conscientes e atentos a todos os seres que nos rodeiam. Assim, resolvi partilhar a letra de uma canção que, para mim, é uma espécie de hino à Humanidade. Utopia ou não, sei que não sou a única a ter este sonho tão bem cantado por John Lennon.

Imagine
Imagine que não existe paraíso,
É fácil se tentar.
Nenhum inferno abaixo de nós,
Acima nós apenas o céu.
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o dia presente...
Imagine que não existe nenhum país,
Não é difícil de fazer.
Nada por que matar ou por que morrer,
E nenhuma religião também.
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz...

Pode dizer
Que sou um sonhador
Mas não sou o único
Tenho a esperança que um dia
Também se junte a nós.
E o mundo será como um só.
Imagine nenhuma propriedade,
Pergunto-me se consegue.
Nenhuma necessidade de ganância ou fome,
Uma fraternidade de homens.
Imagine todas as pessoas
Compartilhando o mundo todo.
Talvez diga que sou um sonhador,
Mas não sou o único.
Eu espero que algum dia se junte a nós,
E o mundo viverá como um só.

No final do mês, no dia 30, com o Dia Escolar da Não Violência e Paz temos outra oportunidade para reflectir sobre o assunto. Naturalmente, que é fundamental ultrapassar a reflexão e colocar em prática e agir em conformidade com esse sonho que, a meu ver, pode ser real.
A escola é um lugar, por excelência, para o efeito. A formação integral de todas as crianças pode e deve – é imperioso! – focar-se no desenvolvimento de consciências, educando e formando pessoas mais humanas e despertas e atentas. Uma escola que privilegie uma formação e educação de conteúdos e práticas em consonância com um mundo mais fraterno. Uma escola onde as crianças e jovens aprendam a ser e a estar amorosamente. Um espaço sem espaço para a violência; um lugar acima de tudo de partilha e tolerância. Uma escola onde sejam transmitidos e, sobretudo, vividos os valores e princípios que permitiam a experiência e vivência da pessoa humana na sua plenitude.
Será assim tão difícil?


PS: Se o leitor ou leitora me permite, deixo um abraço público à minha querida Avó Altina, que no dia 11 completa 95 anos de idade. 

