A estrada da Morte - Parte I








O autocarro saiu de Copacabana (Bolívia) às duas da tarde (meia hora atrasado... nada de estranho) e estacionou em La Paz às cinco e um quarto. A Bolívia não fazia parte dos planos quando viajei para a América Latina em 2014. Não é que tivesse muitos planos, mas esse país não fazia parte da minha ‘lista’ de países imperdíveis.
Fui a Copacabana para conhecer o Lago Tititaca – o lago mais alto do mundo, a quase quatro mil metros de altitude. Estando no Peru, poderia tê-lo feito nesse país, mas a Hanaku, uma japonesa linda do meu grupo de trekking ao Machu Picchu (fica para outra ocasião), fez-me essa sugestão. Estou muito grata por tê-la escutado. Isso permitiu-me conhecer a Ilha do Sol, o berço da civilização Inca.
No dia seguinte a ter chegado a Copacabana, apanhei o barco das oito da manhã para a Ilha do Sol. Uma hora e meia depois contemplando as águas calmas e muito azuis, e conversando com o Paulo (um viajante brasileiro muito simpático que nos tirou uma selfie), desembarquei para um longo passeio. Pela primeira vez estive frente a frente com alpacas. Que animais tão fofos e com um ar tão amistoso e simultaneamente curioso. Não resisti a enviar fotografias ao muito querido Gonçalo.
Merendei num dos montes, debaixo de uma oliveira. A beleza do cenário extasiava-me, o silêncio abraçava-me. Apenas entrecortado pelo canto dos pássaros e o zumbido dos insectos. À sombra da oliveira, descansava da caminhada, enquanto admirava os papagaios de papel muito coloridos que pintavam o céu limpo, muito azul. De quando em vez, a orquestra tinha o acompanhamento do zurrar dos burros. A paz que sentia era extraordinária; depreendo que também se devesse à energia do local. Tudo estava bem. Um dia perfeito que terminou sentada à beira-lago, emocionada com o sol muito dourado a despedir-se até amanhã. Um quadro deslumbrante preenchido pelo aroma de maresia, avistando a cordilheira dos andes. O fogo no céu era apaziguado por uma tira de nuvens que contornava os cumes pintados de branco.
No dia seguinte decidi ir para La Paz; se estava na Bolívia era obrigatório ir à capital. As fotografias que vi há muitos anos da Estrada da Morte: o mote. Queria ver com os próprios olhos a estrada com mais acidentes contabilizados até à data. Tal acontecia pela estreiteza da estrada; uma largura exígua para dois veículos circularem em simultâneo. Resultado: carros a tombarem que nem tordos dos precipícios – o prato do dia. Foram necessárias muitas mortes para que finalmente a estrada fosse encerrada. Hoje em dia está aberta apenas para circulação de pessoas a pé e de bicicleta – o meu objectivo: descer essa estrada de bicla!
À janela do autocarro despedi-me em sorriso do Lago Tititaca. Estava cheia. Uma hora depois de sairmos houve uma paragem. Não foi bem uma paragem; saí do autocarro para atravessar o estreito de Tiquina de lancha. O resto da viagem foi em conversa com o vizinho do lado, o Bryan. Um americano em viagem sem termo certo...
Do terminal de autocarros de La Paz, dirigi-me a pé para o albergue Pirwa. Escolhi este albergue por ter uma referência. Foi num da mesma linha que fiquei em Cusco, no Peru. Em equipa que ganha não se mexe; além disso, a sua localização agradava-me. Muito próximo do terminal de autocarros, bem como do centro da cidade. Um pormenor deveras relevante para quem viaja de mochila às costas e para quem não quer desperdiçar recursos em táxis. Ainda mal terminara de fazer o check in no albergue e solicitava informações sobre a Estrada da morte!
Às seis e meia da tarde estava novamente na rua para um primeiro reconhecimento da cidade. O impacto foi instantâneo. Quase assombrada, não fosse ter alguns laivos pelos dez minutos desde o terminal até ao alojamento. O cheiro do trânsito intenso inundava as narinas e encharcava os ouvidos. As manchas de gente e a camada visível de poluição ofuscavam os olhos. Até que parei numas escadarias e o olhar elevou-se e o sorriso abriu-se amplamente. O lusco-fusco era já uma realidade e do alto das escadas avistava a cordilheira andina com um manto de neve a brilhar sob o sol dourado.
A três mil metros de altitude, as pernas pediam calma e sentei-me para apreciar os vários grupos de jovens que ocupavam os lanços de escadas. Cada grupo tinha o seu gravador com música hip hop a tocar. Dançavam e construíam coreografias de danças urbanas. Estava agradavelmente surpreendida pelo empenho e o à-vontade dos miúdos.
Prossegui o meu reconhecimento por entre a multidão, observando as lojas e restaurantes, cuja oferta para além de frango era frango; pollo desta e daquela maneira e outra qualquer que não vislumbrava. Como sentar-me num restaurante não era opção, o meu olhar detinha-se nas pessoas. E parou numa senhora linda.
No meio de tanta e tanta gente, reparei numa mulher com cerca de sessenta anos. A sua postura altiva transformava os seus cento e cinquenta centímetros em quase dois metros. A senhora cuidadosamente vestida e penteada, de lábios vermelhos recentemente retocados reparou que eu reparei nela. Escutei-me num impulso: “a senhora é muito bonita!” Sorriu instantaneamente. Agradeceu o elogio e fez logo perguntas. Continuámos juntas pela avenida principal abaixo. Ao perceber que viajava sozinha, perguntou se era casada; que não; que idade tinha: “pensei que tivesse para aí vinte anos!” Oh que gentil; agradecia a sua simpatia e o conselho que entretanto não se cansava de repetir: “é muito perigoso andar sozinha à noite, deve retornar ao hotel o quanto antes”. No final da avenida segui o seu conselho, depois de nos despedirmos bem-dispostas com os cumprimentos mútuos.
Antes de subir ao quarto fui à recepção: fiz a reserva para a Estrada da Morte! Ao chegar ao quarto conheci o Ron e o Todd. Foi com o primeiro que a empatia cresceu, o segundo grunhiu boa tarde sem levantar o olhar. O Ron, americano, apresentou-se como alpinista e a conversa rapidamente se desenvolveu. Sugeriu participar na visita guiada a pé pela ruas de La Paz no dia seguinte. Acontece duas vezes por dia e é grátis! Aceitei!
