Cor de canela


Foto de Todd Breese

Em Novembro passado, a minha pele apresentava o tom do deserto. Cristina elogiava o meu bronzeado “cor de canela”. Uma chilena que, como eu, passava uns dias em San Pedro de Atacama. Aí fui desde La Paz, onde Todd – um australiano que também fez a Estrada da Morte – acirrou o desejo de tocar, cheirar e contemplar o deserto de Atacama. “Se queres ter um vislumbre desse lugar inigualável tens de ir a San Pedro de Atacama”. Eu tinha apenas a intenção de ir a Arica e regressar ao Peru. Mostrou-me as suas fotografias: não hesitei – marquei duas noites no hostel Pachamama.
No seu ‘Livro’, J. Luís Peixoto afirma que “um pouco de vida se gasta em cada sentimento”. Todavia, o que senti naquela cidade desértica foi bem distinto. A experiência telúrica que vivi desde os primeiros instantes gerou um sentimento de tal modo intenso, que me atrevo a afirmar que foi das poucas vezes que me senti realmente viva: a VIVER.
‘Planeara’ ficar apenas duas noites na cidade do deserto – fiquei um semana! –, por isso, logo no dia em que cheguei fui ao Vale da Lua com um guia: o Orlando. As suas feições de índio espelhavam as suas raízes incas. Amante da sua herança cultural, o jovem de olhos escuros e brilhantes deixou escapar uma certa amargura ao referir-se à presença dos espanhóis, em especial do Padre Gustavo Peige. As ruas baptizadas com o nome do missionário explorador, assim como do museu da cidade eram, para Orlando, uma afronta face às consequências da invasão espanhola. Talvez fosse esse um dos motores da paixão com que vivia a sua missão. Estudava e procurava saber o  mais possível sobre a geografia do deserto: era seu desejo que aqueles que contratavam os seus serviços tivessem pelo menos uma ideia da origem da beleza que o deserto de Atacama exibia de forma escandalosa. Fazem-me sentido as palavras de Kenneth White em “A estrada azul”; o viajante afirmava precisar sair da história para entrar na geografia.
        Caminhar por entre as formações rochosas do Vale da Lua era como sentir a ausência de gravidade do satélite da Terra. Aliás, Orlando era da opinião que tinha sido ali que Armstrong teria aterrado em 1969. O ar seco e quente aquecia o meu coração, ao mesmo tempo que as mãos roçavam nas rochas cristalizadas de sal e em cada passo consciente pelos corredores labirínticos das paredes que o tempo sedimentou.
Nesse fim de tarde que terminou contemplando o pôr-do-sol no Vale da Morte confirmava, pelos sentidos mais abertos que nunca, o quão infinitamente vasta é a Natureza e o quão pequena sou. Um grão de areia na imensidão do deserto. Arrebatada, aspirava integrar a totalidade no planalto de onde avistávamos os vulcões transformarem-se em sombras, à medida que os raios de sol se tornavam cada vez mais rasos até desaparecerem na linha do horizonte.
Sentada no topo de uma escarpa, as recordações de outros desertos assomavam. Como as dunas de Merzouga do Sahara (onde estive em Agosto de 2009 com o Z.), cuja suavidade dourada e macia contrastava com os rochedos pontiagudos de Atacama. Nos dois desertos o silêncio era a sensorialização mais forte. O azul turquesa do céu rasgado pelo rosa choque dos flamingos: outro elemento que me adentrou. O mesmo senti no deserto de Guajira, em Junho deste ano.
O espaço sem limites e o efeito da inclinação do sol, sobre as inúmeras tonalidades das formações rochosas do Vale do Arco-Íris, ao segundo dia em San Pedro de Atacama, fizeram-me duvidar da minha convicção em ser ateia. Verde, cor de ferrugem e mesmo azul, as cores que se gravavam nas minhas retinas... para sempre.
Ao terceiro dia em Atacama integrava um grupo para ir ao famigerado Salar de Tara. Foi de joelhos a tremer que desci da carrinha que nos transportou ao lugar da solidão, ao lugar sagrado do silêncio. As falésias e as escarpas desenhadas pelos ventos despertavam-me do que me parecia ser um sonho. A brisa seca e morna tocava o meu rosto como uma mão apaziguadora.
Sob os raios de sol mais luminosos que nunca, o meu olhar não sabia onde poisar: se no verde resplandecente da vegetação rasteira do oásis, se no rosa das asas dos flamingos, se nas águas brilhantes onde as aves se deleitavam, se no azul ofuscante que transformava um instante numa vida inteira: “Já posso morrer” – a minha voz interior que compreendia a perfeição da Natureza divina.
Foto de Todd Breese

As pernas oscilavam, o coração batia numa arritmia assustadora, os olhos alagavam-se tentando conter um pranto de regozijo extemporâneo (?). Sem que me apercebesse do movimento a concretizar-se, observei-me então ajoelhada perante a beleza quase dolorosa, de tão intensa, do Salar de Tara.
Reverência e rendição. Como não? Os meus sentidos captavam uma paisagem surrealista, cuja espessura da atmosfera me era insuportável reter. Não cabia em mim o êxtase que invadia o meu ser.
Nesse dia assombroso emergia a gratidão mais profunda de viver. Crescia a confiança na existência, pela confirmação ratificada por cada segundo, por cada inspiração. Senti-me invadida pelo estranho sentimento de perdão. Ah... a vida inteira num instante incomparável. A convicção de estar no lugar certo, à hora certa: nada a mudar, apenas e tanto a desfrutar... com gratidão por SER!


