Parque Tayrona com Carol





            Um lugar fundamental e imperdível. Tayrona. As fotografias de um amigo viajante. Uma inspiração que me guia. Tayrona. O Parque Nacional Natural, próximo da cidade Santa Marta na costa do Caribe. Carol - Niña para o seu amado sobrinho; outra tia babada - vive numa quinta de permacultura nas imediações de Santa Marta.

            À saída de Bogotá, uma mensagem através do FB - digam o que disserem, tem sido um excelente modo para contactar amigos, familiares e conhecidos. A reacção de Carol foi surpreendente - desejava acompanhar-me para uma caminhada no parque!

            Conheci a Carol o ano passado num mosteiro de Choachí, a uma hora de Bogotá. Servimos juntas durante onze dias num retiro de meditação Vipassana. Antes dela, encontrei-me com outras amigas em Bogotá que também se instalaram confortavelmente no meu coração, nesses dias de pouco silêncio para os servidores da Vipassana.

            Dois dias depois de ter aterrado em Santa Marta apanhei o autocarro para o parque. E não é que a meio do caminho a Carol entrou?! Que agradável coincidência. Ofereci a entrada no parque. Para as pessoas da Colômbia o valor é um terço do preço para os estrangeiros. Pareceu-me ser o mínimo a fazer, dada a sua pronta disponibilidade. Relutante, aceitou. Sorrindo, agradecia. As restantes despesas foram naturalmente partilhadas, sendo certo que foi ela quem mais ofereceu. A generosidade das pessoas que se têm cruzado comigo tem sido transbordante. Também eu transbordo de alegria e felicidade com o que vou experienciando.

            Como a primeira praia onde começámos a nossa caminhada. Cañaveral. Extasiada. Assim comecei, assim permaneci até ao fim dos três dias. O calor abrasador convidava ao primeiro banho de mar. A minha estreia na Colômbia. Nessa praia apenas os pés e as pernas. As ondas revoltas inspiravam muita precaução. Sentei-me a contemplar os pelicanos. Outra estreia. A praia deserta de água tépida aqueceu ainda mais o meu coração.

            Seguimos para outra praia, desta vez a trote. A mochila pesada com os alguns haveres e o garrafão de cinco litros de água impeliram-me a aceitar a sugestão da Carol. Apesar do caminho lindo, muito verde e musical não me senti particularmente bem. O calor que naturalmente também afectava os cavalos, que transportando-nos a troco de dinheiro para os seus 'proprietários', provocou-me um certo mal-estar.

            É pouco provável que repita este tipo de experiência. Deixámos os cavalos à entrada de um parque de alojamento com acesso à Praia Arrecifes. Aí nos deleitámos em contemplação meditativa. O coração de Carol espalha sabedoria. Transmitia uma paz imensa, como imenso era o mar com horizonte longínquo. Tão pequena e tão enorme me sentia. O meu ser recebia a totalidade em cada instante.

            Foi somente na terceira praia - La Piscina - que nos despimos para o banho. Merendámos e desfrutámos da água tépida. O meu corpo multicolor. Peito e braços bronzeados, tronco e coxas a roçar a roupa branca em lixívia e pernas menos mal... Uma caricatura hilariante registada em fotografia.

            Serena e grata - o estado em que essa água salgada, límpida e morna me concedia. Éramos. Assim... tão simples ser feliz. Ser, no mar em companhia de uma pessoa tão bonita como a Carol. As marias-mulatas - pássaros negros semelhantes aos melros - eram a companhia sonora. Ofereciam uma melodia harmoniosa juntamente com o leve ondear da água na areia branca e macia.

            O sentimento de gratidão cresce em cada dia desde que aterrei na Colômbia.

            A partir das cinco da tarde não é permitido caminhar pelos 'senderos' do parque Tayrona. Atracámos então no Cabo San Juan del Guia. As hamacas - espécie de redes mas mais robustas - estavam todas ocupadas. A Carol ofereceu a noite numa tenda. Amarela, a única sem número e de cor distinta das restantes - num verde desbotado pelo sol. A nossa tenda, plantada na primeira linha: o mar tranquilo à nossa frente.

            Chegámos pois a tempo de assistir ao pôr-do-sol. Perfeito. Sentadas à beira-mar, partilhando experiências. Eu bebia a sua sabedoria, confirmando novamente como privilegiada sou. Seguiu-se um jantar simples no restaurante do parque. Peixe fresco para a Carol, vegetariano para mim. Tenho encontrado sempre uma alternativa. Escandaloso, o céu exibia as Ursas,  Cassandra e outras  constelações. Que mais desejar?

            Às cinco da manhã seguinte estávamos as duas, cada uma em seu espaço, aproveitando o silêncio matinal para a meditação do mar. O pequeno-almoço foi preparado por mim e servido num banco rústico em frente ao mar - o peso do dia anterior ia diminuindo. Valeu a pena o esforço pelo bem que soube a partilha no lugar perfeito.

            A suite ficou trancada com as mochilas e partimos pelo trilho até ao Pueblito Chairama. Em teoria, seria uma hora e meio de caminho subindo até à povoação indígena protegida. Não sei se era pela minha companhia; o inevitável aconteceu. Perdemo-nos! Escapou-nos uma das placas informativas. Subimos fora do trilho e ficámos estancadas no meio da vegetação cerrada. Descansámos para decidir como prosseguir. A prática mística de Carol sugeria que voltássemos atrás, antes que nos embrenhássemos ainda mais na floresta semi-tropical. Uma ideia sensata que nos conduziu finalmente ao Pueblito Chairama.

