Pega na bicicleta e vai!



Imagina que a vida que vives é apenas resultado da tua imaginação.
            Pega na bicicleta e vai! Se esta realidade não doesse tanto estarias bem.
            Esfrega os olhos. O monstro morrerá e tu serás quem és. Melhor que tu. Melhor que a realidade aparente.
            No teleférico, Huyen esfrega os olhos. A cobra arranca-a do pesadelo. O canyon de Chicamocha que a separa da Mesa de Los Santos devolve-a ao banco que partilha com outra viajante. Huyen. Predadora, como a cobra a descascar que a visitou. Não é a televisão que está à sua frente. É um vale assombroso e belo que a janela do teleférico lhe mostra. Cores vívidas, o verde mais verde que a chuva refrescou. Arriscaram, as duas mulheres. Huyen e a outra viajante anónima, que a convidou para passar o dia no Parque Nacional de Chicamocha. Atravessaram o canyon na cápsula presa por cabos. "Sê forte e vem comigo", seduziu a viajante que Huyen ainda desconhecia. Sem reagir, pensou de si para si não necessitar que a desafiem com palavras como "sê forte".
            Aterrou na Costa Rica três meses antes. Inicialmente, a sua intenção era permanecer um mês nesse pequeno país que se encontra no topo dos países com a população mais feliz. Mais feliz. Não necessariamente com melhor qualidade de vida. Essa, dizem as estatísticas vive-se nos países do norte da Europa. É pena que também seja nesses países que a taxa de suicídio seja das mais elevadas.
            Caminhou pela Costa Rica e foi muito feliz, desfrutando das praias, das pessoas aparentemente sempre felizes, sobretudo para os turistas. Dormiu em 'hamacas' à beira-mar. Contemplou Centauro por entre as constelações que o céu estrelado lhe oferecia.
            Vislumbrou a cobra. Foi mordida! O sonho tornou-se realidade no país onde o verde contrasta contínua e fortemente com o azul. Ficou prostrada. O veneno era enfim potente. Insuficiente para a arrancar desta existência terrena. O suficiente para lhe picar o inconsciente. A viagem que empreendera era afinal uma farsa.
            Recomeçou. Comprou uma bicicleta em segunda mão, juntamente com alforges. Verificou a mala com que saíra de Boston. Trocou a mala e as roupas que então se denunciavam excessivas por calções robustos, um capacete e uma tenda. Partiu de San Jose e fez-se à estrada. Pedalou. Pedalou. Sempre só. Olhos na estrada. Pernas pedalando num movimento cíclico. As subidas não a demoveram. A chuva tropical tão-pouco. Acampou no Panamá. O alfaiate é um mito. Uma história para americanos, como ela, se entreterem.
            Huyen é americana de nacionalidade. A sua origem, Ho Chi Min. Ainda em Saigão, a pobreza predadora e o desejo dos pais por uma vida melhor, transportaram-na para o país onde todos os sonhos, dizem, se tornam realidade. E com efeito, Huyen vivia um sonho.
            Pedala. Limpa o pó. A realidade vai-se tornando um pouco mais real. Os gémeos vão engrossando, as coxas tornando-se mais fortes. Mais fortes, menos largas. Largas são as três irmãs mais velhas e sedentárias. Com o açúcar, o sal e a gordura do McDonald's a sufocar as veias e as artérias.
            Huyen acordou. A mordedura da cobra arrancou-a do sono. Pairava no fascínio resplandecente dos muito felizes costa-riquenhos.
            Numa praia cálida do Panamá conheceu um holandês - Jonathan, um homem de trinta e cinco anos. Mais novo cinco que Huyen, Jonathan espraiado lia "Os quatro acordos" de Miguel Ruiz. Ficou curiosa. A voz serena de Jonathan era encantatória. Os olhos muito azuis, um enigma. Assim lhe soavam as palavras que a angustiavam. Afinal não era assim tão estranho o que sentia. A sua dificuldade em viver no emprego. A estabilidade que de vez em quando era posta em causa pela competição a que estava sujeita. Era menos habilitada que os colegas. Apenas detém o grau de mestre. Mestre, mas pouco, no cumprimento das regras para subir na carreira de engenheira dos materiais.
            O holandês ofereceu-lhe os quatro acordos. Huyen agradeceu, dando-lhe o único livro com que saíra de Boston - essa terra então longínqua. "A vida nos bosques", de Henry Thoreau. A sua bíblia na empresa de auto-conhecimento.
            Para além da partilha literária, Huyen e Jonathan transformaram a solidão das noites anteriores num abraço nocturno, tão longo como as sete noites que Huyen ficou ainda no Panamá. As lágrimas escorriam, lavando-lhe a alma, quando compreendeu que o caminho a percorrer só ela o poderia pedalar.
            Está em Bucaramanga, Huyen. Atravessa o teleférico de Chicamocha. A viajante anónima escutou deslumbrada, a história da mulher corajosa. Amanhã Huyen voltará à Mesa de Los Santos. Pedalará desde Bucaramanga. Acampando sob o céu estrelado, continuará a desformatar os acordos sociais. A cada dia sobre a bicicleta, a cada subida, a cada descida, uma convicção que se desvanecerá. A cada manhã, uma nova Huyen. Em cada subida um passo no conhecimento dos seus limites, de si. A cada paragem, um nova pessoa que se encantará com a sua força. Como esta viajante solitária que se observa, inspirada, compreendendo que há tanto, mas tanto a aprender... Quem sabe, também pedalando.