Novembro, 2015
Matosinhos, Portugal

San Cristobal de las Casas




            Na mesma manhã de Agosto que cheguei ao albergue 13 Cielos em San Cristobal de las Casas, México, reencontrei Juanjo. Conheci o jovem adulto de Barcelona dias antes em Oaxaca. Viajava há sete meses. Começou na Argentina; terminaria o seu périplo daí a duas semanas em Cancun, de onde tinha o voo de regresso a casa. Recebera um telefonema do pai dias antes: “já tens o bilhete de volta!” Foi um soco no estômago, disse entredentes, ao mesmo tempo que se ria de si próprio. O seu humor pareceu-me genuíno; de quem sabe rir de si mesmo e de quem está confortável em ser como é. O seu desconforto devia-se à incerteza do futuro em Barcelona. Apenas sabia que começaria uma pós-graduação em Janeiro próximo. Juanjo gosta de viajar; nunca sabe como será o dia seguinte. Todos os dias são diferentes. “Hoje estamos a caminho de San Juan Chamula, amanhã quem sabe”.
            Antes de apanharmos o colectivo para essa vila, sobejamente conhecida e recomendada em todos os livros e sítios virtuais de viagem, detivemo-nos na catedral de San Cristobal. Não posso dizer muito dessa catedral. Entrei em tantas ao longo de mais de cinco meses, que essa era mais uma. Na verdade, são poucas as que tiveram o poder de se armazenar na minha memória. Dessa, em San Cristobal de las Casas, recordo a fachada cor de tijolo e o exterior. De um lado, a praça Zocalo e, do outro, um largo muito amplo, onde quase sempre havia muita gente. Sobretudo indígenas – muitos Maias nessa região do México – a vender o seu artesanato e outros bens menos tradicionais. De facto, uma das imagens que mais me marcou no andador (rua pedonal) principal da cidade foi a quantidade de crianças (muito novinhas desde os três anos, talvez) a venderem pastilhas elásticas, rebuçados, chupa-chupas e tabaco. A minha tristeza era resultado apenas da minha perspectiva? Aquelas crianças contribuíam para o parco sustento de uma família numerosa – o argumento de Juanjo. Brincar e estudar são verbos que não vi praticar.     
            É na região de Chiapas que está sediado o movimento Zapatista, sendo esse departamento do México onde mais se luta pela integração dos indígenas e pelos seus direitos. Inclusivamente, existe um albergue para voluntários que queiram contribuir para o desenvolvimento dessas comunidades locais. Alberto, o madrileno que conheci juntamente com Juanjo, aí se hospedou durante dois meses. Professor de Ciências Naturais numa escola secundária em Madrid, aproveitou as suas férias para fazer voluntariado em Chiapas, no México.
            Conheci os dois espanhóis em Oaxaca, cidade onde fiz uma excursão com o objectivo de ir às ruínas de Mitla – uma localidade de origem Zapoteca. Reconheci o sotaque de Espanha nos dois rapazes – o pretexto para entabular conversa. Esse dia em Oaxaca foi muito bem passado. Além dos dois rapazes, o grupo que se formou era constituído por Mónica, instrutora de yoga de Monterrey; estava de férias no sul.
Nessa excursão pelos arredores de Oaxaca, a primeira paragem foi em Santa Maria del Tule, a fim de contemplar a Árbol del Tule: uma árvore com mais de dois mil anos, com um tronco de 58 metros de circunferência. A maior que alguma vez vi. Aquela que recordava como tendo o tronco mais largo era de Palermo, quando estive de férias na Sicília em 2002, com as minhas queridas amigas S. e M.A. Ao contrário do que aconteceu em Palermo, não havia gente a tentar abraçar a árvore. Estava protegida das mãos humanas por uma cerca. Tentava adivinhar as figuras que o tronco desenhava com o seu relevo. Caras de homens, deuses, corpos de mulheres...

Em  Mitla, o tempo que passámos na vila em ruínas não foi muito. A chuva não estava para grandes explorações. Quando a chuva amainou já estávamos no mercado que apoia as ruínas zapotecas. Paragem obrigatória para degustar uma michelada. Preferi observar, limitando-me a bebericar para provar o que adivinhava ser demasiado estranho para mim. Michelada é uma mistura de sumo de limão, gelo, molhos (bem) picantes e (muita) cerveja. O copo é polvilhado por várias especiarias bem ‘chilli’. Digamos que não é bem o meu estilo.
As degustações não se ficaram por aqui. A excursão incluía a visita a uma  fábrica de Mezcal – aí sim, bebi vários cálices dessa bebida típica. Tantos quantos os sabores. Não os contabilizei. O grupo ficava mais animado e a empatia crescia. A proximidade futura com os espanhóis era promissora. Com Juanjo o reencontro foi quase imediato. No dia seguinte ele apanharia o autocarro para San Cristobal – o mesmo que eu planeara para dois dias depois. Combinámos reservar camas no mesmo albergue.

Quando chegámos a Hierve el Agua – as cascatas que davam nome à excursão – já éramos todos amigos na rede social mais conhecida. Ao descer as escadas de acesso às pequenas lagoas que transbordavam as suas águas para a escarpa, a emoção invadia-me e as lágrimas quase saltavam. A tonalidade dos diferentes verdes nas cascatas petrificadas fez-me duvidar da sua autenticidade. Além da sua beleza inefável, a paisagem que se avistava desse pequeno planalto enchia os olhos de qualquer um. Confirmava novamente o quão agraciada sou. Caminhámos pelo lugar contemplando as escarpas de branco macio, com o seu relevo ondeado, revelando milénios de águas reinventadas. As fotografias de grupo eram obrigatórias e uma forma de mantermos contacto.