            Em vez de hora e meia, demorámos quase quatro. Na bolsa, as duas barritas de cereais foram a merenda possível. A comunidade indígena, constituída por vinte pessoas oferecia apenas, e tanto!, bebidas frescas. O preço era o previsível pelo difícil acesso. Passeámos e desfrutámos do silêncio entremeado pelos passos tranquilos dos habitantes remotos que ainda sobrevivem e vivem ao ritmo da Natureza.

            Os cabelos longos e negros, as vestes da cor de pérola decoradas com colares por si elaborados, o regozijo para os nossos olhos bem abertos. E para as fotografias, também. Estas foram pagas. Manoel, um dos indígenas com quem conversei manifestou insatisfação para com o governo e para com muitos turistas. As minhas palavras - segundo Manoel - eram diferentes. Aceitara com naturalidade a sua recusa em deixar-se fotografar. Ofereci-lhe uma gratificação. Gostava de guardar uma recordação bonita do lugar, ao mesmo tempo que ajudava um pouco a população esquecida. Acedeu. Eu sorri e guardei, também para partilhar com quem quiser.

            Eram três da tarde quando chegámos ao Cabo. A intenção inicial era fazer o check-out até ao meio-dia. Ah, ah! Almoçámos em companhia de uma mulher de Bogotá. A Esperança. Havíamos conversado com a senhora e os seus filhos no caminho para o Pueblito. Na realidade, essa foi a distração que promoveu a demora - uma forma ligeira de dizer que nos perdemos.

            A senhora Esperança e os dois filhos - jovens adultos - não alçaram o lugar mágico. A sua segunda tentativa frustrada. As pedras não lhes abriram o caminho, justificou resignada. A tarde continuou em languidez à beira-mar.

            Na tenda, às sete da noite, com as cabeças viradas para a 'porta', apreciámos mais uma vez o céu semeado de estrelas. Adormecemos até às seis da manhã seguinte. O corpo pedia. Escutámos a sua sapiência natural.

            A última manhã foi percorrendo o caminho de volta pelo interior do parque seguindo o ritmo musical das aves, das árvores, do vento nas folhagens altas.

            Despedi-me com até logo, num longo e forte abraço no autocarro de volta para Santa Marta. A Carol vive numa quinta que aceita voluntários. Cinco horas diárias de trabalho no campo em troca de alojamento e alimentação - muito atractivo. Quem sabe em Junho...

            Querida Carol, muito obrigada pela partilha e por estes dias tão lindos no Parque Nacional Natural de Tayrona. Estão em mim, com certeza para sempre. Estou cheia, transbordando!

 

 
 
25 de Maio, 2015

Bucaramanga, Colômbia 


 

Todd - una vida encantada

Foto de Todd Breese

Intertexto com 'Prospecção' de Miguel Torga

Mãos de mulher afagam com languidez os caracóis cada vez mais brancos da cabeça de Todd. Os olhos verdes são de criança ávida. Ávida por viajar. O tesouro sagrado. A fortuna de tocar a vida na totalidade. Una vida encantada - as palavras gravadas num dos braços. No outro: just breath. 


No verde flamejante que a chuva tropical regou, renasce o azul real de um colibri.
Todd caminha de mochila às costas. Just breath. Mãos livres para receber o calor do café torrado. O aroma quente desfaz-se no sabor doce e macio, líquido, dos grãos transformados em café


Salento. Universal riqueza. Peneira os grãos de primeira qualidade. O vermelho fogo das orquídeas guiam o caminho - um poema colorido. Sem nenhuma certeza voa a borboleta negra de listas amarelas. Só deseja a fortuna de se encontrar. 

Todd. Viaja com a sede antes da fonte. Não são pepitas de oiro o que procura. A casca doce de uma tangerina, o sabor que revolve a solidão. Puro como o deserto, Todd abre os olhos. Arregala os olhos; fica inteiramente nu e descoberto. A alma triste e desperta sorri numa brancura que ofusca. 

Cava, lava e peneira. Só deseja a fortuna de tocar o infinito.

Em Salento, o vale Cocora é a ponte para Cuba. Carrega mil certezas de aluvião. Mãos de mineiro. Soterradas foram, com o oiro dentro de si. Cava, lava, peneira. Caminha de terra em terra. Buscando aqui e acolá

Um poeta antes dos versos; procura apenas a riqueza universal: o tesoiro sagrado de um café doce e suave. As pepitas de oiro para uma alma triste... de vez em quando. Puro como o deserto, Todd numa terra singela: Salento verdejante.