*Este texto foi publicado no Jornal o Chapinheiro

Arequipa - Colca Canyon II



           
Há palavras que nos beijam. As de D. Mercedes, mãe do Marlon, o proprietário do hostal Marlons’ house em Arequipa, eram notas de música de uma sinfonia harmoniosa. Palavras de amor, palavras de esperança sopradas sem condições, tocando como quem abraça.
Fiquei uma semana em Arequipa, a segunda maior cidade do Peru. O objectivo era visitar o Colca Canyon. De entre as opções oferecidas pela Lily – a recepcionista simpática muito prestável de Marlons’ house – o trekking de três dias foi o que logo me cativou. Sobretudo pela extensão do percurso.
Os dias que antecederam essa caminhada foram a calcorrear as ruas, a contemplar a grandiosa basílica construída em silhar – uma verdadeira obra arte neo-renascentista com influência gótica – e os três portais da cidade. Outras vezes deixava-me estar por muito tempo sentada num dos raros bancos vagos da Praça de Armas. Este tipo de praça é a mais importante de cada cidade ou vila, sendo geralmente habitada por um dos heróis de guerra de libertação do domínio espanhol. Os bancos estavam quase todos quase sempre ocupados por locais ou turistas observando as crianças atrás dos pombos, depois de lhes atirarem o milho comprado a um dos muitos vendedores ambulantes da praça. Havia mais do que um fotógrafo atento, para quem quisesse guardar uma memória materializada de uma brincadeira, de um beijo ou um abraço.
Passei muitas horas no hostal do Marlon, assistindo às aulas de escrita por skype, desenvolvendo os respectivos trabalhos de casa e conversando com Jeff: um fotógrafo e guia americano que passava o dia em frente ao computador e a fumar cigarro atrás de cigarro. Escutar o Jeff era sinónimo de uma boa gargalhada. Percebi que organizava viagens personalizadas e de longa duração para uma ou duas pessoas – basicamente para gente com muito dinheiro.
Mesmo que em certos momentos duvidasse da veracidade das suas histórias, o seu modo de contar era delicioso, muito divertido e repleto de pormenores bizarros que temperavam as narrativas com perfeição. A sua presença quase contínua na sala de jantar da casa do Marlon – nunca o vi sair do alojamento – permitia-lhe, igualmente, observar os demais hóspedes, entre os quais um jovem de Toronto.
A voz rouca e o rosto enrugado de sessenta anos com muitas aventuras tornavam o seu discurso ainda mais eloquente. As minhas lágrimas não se contiveram quando Jeff descreveu detalhadamente o quotidiano do canadiano de vinte e um anos em Arequipa. Pouco saíra do quarto privado durante as já três semanas (!) que aí permanecia alojado. Só vi o rapaz duas vezes. Estava sentado à porta do seu quarto com um gorro andino enfiado na cabeça. Estava adoentado: informou-me Jeff. A sua mãe autorizou-o a viajar durante um ano pela América Latina. Sem experiência, o jovem não fazia a mínima ideia de como viajar. Aplicava-se bem a esta pessoa o ditado: “deus dá nozes a quem não tem dentes”.
As suas três semanas foram muito diversificadas, entre tomar o pequeno-almoço (incluído nos menos de seis euros por noite e muito bom por sinal: muita fruta, pão fresco com queijo, manteiga, fiambre ou doce, acompanhado de sumo de fruta natural e café, leite e/ou chá), jogar computador e sentar-se alguns minutos à porta do quarto, saía de vez em quando para comprar comida; pouco mais sabia como passar o tempo. Todavia, fez algo mais: tornou o seu quarto mais aconchegado: comprou mobília! Uma secretária e uma cadeira de rodas de assento recostável. Imaginávamos o rapaz a fazer corridas contra si próprio no quarto – ainda que pouco espaçoso – durante os intervalos dos jogos online e quem sabe a bater com a cabeça na parede por perder dinheiro na jogatana: o uso que consignámos ao gorro de lã pouco prático para as temperaturas cálidas de Arequipa.
O seu portátil de quinze polegadas não era suficiente para aprender a ler mapas: a sugestão que Jeff lhe dera, uma vez que teria a intenção de planear a viagem até à Patagónia. ‘A blind leading a blind’ – o mapa que o americano entre risos disse ter-lhe proposto.
A D. Mercedes foi outra pessoa que me encantou com a sua voz serena. Enquanto lavávamos roupa no terraço, a senhora descrevia-me Nazca. Com muita pena não tive tempo para aceitar e desfrutar do seu convite gentil. D. Mercedes era de lá e sei que serei recebida de braços abertos no dia em que regressar ao Peru para sobrevoar as linhas de Nazca. Por ora, vou resgatando as memórias em sorriso. Quem sabe um dia destes surja uma nova oportunidade para voltar e assim visitar Guilherme, o dono do restaurante vegetariano Mandala, onde fiz grande parte das refeições enquanto na cidade.