Dois dias depois, eu e Juanjo deambulávamos lentamente pelo andador de San Cristobal – tão lentamente como o ‘slow cafe’ Carajillo que desfrutámos como deve ser. Observando modos ‘tradicionais’ de confeccionar o bom café mexicano, esperando pacientemente que ficasse pronto, para então degustar com prazer e tranquilamente o sabor único que enchia a boca e que devagar, muito devagar descia. Em cada gole, uma palavra de êxtase e a agradecer a sugestão de Alberto que tão bem conhecia aquelas paragens. Foi também ele que sugeriu a visita imperdível a San Juan Chamula.
Para apanhar o colectivo era preciso atravessar o mercado de San Cristobal, onde fui posteriormente quase todos os dias para comprar fruta e vegetais frescos. Foi necessário esperar alguns minutos para que a carrinha de nove lugares ficasse mais composta. À chegada à vila, um grande outdoor: “Bienvenidos a San Juan Chamula” patrocinado pela Coca-cola. Não valorizei a marca do refrigerante.
O colectivo deixou-nos numa estrada perto da praça das duas igrejas – deu-me a impressão que a vila quase se reduz à envolvência dessa praça. Interessava-nos a Igreja católica, porém, antes de entrar era necessário obter o ‘permiso para visitar’ no departamento de Turismo Municipal. Pagámos vinte pesos pela autorização, na qual se lia uma grande advertência: ‘Se prohíbe tomar fotos dentro de la iglesia, en las procesiones de santos y con las autoridades tradicinales y religiosos (...). La persona que infrinja esta disposición será sancionada”. Ignoro o tipo de sanção, mas Juanjo escutou histórias de pessoas a quem tiraram os telemóveis espertos e máquinas fotográficas. Não valia a pena arriscar; havia que confiar na memória apreciando cada instante de forma total.
A manhã era soalheira, como quase todas em San Cristobal de las Casas, onde a chuva me visitava quase todas as tardes.  Sob o céu azul, a temperatura era muito agradável – cerca de vinte e cinco graus. O que não demovia os locais de envergarem os trajes para as cerimónias e rituais religiosos da manhã. Os homens vestidos de casacos de lã de ovelha branca e as mulheres com saias de lã de ovelha negra. Um pormenor que fui reparando enquanto na América Central: a quantidade de roupa que as mulheres indígenas vestiam, independentemente da temperatura.
Na igreja católica o calor era ainda mais vívido, exponenciado pelas milhares de velas acesas e pela quantidade imensa de incenso a arder. Também os meus olhos ardiam, mas devido à cortina de fumo. Ao mesmo tempo, sentia uma náusea fremente e em crescendo com a visão de galinhas vivas prontas para serem sacrificadas em plena igreja. Eram as mulheres que as seguravam, enquanto sentadas no chão, aguardando ferverosamente a sua vez de colocar em prática o ritual em prol de alguma criança recentemente nascida, ou recentemente perdida. Os homens, esses, bebiam das garrafas que acompanhavam as velas em frente ao altar, onde jazia a figura de um jesus na cruz. As garrafas de coca-cola lembraram-me o cartaz de boas-vindas. Além dessas, também garrafas de sprite e fanta. Um diferente tipo de arroto de acordo com a intenção do ritual. Não faltava aguardente e, claro, muitos cânticos em torno dos diferentes santos.
Apesar de ser uma igreja católica, as imagens que a habitavam diferiam na forma e indumentária daquelas que são habituais nas igrejas portuguesas, por exemplo. Mais santos negros e menos ornamentos. Apenas pequenos altares encostados às paredes e um no centro da igreja rodeado por grelhas onde ardiam muitas e muitas velas de todos os tamanhos. O chão rústico era uma camada de  caruma nos espaços vagos de velas e garrafas de refrigerantes. Também na entrada da igreja existia um grande tapete de caruma.

Não fiquei para ver o sacrifício das galinhas. A coabitação desses rituais com a religião católica suscitou-me cogitações. A devoção era visível nas pessoas que ali oravam pelos entes queridos, sem se deixarem afectar pela quantidade de curiosos que ali se tinham deslocado para observar uma cerimónia, que a mim me fez pensar sobre a mescla entre práticas mais ou menos pagãs e práticas mais ou menos católicas, sobre a influência da cultura espanhola na cultura mexicana – para usar um termo suave relativamente à chegada dos europeus ao grande continente americano.