Na manhã seguinte, ao pequeno-almoço encontrei um rapaz que vira no albergue de Cusco. Conversámos. Ou melhor, ele falou, falou, falou. Um inglês com uma pronúncia tão cerrada que me observei em esforço para o compreender. Não era fácil. A sua voz nasalada e em tom monocórdico era difícil de acompanhar. Como um fio a desenrolar-se de um novelo e tocando num arame, arranhando o ar. Perguntei-lhe se queria acompanhar-nos na visita guiada. Que sim, porque não? À hora de saída estava no seu quarto deitado. Mudara de ideias. O Ron agradeceu; escutara a sua voz durante parte da manhã desde a sala de refeições, a vinte metros de distância da nossa camarata, e a sua pele lisa e morena estava cansada dos arranhões do inglês.
Quem iria ter connosco, disse o Ron enquanto descíamos a avenida até à praça da prisão de La Paz onde se iniciaria a visita, seria o nosso companheiro de quarto. O Todd, o australiano que dormia por baixo de mim. Era o meu vizinho no beliche que me calhou. Pouco mais de quarenta anos – o Ron tinha cinquenta; idades que me vão demonstrando que os sonhos de viajantes são intemporais. O meu “Ok” à sua presença foi sem muita convicção. Ouvira apenas uma espécie de grunhidos da parte do australiano até ao momento.
Enquanto me instalava no dia anterior o Todd não tirou os olhos do Ipad. Estava eu às voltas a perceber como me arranjaria com tão pouco espaço. Não sendo uma estreia alojar-me em albergues e dormitórios mistos, era a primeira vez que me calhava uma cama superior (só na altura), e o respectivo armário, com a mesma característica. O que significa que o espaço era ainda menor para me mover e arrumar as coisas.
Algum tempo depois da visita se ter iniciado e depois de escutarmos as histórias hilariantes da prisão de La Paz, apareceu o Todd. Juntava-se a nós muito satisfeito. O seu atraso devera-se à necessidade de comprar umas botas de montanha. Um requisito essencial para quem, como nós, gosta de caminhar nas montanhas. Pelos vistos, também o Todd apreciava esse tipo de cenário. À medida que a manhã se desenrolava pelas ruas e ruelas de La Paz, entre as quais a rua das bruxas, a minha opinião em relação ao Todd ia-se alterando. Em particular depois de dizer que no dia seguinte iria descer a Estrada da Morte de bicicleta. “Eu também!” – eu.
Diverti-me muito nessas horas pelas ruas de La Paz. A história da prisão de San Pedro é rocambolesca. Pelo que as duas guias jovens e de boné vermelho e muito simpáticas e bem-dispostas contaram, a prisão era um ponto turístico até há uns anos. Realizavam-se visitas organizadas ao estabelecimento prisional, que mais se assemelhava a uma vila vigiada entre muros. As pessoas aí encarceradas pelos seus maiores ou menores delitos têm de pagar renda. Ora, grande parte das famílias dessas pessoas é pobre, não tendo recursos para suportar duas rendas. Havia que resolver a situação. O presidiário vive com a sua família entre muros. Contava uma guia que as famílias organizavam o seu quotidiano de acordo com as suas necessidades. Assim sendo, a prisão de San Pedro transformou-se numa aldeia de mercadores. Os cafés com esplanadas, as mercearias, e todo o comércio necessário ali existe. A circulação de bens e dinheiro é evidente. Outros produtos circulam de forma mais velada, como o pó branco; o produto mais procurado dentro e fora de grades. Uma das razões que conduziram ao fim das visitas turísticas.
Ficámos igualmente a saber que quanto mais rica for a pessoa presa, mais conforto pode pagar. O dinheiro compra tudo, desde o espaço na cela, aos objectos e à mais avançada tecnologia. O quarto de algum ilustre criminoso teria uma televisão da última geração, só para dar um exemplo.
No mercado de La Paz conheci mil e uma variedades de batatas. Percebia então a potência energética das sopas que comera até ao momento, com vários tipos desses tubérculos – amarelos, vermelhos, cor-de-laranja, com dimensões muito diversas.
Foi na rua das bruxas que o Todd se juntou a nós, muito sorridente com os dentes mais brancos que alguma vez vi – “e são todos meus, nunca tive um dente careado”; revelou no dia seguinte enquanto tomávamos o pequeno-almoço. Nessa altura, a minha opinião sobre o australiano já se alterara sobremaneira.
Na rua da bruxaria, os escaparates eram surreais. Animais mortos e embalsamados pendurados por um fio à entrada das lojas. Pequenos altares com os objectos, imagens e poções mágicas, outros elementos comuns às lojas. Foi sentados no chão de um outro mercado que nos rimos com as histórias de rituais dos bolivianos para apaziguar os medos. Desse lugar avistávamos um dos edifícios mais famosos de La Paz, acerca da construção do qual as jovens guias se detiveram em pormenores escabrosos. 
Existe um bairro manhoso nas imediações do cemitério da cidade – uma visita obrigatória que não falhei: isso foi dois dias depois com o Todd. Naquele bairro ‘moram’ muitas pessoas que de pessoas humanas pouco lhes resta. A sua decadência é tal, que os operários do tal edifício, antes de erguerem a primeira pedra, ali foram para encontrar o seu sacrifício. Ofereceram bebidas e mais bebidas a um dos ‘habitantes’ do bairro até que entrasse em estado abaixo de ébrio. A intenção: surripiá-lo para o seu sacrifício. Como? Enterrando-o vivo debaixo das primeiras pedras e assim dotar a construção do edifício de bom augúrio. Se é verdade ou não, não sei. Costuma dizer-se que onde há fumo, há fogo. A incursão pela zona comercial anterior criou-me, pelo menos, a dúvida.
A visita guiada terminou num bar da zona mais in da cidade. Enquanto saboreávamos um licor, as guias discorriam sobre o relógio do palácio do parlamento com as horas ao contrário, bem como sobre as razões do país ter mudado de nome várias vezes, alterando-se consequentemente a constituição. Desse modo, o presidente pode continuar a ‘reinar’ o país sem óbices. O mesmo presidente que desenvolvia políticas de promoção da natalidade que para nós seriam consideradas criminosas.
Continua...