21 de Junho, 2105


Iguaque, Colômbia 

Parque Tayrona com Carol





            Um lugar fundamental e imperdível. Tayrona. As fotografias de um amigo viajante. Uma inspiração que me guia. Tayrona. O Parque Nacional Natural, próximo da cidade Santa Marta na costa do Caribe. Carol - Niña para o seu amado sobrinho; outra tia babada - vive numa quinta de permacultura nas imediações de Santa Marta.

            À saída de Bogotá, uma mensagem através do FB - digam o que disserem, tem sido um excelente modo para contactar amigos, familiares e conhecidos. A reacção de Carol foi surpreendente - desejava acompanhar-me para uma caminhada no parque!

            Conheci a Carol o ano passado num mosteiro de Choachí, a uma hora de Bogotá. Servimos juntas durante onze dias num retiro de meditação Vipassana. Antes dela, encontrei-me com outras amigas em Bogotá que também se instalaram confortavelmente no meu coração, nesses dias de pouco silêncio para os servidores da Vipassana.

            Dois dias depois de ter aterrado em Santa Marta apanhei o autocarro para o parque. E não é que a meio do caminho a Carol entrou?! Que agradável coincidência. Ofereci a entrada no parque. Para as pessoas da Colômbia o valor é um terço do preço para os estrangeiros. Pareceu-me ser o mínimo a fazer, dada a sua pronta disponibilidade. Relutante, aceitou. Sorrindo, agradecia. As restantes despesas foram naturalmente partilhadas, sendo certo que foi ela quem mais ofereceu. A generosidade das pessoas que se têm cruzado comigo tem sido transbordante. Também eu transbordo de alegria e felicidade com o que vou experienciando.

            Como a primeira praia onde começámos a nossa caminhada. Cañaveral. Extasiada. Assim comecei, assim permaneci até ao fim dos três dias. O calor abrasador convidava ao primeiro banho de mar. A minha estreia na Colômbia. Nessa praia apenas os pés e as pernas. As ondas revoltas inspiravam muita precaução. Sentei-me a contemplar os pelicanos. Outra estreia. A praia deserta de água tépida aqueceu ainda mais o meu coração.

            Seguimos para outra praia, desta vez a trote. A mochila pesada com os alguns haveres e o garrafão de cinco litros de água impeliram-me a aceitar a sugestão da Carol. Apesar do caminho lindo, muito verde e musical não me senti particularmente bem. O calor que naturalmente também afectava os cavalos, que transportando-nos a troco de dinheiro para os seus 'proprietários', provocou-me um certo mal-estar.

            É pouco provável que repita este tipo de experiência. Deixámos os cavalos à entrada de um parque de alojamento com acesso à Praia Arrecifes. Aí nos deleitámos em contemplação meditativa. O coração de Carol espalha sabedoria. Transmitia uma paz imensa, como imenso era o mar com horizonte longínquo. Tão pequena e tão enorme me sentia. O meu ser recebia a totalidade em cada instante.

            Foi somente na terceira praia - La Piscina - que nos despimos para o banho. Merendámos e desfrutámos da água tépida. O meu corpo multicolor. Peito e braços bronzeados, tronco e coxas a roçar a roupa branca em lixívia e pernas menos mal... Uma caricatura hilariante registada em fotografia.