Novembro, 2015
Matosinhos, Portugal

O outro*








O outro. Alguém para além de nós. Alguém que se cruza no nosso caminho todos os dias. E que por isso não nos é indiferente.
O outro. Alguém distante, com frequência apenas um número, integrando mais uma estatística.
O outro. Alguém tão próximo que tem o poder de nos afectar com mais ou menos intensidade.
O outro. Quase sempre alguém que, sendo exterior a nós, reflecte parte do que somos, ou do que gostaríamos de vir a ser, ou que tememos vir a ser, ou que de modo algum queremos vir a ser.
Não é raro que o outro seja alguém a quem colocamos uma etiqueta para que seja mais fácil encaixar numa categoria criada. Seja pela educação, seja pela influência social, seja por experiências vividas anteriormente.
O outro. Alguém que categorizamos, nem sempre fazendo a pequena ideia de quem é a pessoa à nossa frente, mas que de uma ou outra maneira nos incomoda. E por isso criticamos, rejeitamos, excluímos, e até enxovalhamos. No limite, maltratamos – sempre com gravidade.
A pessoa com deficiência foi (e ainda é em muitos casos) o outro que sofre(u) a exclusão da vida social por ser diferente, por não se encaixar  naquilo que consideramos ser normal. Aqueles que teoricamente não têm qualquer deficiência (pelo menos visível) são consideradas pessoas normais. As pessoas que se distinguem por uma qualquer incapacidade foram durante muito tempo qualificadas como anormais – para usar um dos termos mais ‘suaves’. A ‘evolução’ conceptual transformou-as em deficientes, mais tarde em portadoras de deficiência (como se se pudesse portar uma amputação, por exemplo), actualmente pessoas com deficiência. Confio que num futuro próximo sejam apenas e tanto Pessoas.
É de salientar, porém, que o termo ‘pessoa com deficiência’ de entre as palavras e expressões ainda em uso é, a meu ver, um mal (não muito) menor. Ao substituir a palavra ‘deficiente’ pela expressão ‘pessoa com deficiência’ retiramos o peso de uma etiqueta, cujo poder é o de catalogar uma pessoa pela sua diferença. Como se a pessoa fosse apenas essa diferença. Deficiente mental, deficiente disto ou daquilo. E o resto? Essa classificação retira a possibilidade de se olhar para a pessoa para além dessa (eventual) incapacidade. Ao passo que quando se utiliza a expressão ‘pessoa com deficiência’, em primeiro lugar está a pessoa e só depois a deficiência que a ‘caracteriza’, ou que a torna distinta.
        Essa característica poderá então implicar cuidados especiais, sugerir necessidades educativas especiais, para usar os termos institucionalizados. Também é disso que se trata, essa institucionalização tem por objectivo criar condições para que as pessoas tenham acesso aos diversos sistemas, nomeadamente o de saúde e o educativo, entre outros.
          No entanto, é minha expectativa – mesmo que pareça uma utopia – que num futuro não longínquo toda essa carga de estereotipia se dissipe. Tenho a expectativa que, mais cedo que mais tarde, seja possível criar as condições para que os seres humanos se olhem entre si e tenham capacidade para ver além das diferenças. Neste caso as que impliquem cuidados de saúde distintos. Quando isso acontecer, ficará óbvio aquilo que sempre fomos: todos seres humanos. E a grande categoria ‘seres humanos’ é, como quase as espécies dos restantes reinos, muito diversa. O espectro de possibilidades é tão vasto que as estatísticas que constroem os padrões de normalidade, excluindo com maior ou menor desvio, tornar-se-ão desprezíveis. Pelo menos no que concerne àquilo que mais importa: as pessoas com toda a sua plenitude. Somos todos pessoas e todos somos semelhantes com as diferenças que nos tornam pessoas únicas.
            Deficiência é uma palavra poderosa. Sem dúvida é de poder que se trata. Quem tem ou teve o poder para classificar alguém com deficiência? A não ser que seja com o objectivo de salvaguardar os tais cuidados ‘especiais’ será eventualmente aceitável. Considero, no entanto, que essa categorização não tem de estar necessariamente associada à palavra ‘deficiência’ e muito menos ‘deficiente’. No limite, todos iremos necessitar em algum momento da vida de cuidados especiais. De facto, algumas diferenças são mais visíveis porque aqueles que têm poder para planificar, por exemplo as estruturas físicas, se esquecem das futuras dificuldades a que estarão sujeitos. Basta dar um exemplo muito simples. Se os arquitectos e engenheiros se projectassem com oitenta anos de idade, lembrar-se-iam de planear edifícios mais ‘amigos’ de todas pessoas, independentemente das suas ‘características’ – prefiro este termo. As portas seriam seguramente mais leves, as informações seriam mais legíveis e em diversos formatos, etc., etc... Já para nem mencionar o exemplo recorrente de passeios indevidamente ocupados por carros muito mal estacionados.
É utopia? Creio que não. Até porque o momento que se vive actualmente representa muito bem a incapacidade que temos de olhar o outro de forma compassiva. As diferenças nas crenças religiosas e posições políticas são porta-estandarte que se utilizam para justificar o injustificável: a morte de milhares de pessoas.
Parece que acontece só aos outros. Àqueles cuja distância justifica (???) a nossa indiferença. Será preciso que o outro nos seja muito próximo para então tomarmos uma atitude? Não pelo ódio, mas pelo amor. Afinal, o amor é das poucas palavras que – quando sentida – ainda tem o poder de nos unir e de nos mostrar que somos todos seres humanos, quaisquer que sejam as nossas características.
Os acontecimentos recentes e ainda a decorrer sugerem que se repense na importância que tem a Declaração dos Direitos humanos. No dia 10 de Dezembro celebra-se essa declaração. A sua proximidade é uma oportunidade para ultrapassar o papel. Para colocar em prática o gesto compassivo e não o gesto bélico. Os conflitos, quaisquer que sejam, não se resolvem com toda a certeza com mais conflitos, com o uso da força e das armas. O outro é afinal outro ser humano, como nós!
 Os dias 3 e 9 de Dezembro, dedicados às pessoas com deficiência, juntamente com o dia 20, lembram a importância da solidariedade. São datas que nos podem tocar e ajudar a reflectir sobre o ‘outro’ que também mora em nós.