Porque demoras?

McGinnis - via ondiraiduveau (flickr)


E assim se (re)começa. A paixão é o seu alimento. Despertou sem que o desejasse. Preferia o sono. O sol entrava inadvertidamente pelos espaços em aberto. A claridade eram sombras que na parede desenhavam almas em movimento.
A cama inóspita não está isenta de culpa e Margarida saiu para o mar. O azul índigo no olhar reflectia a paz de António.
-       António, porque demoras?
-       E não sabes tu que esperar é uma arte que se aprende... devagar? – a resposta que se desprendeu na areia ao ser beijada pelas primeiras ondas da manhã.
-        António, porque demoras?
-       E não sabes tu que o tempo é intemporal e que a tua pele se senta... devagar? – a resposta que se sucedeu na vaga da primeira maré.
-       António, porque demoras?
-       E não sabes tu que o amor te toca... devagar?
Sim, sabia, Margarida. Sabia, mas não sentia.
-       O que é o amor, António?
-       É a poesia transformada em gesto. É o olhar transposto na palavra certa. É o aroma da maresia no poente.
-       Oh, António, não sei do que falas, se não me abraças no teu colo. Não sei do que sentes se não me beijas com as mãos.
E assim se (re)começa o dia em que a noite ficou sepultada no colchão negro. Margarida elevou a mão conduzida pelo braço esquerdo. Queria respirar o oxigénio de António. A urgência que ainda não fora concretizada.
-       António, porque demoras?
-       E não sabes tu que nunca fui embora? Porque me chamas se estou aqui? Sempre!
Imóvel, acocorada à beira-mar, tendo o horizonte no olhar, Margarida esperava. Esperar. Saber esperar...
Saber esperar que o horizonte seja alcançável é a confiança vivida. Saber esperar, o sinónimo de confiar. Margarida sabe, mas não sente. Ainda aprende a confiar.
-       António, porque demoras?
-       Banalidades. Margarida, banalidades. Os teus sapatos pretos de verniz contrastam com as minhas sandálias de corda. O teu Inverno, a minha Primavera. Confia que os teus botões em breve te resgatarão ao amarelo das tuas pétalas. Quando desabrochares – devagar – verás como a confiança te renovou, te renasceu. Banalidades. Margarida, banalidades. As tuas pétalas receberão, serenas, as abelhas ávidas e serás, então, o pólen da vida. E não sabes tu que o mar está sempre no seu lugar e é sempre novo em cada vaga de ondas, em cada cardume que o trespassa em migração?
Margarida fechou os olhos, recostando-se placidamente na areia. Os pés, agora, nus, permitem a água salgada na ressonância de um murmúrio. Esperar, pensar... e amar?
-       O que é amor, António?
-       É uma carta perdida. Palavras não lidas que apenas podem ser vividas. É um selo sem cola que se desprende na brisa. É um envelope sem remetente que busca o destinatário perfeito.
-       Não demores, António, que não sei esperar. Ainda. O verbo parou e estou pálida sem a cor do teu abraço em beijo. Vem, que a lua é nova e eu cada vez mais velha. Chega, que as estrelas brilham e o olhar vai-se tornando opaco. Fica, que os meus braços estendidos são as pernas que se afundam e eu sem saber, sem sentir... o que é amor.

 