            Serena e grata - o estado em que essa água salgada, límpida e morna me concedia. Éramos. Assim... tão simples ser feliz. Ser, no mar em companhia de uma pessoa tão bonita como a Carol. As marias-mulatas - pássaros negros semelhantes aos melros - eram a companhia sonora. Ofereciam uma melodia harmoniosa juntamente com o leve ondear da água na areia branca e macia.

            O sentimento de gratidão cresce em cada dia desde que aterrei na Colômbia.

            A partir das cinco da tarde não é permitido caminhar pelos 'senderos' do parque Tayrona. Atracámos então no Cabo San Juan del Guia. As hamacas - espécie de redes mas mais robustas - estavam todas ocupadas. A Carol ofereceu a noite numa tenda. Amarela, a única sem número e de cor distinta das restantes - num verde desbotado pelo sol. A nossa tenda, plantada na primeira linha: o mar tranquilo à nossa frente.

            Chegámos pois a tempo de assistir ao pôr-do-sol. Perfeito. Sentadas à beira-mar, partilhando experiências. Eu bebia a sua sabedoria, confirmando novamente como privilegiada sou. Seguiu-se um jantar simples no restaurante do parque. Peixe fresco para a Carol, vegetariano para mim. Tenho encontrado sempre uma alternativa. Escandaloso, o céu exibia as Ursas,  Cassandra e outras  constelações. Que mais desejar?

            Às cinco da manhã seguinte estávamos as duas, cada uma em seu espaço, aproveitando o silêncio matinal para a meditação do mar. O pequeno-almoço foi preparado por mim e servido num banco rústico em frente ao mar - o peso do dia anterior ia diminuindo. Valeu a pena o esforço pelo bem que soube a partilha no lugar perfeito.

            A suite ficou trancada com as mochilas e partimos pelo trilho até ao Pueblito Chairama. Em teoria, seria uma hora e meio de caminho subindo até à povoação indígena protegida. Não sei se era pela minha companhia; o inevitável aconteceu. Perdemo-nos! Escapou-nos uma das placas informativas. Subimos fora do trilho e ficámos estancadas no meio da vegetação cerrada. Descansámos para decidir como prosseguir. A prática mística de Carol sugeria que voltássemos atrás, antes que nos embrenhássemos ainda mais na floresta semi-tropical. Uma ideia sensata que nos conduziu finalmente ao Pueblito Chairama.

            Em vez de hora e meia, demorámos quase quatro. Na bolsa, as duas barritas de cereais foram a merenda possível. A comunidade indígena, constituída por vinte pessoas oferecia apenas, e tanto!, bebidas frescas. O preço era o previsível pelo difícil acesso. Passeámos e desfrutámos do silêncio entremeado pelos passos tranquilos dos habitantes remotos que ainda sobrevivem e vivem ao ritmo da Natureza.

            Os cabelos longos e negros, as vestes da cor de pérola decoradas com colares por si elaborados, o regozijo para os nossos olhos bem abertos. E para as fotografias, também. Estas foram pagas. Manoel, um dos indígenas com quem conversei manifestou insatisfação para com o governo e para com muitos turistas. As minhas palavras - segundo Manoel - eram diferentes. Aceitara com naturalidade a sua recusa em deixar-se fotografar. Ofereci-lhe uma gratificação. Gostava de guardar uma recordação bonita do lugar, ao mesmo tempo que ajudava um pouco a população esquecida. Acedeu. Eu sorri e guardei, também para partilhar com quem quiser.

            Eram três da tarde quando chegámos ao Cabo. A intenção inicial era fazer o check-out até ao meio-dia. Ah, ah! Almoçámos em companhia de uma mulher de Bogotá. A Esperança. Havíamos conversado com a senhora e os seus filhos no caminho para o Pueblito. Na realidade, essa foi a distração que promoveu a demora - uma forma ligeira de dizer que nos perdemos.

            A senhora Esperança e os dois filhos - jovens adultos - não alçaram o lugar mágico. A sua segunda tentativa frustrada. As pedras não lhes abriram o caminho, justificou resignada. A tarde continuou em languidez à beira-mar.

            Na tenda, às sete da noite, com as cabeças viradas para a 'porta', apreciámos mais uma vez o céu semeado de estrelas. Adormecemos até às seis da manhã seguinte. O corpo pedia. Escutámos a sua sapiência natural.