*este texto foi publicado no jornal o Chapinheiro

O meu professor de Anatomia


Morreu! Morreu ontem, a 11 de Novembro de 2015. Um ataque cardíaco – assim se lia na notícia de um dos jornais. Plural, pois era uma figura pública. Mais do que isso, era uma pessoa emblemática no seio da cultura portuguesa. Não sendo artista, era um acérrimo promotor da dinâmica cultural, em particular da cidade do Porto. Dois anos como vereador da cultura fizeram toda a diferença na cidade, rejuvenescendo-a de uma forma geral e dando nova vida a espaços moribundos, como é o caso do Teatro Rivoli – local escolhido para ficar em câmara-ardente.
Soube da sua morte através do email de uma amiga. Acabava de chegar a casa após a corrida matinal e a boa-disposição que me preenchia foi repentinamente apagada e transformada em lágrimas de tristeza, choque e até de raiva. Percebia que a raiva crescia visceralmente pelos pensamentos que me atravessavam em relação ao sentido (ou sua ausência) da vida.
De um momento para o outro tudo acaba! E o Paulo Cunha e Silva lembrava-me mais uma vez a precariedade da vida e como esta é tão volátil. Estava em choque. Um homem excepcional com tanto para ser e para fazer, partira sem contar, sem que terminasse o seu propósito: o de dinamizar e reavivar a dimensão cultural da cidade do Porto.
A sua morte, como outras que senti, provocou-me. De imediato o questionamento quanto à minha vida presente. Estarei eu a viver a vida que quero? Se eu morresse amanhã teria feito tudo o que queria? Teria sido na totalidade quem queria ser? Estaria em paz com o passado? Morreria tranquila? E o Paulo Cunha e Silva? Teria ele vivido a sua vida na plenitude? Do que me foi permitido saber e observar de fora, a sensação que tenho é que o professor terá morrido tranquilo, que terá vivido do modo que considerava ser o melhor.
Ao contrário de outros colegas da faculdade, saiu sempre que foi ‘chamado’ para cumprir outras missões. Quando comecei a trabalhar na faculdade, ele estava ausente: era o comissário da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura. Penso que terá sido essa a função que o terá impedido de estar presente nas minhas provas de doutoramento. O professor Paulo Cunha e Silva era um dos elementos do júri. O que muito me honrava.
Se eu o admirava, nem todos na faculdade o admitiam. Talvez pela sua extraordinária inteligência e pela sua ‘desfaçatez’ em sair e voltar quando bem entendia. Não dignificava o lugar que lhe estava reservado na faculdade – assim o entendiam as vozes da crítica. Ao ponto de ocorrerem sérias discussões aquando da abertura de vagas para professor associado. A resistência a que ele acedesse a essa posição era visivelmente forte.
O seu gabinete era vizinho do meu. Os seus horários, porém, não me permitiam ter muitas vezes o prazer da sua eloquência – quando se encontrava ao serviço. Eu matutina, ele noctívago, chegando quase sempre depois das cinco da tarde, à excepção dos dias em que dava aulas. Aulas a que fiz questão de assistir no primeiro ano em que leccionou a disciplina de Introdução ao Pensamento Contemporâneo. Aulas que tive o privilégio de substituir quando voltou a ser chamado para representar a cultura portuguesa fora do país.
A última vez que estive com ele foi em Julho de 2012. Lembro-me bem, pois estava um Domingo maravilhoso de praia. Fui a Matosinhos e pela primeira vez em muito tempo tomei banho numa praia do norte. Nessa tarde a água estava fantástica, quase tépida. Ao sair da praia encontrámo-nos. Contei-lhe que entraria em licença sem vencimento muito em breve. Compreendia bem as minhas razões. Aproveitou para confidenciar que tinha um convite para sair novamente de Portugal, por conseguinte, da faculdade. Estava reticente, todavia. O projecto era em Angola, mas a sua mãe avançava na idade e ele receava a distância, assim como não queria estar ausente no que lhe pareciam ser os últimos anos de vida da sua mãe.
Esse encontro também me marcou por uma estranha coincidência. Nessa noite terminei o livro ‘Cadernos de Lanzarote - I’, de José Saramago. O autor acaba o livro com uma referência muito elogiosa a Paulo Cunha e Silva! Apaguei a luz com um nó na garganta. No dia seguinte enviei uma mensagem ao professor a dar-lhe conta do sucedido e a corroborar plenamente com o elogio que lera. A sua resposta tocou-me, sobretudo por também ele ter reconhecido (sem que eu o mencionasse) a coincidência e o facto de também ele considerar que as coincidências não existem. Tudo tem uma razão de ser. Foi a última vez que o vi pessoalmente, até porque entretanto abandonei o trabalho na faculdade. Posteriormente, as notícias começaram a ser muitas pela sua actividade incansável e arrojada como vereador da cultura. Saíra novamente da faculdade.
A minha admiração pelo professor começou quando eu tinha dezassete anos. Ele era um dos professores de anatomia, no meu primeiro ano como estudante universitária. Contudo, eu integrava uma turma que não tinha esse privilégio. Sabendo da qualidade das suas aulas, através dos meus colegas que continuamente o exaltavam, sempre que podia assistia às suas aulas. Numa dessas aulas práticas, num dos laboratórios de Biomédicas – à época a nossa faculdade era a maior do país e pelos piores motivos: era necessário ir de autocarro de uma sala para outra; tínhamos aulas em inúmeras instalações (CDUP da Boa-Hora, CDUP da Arrábida, Reitoria, ‘Barracão’, ICBAS e ainda almoçávamos na cantina de Farmácia) –, o tema era o sistema músculo-esquelético. Havia uma mesa com partes de um corpo-cadáver, onde era possível visualizar os músculos, neste caso os dos membros inferiores. A risota surgiu a meio da aula quando me dei conta que tinha a caneta na boca – a caneta que tocara e mexera vivamente na perna exposta. Argh!!! Ainda hoje sou motivo de chacota pela minha distração.
Voltaria a encontrar Paulo Cunha e Silva anos mais tarde como professor no primeiro ano de mestrado. Ele era responsável pela disciplina que mais me interessava. As suas aulas encantavam-me. O modo como expunha e questionava os assuntos estimulava-me a querer saber e a estudar mais. Em particular sobre a temática do corpo – também o tema da sua tese de doutoramento (da qual tenho um exemplar assinado). Quando chegou a altura de decidir a problemática da minha dissertação e respectivo orientador, era com ele que desejava avançar. Nessa época, porém (e talvez sempre, na realidade), as minhas angústias e questionamentos sobre o sentido das coisas e da vida assaltavam-me amiúde. Pressentia que com ele e com as leituras que me sugeriria e consequentes discussões, eu poderia crescer muito intelectualmente e/ou ficar ainda mais desassossegada. Temia, confesso, afundar-me. O medo ainda me assistia. Por isso hesitei. E escolhi outra via.
Creio que a minha vida teria tido um rumo totalmente distinto. Os ‘se’ não valem absolutamente nada, é sabido. De qualquer modo, a sua inteligência, que para mim estava num patamar tão elevado, assustava-me. Receava não ter capacidade para acompanhar o seu pensamento. Por via da minha (não) decisão, outras oportunidades surgiram e entrei na faculdade como assistente. Tive, pois, o prazer de o ter como colega. Um dos poucos que eu admirava sob o ponto de vista intelectual. Os seus problemas a nível académico eram-me caros; talvez por me identificar e viver alguns de certa forma semelhantes.
Éramos colegas e quase amigos. Se é que existe esse tipo de amizade. Mas como sempre fui reticente em desenvolver a amizade no contexto do trabalho... Ainda assim, era com certeza uma das poucas pessoas com quem tinha real interesse em conversar. A sua generosidade intelectual acirrava o meu espírito.
As lágrimas que ontem correram pelo meu rosto eram fruto dessa afinidade e do profundo apreço que nutria pelo professor. Eram também de raiva por uma morte não anunciada. Mas a vida não se prepara, não se prevê. Por isso, como ele, quero viver do modo que sinto que tenho que viver. Sem medo. E essa é também uma das razões por que tinha uma sentida admiração pela pessoa do Professor Paulo Cunha e Silva.
Quem sabe a sua partida para outra dimensão estimule, os que ficaram, a continuarem o seu projecto. Quem sabe o seu propósito estivesse afinal cumprido...