     
30 de Maio de 2015
Salento, Colômbia

Viva a infância...*






O Dia Mundial da Criança inaugura o mês de Junho. Aproveito a oportunidade para felicitar o meu querido primo Zé Fernando, que celebra o seu aniversário nesta data. Do que me é dado a conhecer e pelos anos que vivemos juntos, creio que este dia se adequa ao Zé. Alegre e bem-disposto, sempre de bem com a vida, tal como uma criança.
Na verdade, sinto muito que não me felicitem nesse dia. Continuo a adorar a infância. Para mim, ser criança é estar continuamente receptiva, de forma inocente; sobretudo aberta a tudo e a todos os que me rodeiam: deslumbrando-me a todo o momento. Aceitando sem julgamento e crítica o que a vida concede. Por isso, para as crianças, aquelas que ainda não têm a noção do bem ou do mal, tudo está bem, tudo é o que é, e quase tudo deslumbra.
Ser criança também é (e muito) viver num mundo próprio. Um mundo cheio de cores alegres, muitas brincadeiras. Se possível com muita liberdade - a liberdade de ser apenas, sendo tanto!
Para mim, a fase da infância é a mais plena, aquela em que tudo é possível. Aquela em que ainda não se sofreu todas as formas de socialização, educação, diria mesmo, formatação social. Daí que ser criança seja um estado de graça a cultivar. Aquele em que se descartam todos os perigos socialmente criados. Lamento, porém, que muitos desses perigos sejam actualmente os motivos que impedem as crianças de serem efectivamente crianças.
É inevitável ser atravessada por uma onda de nostalgia, quase me rasgando o coração ao observar muitas crianças que me são próximas. Corro o risco de ser acusada de bota elástico, contudo, sinto muito que as brincadeiras com o Zé Fernando, por exemplo, não sejam assim tão fáceis para as crianças de hoje.
Jogar à macaca, participar em pseudo-torneios de bilas, pião, caricas, elástico, sirumba e o mata está nos antípodas das ‘minhas’ crianças. Jogar futebol na rua, ir para o parque de baloiços sem a supervisão de adultos e, por conseguinte, sem a participação adulta é algo quase impossível. Pelo menos para as crianças que me rodeiam.
Às vezes tenho a sensação que nem tempo têm para serem crianças, qual horário cheio de actividades e quantidade de trabalhos de casa. Os trabalhos de casa do meu querido sobrinho Gonçalo afligem-me, até. Através dele e do meu querido afilhado Hugo, percebo que desde o primeiro ciclo existe uma competição generalizada (e exagerada!) em relação ao sucesso escolar. Confesso que estou assustada com os modos da escola, com os modos de avaliação, com a quantidade e complexidade das fichas de trabalho, com... sei lá...
E brincar? É que depois do dia inteiro na escola, porque a segurança percebida é cada vez menor, é fundamental que as crianças estejam ocupadas (entretidas, diria) em actividades orientadas por adultos: ballet, piano, inglês, ginástica, violoncelo, natação e muitas outras. Eu também pratiquei algumas actividades e ainda bem! Os meus pais proporcionaram-nos esse tipo de espaços para crescermos de forma integral, harmoniosa e equilibrada (o possível, já se vê...). Não obstante, nessa época, havia tempo para isso e muito mais. Havia muito tempo para ser criança. Tempo para nos deslumbrarmos e confiarmos que o mundo girava à nossa volta (tão-pouco isso estava em questão). É por isso que é tão bom ser criança. Somos o centro do mundo!
Quando a idade cronológica avança, mas ainda se quer ser criança, a responsabilidade aumenta, pois é com consciência que criamos o mundo em que queremos viver. O mundo da criança está pintado do azul do céu, é decorado com arco-íris, as borboletas voam sem cessar, sente-se o aroma dos morangos muito vermelhos e é habitado por muitas vozes mais ou menos conhecidas e por animais mais ou menos reais. Às vezes é uma floresta mágica, onde as fadas e os gnomos ‘trabalham’ para manter a alegria colorida, para que o sorriso – entremeado por lágrimas – seja uma semente sempre a germinar, transformando-se... devagar em flores e também devagar em frutos. Devagar.
O tempo na infância não existe. Quanto são dois meses? Quando é outra vez Sábado? Esta pergunta, aliás, tantas vezes repetida pelas crianças demonstra a sua ânsia para serem aquilo que são: crianças. Como se apenas pudessem ser a totalidade de si ao fim-de-semana. E nós, adultos, também ansiamos esses dias de pausa, arrisco a dizer, pelos mesmos motivos. Para voltarmos a ser crianças...

* Este texto foi publicado no Jornal O Chapinheiro


Kevin

Foto de Kevin Burgi





Viajante da eternidade, Kevin vagueia pelas horas e dias colombianos. Às vezes deita-se com o vento. Quer sentir a brisa amena nos cabelos louros. Bebeu um copo de fortuna à beira-mar. Os olhos da cor do mar à sua frente fogem do sol ofuscante.
Kevin quer conhecer, quer aprender, quer compreender o sentido da vida. O carteiro suíço despediu-se das cartas. Deseja ser ele próprio uma carta... de amor, ou pelo menos uma carta de si. Quando afinal se decidir a redigir a totalidade das palavras, saberá quem é.
Na Argentina fez uma confissão espantosa: quase abreviou a vida. Todavia, o sangue real estimulou-o para a busca do jogo de contas. As contas da vida.
As suas sobrancelhas são um arco de curiosidade e o sorriso aberto almeja deslizar levemente pelo céu semeado de estrelas. Talvez amanhã, o amor... ah! O amor. Sem pressa e sem presas. A liberdade do viajante não se deixa agarrar por amores primaveris.
A panorâmica que, agora, a janela do comboio lhe oferece é um laivo de lucidez. Kevin bebe mais um copo de fortuna argentina. As praias quentes da Colômbia são já uma miragem. O que aí ficou de si; mais tarde alcançará.
Kevin anseia fazer algo da vida; pelo menos algo na vida. Não escreve. O raciocínio e o rápido fluir dos pensamentos permitem-lhe observar as mudanças que vai experimentando na viagem. A viagem... ah! A viagem.
Tem vinte e sete anos. O rosto marcado e as cãs nos cabelos fartos e claros enganam as mulheres. Deve-se também ao olhar profundo; como o mar límpido de uma ilha de coral. As mulheres mais velhas atraem-no. Elas sentem-se atraídas pelo seu semblante nórdico. Apenas o semblante. A baixa compleição induz a erros. Ainda assim, é usual ser confrontado pela sua fisionomia. Em terras latinas sobressai. Foi convidado para participar como actor num filme colombiano. Recusou. O visto quase expirou, depois de oitenta e oito dias nesse lugar quente e sensual. Está de saída do país.
Para onde? Decidindo. Se ao menos soubesse o quê e como fazer algo na vida. Enquanto não obtém uma resposta concreta vai vadiando, vai vagueando. Assim aprende. Assim conhece. Talvez assim seja mais. Com sorte encontrará a sua fortuna - o sentido do seu viver.