            A última manhã foi percorrendo o caminho de volta pelo interior do parque seguindo o ritmo musical das aves, das árvores, do vento nas folhagens altas.

            Despedi-me com até logo, num longo e forte abraço no autocarro de volta para Santa Marta. A Carol vive numa quinta que aceita voluntários. Cinco horas diárias de trabalho no campo em troca de alojamento e alimentação - muito atractivo. Quem sabe em Junho...

            Querida Carol, muito obrigada pela partilha e por estes dias tão lindos no Parque Nacional Natural de Tayrona. Estão em mim, com certeza para sempre. Estou cheia, transbordando!

 

 
 
25 de Maio, 2015

Bucaramanga, Colômbia 


 

Todd - una vida encantada

Foto de Todd Breese

Intertexto com 'Prospecção' de Miguel Torga

Mãos de mulher afagam com languidez os caracóis cada vez mais brancos da cabeça de Todd. Os olhos verdes são de criança ávida. Ávida por viajar. O tesouro sagrado. A fortuna de tocar a vida na totalidade. Una vida encantada - as palavras gravadas num dos braços. No outro: just breath. 


No verde flamejante que a chuva tropical regou, renasce o azul real de um colibri.
Todd caminha de mochila às costas. Just breath. Mãos livres para receber o calor do café torrado. O aroma quente desfaz-se no sabor doce e macio, líquido, dos grãos transformados em café


Salento. Universal riqueza. Peneira os grãos de primeira qualidade. O vermelho fogo das orquídeas guiam o caminho - um poema colorido. Sem nenhuma certeza voa a borboleta negra de listas amarelas. Só deseja a fortuna de se encontrar. 

Todd. Viaja com a sede antes da fonte. Não são pepitas de oiro o que procura. A casca doce de uma tangerina, o sabor que revolve a solidão. Puro como o deserto, Todd abre os olhos. Arregala os olhos; fica inteiramente nu e descoberto. A alma triste e desperta sorri numa brancura que ofusca. 

Cava, lava e peneira. Só deseja a fortuna de tocar o infinito.

Em Salento, o vale Cocora é a ponte para Cuba. Carrega mil certezas de aluvião. Mãos de mineiro. Soterradas foram, com o oiro dentro de si. Cava, lava, peneira. Caminha de terra em terra. Buscando aqui e acolá

Um poeta antes dos versos; procura apenas a riqueza universal: o tesoiro sagrado de um café doce e suave. As pepitas de oiro para uma alma triste... de vez em quando. Puro como o deserto, Todd numa terra singela: Salento verdejante.