Os óculos do Creoula - parte II

Em Agosto desse ano fiz a minha primeira viagem sozinha. Quer dizer, mais ou menos. Inscrevi-me para embarcar no navio-escola Creoula da Marinha Portuguesa, através da associação Juvemedia. Onze dias no mar, integrada num grupo de jovens que me eram totalmente desconhecidos. Não fazia a mínima ideia do tipo de pessoa que iria encontrar.
Antes de embarcar, no dia 19 de Agosto, e por sugestão do meu chefe – “Oh Ana, eu acho que devia pintar o cabelo...” (referia-se à cor natural, presumo) – decidi retocar o look vamp. Descolorei o cabelo novamente! Dessa vez não pintei nenhuma cor sobre o oxigenado. O efeito foi diferente. Talvez pelo facto de o cabelo estar mais frágil, a tonalidade resultante foi... alaranjado! Do esverdeado ao cinzento para o loiro e então alaranjado... Isso foi apenas nos primeiros dias. Rapidamente fiquei loiríssima novamente. E com uns óculos muito fashion.
A minha querida amiga P. é que fez o carinho de me levar ao cais da marinha. Um dos objectivos do Creoula é divulgar a vida no mar a bordo de um lugre de quatro mastros, através deste tipo de iniciativa. Ali estavam cinquenta jovens, distribuídos por vários grupos, que ao longo desses dias desempenharam as diversas tarefas dos Quartos. Cada grupo de instruendos – assim éramos designados – rodava nas funções dentro dos Quartos. Ao soar da alvorada, às sete da manhã, cada grupo dirigia-se para a sua nova função: leme, vigia à proa, ponte ou navegação, cozinha, limitação das avarias (o que na gíria era ir para a casa das máquinas) e refeitório – basicamente limpezas, sobretudo das casas-de-banho. Também tínhamos várias fainas ao longo do dia.
Em relação às camaratas (uma para as raparigas e outra para os rapazes) cada um tratava da sua parte. Fiquei numa cama superior. Tinha uma ou duas raparigas por baixo de mim.
O meu grupo era o dos mais velhos. A maior parte dos elementos conhecia-se entre si; eram quase todos de Aveiro. O H. também. A minha paixão assolapada durante essa viagem. Os seus olhos verdes de carneiro mal-morto atravessavam-me e eu só o via a ele. Como aliás costuma acontecer. Sempre que me apaixono é perdidamente. O H. não foi excepção.
Uma das noites mais bonitas da minha vida foi a bordo do Creoula. O grupo estava todo deitado na proa a contar estrelas no céu, que estava tremendamente limpo. Nunca vi tantas estrelas. O alto mar é o cenário ideal para essa contemplação e como é óbvio isso não nos passava ao lado.
O barco atracou em algumas cidades. Uma delas foi Ceuta. Ainda tenho um colar que aí comprei – em tons de cor-de-rosa – enquanto passeávamos pela mais moura cidade espanhola. O Hardrock Cafe foi paragem obrigatória. O passeio marítimo com os azulejos coloridos está guardado no baú da memória.
Foi nessa cidade que vi pela primeira vez homens hetero de mão dada. Os muçulmanos são muito afectuosos. Ou antes, demonstram facilmente os afectos entre si, pelo menos entre homens.
A última paragem foi na praia de Portimão. Foi a desbunda total. Estavam lá uns amigos do J. Tive oportunidade para outra estreia, também no mar. O J. dominava o catamaran e levou-me na embarcação de um amigo seu. A mim, ao H., e a outros do grupo, num passeio no mar. Foi tão bom! Estava um dia lindo. Em Agosto, como é habitual, a praia do Algarve estava repleta de gente. E nós éramos mais um grupo: ávido de muitas aventuras.
Talvez não tão ávidos assim. Pelo menos quando se dá o caso da temperatura estar próxima dos quarenta graus. Tal sucedeu antes de Portimão. O Creoula também atracou em Alicante, dias antes. Nesse dia estava um autocarro à espera dos creolinos para conhecer em Sevilha. Agosto é o pior mês para visitar essa cidade. Quase toda a gente sabe isso. Eu não sabia. Mas acreditava nos meus novos amigos.
O nosso grupo decidiu então desertar por um dia da Marinha. Ficámos em terra a observar o autocarro cheio de gente mais nova que nós a olhar pela janela. E nós sempre a olhar pelo canto do olho... para a praia de Alicante. Apanhámos outro autocarro, daqueles hop-on-hop-off e fomos para a praia e rapidamente nos estatelámos na areia.
Em Alicante a água era convidativa. Muito. De modo que foi à pressa, sem pensar no que tinha no corpo, que mergulhei. Só quando emergi me lembrei. Os ósculos CD, cor-de-rosa! Mergulhei de óculos! E os óculos ficaram mergulhados. Nunca mais os vi... Naquele momento petrifiquei. Era então uma creolina loira muito triste. Já não era a mesma sem os óculos cor-de-rosa da CD.
O H., muito amoroso, ofereceu-me os seus para o resto da viagem. O H., com a sua toalha às riscas azul e branca enrolada na cabeça, é uma das imagens vívidas que conservo. Um marajá das índias, um sultão das arábias. Foi nesse dia que nos colámos com o primeiro beijo.
Quando voltámos ao barco, após tantas horas em terra, cometemos um erro crasso de principiantes. Não tomámos pastilhas contra o enjoo - tomara uma antes de embarcar em Lisboa. Coincidência ou não, essa foi a noite em que o mar mais se ondulou. Era ver a loiça na messe de um lado para o outro, nas mesas a inclinarem-se, enquanto preparávamos pela primeira vez o que viria a ser a nossa bebida de viagem: os creolinos. A versão sem álcool do mojito cubano. “Vai um creolino?” Além dos creolinos tínhamos a música para celebrar essa cultura. Alguém tinha um CD com músicas latino-americanas que tocava em modo contínuo, para dançarmos e cantarmos. Era um fartote!
Nessa noite, porém, o meu Quarto não correu muito bem. Estava na vigia à proa. O mar estava revolto. E tive de ir para a messe. As mesas mexiam-se muito para os meus olhos. Os pratos a deslizarem de um lado para o outro aumentaram o meu mal-estar. O estômago pensou o mesmo e revoltou-se. Os creolinos também devem ter tido a sua quota de responsabilidade. E o estômago não aguentou. Enjoei. Fiquei muito enjoada. Tão enjoada que virei o barco no barco.
No dia 30 de Agosto, ainda com os óculos do H., e não com os CD, desembarquei no mesmo cais de onde parti. Ainda mais loira. Já se sabe o que o sol faz. Se a fotografia da praxe mostra uma rapariga bem-disposta sob um céu exuberantemente azul, cálculo que os óculos os cor-de-rosa lhe dariam ainda mais glamour. O bronzeado era outro elemento a dar cor e alegria à fotografia. Foram dias memoráveis. Obrigada H. e a todos os amigos de Aveiro. Adorei!
De todos os creolinos apenas o H. é hoje ‘amigo’ no Facebook. Mas nos meses seguintes fui várias vezes a Aveiro. Não apenas por ele. Também para participar nos jantares que se organizaram com periodicidade. Um deles foi em casa do J. Convidou uma amiga sua para uma sessão de slides fotográficos. Passámos um serão muito interessante. Pasmávamos extasiados com as fotos e as histórias que ela contava. A sessão era dedicada à sua viagem de barco até à Antártida!
Em Agosto do ano passado (2014), o Creoula esteve atracado no cais da Ribeira. Nesses dias recebia a visita de uma amiga perdida dos tempos dos Olivais. Eu e a I. entrámos no navio e tirámos fotografias para a posteridade e que me transportaram para esse tempo creolino... e cor-de-rosa.