9 de Maio, 2015
Bogotá,Colômbia  

Um postal de Cartagena das Índias



De que se fala quando se escuta a palavra escravatura? O turismo é a onda que move

muitas pessoas em Cartagena. No Museu da Inquisição, a história documenta como a tortura era

(?) uma forma de manter a ordem cristã europeia. Espanhóis, portugueses estão presentes nessa

imposição sobre os indígenas, aborígenes, os nativos da agora denominada Colômbia - uma

colónia.

Ouro e prata. Rotas de riqueza. A motivação velada na cristianização. Hoje, na Colômbia,

como em grande parte dos países da América do Sul, as povoações são fervorosas crentes da

religião católica. A imagem da nossa senhora de Fátima portuguesa é uma evidência em vários

locais da costa do Caribe. Como em Rioacha e Cabo La Vella.

Angola e Guiné. Duas das proveniências dos negros convertidos em escravos em

Cartagena. Chegados em contrabando, os números são falíveis. Não há como, nem tampouco

interessa contabilizar a entrada dos escravos trazidos por portugueses e espanhóis.

No Museu da Tortura está registada parte da acção europeia em nome de deus. Em 1822

viviam 25 mil almas em Cartagena, nas quais não se incluem as almas africanas. Bruxas,

hereges, não-humanos - esses não números nas estatísticas dos intelectuais da época. Talvez o

capataz fizesse parte. Se era mulato ou não, isso pouco importa nos dias de hoje. Importará se for

muito negro, sendo certo que terá mais dificuldade em entrar em determinados lugares da moda!

A mescla é imensa. De tal modo, que não é fácil para um 'forasteiro', turista ou viajante

perceber quem é ou não de origem do Caribe.

Em Cartagena, o bairro Getsmani é uma das memórias realistas da colonização

espanhola. As casas com balcão convidam com as múltiplas cores exuberantes e são um dos

atractivos principais para os turistas.

Todos por um novo país. Relembrando a memória incómoda. Maio. O mês da afro-

colombianeidade representa a vontade de apagar as diferenças e unir as almas qualquer que seja

a cor de quem as encarna. Património imaterial. A pedra-angular da cultura do Caribe. A sua

preservação registada e catalogada para a tornar em Património da humanidade. Viva a Colômbia

e o multiculturalismo.

21 de Maio de 2015

Cartagena, Colômbia


Edu y Maru




Quero ser milionário. Eu e a Maru. Estamos de passagem. Como um murro seco no estômago que interrompe o pensamento. Parámos por uns dias, umas semanas. Sem dúvida que voltaremos à estrada. Como não há solução, enfrentamos a realidade. Trabalhamos por uns dias.
Quero ser milionário. Vou aparecer na revista 'Volta ao Mundo'. Estamos a viajar há seis meses. De vez em quando a alma é engaiolada e damos o corpo ao manifesto. Eu estou a fazer trabalho de pintor e a Maru a ajudar na cozinha.
As bicicletas cor-de-rosa com cesta na frente do guiador estão à porta. Preferimos caminhar. Às vezes também voamos. Preferimos os corredores, os caminhos que nos conduzem a novos lugares, a novas pessoas.
Assustam-me os doentes dentro das suas doenças. Preferimos guitarras e o tango argentino. É essa a nossa origem. O princípio. No fim, não sabemos onde chegaremos. O que foi lá permanece. Para o que venha, enfrentamos a realidade. Eu limpo o jacuzzi. A Maru limpa as casas-de-banho. Aguentamos. Às vezes a guerra é isso mesmo. Preferimos assim.
Amo-te muitíssimo, cariño. Digo o que sinto a Maru. Coração, ajuda-me na cozinha, por favor - a Maru para o Edu. Dois jovens argentinos em Santa Marta, Colômbia. Hoje. Daqui a umas semanas no Panamá. Lá, impera o dólar. Melhor para o câmbio e para continuar a viver como se não houvesse amanhã. Esse tempo não existe. Só o agora.
Neste momento, as nossas almas, tocando-se como duas mãos apaixonadas, estão suspensas. É uma pausa. Um soco no estômago. Macio. Os cavalos estão encurralados. Apenas por milionésimos de segundo - no tempo cósmico.
O tempo é quente. A água fresca ajuda. Refresca. Tem de ser engarrafada. Em Santa Marta não é potável.
É o plano. O cheiro a Buenos Aires não se esquece. O da Europa é uma ilusão a tocar por memórias que preencherão o futuro incerto; seguramente possível. Numa tatuagem da Maru tudo é possível. Numa outra desfruta-se o presente.
As paredes caiadas recentemente por Edu, as refeições preparadas por Maru. O amor vive-se no lugar exacto em que se encontram. No hostel Villana, em Santa Marta. Só até amanhã. Depois... Logo se vê!