     
30 de Maio de 2015
Salento, Colômbia

Viva a infância...*






O Dia Mundial da Criança inaugura o mês de Junho. Aproveito a oportunidade para felicitar o meu querido primo Zé Fernando, que celebra o seu aniversário nesta data. Do que me é dado a conhecer e pelos anos que vivemos juntos, creio que este dia se adequa ao Zé. Alegre e bem-disposto, sempre de bem com a vida, tal como uma criança.
Na verdade, sinto muito que não me felicitem nesse dia. Continuo a adorar a infância. Para mim, ser criança é estar continuamente receptiva, de forma inocente; sobretudo aberta a tudo e a todos os que me rodeiam: deslumbrando-me a todo o momento. Aceitando sem julgamento e crítica o que a vida concede. Por isso, para as crianças, aquelas que ainda não têm a noção do bem ou do mal, tudo está bem, tudo é o que é, e quase tudo deslumbra.
Ser criança também é (e muito) viver num mundo próprio. Um mundo cheio de cores alegres, muitas brincadeiras. Se possível com muita liberdade - a liberdade de ser apenas, sendo tanto!
Para mim, a fase da infância é a mais plena, aquela em que tudo é possível. Aquela em que ainda não se sofreu todas as formas de socialização, educação, diria mesmo, formatação social. Daí que ser criança seja um estado de graça a cultivar. Aquele em que se descartam todos os perigos socialmente criados. Lamento, porém, que muitos desses perigos sejam actualmente os motivos que impedem as crianças de serem efectivamente crianças.
É inevitável ser atravessada por uma onda de nostalgia, quase me rasgando o coração ao observar muitas crianças que me são próximas. Corro o risco de ser acusada de bota elástico, contudo, sinto muito que as brincadeiras com o Zé Fernando, por exemplo, não sejam assim tão fáceis para as crianças de hoje.
Jogar à macaca, participar em pseudo-torneios de bilas, pião, caricas, elástico, sirumba e o mata está nos antípodas das ‘minhas’ crianças. Jogar futebol na rua, ir para o parque de baloiços sem a supervisão de adultos e, por conseguinte, sem a participação adulta é algo quase impossível. Pelo menos para as crianças que me rodeiam.
Às vezes tenho a sensação que nem tempo têm para serem crianças, qual horário cheio de actividades e quantidade de trabalhos de casa. Os trabalhos de casa do meu querido sobrinho Gonçalo afligem-me, até. Através dele e do meu querido afilhado Hugo, percebo que desde o primeiro ciclo existe uma competição generalizada (e exagerada!) em relação ao sucesso escolar. Confesso que estou assustada com os modos da escola, com os modos de avaliação, com a quantidade e complexidade das fichas de trabalho, com... sei lá...
E brincar? É que depois do dia inteiro na escola, porque a segurança percebida é cada vez menor, é fundamental que as crianças estejam ocupadas (entretidas, diria) em actividades orientadas por adultos: ballet, piano, inglês, ginástica, violoncelo, natação e muitas outras. Eu também pratiquei algumas actividades e ainda bem! Os meus pais proporcionaram-nos esse tipo de espaços para crescermos de forma integral, harmoniosa e equilibrada (o possível, já se vê...). Não obstante, nessa época, havia tempo para isso e muito mais. Havia muito tempo para ser criança. Tempo para nos deslumbrarmos e confiarmos que o mundo girava à nossa volta (tão-pouco isso estava em questão). É por isso que é tão bom ser criança. Somos o centro do mundo!
Quando a idade cronológica avança, mas ainda se quer ser criança, a responsabilidade aumenta, pois é com consciência que criamos o mundo em que queremos viver. O mundo da criança está pintado do azul do céu, é decorado com arco-íris, as borboletas voam sem cessar, sente-se o aroma dos morangos muito vermelhos e é habitado por muitas vozes mais ou menos conhecidas e por animais mais ou menos reais. Às vezes é uma floresta mágica, onde as fadas e os gnomos ‘trabalham’ para manter a alegria colorida, para que o sorriso – entremeado por lágrimas – seja uma semente sempre a germinar, transformando-se... devagar em flores e também devagar em frutos. Devagar.
O tempo na infância não existe. Quanto são dois meses? Quando é outra vez Sábado? Esta pergunta, aliás, tantas vezes repetida pelas crianças demonstra a sua ânsia para serem aquilo que são: crianças. Como se apenas pudessem ser a totalidade de si ao fim-de-semana. E nós, adultos, também ansiamos esses dias de pausa, arrisco a dizer, pelos mesmos motivos. Para voltarmos a ser crianças...

* Este texto foi publicado no Jornal O Chapinheiro


Kevin

Foto de Kevin Burgi





Viajante da eternidade, Kevin vagueia pelas horas e dias colombianos. Às vezes deita-se com o vento. Quer sentir a brisa amena nos cabelos louros. Bebeu um copo de fortuna à beira-mar. Os olhos da cor do mar à sua frente fogem do sol ofuscante.
Kevin quer conhecer, quer aprender, quer compreender o sentido da vida. O carteiro suíço despediu-se das cartas. Deseja ser ele próprio uma carta... de amor, ou pelo menos uma carta de si. Quando afinal se decidir a redigir a totalidade das palavras, saberá quem é.
Na Argentina fez uma confissão espantosa: quase abreviou a vida. Todavia, o sangue real estimulou-o para a busca do jogo de contas. As contas da vida.
As suas sobrancelhas são um arco de curiosidade e o sorriso aberto almeja deslizar levemente pelo céu semeado de estrelas. Talvez amanhã, o amor... ah! O amor. Sem pressa e sem presas. A liberdade do viajante não se deixa agarrar por amores primaveris.
A panorâmica que, agora, a janela do comboio lhe oferece é um laivo de lucidez. Kevin bebe mais um copo de fortuna argentina. As praias quentes da Colômbia são já uma miragem. O que aí ficou de si; mais tarde alcançará.
Kevin anseia fazer algo da vida; pelo menos algo na vida. Não escreve. O raciocínio e o rápido fluir dos pensamentos permitem-lhe observar as mudanças que vai experimentando na viagem. A viagem... ah! A viagem.
Tem vinte e sete anos. O rosto marcado e as cãs nos cabelos fartos e claros enganam as mulheres. Deve-se também ao olhar profundo; como o mar límpido de uma ilha de coral. As mulheres mais velhas atraem-no. Elas sentem-se atraídas pelo seu semblante nórdico. Apenas o semblante. A baixa compleição induz a erros. Ainda assim, é usual ser confrontado pela sua fisionomia. Em terras latinas sobressai. Foi convidado para participar como actor num filme colombiano. Recusou. O visto quase expirou, depois de oitenta e oito dias nesse lugar quente e sensual. Está de saída do país.
Para onde? Decidindo. Se ao menos soubesse o quê e como fazer algo na vida. Enquanto não obtém uma resposta concreta vai vadiando, vai vagueando. Assim aprende. Assim conhece. Talvez assim seja mais. Com sorte encontrará a sua fortuna - o sentido do seu viver.


9 de Maio, 2015
Bogotá,Colômbia  

Um postal de Cartagena das Índias



De que se fala quando se escuta a palavra escravatura? O turismo é a onda que move

muitas pessoas em Cartagena. No Museu da Inquisição, a história documenta como a tortura era

(?) uma forma de manter a ordem cristã europeia. Espanhóis, portugueses estão presentes nessa

imposição sobre os indígenas, aborígenes, os nativos da agora denominada Colômbia - uma

colónia.

Ouro e prata. Rotas de riqueza. A motivação velada na cristianização. Hoje, na Colômbia,

como em grande parte dos países da América do Sul, as povoações são fervorosas crentes da

religião católica. A imagem da nossa senhora de Fátima portuguesa é uma evidência em vários

locais da costa do Caribe. Como em Rioacha e Cabo La Vella.

Angola e Guiné. Duas das proveniências dos negros convertidos em escravos em

Cartagena. Chegados em contrabando, os números são falíveis. Não há como, nem tampouco

interessa contabilizar a entrada dos escravos trazidos por portugueses e espanhóis.

No Museu da Tortura está registada parte da acção europeia em nome de deus. Em 1822

viviam 25 mil almas em Cartagena, nas quais não se incluem as almas africanas. Bruxas,

hereges, não-humanos - esses não números nas estatísticas dos intelectuais da época. Talvez o

capataz fizesse parte. Se era mulato ou não, isso pouco importa nos dias de hoje. Importará se for

muito negro, sendo certo que terá mais dificuldade em entrar em determinados lugares da moda!

A mescla é imensa. De tal modo, que não é fácil para um 'forasteiro', turista ou viajante

perceber quem é ou não de origem do Caribe.

Em Cartagena, o bairro Getsmani é uma das memórias realistas da colonização

espanhola. As casas com balcão convidam com as múltiplas cores exuberantes e são um dos

atractivos principais para os turistas.

Todos por um novo país. Relembrando a memória incómoda. Maio. O mês da afro-

colombianeidade representa a vontade de apagar as diferenças e unir as almas qualquer que seja

a cor de quem as encarna. Património imaterial. A pedra-angular da cultura do Caribe. A sua

preservação registada e catalogada para a tornar em Património da humanidade. Viva a Colômbia

e o multiculturalismo.

21 de Maio de 2015

Cartagena, Colômbia


Edu y Maru




Quero ser milionário. Eu e a Maru. Estamos de passagem. Como um murro seco no estômago que interrompe o pensamento. Parámos por uns dias, umas semanas. Sem dúvida que voltaremos à estrada. Como não há solução, enfrentamos a realidade. Trabalhamos por uns dias.
Quero ser milionário. Vou aparecer na revista 'Volta ao Mundo'. Estamos a viajar há seis meses. De vez em quando a alma é engaiolada e damos o corpo ao manifesto. Eu estou a fazer trabalho de pintor e a Maru a ajudar na cozinha.
As bicicletas cor-de-rosa com cesta na frente do guiador estão à porta. Preferimos caminhar. Às vezes também voamos. Preferimos os corredores, os caminhos que nos conduzem a novos lugares, a novas pessoas.
Assustam-me os doentes dentro das suas doenças. Preferimos guitarras e o tango argentino. É essa a nossa origem. O princípio. No fim, não sabemos onde chegaremos. O que foi lá permanece. Para o que venha, enfrentamos a realidade. Eu limpo o jacuzzi. A Maru limpa as casas-de-banho. Aguentamos. Às vezes a guerra é isso mesmo. Preferimos assim.
Amo-te muitíssimo, cariño. Digo o que sinto a Maru. Coração, ajuda-me na cozinha, por favor - a Maru para o Edu. Dois jovens argentinos em Santa Marta, Colômbia. Hoje. Daqui a umas semanas no Panamá. Lá, impera o dólar. Melhor para o câmbio e para continuar a viver como se não houvesse amanhã. Esse tempo não existe. Só o agora.
Neste momento, as nossas almas, tocando-se como duas mãos apaixonadas, estão suspensas. É uma pausa. Um soco no estômago. Macio. Os cavalos estão encurralados. Apenas por milionésimos de segundo - no tempo cósmico.
O tempo é quente. A água fresca ajuda. Refresca. Tem de ser engarrafada. Em Santa Marta não é potável.
É o plano. O cheiro a Buenos Aires não se esquece. O da Europa é uma ilusão a tocar por memórias que preencherão o futuro incerto; seguramente possível. Numa tatuagem da Maru tudo é possível. Numa outra desfruta-se o presente.
As paredes caiadas recentemente por Edu, as refeições preparadas por Maru. O amor vive-se no lugar exacto em que se encontram. No hostel Villana, em Santa Marta. Só até amanhã. Depois... Logo se vê!


12 de Maio, 2015
Santa Marta, Colômbia  

Comboio para Norte

Infalível no gesto. Sacudiu o pó dos pensamentos. Pesavam-lhe no pescoço. Eram uma carga inexorável nos ombros. Ao ponto de, apesar de ainda não ter chegado aos trinta, as omoplatas serem já uma serra de duas altas montanhas nas costas estreitas. Marta.
Infalível no gesto, trancou com firmeza a sua fúria descontente. A água corria no chuveiro, sem que Marta desfrutasse da temperatura para lá do tépido. Nua era mais pura. Detestava as calças justas de algodão que jaziam sobre a cama. As preferidas de Gonçalo. Sempre lhe provocaram irritação. Vestia aquela peça pelo conforto. Gonçalo agradecia: “Não consigo despregar os olhos das tuas curvas maravilhosas! Que bela invenção”.
Era com inveja secreta que Luís, o amigo de Gonçalo, contava os dias da eternidade para olhar Marta. Os cabelos lisos e finos da jovem nunca se despentearam com o olhar flamejante de Luís.
Sacudiu o pó dos pensamentos com a água que corria. E como num impulso alaranjado, fechou a torneira. Suspirando profundamente: “Está na hora. Chega!” Quase saltando da banheira, agarrou a toalha azul, abraçou-a ao tronco. Não gostava de se limpar. Parou os movimentos em frente ao espelho. Aguardou que o ar quente secasse a pele macia. Sempre macia com o creme de aroma floral e fresco.
O olhar violáceo reflectiu no espelho um obituário antecipado. Deslizou pelo corpo esguio, amarfanhado na toalha. Expeliu novo suspiro. “Vou embora. De comboio!” Sem mais demoras, deixou a casa-de-banho e vestiu as calças pretas que abominava, uma camisa azul e sapatilhas. Da estação seguiria para a praia. Ia para a praia. Estava decidida.
Irra! Sacudiu novamente, com mais vigor, o depósito cristalizado dos pensamentos. Correu vertiginosamente pela rua abaixo. Os carros levemente adormecidos, levemente povoados, paravam para Marta prosseguir, vermelha, envolta numa raiva incontornável. O murmúrio pesado das máquinas – sempre obras, sempre em obras, estas malditas máquinas – atravessava-lhe o estômago. Morangos. Esqueceu a fruta no balcão da cozinha. Melhor assim, os primeiros da época não a atacarão. Seria em vão que a mordaça lhe seguraria a ira efervescente.
Cansas-te, Marta!
Marta, Cansas-me!
A ridícula ideia de não voltar a ser. Abraçando o caminho, entrou numa carruagem aleatoriamente. Quer ir embora. Inocente e irrevogável. Com falsa emoção, sentou-se. Cinzenta. O trepidar do comboio logo, logo, lhe quebrou o silêncio. Mesmo que aparente.
Fechou os olhos. Sentiu lenta e pesadamente as pálpebras, como cortinas de aço que trancam o amor. O amor, ah!, o amor... e adormeceu. Rígida. Alguns minutos.
E relaxou. Sorrindo. Em surdina, uma gargalhada, doce.