Os óculos do Creoula - parte I



Em 2000 eu tinha a mania que era muito fashion. Foi nesse ano que fiz o que muitos ainda hoje consideram uma loucura: descolorei o cabelo. Duas vezes seguidas! Em Maio desse ano, num Sábado à tarde, véspera de o Sporting se consagrar campeão nacional, depois de dezoito anos de jejum, fui ao cabeleireiro. Vá-se lá saber porquê, quis pintar o cabelo de cinzento.
Nessa época usava um corte curto e gostava de me sentir diferente. Como tal, nada melhor que ter um look distinto. Como? De cabelo cinzento. O meu cabelo é castanho claro. Para obter a cor escolhida era necessário, de acordo com a cabeleireira, descolorar primeiro o cabelo, para então pintar o cabelo da cor das pessoas velhas.
Passei essa tarde sentada no cabeleireiro. A tinta não pegou à primeira. Tentou-se segunda vez. Nessa noite, a primeira da queima das fitas, tinha jantar com os colegas de curso. Quando cheguei ao restaurante, o Meidin da Rua Cinco de Outubro, ficaram todos especados a olhar para mim. Incrédulos. O meu cabelo, afirmavam estupefactos, estava esverdeado. Bom, pelo menos tinha alcançado o objectivo: ser diferente. Talvez demais.
Era noite do concerto dos The Gift no queimódro. Seguimos para lá depois do jantar. Toda a gente olhava para mim. A noite estava muito iluminada, previsivelmente. Comecei a achar que se calhar o meu cabelo teria algo realmente estranho. Ao olhar para o espelho concordava que havia uma leve tonalidade verde. “O teu cabelo está verde!” – era um exagero aos meus olhos.
Domingo. Último jogo do campeonato: Salgueiros – Sporting. Os bilhetes eram caríssimos. Não fui ver o jogo. Antes do jogo acabar, eu, o meu irmão e a sua namorada estávamos no exterior do estádio. Sendo ela portista ferrenha, não nos acompanhou nos cânticos de guerra: “Sporting Alê!”; “Só eu sei porque não fico em casa”.
Não fiquei em casa, mas teria sido melhor. O que me valeu foi a versatilidade do cachecol de campeão, que enrolei à cabeça para tapar o cabelo... que cada vez me parecia mais verde.
Na segunda-feira fui trabalhar... mas pouco. Um colega com quem me dava bem, ao ver-me desatou a rir: “o teu cabelo está verde! É por causa do Sporting?!” Uma interrogação que soou mais a afirmação e a declarada gozação. Foram poucos na faculdade que me viram de cabelo verde. Uma das pessoas foi o meu chefe. Poucas pessoas, mas as suficientes para se contar a história até hoje que a Ana Luísa pintou o cabelo de verde por promessa. Ao fim de dezoito anos o Sporting era finalmente o campeão nacional.
Vergonha: o meu estado. Nem uma hora fiquei na faculdade e fui dar uma volta ao parque da cidade. Com um lenço na cabeça: fundamental! À tarde voltei ao cabeleireiro. Após algumas horas lá atingi o que pretendia: cabelo cinzento.
Se cabelo verde é estranho, não é menos estranho ser cinzento: de propósito. Um choque para toda a gente. Como é que é possível alguém lembrar-se de pintar o cabelo dessa cor? A única explicação que até hoje encontro é a inicial: ser diferente e mostrar que efectivamente era diferente.
Dizem os astros que pessoas do meu signo - para quem acreditar nessas coisas, claro está - tendem a nascer velhas e que ao longo da vida é que se vão tornando mais jovens, quiçá até à infância. Uma teoria que em muito me agrada, pois ajuda-me a acreditar que sim, é possível ser infantil quando e como quiser.
Na época em que o meu cabelo se tornou cinzento, tinha vinte e seis anos. Não parecia uma velhinha e até gostei do resultado. Apreciei sobretudo a consequência do acto. O cinzento rapidamente desapareceu. A tinta não era realmente tinta. Era um produto que vai saindo com as lavagens (as mulheres sabem ao que me refiro).
Nessa época era instrutora de fitness e não era raro necessitar de lavar o cabelo mais que uma vez por dia. O cinzento deu lugar a outra tonalidade. Fiquei loira! Loira, de cabelo curto.
O meu chefe: atónito. Uma loira oxigenada no seu gabinete. Eu trabalhava há meia dúzia de meses na faculdade e já era o centro das atenções. Na sua opinião, pelo pior motivo possível. Loira! A música do Gabriel, o pensador era recente. E o meu chefe tinha a forte convicção - pelo menos assim me parecia - que o estereótipo tinha a sua razão de ser. Essas piadas não me afectavam. Em tom de brincadeira até me ajudam em alguns momentos de pensamento mais lento e quando não compreendo o que me dizem: “tens que me trocar isso por miúdos” ou “tens de me fazer a legenda... resquícios do meu tempo de loira”. Não obstante, nunca me senti limitada no que à inteligência diz respeito. Os burros são animais muito amorosos. Em Portugal existem várias associações com a missão de preservar a sua espécie. Estava loira, orgulhosamente loira.
À medida que o cabelo ia crescendo a raiz escura ia-se notando. Esse efeito também me agradou. Usava gel. Raiz escura com pontas loiras. O contraste era grande. O castanho claro parecia mais escuro com o loiro oxigenado. Era o máximo. Assim me sentia. E era isso que também gostava de transmitir. Através da imagem. Os acessórios eram, por isso, cuidadosamente escolhidos. O meu salário era mais que suficiente e também era, muito, para isso que servia.
‘Precisava’ de óculos escuros. Maio, Junho... Essencial. Desejava uns óculos que revelassem a minha personalidade distinta. Encontrei um modelo perfeito. Com lentes rectangulares, com dois dedos de largura (só para registo: a minha testa tem mais de quatro dedos de largura), da marca Christian Dior (CD) e cor-de-rosa, quase a roçar o salmão. Uau! A expressão que escutava interiormente ao mirar-me no espelho. Loira com óculos escuros cor-de-rosa e da CD!
Continua...