Dezembro, 2015
Matosinhos, Portugal



Em jeito de balanço - mais um ano começa

Fotografia de Carlos Luís Pedrosa


            É intencional, o título. Mais um ano começa, em vez de mais um ano que termina. Gosto de recomeços. Gosto de reinícios. Gosto da perspectiva de novas experiências. Ainda assim, para mim, é muito importante olhar para trás. Um olhar reflexivo. Sem nostalgia. Sem arrependimentos. Sem pesar. Um olhar em jeito de balanço. Passar em revista, como se sentada na plateia de uma sala de cinema, cada mês, cada lugar, cada pessoa, cada experiência, cada livro. Onde estive. Com quem estive. Como estive. O que experimentei de novo. O que repeti.
            Questionar-me acerca de cada minuto que se incrustou no meu ser. Questões que me auxiliam a construir aquela que para mim mais importa: o que aprendi? Com a resposta a esta pergunta, fico mais capaz de compreender se, com efeito, cresci como pessoa, se já não repito padrões de comportamento inadequados e se me libertei daquilo que deixou de ser relevante (refiro-me a coisas, a lugares, atitudes e até a pessoas - mesmo que o último elemento soe inconveniente).
            Também olho para a lista efectuada no início do ano que finda (que tende a ser cada vez mais curta) e verifico se a cumpri, como a cumpri, que consequências no meu modo de ser e de estar. O que não foi possível realizar e porquê. Apesar da lista ser cada vez mais curta a cada ano que passa, não alcancei dois dos pontos. Ainda não tive oportunidade de voar em queda livre, assim como ainda não conheci um dos escritores que mais aprecio - estou a ler mais um livro da sua autoria, mas creio que isso não conta. Tudo o resto concretizou-se. Li muito, escrevi alguma coisa - bem sei que poderia ter escrito muitíssimo mais -, conheci pessoas maravilhosas, estive em lugares únicos, trabalhei com e sem remuneração e em muitos momentos senti-me em paz: fui feliz.
            Esta é uma das aprendizagens do ano: o conceito que detinha de felicidade alterou-se imensamente. Se até ao ano passado ser feliz era, sobretudo, ser livre e independente em todas as dimensões da vida, hoje, essa liberdade amplia-se ao mesmo tempo que se acalma. Ou seja, a liberdade - que para mim significa estar e ser como considero adequado, aceitando com responsabilidade as consequências das minhas escolhas - é, sem dúvida alguma, fundamental para me sentir em paz.
            Estar em paz e sentir-me serena ultrapassa, porém, a necessidade de ser livre. Tenho tido o privilégio de conhecer muitas pessoas fascinantes, de ler livros que me provocam indagações, de vivenciar montanhas, praias, desertos, e até tubarões no outro lado do mundo. Sinto-me, sou e estou profundamente grata por tudo o que me  tem sido concedido viver.
            Compreendo, hoje, que a minha felicidade está directamente associada à equanimidade: aceitar com tranquilidade tudo o que a vida me oferece, sabendo que tudo passa, tal como na natureza. Desfrutando de tudo o que é bom sem criar apego. Viver os momentos que me pareçam mais difíceis sem aversão, atentando de forma consciente às possíveis ilações a retirar para, desse modo, crescer... aprendendo.
            Quando me observo e olho em redor, percebo o quão agraciada, privilegiada, afortunada sou. E essa sensação despoleta em mim, a cada momento, uma crescente confiança na vida. A confiança de que tudo está e estará bem providencia-me cada vez mais paz, tranquilidade.
            Ser e estar em paz, confiante e segura em relação à abundância da/na vida: sei e sinto que tudo o que necessito me é concedido no momento e no espaço certos. Para isso, basta que:
-       me esforce ao máximo em tudo o que faço e sou
-       esteja atenta aos sinais para assim estar receptiva a todas as formas de abundância
-       seja e esteja consciente - a cada dia esses instantes vão aumentando
-       confie que sendo e fazendo o melhor que sei e posso, não há mais nada a fazer
-       seja fluindo e desfrutando cada momento, cada lugar, cada pessoa
-       aceite o desconforto e os momentos menos bons ou até mesmo muito difíceis com o discernimento suficiente para me questionar: o que tenho eu a aprender com esta situação, com esta pessoa?
            E assim é!
            Neste final de Dezembro sinto ainda necessidade de agradecer todas as circunstâncias em que me encontro; sobretudo às pessoas que se deram a mim, que partilharam comigo as suas horas, os seus dias, as suas coisas. Também sinto uma necessidade incomensurável de agradecer ao C.L. por entrar na minha vida e de me incluir de forma tão fácil e amorosa na sua. Hoje, compreendo um pouco melhor o que é o amor incondicional. E, por isso, estou tão cheia, tão feliz. Por isso, também, necessito de partilhar o que em mim não cabe. É possível o AMOR. Basta que se abra o coração e se deseje dar e receber o que de melhor há em cada um nós.

28 de Dezembro, 2015
Carrazeda de Ansiães