12 de Novembro de 2015
Matosinhos, Portugal

Mochilando - Parte I





            No final de Janeiro de 2013 saía de viagem em direcção a Melbourne, Austrália. A intenção era viajar por três meses nesse país imenso para encontrar uma alternativa à vida académica. Ainda estava vinculada ao emprego e procurava uma possibilidade viável de trabalho. Na noite anterior, a minha amiga E. ajudou-me a seleccionar a roupa e os haveres para essa jornada. Foi um exercício interessante. O que levar numa mochila para três meses? Era a primeira vez que viajava de mochila, como backpacker, ‘mochileira’ em português do Brasil.
Dezasseis quilos de roupa e pouco mais. Sendo Janeiro, iria aterrar na estação veraneante. A roupa a levar seria mais leve, como tal a quantidade possível era significativa. Além da roupa, algum calçado: chinelos, sandálias todo o terreno (que se perderam às três semanas num passeio à beira-mar), sandálias do tipo casual (como quase tudo), sapatilhas para correr (claro!) e outras para caminhar. Nos pés, as botas de montanha; sendo mais pesadas e ocupando mais espaço, pareceu-me ser a melhor estratégia. Naturalmente que levei alguma roupa interior, uma bolsa com adereços – à época ainda considerava muito importantes –, uma bolsa com os produtos de higiene e alguma maquilhagem. Ainda nessa mochila um canivete (para sobreviver aos corredores de controlo aéreo; esqueci-o no banco onde me sentara a comer uma laranja enquanto contemplava o rio Yarra, ainda em Melbourne), uma toalha, um livro e um caderno. Apesar de ser clima temperado, era aconselhável um ou outro agasalho. Havia espaço para um saco-cama de Verão – que se revelou imprescindível em algumas noites, como as passadas em aeroportos.
Esta mochila foi complementada com outra mais pequena, do género das que se usam para a escola, por exemplo, ou para um dia de treino. Nesta, também azul, os acessórios tecnológicos e respectivos carregadores. Para mim, o termo acessório é redutor. O ipad tornou-se no principal meio de comunicação com aqueles que ficaram em Portugal, sendo igualmente o instrumento de planeamento e organização da viagem que se ia desenrolando... um dia de cada vez (parti apenas com quatro noites marcadas). Nesta mochila, um dos dois livros. Ambos ficaram na Austrália.
Ao fim de duas semanas, percebia que o questionamento que precedera a viagem era uma dúvida mais do que esclarecida: a mochila estava muito carregada. À medida que o tempo ia passando, ia-me libertando de objectos. Como em Kuala Lumpur, no início do segundo mês dessa viagem, para onde voei desde Gold Coast. Não só não tinha um visto que me permitisse tentar uma alternativa remunerada, como a chuva não me largava desde Sidney, mais de duas semanas antes. Assumi o visto de turista e parti rumo ao Sudoeste Asiático.
Naquela cidade, que me impressionou deveras pelo centro financeiro com edifícios tão altos como sofisticados, fiquei alojada num hotel de três estrelas – o panorama para a minha carteira alterou-se desde o primeiro instante que pisei o solo da Malásia. Daí iria no comboio nocturno para Banguecoque. A recepcionista do hotel foi extremamente prestável. Aliás, como todos os funcionários que até quiseram tirar fotografias comigo. Apesar de ter feito o checkout de manhã, a moça permitiu-me usar um dos quartos para tomar um duche e mudar de roupa ao fim do dia. Obrigatório!, depois de um dia de passeio debaixo de uma temperatura para mim fantástica (acima dos trinta graus). O modo que encontrei para agradecer a sua simpatia foi oferecer-lhe uma das muitas pulseiras e que estavam quase sempre na bolsa. Tinha sido presente de uma amiga, mas além de me aliviar do seu peso, o sorriso que recebi mostrou-me que a minha amiga seguramente compreenderia o meu gesto.