Verdades...*


Quantas mentiras terei pregado ao longo dos anos no dia 1 de Abril?
Foi na infância que mais me diverti a enganar alguém nesse dia. Todavia, quase sempre fui eu quem foi tomada à certa, sendo ingenuamente enganada com uma mentira inocente. Haverá mentiras inocentes?
Quando estive na Austrália, conheci um homem – o Des – que à pergunta “é feliz?”, respondeu firme e peremptoriamente: “o mais importante para mim é a verdade. Doa a quem doer”. Claro que este ‘doa a quem doer’ é uma expressão portuguesa. Terá sido o que Des queria dizer ao afirmar: “para mim o mais importante é a verdade”.
Ora, há muitas verdades. A minha verdade, que resulta das minhas experiências, da minha vida. A verdade de todas as outras pessoas, com vidas distintas da minha. A verdade, diz-se actualmente, é relativa. Com efeito, a perspectiva com que cada pessoa observa um ‘facto’ concede-lhe isso mesmo: a sua perspectiva. Daí que seja comum escutar-se: a verdade depende da perspectiva.
De qualquer modo, ao ouvir muitas conversas, observo com frequência que não só cada pessoa possui a sua verdade, como considera a sua como a única verdade.
A Verdade, aquela que será eventualmente a única Verdade, só é possível de sentir. Essa Verdade é intransmissível por palavras. Será, a meu ver, indizível. Há instantes tão intensos de plenitude existencial que a única coisa que me ocorre dizer é: “É ISTO!” Como quando nasceu o meu sobrinho Gonçalo e o peguei pela primeira vez – imagino que as mães sintam muito essa Verdade ao longo da sua vida. Como quando abraço alguém muito querido. Como quando contemplo o nascer do sol, umas vezes em lugares muito especiais como o Pico do Arieiro, outras vezes tão perto como o Parque da Cidade do Porto. Ou como quando observo o pôr-do-sol à beira-mar de uma praia deserta. Ou simplesmente quando consigo escutar o silêncio no deserto.
Talvez por isso, para mim, não faça muito sentido discutir acerca de quem tem razão ou não, de quem possui ou não a verdade. Além do mais, evito impôr a minha verdade. Cada pessoa tem a sua forma de pensar, de sentir. Cada pessoa é livre de ser como é, ou pelo menos tem a liberdade de ser como quer ser e de pensar o quer pensar. E novamente o tema da liberdade...
Pese embora já me tenha detido sobre este tema mais do que uma vez, queira o leitor ou leitora ser compassivo comigo. Sou incapaz de passar ao lado da comemoração da liberdade em Portugal. O dia 25 de Abril continua a ser, para mim, uma das datas mais importantes a comemorar, a lembrar, a celebrar e, sobretudo, a viver!
O mês de Abril é fértil em datas relevantes. Além do dia da Liberdade, não será demais lembrar o da Liberdade de Imprensa (no dia 13). Muito se tem discutido sobre o assunto, em particular a propósito do semanário francês de Charlie Hebdo. Como referi anteriormente, não discuto opiniões. O que para mim mais sobressai no que a esse assunto concerne, é a questão da Liberdade universal. Quando reivindico a liberdade de ser, pensar e escrever o que quero, lembro-me de um princípio fundamental: a minha liberdade termina quando começa a dos outros. O que implica necessariamente outro princípio elementar: o do respeito por todos os seres vivos.
O respeito pelo planeta também... O dia da Terra é a 22 deste mês. Temos, pois, mais uma oportunidade para reflectir acerca de como melhor agir, se queremos um futuro não apenas para nós, mas para os que ainda virão.  
 O conceito de Respeito é muito vasto e abarca quase todas as dimensões da vida humana. Uma das formas de o viver, por exemplo, é o de considerar o trabalho de todos os artistas. O dia dos direitos de autor – e do livro – envolve essa mesma dimensão. E como tantas outras datas, a existência desta (dia 23) remete-nos para a necessidade de respeitar o autor. Seja de música, de literatura, seja de qualquer forma de arte e cultura. Parece-me que vale a pena pensar um pouco sobre o modo como de vez em quando, mesmo que sem intenção, acedemos a conteúdos de forma menos correcta. O dia 26, dedicado à propriedade intelectual, reitera o anterior. Naturalmente que se pode questionar o acesso aos conteúdos, sendo certo que a partilha é um dos argumentos realmente fortes. Contudo, fica a sugestão...
Para além do dia do livro em geral, o mês começa logo (dia 2) com o dia internacional do livro infantil. Nesse dia seria o aniversário de Hans Christian Anderson. Não sei se é o caso do leitor ou leitora, mas muitas recordações de leitura da minha infância são da sua autoria. ‘A pequena sereia’, ‘O soldadinho de chumbo, ‘A princesa e a ervilha’, ‘A rainha do gelo’, ‘O patinho feio’ são apenas alguns exemplos. Confesso que tenho um livro com todas estas histórias e não é raro reler algumas delas. Adoro!
De entre outras datas que este mês celebra, saliento novamente o dia 23 – é um dia muito importante, está visto. Em Portugal institucionalizou-se como sendo o Dia Nacional da Educação dos Surdos. Utilizo o termo ‘surdos’ apenas para a referência. De facto, uma das minhas ‘lutas’ enquanto docente universitária era a de tentar ‘mudar’ – prefiro a palavra ‘alertar’, neste contexto – consciências em relação às pessoas com deficiência.
Deve-se, provavelmente, ao cuidado no uso das palavras. Acredito que ao utilizar a expressão ‘pessoa com deficiência’ em vez de ‘deficiente’ dou primazia à pessoa e não a uma das suas características, que com toda a certeza não a torna menos pessoa. Assim, quando olho para alguém, vejo uma pessoa como todas as outras e uma sua particularidade só será relevante... se calhar.
Isso não retira a importância que todos nós podemos conferir à necessidade de criar melhores condições de vida a todas as pessoas que têm uma ou outra dificuldade em aceder a direitos tão básico como ‘escutar’, ‘ver’, ‘caminhar’, para dar apenas alguns exemplos.
Há uns tempos li um livro delicioso de David Lodge – ‘A vida em surdina’. Chamou-me a atenção para alguns pormenores. Como de repente a vida se pode transformar porque se deixa de ouvir. Repentinamente a comunicação torna-se diferente. Daí que esta data seja de enaltecer, para assim nos chamar a atenção que todos nós podemos vir a ter alguma dificuldade na comunicação. Talvez fosse interessante integrar a linguagem gestual nos currículos escolares. Sem dúvida que tal facilitaria e nos aproximaria ainda mais uns dos outros.