12 de Maio, 2015
Santa Marta, Colômbia  

Comboio para Norte

Infalível no gesto. Sacudiu o pó dos pensamentos. Pesavam-lhe no pescoço. Eram uma carga inexorável nos ombros. Ao ponto de, apesar de ainda não ter chegado aos trinta, as omoplatas serem já uma serra de duas altas montanhas nas costas estreitas. Marta.
Infalível no gesto, trancou com firmeza a sua fúria descontente. A água corria no chuveiro, sem que Marta desfrutasse da temperatura para lá do tépido. Nua era mais pura. Detestava as calças justas de algodão que jaziam sobre a cama. As preferidas de Gonçalo. Sempre lhe provocaram irritação. Vestia aquela peça pelo conforto. Gonçalo agradecia: “Não consigo despregar os olhos das tuas curvas maravilhosas! Que bela invenção”.
Era com inveja secreta que Luís, o amigo de Gonçalo, contava os dias da eternidade para olhar Marta. Os cabelos lisos e finos da jovem nunca se despentearam com o olhar flamejante de Luís.
Sacudiu o pó dos pensamentos com a água que corria. E como num impulso alaranjado, fechou a torneira. Suspirando profundamente: “Está na hora. Chega!” Quase saltando da banheira, agarrou a toalha azul, abraçou-a ao tronco. Não gostava de se limpar. Parou os movimentos em frente ao espelho. Aguardou que o ar quente secasse a pele macia. Sempre macia com o creme de aroma floral e fresco.
O olhar violáceo reflectiu no espelho um obituário antecipado. Deslizou pelo corpo esguio, amarfanhado na toalha. Expeliu novo suspiro. “Vou embora. De comboio!” Sem mais demoras, deixou a casa-de-banho e vestiu as calças pretas que abominava, uma camisa azul e sapatilhas. Da estação seguiria para a praia. Ia para a praia. Estava decidida.
Irra! Sacudiu novamente, com mais vigor, o depósito cristalizado dos pensamentos. Correu vertiginosamente pela rua abaixo. Os carros levemente adormecidos, levemente povoados, paravam para Marta prosseguir, vermelha, envolta numa raiva incontornável. O murmúrio pesado das máquinas – sempre obras, sempre em obras, estas malditas máquinas – atravessava-lhe o estômago. Morangos. Esqueceu a fruta no balcão da cozinha. Melhor assim, os primeiros da época não a atacarão. Seria em vão que a mordaça lhe seguraria a ira efervescente.
Cansas-te, Marta!
Marta, Cansas-me!
A ridícula ideia de não voltar a ser. Abraçando o caminho, entrou numa carruagem aleatoriamente. Quer ir embora. Inocente e irrevogável. Com falsa emoção, sentou-se. Cinzenta. O trepidar do comboio logo, logo, lhe quebrou o silêncio. Mesmo que aparente.
Fechou os olhos. Sentiu lenta e pesadamente as pálpebras, como cortinas de aço que trancam o amor. O amor, ah!, o amor... e adormeceu. Rígida. Alguns minutos.
E relaxou. Sorrindo. Em surdina, uma gargalhada, doce.

Como se alguém te contemplasse


Faz tudo como se alguém te contemplasse. Leu Margarida num quadro da memória. Sentada à beira-mar, a felicidade é um estado inefável. A água fria do Atlântico mantém-se numa distância segura, mas os pés dançantes do invisível arriscam o arrepio. Percorre-a desde os dedos da extremidade inferior até à cabeça. No caminho acalmou o fogo flamejante. É Primavera.
Atrás de si, as gaivotas voam sem tino. É Primavera nas ondas da manhã. Eleita para o amor, Margarida renasce em cada noite pouco, mal dormida. As horas são horas de sessenta minutos, à distância. Quando sente o toque de António, quando o respirar de António lhe sopra ao ouvido, as horas não existem. É um tempo sem tempo. É um presente eterno que se renova, qual onda na areia apagando as palavras risíveis riscadas com o indicador.
O suspiro tranquilo e amoroso que abraça os ombros estreitos e macios de Margarida despertam. Um fulgor que perpassa cada célula, cada espaço intersticial. É um brisa doce.
-       És tão linda, Margarida. As tuas mãos dançam no lenço que se ata e desata num gesto despercebido, por ti. Para mim é um entrelaçar divino. Faz tudo como se alguém te contemplasse. Fica aqui.
-       Não vás. Não tardes...
A inércia é aparente. Os olhos tocam-se. O azul de António no verde de Margarida: a paleta da Primavera. Ao lado, o nada. Atrás o vazio. Em frente a eternidade.
Faz tudo como se alguém te contemplasse. É no centro da gravidade ausente que as estrelas são um lapso. A manhã apagou-as. Foram embora. Vão sempre embora. Em breve vão casar.
António não demora e Margarida acorda. Grava os sonhos na areia pueril. O corpo vibra com o lampejo do sussurrar de António.
Fica mais um pouco para que eu te possa contemplar... devagar.


Em Maio, comem-se as cerejas ao borralho*

Foto de Álvaro Martino

Em Maio, comem-se as cerejas ao borralho. Há dois anos estive em Nogueira do Cravo no mês de Maio. Fui passar uns dias com a avó Altina. Diga-se de passagem que não me recordo de viver de forma tão intensa aquele provérbio. Estava um frio de rachar! E eu toda artilhada com roupas e casacos de Inverno. Que frio na rua! Em casa estava-se bem, não ao borralho, mas junto ao forno a lenha da cozinha da minha querida avó.
Maio que não der trovoada, não dá coisa estimada. Não conhecia este provérbio. Recorro a essa sabedoria popular, pois para mim as trovoadas são um espectáculo assombroso da natureza, esteja eu segura e abrigada dos potenciais raios.
Comecei a apreciar esse crepitar estrondoso das nuvens depois a infância. Até então, como muitas crianças, os trovões e os relâmpagos apavoravam-me. Corria para debaixo das saias da minha mãe. Com o seu sentido amoroso de protecção, a minha mãe apaziguava-me. Não é isso ser mãe?
A Mãe tem no primeiro Domingo de Maio toda a atenção (possível) dos seus filhos. Pelo menos nesse dia. Contudo, a Mãe não o é apenas nesse dia. A Mãe, desde que intui que está grávida, até ao dia em que desaparece desta existência, é sempre Mãe. Está sempre em cuidado pelos filhos, está sempre disponível para ajudar os filhos, está sempre a fazer e a ser o melhor que sabe como mãe. Não sou mãe. O que escrevo decorre do que sinto e depreendo pela minha experiência enquanto filha, bem como do que vou observando nas mães que conheço. 
Como são lindas as mulheres que trazem no ventre outra vida. Fico sempre agradavelmente surpreendida quando alguma mulher que me é próxima está grávida. Os seus olhos mudam; ficam ainda mais vivos. A sua voz altera-se; tornando-se mais suave. A sua postura transforma-se, sendo em muitos casos de uma tranquilidade exuberante. O que me faz pensar no que é isso que todos nós desejamos: ser feliz.
Ser mãe, para as mulheres que conheço é em relação a essas que me posso reportar , é uma dádiva. Recentemente, uma grande amiga minha foi mãe pela primeira vez. A Sónia. A sua filha, a Carlota, mostrou-me uma Sónia diferente. Tranquila. Ainda mais afectuosa e com um sorriso constante, como quem diz: sou a pessoa mais feliz do mundo.
Ser mãe é, todavia, um dos papéis mais importantes e provavelmente o mais difícil que uma mulher pode desempenhar. Pelo simples facto que não se desempenha. É-se mãe. Sempre. Quando o bebé nasce, a mulher passa a ser Mãe e a ter o coração sempre atento, sempre alerta. SEMPRE. Por isso tão difícil. E no entanto, não se sente como difícil. Pelo contrário. Tal como a maternidade é recebida como uma dádiva, ser mãe é ser A Dádiva constante. Sem que o sinta como mãe, como filha arrisco a dizer que o amor de mãe é possivelmente o único incondicional.
Da minha parte (juntamente com o meu pai), foi da minha mãe que sempre recebi amor incondicional. O sentimento que me transmite a sensação de protecção incondicional. Sinto que o que quer que eu faça, quem quer que eu seja - mesmo que não me compreenda; sei do que falo -, a minha mãe estará sempre para me ajudar. A minha mãe é e será sempre a minha Mãe. Por isso, se o leitor ou a leitora, me permite, eu aproveito este momento para reiterar a minha profunda gratidão à minha mãe. Muito obrigada, querida Mãe, por me ajudares a ser quem sou. Muito obrigada por me fazeres sentir incondicionalmente protegida e amada!
O dia 15 de Maio concede-nos outra oportunidade para demonstrar o afecto pela mãe. É o dia internacional da família, e/ou das famílias. O plural não é um acaso. Faz toda a diferença. Realça o facto de o conceito de família ser muito diverso. Ser plural!
De entre os múltiplos significados da palavra família, agrada-me sobremaneira a ideia de família que abarca o conjunto de pessoas que se liga por laços de afecto e que se une para compartilhar momentos mais ou menos importantes. Que se junta e se acompanha nas horas mais quotidianas e em momentos tão simples como ajudar a fazer os trabalhos de casa, a pôr a mesa (mais ou menos farta) para o almoço ou jantar, ou para sentar no sofá apenas e tanto para conversar.
As pessoas a quem se pode recorrer num momento de maior aflição, ou a quem nem é  preciso recorrer, pois basta um sinal e ali estão, nem que seja apenas para nos segurar e dar a mão.
Aquele conjunto de pessoas que se une para compartilhar nos dias festivos, qualquer que seja a natureza da comemoração. Não posso deixar de lamentar que alguém tenha suprimido uma série de feriados; são esses dias de folga no emprego que, por serem comuns à maioria das pessoas, permitem que elas tenham a mesma disponibilidade e assim estar juntas para confraternizar, partilhar, rir, abraçar, dançar e tudo aquilo que nos torna mais humanos, mais felizes.
Lamentos à parte, parece-me importante destacar que as famílias são muito mais que as famílias tradicionais constituídas pela tríade de pai, mãe e filhos. São os afectos, os sentimentos amorosos que nos fazem sentir amados e integrados numa família, seja ela monoparental, seja ela com dois pais, duas mães, pais e mães adoptivos, família substituta, comunitária ou arco-íris. O que importa, pelo menos para mim, é o sentimento de pertença, compartilha, de abrigo e protecção que cada família transmite aos seus membros. No limite, poderíamos ser todos uma família. Bastaria que nos olhássemos entre todos da mesma forma com que nos olhamos a nós próprios. Com o coração! (já agora, o dia mundial do coração é a cinco deste mês)

*Este texto foi publicado no jornal O Chapinheiro

A estrada da Morte - Parte I








O autocarro saiu de Copacabana (Bolívia) às duas da tarde (meia hora atrasado... nada de estranho) e estacionou em La Paz às cinco e um quarto. A Bolívia não fazia parte dos planos quando viajei para a América Latina em 2014. Não é que tivesse muitos planos, mas esse país não fazia parte da minha ‘lista’ de países imperdíveis.
Fui a Copacabana para conhecer o Lago Tititaca – o lago mais alto do mundo, a quase quatro mil metros de altitude. Estando no Peru, poderia tê-lo feito nesse país, mas a Hanaku, uma japonesa linda do meu grupo de trekking ao Machu Picchu (fica para outra ocasião), fez-me essa sugestão. Estou muito grata por tê-la escutado. Isso permitiu-me conhecer a Ilha do Sol, o berço da civilização Inca.
No dia seguinte a ter chegado a Copacabana, apanhei o barco das oito da manhã para a Ilha do Sol. Uma hora e meia depois contemplando as águas calmas e muito azuis, e conversando com o Paulo (um viajante brasileiro muito simpático que nos tirou uma selfie), desembarquei para um longo passeio. Pela primeira vez estive frente a frente com alpacas. Que animais tão fofos e com um ar tão amistoso e simultaneamente curioso. Não resisti a enviar fotografias ao muito querido Gonçalo.
Merendei num dos montes, debaixo de uma oliveira. A beleza do cenário extasiava-me, o silêncio abraçava-me. Apenas entrecortado pelo canto dos pássaros e o zumbido dos insectos. À sombra da oliveira, descansava da caminhada, enquanto admirava os papagaios de papel muito coloridos que pintavam o céu limpo, muito azul. De quando em vez, a orquestra tinha o acompanhamento do zurrar dos burros. A paz que sentia era extraordinária; depreendo que também se devesse à energia do local. Tudo estava bem. Um dia perfeito que terminou sentada à beira-lago, emocionada com o sol muito dourado a despedir-se até amanhã. Um quadro deslumbrante preenchido pelo aroma de maresia, avistando a cordilheira dos andes. O fogo no céu era apaziguado por uma tira de nuvens que contornava os cumes pintados de branco.
No dia seguinte decidi ir para La Paz; se estava na Bolívia era obrigatório ir à capital. As fotografias que vi há muitos anos da Estrada da Morte: o mote. Queria ver com os próprios olhos a estrada com mais acidentes contabilizados até à data. Tal acontecia pela estreiteza da estrada; uma largura exígua para dois veículos circularem em simultâneo. Resultado: carros a tombarem que nem tordos dos precipícios – o prato do dia. Foram necessárias muitas mortes para que finalmente a estrada fosse encerrada. Hoje em dia está aberta apenas para circulação de pessoas a pé e de bicicleta – o meu objectivo: descer essa estrada de bicla!
À janela do autocarro despedi-me em sorriso do Lago Tititaca. Estava cheia. Uma hora depois de sairmos houve uma paragem. Não foi bem uma paragem; saí do autocarro para atravessar o estreito de Tiquina de lancha. O resto da viagem foi em conversa com o vizinho do lado, o Bryan. Um americano em viagem sem termo certo...
Do terminal de autocarros de La Paz, dirigi-me a pé para o albergue Pirwa. Escolhi este albergue por ter uma referência. Foi num da mesma linha que fiquei em Cusco, no Peru. Em equipa que ganha não se mexe; além disso, a sua localização agradava-me. Muito próximo do terminal de autocarros, bem como do centro da cidade. Um pormenor deveras relevante para quem viaja de mochila às costas e para quem não quer desperdiçar recursos em táxis. Ainda mal terminara de fazer o check in no albergue e solicitava informações sobre a Estrada da morte!
Às seis e meia da tarde estava novamente na rua para um primeiro reconhecimento da cidade. O impacto foi instantâneo. Quase assombrada, não fosse ter alguns laivos pelos dez minutos desde o terminal até ao alojamento. O cheiro do trânsito intenso inundava as narinas e encharcava os ouvidos. As manchas de gente e a camada visível de poluição ofuscavam os olhos. Até que parei numas escadarias e o olhar elevou-se e o sorriso abriu-se amplamente. O lusco-fusco era já uma realidade e do alto das escadas avistava a cordilheira andina com um manto de neve a brilhar sob o sol dourado.
A três mil metros de altitude, as pernas pediam calma e sentei-me para apreciar os vários grupos de jovens que ocupavam os lanços de escadas. Cada grupo tinha o seu gravador com música hip hop a tocar. Dançavam e construíam coreografias de danças urbanas. Estava agradavelmente surpreendida pelo empenho e o à-vontade dos miúdos.
Prossegui o meu reconhecimento por entre a multidão, observando as lojas e restaurantes, cuja oferta para além de frango era frango; pollo desta e daquela maneira e outra qualquer que não vislumbrava. Como sentar-me num restaurante não era opção, o meu olhar detinha-se nas pessoas. E parou numa senhora linda.
No meio de tanta e tanta gente, reparei numa mulher com cerca de sessenta anos. A sua postura altiva transformava os seus cento e cinquenta centímetros em quase dois metros. A senhora cuidadosamente vestida e penteada, de lábios vermelhos recentemente retocados reparou que eu reparei nela. Escutei-me num impulso: “a senhora é muito bonita!” Sorriu instantaneamente. Agradeceu o elogio e fez logo perguntas. Continuámos juntas pela avenida principal abaixo. Ao perceber que viajava sozinha, perguntou se era casada; que não; que idade tinha: “pensei que tivesse para aí vinte anos!” Oh que gentil; agradecia a sua simpatia e o conselho que entretanto não se cansava de repetir: “é muito perigoso andar sozinha à noite, deve retornar ao hotel o quanto antes”. No final da avenida segui o seu conselho, depois de nos despedirmos bem-dispostas com os cumprimentos mútuos.
Antes de subir ao quarto fui à recepção: fiz a reserva para a Estrada da Morte! Ao chegar ao quarto conheci o Ron e o Todd. Foi com o primeiro que a empatia cresceu, o segundo grunhiu boa tarde sem levantar o olhar. O Ron, americano, apresentou-se como alpinista e a conversa rapidamente se desenvolveu. Sugeriu participar na visita guiada a pé pela ruas de La Paz no dia seguinte. Acontece duas vezes por dia e é grátis! Aceitei!
Na manhã seguinte, ao pequeno-almoço encontrei um rapaz que vira no albergue de Cusco. Conversámos. Ou melhor, ele falou, falou, falou. Um inglês com uma pronúncia tão cerrada que me observei em esforço para o compreender. Não era fácil. A sua voz nasalada e em tom monocórdico era difícil de acompanhar. Como um fio a desenrolar-se de um novelo e tocando num arame, arranhando o ar. Perguntei-lhe se queria acompanhar-nos na visita guiada. Que sim, porque não? À hora de saída estava no seu quarto deitado. Mudara de ideias. O Ron agradeceu; escutara a sua voz durante parte da manhã desde a sala de refeições, a vinte metros de distância da nossa camarata, e a sua pele lisa e morena estava cansada dos arranhões do inglês.
Quem iria ter connosco, disse o Ron enquanto descíamos a avenida até à praça da prisão de La Paz onde se iniciaria a visita, seria o nosso companheiro de quarto. O Todd, o australiano que dormia por baixo de mim. Era o meu vizinho no beliche que me calhou. Pouco mais de quarenta anos – o Ron tinha cinquenta; idades que me vão demonstrando que os sonhos de viajantes são intemporais. O meu “Ok” à sua presença foi sem muita convicção. Ouvira apenas uma espécie de grunhidos da parte do australiano até ao momento.
Enquanto me instalava no dia anterior o Todd não tirou os olhos do Ipad. Estava eu às voltas a perceber como me arranjaria com tão pouco espaço. Não sendo uma estreia alojar-me em albergues e dormitórios mistos, era a primeira vez que me calhava uma cama superior (só na altura), e o respectivo armário, com a mesma característica. O que significa que o espaço era ainda menor para me mover e arrumar as coisas.
Algum tempo depois da visita se ter iniciado e depois de escutarmos as histórias hilariantes da prisão de La Paz, apareceu o Todd. Juntava-se a nós muito satisfeito. O seu atraso devera-se à necessidade de comprar umas botas de montanha. Um requisito essencial para quem, como nós, gosta de caminhar nas montanhas. Pelos vistos, também o Todd apreciava esse tipo de cenário. À medida que a manhã se desenrolava pelas ruas e ruelas de La Paz, entre as quais a rua das bruxas, a minha opinião em relação ao Todd ia-se alterando. Em particular depois de dizer que no dia seguinte iria descer a Estrada da Morte de bicicleta. “Eu também!” – eu.
Diverti-me muito nessas horas pelas ruas de La Paz. A história da prisão de San Pedro é rocambolesca. Pelo que as duas guias jovens e de boné vermelho e muito simpáticas e bem-dispostas contaram, a prisão era um ponto turístico até há uns anos. Realizavam-se visitas organizadas ao estabelecimento prisional, que mais se assemelhava a uma vila vigiada entre muros. As pessoas aí encarceradas pelos seus maiores ou menores delitos têm de pagar renda. Ora, grande parte das famílias dessas pessoas é pobre, não tendo recursos para suportar duas rendas. Havia que resolver a situação. O presidiário vive com a sua família entre muros. Contava uma guia que as famílias organizavam o seu quotidiano de acordo com as suas necessidades. Assim sendo, a prisão de San Pedro transformou-se numa aldeia de mercadores. Os cafés com esplanadas, as mercearias, e todo o comércio necessário ali existe. A circulação de bens e dinheiro é evidente. Outros produtos circulam de forma mais velada, como o pó branco; o produto mais procurado dentro e fora de grades. Uma das razões que conduziram ao fim das visitas turísticas.
Ficámos igualmente a saber que quanto mais rica for a pessoa presa, mais conforto pode pagar. O dinheiro compra tudo, desde o espaço na cela, aos objectos e à mais avançada tecnologia. O quarto de algum ilustre criminoso teria uma televisão da última geração, só para dar um exemplo.
No mercado de La Paz conheci mil e uma variedades de batatas. Percebia então a potência energética das sopas que comera até ao momento, com vários tipos desses tubérculos – amarelos, vermelhos, cor-de-laranja, com dimensões muito diversas.
Foi na rua das bruxas que o Todd se juntou a nós, muito sorridente com os dentes mais brancos que alguma vez vi – “e são todos meus, nunca tive um dente careado”; revelou no dia seguinte enquanto tomávamos o pequeno-almoço. Nessa altura, a minha opinião sobre o australiano já se alterara sobremaneira.
Na rua da bruxaria, os escaparates eram surreais. Animais mortos e embalsamados pendurados por um fio à entrada das lojas. Pequenos altares com os objectos, imagens e poções mágicas, outros elementos comuns às lojas. Foi sentados no chão de um outro mercado que nos rimos com as histórias de rituais dos bolivianos para apaziguar os medos. Desse lugar avistávamos um dos edifícios mais famosos de La Paz, acerca da construção do qual as jovens guias se detiveram em pormenores escabrosos. 
Existe um bairro manhoso nas imediações do cemitério da cidade – uma visita obrigatória que não falhei: isso foi dois dias depois com o Todd. Naquele bairro ‘moram’ muitas pessoas que de pessoas humanas pouco lhes resta. A sua decadência é tal, que os operários do tal edifício, antes de erguerem a primeira pedra, ali foram para encontrar o seu sacrifício. Ofereceram bebidas e mais bebidas a um dos ‘habitantes’ do bairro até que entrasse em estado abaixo de ébrio. A intenção: surripiá-lo para o seu sacrifício. Como? Enterrando-o vivo debaixo das primeiras pedras e assim dotar a construção do edifício de bom augúrio. Se é verdade ou não, não sei. Costuma dizer-se que onde há fumo, há fogo. A incursão pela zona comercial anterior criou-me, pelo menos, a dúvida.
A visita guiada terminou num bar da zona mais in da cidade. Enquanto saboreávamos um licor, as guias discorriam sobre o relógio do palácio do parlamento com as horas ao contrário, bem como sobre as razões do país ter mudado de nome várias vezes, alterando-se consequentemente a constituição. Desse modo, o presidente pode continuar a ‘reinar’ o país sem óbices. O mesmo presidente que desenvolvia políticas de promoção da natalidade que para nós seriam consideradas criminosas.
Continua...