Nas vésperas de regressar ao Porto, deixei coisas que já não me serviriam  no bangaló em que vivi quase duas semanas em Koh Tao. Ao mesmo tempo que a mochila ficava mais leve, pensava que alguém poderia usufruir das sapatilhas que ainda estavam em condições de uso, assim como algumas peças de roupa.
Em Outubro de 2014, quando fui para São Paulo a fim de participar num congresso levei muita bagagem. No entanto, justificava-se. Precisava de roupa e material de trabalho. Além disso ficaria uns dias em casa do H., onde sabia poder deixar a mala com roupa e o computador enquanto viajasse por outros países. De São Paulo voei para Cusco, no Peru, com o objectivo de ir a Machu Picchu. Assim, apesar de ir na época de Primavera na América do Sul, a altitude que alcançaria obrigava a indumentária mais quente; o espaço para a roupa estava pois condicionado. Havia ainda outros objectos: um termo, uma lanterna e luvas. Só o primeiro regressou. Os outros dois elementos desapareceram; calculo que alguém terá necessitado mais do que eu. Outras peças se perderam.
Durante a viagem ia lavando a roupa à mão. Às vezes acumulava-se. Acontecia encontrar lavandarias económicas, compensando o trabalho e permitindo-me sentir o odor a roupa lavada (um aroma que valorizo cada vez mais), como em La Paz e Arequipa. Todavia dei-me conta que a cada investida ficava com menos roupa. Ao ponto de chegar ao fim da viagem quase sem saber o que vestir. Comentei com dois ‘amigos’ no hostel em Bogotá esse facto. Nesse mesmo dia, um dos funcionários deu-me uma t-shirt com o logótipo do hostel.
Este ano as duas mochilas voltaram à estrada. Saí a cinco de Maio do Porto em direcção a Bogotá – o destino mais económico na América Latina. No ano anterior foi nessa capital que terminei o périplo de dois meses e meio. Como apenas fiquei por Bogotá, voltar afigurou-se boa ideia. Além disso, no tempo que aí estive fiz amigos que sabia terem a mesma vontade que eu de nos revermos. Antes de partir coloquei-me duas hipóteses: conhecer a Colômbia e seguir em sentido ascendente; ou depois da Colômbia descer através do Equador pelo resto da América do Sul. Era uma deliberação relevante; disso dependeria o tipo de vestuário. Prefiro climas mais quentes!
A selecção da roupa e acessórios foi mais fácil. Era a terceira vez que saía em modo ‘mochileira’. Apesar de ter bilhete de ida e volta, o preço do mesmo detinha em si uma possibilidade muito plausível: a de abdicar do bilhete de regresso. A intenção era sair por tempo indeterminado (é necessário, porém, entrar na Colômbia com viagem de saída – como na maior parte dos países). Por conseguinte, teria de ter o suficiente para evitar grandes aquisições. A diferença desta para as outras viagens é despiciente, pois o que serve para três meses serve para quatro, cinco ou seis. Mesmo assim admito que a mochila chegou novamente aos dezasseis quilos.
A bijutaria reduziu-se imensamente; na verdade, durante um retiro de meditação que fiz no final do primeiro mês tirei tudo o que tinha nos braços, à excepção de uma pulseira fina que o meu querido sobrinho me ofereceu. A bolsa de maquilhagem reduziu-se ao que uso normalmente – lápis preto e rímel (nem sempre) e batom (raramente). Também no calçado fui mais parca. Apenas um par de sapatilhas (imprescindível!), um par de sandálias e um par de chinelos de dedo. Estes foram sepultados a meio da viagem. As botas de montanha eram já outras – compradas dias antes de partir. O melhor investimento e seguramente o objecto de maior valor. Notei diversas vezes olhos ‘cobiçosos’. Qualquer que fosse o tipo de viagem estavam sempre nos pés quando mudava de localidade, quer pelo espaço, quer pelo peso. Posteriormente também por precaução. As histórias que ia escutando alertaram-me.
Livros e cadernos para escrever eram objectos obrigatórios na bagagem. Em Cartagena das Índias, ainda nem um mês depois de aterrar nesse país maravilhoso, vendi os dois livros por um preço irrisório para os padrões portugueses, mas o valor adquirido permitiu-me pagar duas noites de sono. Isso não significa que a leitura tenha acabado. O ipad tem uma biblioteca interminável. Não obstante, continuo a preferir ler no formato ‘tradicional’. Por isso, logo que surgiu a ocasião quase se fez o ladrão. ‘Encontrei’ um livro num hostel. A partir daí foi fácil. À medida que ia terminando ia trocando com um dos moradores das prateleiras para o efeito – ‘book exchange’ - dos hostels. Às vezes não resistia e surripiava sem trocar.
As mochilas essas, ao contrário do que seria de esperar, iam ficando mais pesadas. Por mais um livro, por mais um caderno que se preenchia sendo necessário adquirir outro. Bem que se esforçavam, mas acabavam por ‘gritar’ “já chega!” A maior rasgou-se. Várias vezes. Isso aconteceu logo na primeira aventura, ainda na Austrália. No aeroporto de Sydney fiquei petrificada. Algum funcionário deve ter dormido mal na noite anterior e decidiu libertar a sua raiva desferindo um rasgão numa das alças. A laceração obrigou a uma intervenção. Felizmente, a senhora a quem aluguei um quarto nessa cidade de arranha céus tinha boas agulhas e consegui suturar eficazmente. Essa cicatriz mantém-se intacta até ao momento.
Ainda nessa viagem, mas já em terras asiáticas, a outra alça sofreu uma pressão interior tão forte que não aguentou. Em Chiang Mai, na Tailândia, ao fim do segundo mês foi necessária nova intervenção cirúrgica. Os instrumentos foram adquiridos na capital. Depois de entrar em várias lojas, encontrei uma solução melhor do que o expectável. Uma senhora agulha, diria mesmo um agulhão. De tal maneira, que o rapaz que me atendeu se recusou peremptoriamente a aceitar qualquer pagamento. Apenas uma moeda de troca. O calibre da agulha era comparável a uma arma letal – o que depreendi da sua linguagem gestual. Não podia cobrar. Na Tailândia a maioria da população é budista; o resto depreende-se.
Continua...

Abraçar a tolerância*





É no jardim da casa que escrevo esta crónica. Ao fim de mais de cinco meses na América Latina, de novo em casa. O jardim da casa é o cenário tranquilo que enche os meus olhos e o coração. É bom regressar a casa, muito bom! Foi isso que senti ao atravessar o corredor que separa a sala da recolha das bagagens, da zona de espera do aeroporto. Ali estava a família num sorriso único. Os abraços fortes e prolongados fizeram-me sentir querida, amada e, sobretudo, ligada.
O abraço tem esse poder! Não é a primeira vez que saliento este gesto tão simples e tão poderoso e é quase certo que o volte a fazer. Como não? A ligação que é possível sentir quando dois corpos se unem pelo abraço desenvolve, renova, reforça os afectos. No toque que se permite, o aconchego; na união de corpos que se estabelece, uma ligação que com frequência nos envolve numa cápsula sem as coordenadas do tempo e do espaço. Como se tudo o resto não existisse; como se nada mais importasse para além do odor mesclado, das batidas de dois corações em uníssono; como se duas pessoas se tornassem numa única entidade, cuja união tem a força de dissipar as fronteiras materiais da corporalidade. Creio que o poder do abraço está nessa possibilidade tão fácil de se concretizar. Talvez seja essa facilidade que torna o acto de abraçar não muito comum – na minha perspectiva.
Observo amiúde que as pessoas se coíbem de abraçar. Imagino que essa inibição seja fruto do reconhecimento do poder do gesto. Parece uma contradição, todavia, penso que é por isso que o verbo abraçar e a palavra abraço se reduzem a isso mesmo: a uma palavra no final de uma mensagem escrita, ou de uma conversa telefónica. Ao vivo e a cores tudo se altera.
As afirmações anteriores decorrem da convicção de que um abraço forte e genuíno é capaz de transformar e abrir o coração. No contacto físico sentem-se as semelhanças perenes em todos os seres humanos. Compreende-se a vulnerabilidade individual e apreende-se o sentimento de união capaz de dissipar qualquer conflito. É essa mesma vulnerabilidade, coloquemos assim, que permite que dois seres se liguem profundamente.
É provável que se as pessoas envolvidas em conflitos se encontrassem frente-a-frente, se se olhassem directamente nos olhos e se se tocassem, nem que fosse por escassos segundos, se dariam conta de como são as diferenças que nos tornam tão semelhantes. Porém, aquele estado de vulnerabilidade demonstra que sem os outros, sem os afectos, sem as ligações pouco somos. Calculo que seja uma das razões porque, na minha perspectiva, o abraço é mais raro do que o desejável.
Não é à toa que existe o dia internacional da Tolerância, a 16 deste mês. Ainda há muito a fazer em relação à Tolerância. Nem sequer é necessário dar exemplos sobre a sua falta. Importa antes, na minha opinião, destacar um dos princípios básicos para que as pessoas estejam em harmonia entre si. É um princípio válido para todos os níveis de inter-acção. Desde o mais simples com um desconhecido na rua, até ao nível das instituições mais poderosas; sendo que as instituições são constituídas por pessoas. Pessoas que se se olhassem de forma compassiva e com tolerância, se lembrariam a cada instante que os números e estatísticas são apenas falácias que escamoteiam o que realmente importa: as pessoas. Todas semelhantes na essência e todas distintas na sua singularidade única, se me é permitida a redundância.
Acredito que se nos abraçássemos mais, teríamos mais oportunidades de sentir cada pessoa em nós. Acredito, igualmente, que se em cada abraço nos deixássemos envolver profundamente reconheceríamos o que é primordial. Sendo provável, por conseguinte, que dias como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher – a 25 deste mês – deixariam de fazer sentido. Não quero com isto dizer que basta um abraço para desculpar essa violência. Como não basta um abraço para qualquer tipo de violência. Contudo, a Mulher continua a ser vítima de muitos tipos de violência. A sua integridade física (emocional e de tantas outras dimensões) é posta em causa de forma tão frequente que até custa acreditar que se viva num mundo dito civilizado! Não obstante, se aqueles que incorrem sobre as mulheres, ao invés de as violentarem, as olhassem como seres humanos dignos que são, teriam um instante para reconhecerem que qualquer acto vil não passa disso mesmo: um acto vil que em nada dignifica a humanidade.
Bem sei que muita tinta correria sobre este dia; há tanto a fazer, tanto a fazer... eu vou neste momento fazer a minha parte: vou abraçar uma mulher linda que está em mim e dissipar as saudades de cinco meses de ausência física. E o melhor é ir já; o tempo prega tantas partidas que é melhor não deixar para depois.

*Este texto foi publicado no Jornal o Chapinheiro

Pedras

           
            Debaixo das pedras. Esconde-se. Longe do mundo. Sai. Vai. Afunda-te. Aprofunda. As pedras são assuntos perigosos. Deixa-te levar. Sai. Segue. O caminho é suave. A mudança é segura. As pedras são pausas. Descansa de vez em quando, em cada margem. A viagem é a tua escola. Os sonhos e os pesadelos ficaram debaixo das pedras. As estrelas no céu, a poesia que te guia.
            Lembra que o poeta é mais alto. As suas asas são infinitas; voam sem medo do desconhecido. Sai. Como o condor, voa. Ama sem medo. Ama. Perde-te. Debaixo das pedras a vida não acontece, não avisa. Não dá. Agarra os segundos e voa, voa como condor. Segue até à cidade perdida e encontra o lugar. Belo, na fantasia do encontro com a poesia.

20 de Julho, 2015
Em viagem de autocarro, Guatemala