* Este texto foi publicado no Jornal, O Chapinheiro

O nosso corredor



Vivi em Lisboa, na Portela de Sacavém, até aos doze anos. Éramos quatro. Eu, os meus pais e o meu irmão no nono andar, porta B. O apartamento tinha três quartos, duas casas-de-banho, uma sala e uma cozinha. Dois corredores. Um pelo qual entrávamos em casa. O mais longo. Começava na sala, passava pela cozinha, continuava pela porta de entrada da casa e terminava na esquina para a zona privada, onde começava o segundo corredor.
O primeiro era comprido. Para mim, nessa altura. Estreito, mas suficientemente longo para que eu e o meu irmão, o Miguel, fizéssemos dele um dos nossos espaços de recreio.
No canto que o corredor fazia com um dos quartos, mais tarde o meu, havia uma mesinha com o telefone da casa. Era aí que com frequência nos sentávamos a discar números e a fazer telefonemas anónimos. Debaixo do telefone havia uma prateleira rasa, onde se arrumavam as duas listas telefónicas. A azul, com os números privados, e a amarela, com o inventário de todos os estabelecimentos comerciais da nossa área residencial. Abríamos a primeira ao acaso e marcávamos um número.
Nessa época eu já devia estar a completar a primeira década de vida. E era seguramente uma das brincadeiras favoritas. “É de casa do Sr. Coelho?” Não me recordo do resto que dizíamos com voz disfarçada. O que me lembro é de tapar a parte inferior do auscultador preto e pesado para nos rirmos em surdina. Como não aguentávamos e não nos contínhamos, desligávamos o telefone sem ouvir a voz do outro lado. Libertávamos então as gargalhadas presas na garganta. E ríamos, e ríamos.
O telefone, hoje retro, era preto com superfície lisa e fria. Um atractivo difícil de resistir. Os buracos com os algarismos de zero a nove eram largos para os nossos deditos. O meu irmão não tinha sequer força para discar o número até à patilha. Exigia um esforço contínuo para segurar e manter o giro até ao fim. Colocávamos o dedo e rodávamos vezes sem fim para escutar uma folha a rasgar-se e deixávamos cair depois de tocar na patilha como uma bola de fliper.
Trim, trim, trim. Tocava o telefone de madrugada. Lá vinha o meu pai estremunhado atender. Era o seu despertador. Tinha de sair muito cedo para a pastelaria.
Que idade teria quando o telefone foi ali plantado? A mesa de apoio era o único habitante do corredor. Tínhamos uma pista inteira para brincar. Para andar de triciclo, por exemplo, enquanto a mãe preparava o jantar. Como sou quase quatro anos mais velha que o meu irmão, é provável que o meu triciclo tenha passado para ele.
O corredor era também o nosso palco de acrobacias. Quando era miúda andava na ginástica desportiva do Sporting. Não precisávamos de colchões para mostrarmos os pinos, as pontes ou as cambalhotas. Sendo o corredor um pouco estreito, aventurava-me desde a porta da cozinha e lançava-me contra a parede onde exibia os meus pinos de parede. Aí ficava colada, mantendo os braços esticados o mais tempo possível. Claro que o meu irmão, traquina, reguila e outros atributos semelhantes, fazia trinta por uma linha para me provocar quedas.
As correrias eram naturalmente o prato do dia, ou da noite, melhor dizendo. À semana saímos cedo de casa e chegávamos para jantar. Mas o tempo que aí passávamos bastava para que eu e o meu irmão corrêssemos atrás um do outro. Ora eu, ora ele. Um estalo inofensivo. “Foste tu que começaste. Não fui nada! Foste tu!” Nenhum queria perder. Ganhar significava ser o último a dar um tabefe no outro. Perder era usual. Ia a choramingar à mãe: “Oh mãe, o mano bateu-me...” Queixinhas, a sua acusação recorrente de maroto.
Fomos sempre assim até nos mudarmos para o Porto. Para trás ficaram a Portela de Sacavém e os Olivais Sul. Era aí que os meus pais tinham um estabelecimento comercial: a Pastelaria Filó. Voltámos alguns anos mais tarde para uma visita única àquele apartamento no prédio branco com listas azuis da Rua Estado da Índia (parece que a Índia esteve desde sempre comigo). Ao entrar na casa fiquei impressionada com a exiguidade das divisões. Do corredor, em especial. Afinal era ainda mais estreito do que me recordava. Afinal o pé-direito era ainda mais baixo do que pensava. Crescera. E crescera com saudades das brincadeiras naquele corredor de alcatifa rala, verde seco, cor de azeitona. Uma cobertura fina para tapar o cimento. Eram todos assim, como na casa dos vizinhos, do nono A. Onde viviam os nossos amiguinhos. A Sofia e o Gonçalo.   

Março, marçagão...*



... Manhã de Inverno, tarde de Verão.
As boas-vindas à Primavera, com diversas datas a lembrarem que a Primavera não é um dado adquirido. Pelo menos se não se alterarem inúmeras práticas que colocam em causa o equilíbrio da Natureza. O dia da Árvore e das Florestas (a 21) ilustra a necessidade premente de cuidar das raras florestas virgens que ainda subsistem, bem como daquelas que nos estão próximas.
Uma sugestão, se o leitor e a leitora, me permitem. Que tal um passeio na floresta ou parque mais próximo de casa? Experimente ir sozinho ou sozinha, ou somente com alguém com quem mantenha silêncio por algum tempo.
Quem sabe o olhar esteja mais atento e o verde lhe pareça mais verde e o azul do céu ainda mais azul. Quem sabe o escutar esteja mais desperto e o canto dos pássaros lhe soe como uma melodia encantada. Quem sabe o olfacto esteja mais apurado e os aromas o/a acerquem como fragrâncias mágicas. E se houver um rio, um riacho, um regato ou um lago, quem sabe a pele esteja mais receptiva e a água a toque com mais frescura.
É provável que as sensações a/o provoquem e o/a instiguem à reflexão e mostrem como a Natureza é a essência, é a vida. Guarde e lembre no dia 22, com o dia Mundial da Água, a necessidade de preservar igualmente este bem cada vez mais precioso. E sinta-se grato/a. Nem todas as pessoas têm acesso à água potável. Na realidade, há populações inteiras que não têm esse bem que para nós (ainda) é garantido. Infelizmente é mais comum do que o que pensamos.
Com o dia mundial dos direitos do consumidor (a 15), somos convidados a reflectir acerca do consumo. Em vez de pensarmos nos nossos direitos enquanto consumidores(as), podemos alterar a perspectiva. Quando existem direitos, existem naturalmente deveres. Valerá a pena ponderar sobre os nossos deveres.
Antes de comprarmos alguma coisa, por exemplo, colocarmo-nos a questão: preciso realmente disto? Se cada um de nós deixar de comprar pelo menos certas coisas que não necessita, é provável que muitos recursos naturais não se consumam em vão.
Já para não falar de muitas outras perguntas acerca do modo como inúmeros produtos (que frequentemente não precisamos) chegam às nossas mãos. Que mão-de-obra foi explorada, quantas árvores foram abatidas, quantos animais foram exterminados, etc... Bem sei que este tipo de questão pode ser inconveniente. Não obstante, porque não parar um pouco para assim ficar mais desperto/a e consciente antes de sair para as compras?
De entre as múltiplas datas comemorativas em Março, escolhi ainda a do Dia do Dador de sangue. Nem todos estamos ou somos aptos para dar sangue. Contudo, se o leitor ou leitora é dador, talvez tenha sentido algo de extraordinário após uma dádiva. Dar sem esperar nada em troca. É das poucas situações em que a dádiva é para alguém totalmente desconhecido. Nem por isso, ou talvez por isso mesmo, no final o sorriso fica largo. Um gesto simples, sem esperar absolutamente nada em troca. Um gesto simples que pode salvar a vida de alguém e a única coisa que temos de fazer é sentarmo-nos numa cadeira durante meia hora (ou menos).
A minha última sugestão para este mês... que cada um de nós pegue em algo que não usa ou não precisa e deixe num banco de jardim. Não vale esconder-se e esperar para ver quem pega ou recebe o nosso presente. Estou certa que ganharemos um presente especial: um sorriso para o resto do dia!

*Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro