Dar sangue...






15 de Abril de 2014
Hoje fui dar sangue. Apesar dos níveis da hemoglobina estarem um pouco abaixo do ideal para a dádiva, a médica foi compassiva e autorizou. Lembrou-se de mim. No mês passado desloquei-me ao IPO para esse efeito, mas o sangue apresentava-se ainda mais débil. Dessa vez fiquei um tanto desapontada – não estava a contar com a rejeição. Não que seja de todo estranho; pelo contrário. Era até frequente. Mas em 2012, quando regressei da Índia, alterei definitivamente os meus hábitos alimentares. Retirei o animal da roda de alimentos e o sangue como se revigorou. Na época fiquei agradavelmente surpreendida. Seis meses depois de ter passado a alimentar-me de forma distinta, estava com os níveis da hemoglobina nunca vistos!
Quando regressei da Austrália em 2013, fiz uma tatuagem. Era necessário esperar pelo menos seis meses até nova dádiva. Não aguentei tal espera e duas semanas antes de findar o prazo, como estava no IPO para ver uma amiga, pensei ser o momento certo. E foi. Saí feliz do IPO. Dera um pouco de mim e sentia-me muito bem fisicamente.
Uma meia verdade à médica quando perguntou se fizera alguma tatuagem, piercing ou endoscopia (e afins) nos meses anteriores. Afinal, duas semanas não fariam diferença, pensei: era uma questão de protocolo.
Há uns tempos, em conversa num grupo de pessoas que se haviam reunido para uma meditação colectiva, mencionei que era dadora. A facilitadora do grupo disse algo que me fez pensar. Contesta totalmente as dádivas de sangue: na sua perspectiva, dar sangue tem implicações sob o ponto de vista energético. Isto é, ao dar o meu sangue este será distribuído sabe-se lá por quem, com a agravante de isso me provocar um qualquer desequilíbrio. A mesma pessoa era apologista da atitude dos crentes em Jeová: recusam liminarmente a transfusão de sangue. Mesmo quando a vida está em perigo. Desconheço a razão. O que sei é o do senso-comum – não aceitarão por entenderem que o sangue é proibido da alimentação e que a dádiva da vida é concedida apenas por deus. Ainda cheguei a pensar se seria por um motivo semelhante à da facilitadora: a de rejeitarem os fluídos de estranhos.
Nunca reflectira sobre o assunto até então. A tal pessoa reiterava veementemente a necessidade de nos resguardarmos e protegermos nessa dimensão; para si, muito mais que biológica. Como se depreende, as minhas cogitações não me conduziram à negação de me partilhar no pouco que sou. Na realidade, creio que todo a pessoa dadora de sangue se sentirá grata ao escutar: “sim senhora, está apta a dar sangue!” É com efeito um sentimento de gratidão que se difunde pelo meu ser.
A partilha também é isso. Pelo menos para mim. Dar sem esperar absolutamente nada em troca. A dádiva de sangue é provavelmente um dos exemplos mais ilustrativos do que me para mim significa a partilha. Não faço a mínima ideia de quem será a pessoa receptora de parte do sangue que me corria nas veias e artérias. E contudo... que paz sinto por terem aceite o que eu queria dar. Muito obrigada!

Abril em Nogueira*




Este ano a Páscoa acontece em Abril, o que torna este mês ainda mais cheio. Mais cheio de comemorações relevantes também para as gentes de Nogueira. Para além da celebração da ressurreição de Cristo, que exalta um novo nascer na aldeia serrana, as comemorações não menos relevantes da Revolução, às quais acrescem os dias dedicados à Imprensa (a 13), ao Livro (a 23) e à Dança (a 29).
Vivi muitas Páscoas em Nogueira. E prontamente uma torrente de memórias. Desde logo, as janelas coloridas de colchas ao passar da procissão. Os banhos eram no dia anterior, para Domingo de manhã não haver perdas de tempo, e assim nos juntarmos ao cortejo dos homens de opa. O meu avô Alfredo – que nasceu a 10 deste mês – estava sempre na frente. Outros transportavam os círios e outros elementos religiosos alusivos à data. Vestidos de branco com o azul nos ombros, o porte dos homens era ainda mais altivo. Os semblantes sérios, mas em regozijo pela honra de integrarem um momento de celebração. Os cantares começavam com o senhor prior à saída da Igreja. No meu tempo era o senhor padre Borges.
Quando chegavam ao largo da capela de Santo António, era a nossa vez de nos juntarmos à procissão. Seguíamos entoando os mesmos cantares: com ou sem boa voz. Mas isso não interessava nada. Depois da missa, era tempo de correr para casa e aguardar o compasso.
De porta em porta, o Zé Amaro desde cedo fez parte do grupo com ou sem a campainha que nos fazia bradar: “estão a chegar; já entraram em casa da Tia São, vamos lá”. Vamos lá, como íamos a todas as casas quantas podíamos. Afinal, em Nogueira existe um grau de parentesco entre quase todos, por mais ténue que seja: acabamos por encontrar um ramo que liga os coelhos aos pereira, os nunes aos nina...
Em cada casa cerimoniosamente preparada para receber a cruz, podíamos comer mais uma amêndoa. Assim pensávamos as crianças. Uma amêndoa ou um naco do bolo folar. O ovo no meio não retirava um dos sabores que o meu palato melhor recorda. Quando chegava a casa do meu padrinho, era tempo de receber o meu próprio folar. Durante muitos anos era uma nota de cinco contos: obrigada padrinho!
Em Abril... águas mil: mas desde que nasci, que este mês tem uma importância vital para os que sofreram com a guerra colonial e com os quarenta e oito anos precedentes. Tenho a mesma idade da revolução. Parte da sua razão de ser, transformou a vida dos meus pais e consequentemente a minha.
À pergunta em forma de piada, onde estavas no 25 de Abril, responderia com os meus pais: ainda em Luanda. Um ano depois e com um ano estava em Portugal. Não tenho, pois, qualquer memória vivida das ruas cheias de gente, acalentadas pelos militares cansados de ver os cadáveres dos seus companheiros a aportarem como tordos em Lisboa. Seguramente um dos maiores leitmotif para a revolução ela própria. Também não tenho qualquer memória dos cravos: as fotografias são os elementos que se juntam às histórias de um tempo anterior – o da ditadura, o da guerra colonial...
Qualquer tentativa para descrever esses dias revolucionários seria, com toda a certeza, assaz redutora. A única coisa que me ocorre registar é o facto de com o fim da ditadura ter advindo a esperança de liberdade. E esse é um ideal que prezo de tal modo, que a minha concepção de felicidade cabe toda na busca de assim viver. Sou filha, pois, não apenas dos meus pais, mas igualmente da descolonização e da liberdade que passa muito pelas escolhas que podemos agora fazer.
Calculo que os mais jovens desconheçam, como eu, o temor que se vivia antes de 1974. Bastava que se juntassem mais de duas pessoas na rua, e já a PIDE defraudava qualquer ensaio de conspiração: a sua leitura de pessoas em grupo. Em Nogueira isso não acontecia. Mas os que vinham de Coimbra, após meses de estudo, saberão o que quero dizer.
Hoje ainda valorizo mais este mês: comemora-se o dia do livro. O livro. Um bilhete para outros lugares, para muitas outras pessoas, para tantas histórias mais ou menos reais. A viagem vai acontecendo no desfolhar de cada página. Não tenho dúvida que o mundo se ampliou e vai crescendo por cada livro que me trespassa, que me adentra. Estou certa que muitos me são permitidos ler pela liberdade conquistada. 
Liberdade, livros... tanto em Abril. E tanto mais. Também é tempo de celebrar a imprensa: é esta que permite que este texto chegue a si, que lê o Chapinheiro. Não é um jornal qualquer. É o jornal das gentes de Nogueira: as que se permanecem física ou emocionalmente. A forma de nos ligar ao que importa: os afectos. E os da terra são muito, muito fortes. É por isso que Nogueira renasce em muitos momentos festivos, como na Páscoa.
Abril é também o mês para lembrar a dança; um mês primaveril – que melhor estação para celebrar dançando? Quem dança é mais feliz, diz o meu irmão, digo eu, dizem todos aqueles cujo corpo se mexe ao mais leve ritmo escutado – só porque sim. A Primavera: a minha estação preferida. Um mês que já consente muitas cores nos jardins, com as árvores muitos verdes, com folhas cada vez mais largas. Um mês da Primavera em crescendo nas cores, cheiros e sons: a estação dos amores, dizem. A temperatura começa a ser bem mais aprazível e o céu cada vez mais azul. Mesmo que o ditado nos diga que em Abril águas mil. 

*Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro


A ‘amiga louca’ em Saigão... Corte no pé IX





Quando invocam a minha pessoa logo lhes vem à boca: “aquela, a nossa amiga louca”. O nome por que me baptizaram. Como se deve calcular, isso é apenas um epíteto. Maria dos Anjos; assim escreveu a minha querida avó à minha mãe: “Querida nora, não sei porquê, mas tenho comigo que a minha primeira neta se podia chamar Maria dos Anjos”. Menos mal... ou não – Célia: o nome que os meus pais haviam seleccionado.
Maria dos Anjos – talvez um nome adequado. Eventual explicação para a alcunha entre determinados amigos – ‘a amiga louca’. O atributo apenas e só por não me enquadrar nos ditos padrões de normalidade; esses da ditadura da maioria! Classificações vãs; assim as entendo. Não sou normal, dizem: por isso sou louca; ou melhor muito louca. Mas que diabo!
Maria dos Anjos. Angélica nem por isso. A mania dos anjos, até que sim. Não é propriamente uma mania: ouço vozes. Como não as reconheço entre os vivos que fazem parte dos meus círculos afectivo e social e tão-pouco profissional, avento uma hipótese: são vozes dos anjos, angelicais, sobreterrenas, sobrenaturais, sobre qualquer realidade que não a material em que me movo. Apesar de me deslocar amiúde por realidades incandescentes e imperceptíveis, aos olhos de muitos dos que me rodeiam. Daí que conceba tais vozes para lá desta minha existência corpórea.
Desse discurso já me desisti. Cada vez que os meus lábios se enformam para proferir palavras da família dos anjos, os meus amigos gesticulam como quem diz: “Oh Maria, por favor. Só porque és dos Anjos não quer dizer que eles te visitem; se é que existem”. E assim pensam que abafam as sonoridades que só eu escuto.
Outro motivo para me sentenciarem como a tal ‘amiga louca’ deve-se ao facto de ter repentes. De quando em vez sou dada a amochilar os meus parcos haveres e deixo-me conduzir por um impulso que dizem ser ora de viajante, ora de fugitivo. A qualificação para o segundo impulso encontrei n’ “Um homem de partes”, de David Lodge.
A última vez que me senti impulsionada aterrei em Saigão. Ho Chi Minh: a sua denominação actual. É provável que os vietnamitas desejem apagar os tempos idos da ocupação norte-americana. O sangue derramado não deve, todavia, ter-se esbatido da memória. A bandeira que os representa marca bem essa cor de morte.
Saigão. Ho Chi Minh. Se os meus amigos aí se tivessem  deslocado de moto-táxi como eu, perceberiam que o epíteto com que me evocam é totalmente descabido, ou mesmo hiperbólico. Eles não sabem o que é a loucura: a loucura do trânsito. Motas, motoretas, lambretas, motociclos, motocicletas, bicicletas e todos os veículos sobre duas rodas que se possam avançar.
Centenas e centenas sempre em movimento, com ou sem sinal vermelho. Mais um vermelho que neste caso é com efeito desconsiderado. Se tal não me incomodou quando era uma das que usava capacete de equitação – os mais usuais entre os motoqueiros de Saigão –, o mesmo não posso afirmar quando a pé e carregada com uma mochila de quinze quilos.
Uma vez, a primeira de muitas similares, tentava atravessar uma rua. Motas de um lado, lambretas do outro, mais motociclos pela frente e até motoretas pelo passeio. Por onde continuar o caminho até à Rua Bui Vien? – a do Graceful Saigon Hotel, onde me instalaria. Eu e muitos outros turistas ao estilo backpack. Quase caí, tal o desequilíbrio provocado pelo susto. Pensei que me estrearia nos atropelamentos: tive de aprender rapidamente a atravessar as ruas em Saigão. Basicamente correr por entre os momentâneos e exíguos espaços livres.
Na tarde seguinte à da chegada vi um rosto que me era familiar. Ali, em Saigão? “I Know you...” Escutei-me dizer ainda: “You’re much prettier live”. E era, uma actriz de Hollywood Frances Louise McDormand (o nome depois de googlar ). Um sorriso fácil agradeceu. Não costuma ouvir isso, ao contrário. Pedi um autógrafo! Estava de férias, não o faria. Acabámos a troca de palavras desejando mutuamente boas férias.
Ainda nesse dia ao fim da tarde fui agraciada com um convite para jantar. Fui abordada por duas jovens vietnamitas enquanto passeava por um jardim. Se eu tinha tempo para conversar com elas. O seu objectivo era só um: melhorar o seu inglês. Porque não? Tempo era coisa que não me faltava. O tempo que era só meu e podia desfrutá-lo do modo que bem entendesse, que bem me apetecesse, partilhá-lo com quem quisesse. Anuí.
Eu e as estudantes de Saigão num banco do jardim. Ambas universitárias a estudarem numa grande cidade; as suas famílias longe e campesinas, pelo que percebi. Tentei uma fala pausada. É visível a dificuldade das gentes da Ásia na locução do idioma estrangeiro. A linguagem é totalmente díspar, solicitando outras formas de soletrar e de dicção, o que dificulta a aprendizagem correcta do inglês e, imagino, de todas as línguas germânicas e outros grupos linguísticos.
Antes de nos despedirmos outra admiração. Queriam estar comigo outra vez! Combinámos jantar na noite seguinte e trocámos números de telefone. Um jantar tipicamente vietnamita... às vezes é bom ser louca, como me chamam os amigos. Talvez valha a pena ter repentes e não ser normal. 




Amélia... escutando Yann Tiersen






Uma garota. Quase mulher. Cabelos negros, vaporosos. Uma sala de leitura num sótão embaciado pelas janelas há muito esquecidas de um pano limpo. Uma garota sonhadora. Sonha a realidade possível pelo encontro de olhares amorosos. Nas estantes bafientas encontra cartas perdidas, reveladoras de paixões memoradas em corações agora gelados.
Desdobra papéis amarelados e amarfanhados pelo tempo. “Tenho muitas saudades tuas, dos teus beijos macios...” – declarações esquecidas pelas horas que se tornaram dias; dias que se alongaram em meses, anos. Amélia. Assim a chamam quando querem dizer-lhe alguma coisa ou abraçar o seu corpo menino quase pronto para ser mulher.
Amélia encontra também gritos abafados por narrações montanhosas. Grumos verbais materializados em palavras escritas há muito desvanecidas. Escuta as vozes interiores num frémito espesso: “Tens que entregar estes sentimentos por revelar”. A ideia que se vai enformando em cada outra carta velha descoberta no interior de livros, cujo sonho é serem lidos. As bibliotecas – para que servem? Noutros tempos para as elites; neste tempo, das massas, quase para nada. Preferem-se ecrãs tácteis descomprometidos do esforço de pensar e viajar na leitura.
Amélia lê. Amélia quer escrever. Lembra a máquina da avó de pele encarquilhada pelo tempo. As teclas resguardadas por um pano também ressequido pelos Invernos. Pelas Primaveras também. No banco do jardim perfumado, ao sabor de brisas suaves de muitos Verões, essa máquina revelou declarações intencionalmente amorosas, tal qual estas cartas vasculhadas, sedentas de serem respondidas. O propósito da adolescente quase adulta que já compreende a importância de um beijo perdido.
Num envelope envelhecido pelo pó seco do sótão encontrado sem acaso, a morada endereçada. O ponto de partida. O nome em letra arquitecturada cuidadosamente, amorosamente. Lê. Decide-se. Será o remetente sonhado e desejado. Senta-se à mesa escurecida pelo verniz que ainda confere brilho, outro que não o do sótão apagado. A máquina do tempo em teclas ávidas de serem premidas. Resolve-se em palavras. Quais, ainda em esboço mental. Rapidamente deixam de ser ideias vãs para se concretizarem numa declaração esperada... eternamente – tua.
No entardecer que se faz longo, Amélia sorri para as letras que se impregnam numa folha branca que deixa de ser vazia. “Meu amor só hoje encontrei a tua carta numa gaveta trancada. Soubera eu que me amavas do mesmo modo que eu e teria ido ao fim do mundo para te encher de beijos. Quero-te muito, ainda. As minhas pernas já carregam muitos Outonos, mas as flores do meu sentimento ainda são coloridas como rosas de um jardim principesco. Anda, vem ter comigo. Vou ter contigo. Tenho um abraço para te dar, levo-te ou vens buscar? Assinado: o teu eterno admirador que se deseja reconhecido”.
A imagem da carta escrita em frémito convulsivo de Amélia. Próximo passo. Um envelope endereçado à amante, que talvez ainda possa ser amada. Os dias que se tornaram anos não apagaram aquele sentimento profundo. A crença de Amélia na sua inocência bucólica.
No lento circuito do tempo, o olhar vasto em sorriso intenso de Amélia esquadrinha um plano. As nuvens informes rasgam as saudades sepultadas dos que se escreveram sem resposta. Será a réplica, Amélia. Desdobra-se em várias e encontra o lugar da primeira remetente. Termina em tom declarativo o plano: “Vou deixar esta carta no correio!”
Esconde-se. Na casa caída do lado existe um portão sempre aberto que lhe dá um lugar de primeira plateia. Invisível – pensa estar. Olha em redor. A carta há minutos numa caixa pouco usada. A hora do carteiro é certa. Aguarda o tempo da leitora, urdindo a estrutura de um beijo de um futuro adiado pelo silêncio inadvertidamente fechado numa gaveta desossada. Amélia desenha contrastes de lágrimas que hão-de sulcar dois rostos anosos. Nem por isso desapaixonados. A expectativa de uma jovem gentil que sonha os sonhos sepultados pelos remetentes nunca lidos, engavetados que foram por mãos ardilosas e controladoras de um amor materno, quase sempre inspeccionador.
A porta abre-se. A casa que perscruta tem vida. Uma mulher. Incalculável o número de anos gravados em rugas que a memória carrega. Atenta – Amélia – a cada movimento lento soado e pouco escutado deste lado da casa recentemente caiada de portão receptivo a estranhos. A caixa de correio. Uma carta inesperada por quem nada espera há tantos anos que não se lembra.
O rosto idoso muda a sua forma para deleite do rosto ainda juvenil. Um sorriso que hesita nas lágrimas que se empurram umas às outras num olhar que repentinamente se quer refrescar na emoção ainda vaga. Os pensamentos vão ganhando volume na lentidão de uma mão que agarra o envelope e o conduz ao lugar do corpo que guarda as saudades de um amor nunca esquecido. Amélia observa uma pessoa abundante no tempo. Retira-se. Discretamente rasa pela porta em transformação. Fechou-se para que a leitora se encontrasse num passado... ainda presente.
Na claridade parda da tarde que se esvai, Amélia repara no céu polvilhado. Quantas cartas para responder? A sua missão: entregar amores perdidos, guardados em memórias alheias insondáveis, talvez. Ou não... Saltitando em pés elegantes e infantis ainda, escorre-se pelas ruas do bairro em direcção à máquina de escrever onde a aguardam palavras amoráveis...

A lagoa azul... Corte no pé VIII





Caro leitor, cara leitora, não sabes o que aconteceu. Tão depressa eu expressava a curiosidade para saber quem é o tal Martin e eis que já somos amigos. Calma. Amigos na acepção virtual que hoje em dia paira nas nossas vidas. Essas, também, cada vez mais ligadas ou desligadas – conforme a perspectiva, já se sabe – do mundo maravilhoso não de Alice, mas do livro das faces, dos rostos, das caras. Não sou tradutora. Mas também não me parece que esse mundo seja traduzível – talvez nem valha a pena.
Os idiomas são eles próprios elementos de um mundo global, (des)ligado, fragmentado, em rede. Não te acontece utilizar expressões que não sendo em português não deixas de sentir como tuas? Por exemplo: ‘vou googlar’; ‘faz delete’... Só é pena que não possamos ‘fazer undo’ de quando em vez. Algumas palavras que soltei sem prever o seu efeito teriam sido apagadas: tal o desarranjo que terei provocado no receptor. Momentos em que mais valia ter mantido os lábios bem colados. Teria evitado também a entrada de insectos.
O Martin, dizia. Quando o meu namorado aterrou em Santiago foi quase imediatamente para casa do chileno. Conversa para aqui, fotografias para ali e entraram na espiral dos amigos virtuais. O Martin viu então quem sou eu a musa do meu namorado – confio que ainda seja.
Recebi hoje o seu pedido de amizade. De maneira que a minha rede social se vai ampliando, sem que com isso, confesso, o meu mundo se alargue nas devidas proporções. Um dia de cada vez. É o melhor. Mas também já percebi que assim é. Os meus planos são frequentemente ‘desplaneados’; por conseguinte, a sua elaboração tende a reduzir-se. Também te acontece a ti, leitor ou leitora, planear todas as horas do dia de acordo com a agenda e ao final do dia verificares que nada foi conforme previamente estipulado, planeado, programado? É quase sempre em sorriso que observo a viagem pelas horas precedentes. Por esse motivo, prefiro a designação de ‘proto-plano’ ou ‘proto-agenda’. Assim, se alguém ou um lugar mais interessante do que o agendado surgir, prolongo-me nesse instante. Na natureza nada se perde, tudo se transforma – diria que os minutos não se perdem, transformam-nos: assim estejamos receptivos.
Entretanto, o Martin. Logo algumas mensagens privadas. Relaxa, leitora ou leitor. Não tem nada a ver com uma qualquer traição do género virtual. Foi somente uma ‘pseudo-conversa’ de dois (ainda) estranhos. O nosso tema em comum é só um (ainda): o meu namorado. Não obstante, o Martin não se coibiu de tecer largos elogios às minhas fotografias. Deambulou virtualmente pelas viagens ‘postadas’ na minha página. “Estoy impresionado, tienes fotografías maravillosas” – assim se reportava às fotografias que partilho da Islândia.
Finalmente alguém que me compreende. É em desabafo que o escrevo a ti, que me lês neste momento. Uma ilha de sonho – a designação que lhe demos antes de embarcarmos: era o que ambos mais desejávamos partilhar desde que nos apaixonámos – eu e o meu namorado, claro. Alugámos um carro e percorremos toda a costa. Foi nesse ano que eu e o meu namorado chegámos a colocar-nos em causa, tal qual a letra da ‘Paixão’ de Rui Veloso, quando canta em tom de lamento: “Contigo aprendi uma grande lição / Não se ama alguém que não ouve a mesma canção”.
Não era da canção que se tratava, apesar de os nossos gostos nem sempre coincidirem. O que estava em causa era a perspectiva dissemelhante face à fotografia. Na realidade, ainda não ultrapassámos totalmente essa eventual diferença: sinto-me uma artista incompreendida. Artista – penso que esse atributo se pode aplicar a mim. Ganhei alguns prémios com as baleias, focas, géiseres e icebergs que fotografei em movimento: disparos contínuos que me permitiram diversas montagens fotográficas.
O meu namorado, porém, não me dava muito espaço. Estava constantemente a bufar nas minhas costas. Repara, leitora ou leitor, que a sua postura era de facto incomodativa; quase irritante. Eu, fotógrafa em progresso, estava deleitada, inebriada, arrebatada pelas paisagens vulcânicas e glaciares que nos entravam pelos olhos. Os meus queriam captar e guardar essas imagens não apenas na memória e no coração, mas também numa futura tela: para mais tarde recordar! Pedia-lhe, então, carinhosamente que parasse o carro. Por vezes ficávamos horas a fio no mesmo local. Eu era fotografia, respirava fotografia. Trocava lentes, mudava filtros, montava o tripé e observava. Observava, experimentava dar um passo à direita, depois outro à esquerda; piscava o olho direito, depois o esquerdo; arrebitava as nalgas; ajoelhava-me; agachava-me; deitava-me: e captava o instante perfeito. Delongas necessárias, senão fundamentais para quem, como eu, tinha a oportunidade de pela primeira vez estar na terra da Björk, uma das minhas cantoras predilectas, bem como de desfrutar do tempo, do lugar e até dos ombros e dos braços do meu namorado – ajudavam a carregar a parafernália imprescindível a uma fotógrafa em evolução.
Ora, vá-se lá saber porquê, o meu mais que tudo não tinha o mesmo prazer que eu. Não só é imensamente friorento – um dos motivos por que abalou para o Chile –, como tem formigueiros nos pés e noutras partes do corpo. Disse-me que agora até nas costas. A consequência, poder-se-á facilmente prever: fartou-se de estar ao meu lado a acompanhar-me nas minhas riquíssimas experiências. Felizmente ele é um rapaz que sabe colocar-se no meu lugar e adaptou-se, entretanto, ao meu anseio de fotografar.
O frio, esse, é que efectivamente se tornou desagradável, apesar de termos ido em Agosto. Uma sugestão a ti, se tens a pretensão de ir à Islândia: a segunda quinzena de Julho é a mais aconselhável – aquando do Verão pleno na ilha quase polar. Contudo, não cries muitas expectativas: o máximo que sentimos foram uns míseros 15ºC. Coincidiu com a nossa ida à Lagoa Azul. Mas nesse dia até que valeria a pena uma temperatura substancialmente inferior, para assim nos regalarmos com a amplitude térmica entre a água termal – chega aos 40ºC – e o ar eventualmente frio.
Regressámos a casa ao nível dos zero graus. Ao aterrarmos no Porto, o rosto do meu namorado aquecia – confio que fosse resultado da temperatura amena que Setembro nos oferecia.
O Martin. Mais um amigo na minha já vasta lista virtual. Naturalmente que o vasto é sempre relativo. Tenho 500 amigos na rede social mais conhecida. Nada que se compare ao meu namorado que já vai nos 3200 – são sobretudo do sexo feminino. Não quero sequer especular sobre o que isso possa significar.

Margarida... Corte no pé VII


Sou eu novamente, a Margarida. A namorada daqueloutro que no primeiro capítulo – vamos designá-lo assim – se cortou no pé. Por isso ainda o título. A autora já não sabe o que fazer em relação ao título; mas tendo começado com esse famigerado golpe, sente que é esse o seu desígnio momentâneo.
Se é o primeiro texto com que te deparas, leitor ou leitora, não te preocupes: os textos anteriores para além de curtos, são igualmente passíveis de se lerem avulso; digo eu – a autora.
O corte no pé do meu namorado – e sim, sou eu novamente a Margarida. Um pé pequeno; se se tiverem em conta os padrões masculinos; se é que tal se possa aplicar no que à anatomia concerne. Calça 39, ele. Tanto como eu. Os dois com 39 de comprimento nos dois pés. Os nossos ombros não se tocam e eu tenho de inclinar a cabeça em sentido ascendente para naufragar nos seus lagos verdes. Quer dizer, agora não tenho como afundar-me, dado que neste momento ele se encontra em parte incerta.
A última vez que nos comunicámos – há quase uma semana – estava ele a recuperar de outro corte no pé... viajava à boleia de Santiago para a Terra do Fogo: pronto para embarcar para a Antártida!
O corte no seu delicado pé. A sua curva é tal, que fico na dúvida se pousará totalmente as suas extremidades inferiores no solo. Por oposição, os meus pés padecem do que algum iluminado denominou de pé chato. Prefiro o termo pé raso. Assim sendo, os meus pés sentem o chão em toda a sua superfície plantar: deve ser por solidariedade ao arco hiperbólico dos pés do meu namorado.
O golpe. O sangue. A dor lancinante que o trespassou e o motivou a telefonar-me. Uma voz agonizante: pensei que estaria a morrer. No entanto, acredito que não tenha vertido uma lágrima sequer. Aprendeu desde tenra idade que o choro é para meninas: sua expressão. “Estás a chorar porquê? Magoaste-te? És um menino ou és um homem?” – palavras agrestes do seu pai, cada vez que os seus lábios tremelicavam. Não tinha tempo para alcançar o beicinho – pobre rapaz! Já eu, sempre que pressinto o saco lacrimal a activar-se, revelo-me em minutos – se tanto. Para quê estancar esse líquido interior, orgânico, quente e até salgado. A que sabem as lágrimas?
Prefiro então as palavras irónicas que a minha mãe atirava sempre que eu batia o pé – eu era desse estilo: “Chora, chora para aí. Quanto mais choras, menos mijas!” Leitora ou leitor, bem sei que este vocábulo não chega a ter tal estatuto e poderás até sentir que é pouco consentâneo com o que esperavas de mim e da autora. Porém, concordarás que as expressões popularuchas roçam frequentemente a má educação. Não chega a ser má educação: é apenas o modo peculiar do dizer popular. Na verdade, podes fazer uma experiência. Lê em voz alta: quanto mais choras, menos urinas; ou então: quanto mais choras, menos xixi fazes; ou ainda: quanto mais choras menos águas vertes. Confirmas. Não teria a mesma sonorização, nem tão-pouco o mesmo alcance.
Voltando ao que aqui me trouxe. O corte no pé do meu namorado. Essoutro que viajou, qual jovem sem rumo. Não vou gastar linhas na descrição do acontecido propriamente dito antes de ele me telefonar naquela noite. Não estava lá. Não sei o que sucedeu. Sei tanto como tu, leitora ou leitor. Aquele seu hábito de se pavonear pela casa tal qual veio ao mundo não é de comentar: tão-somente por fazer parte da mesma liga: a de me sentir livre quando na minha casa. A diferença entre nós, é que eu vivo no nono andar. Os meus vizinhos da frente, os mesmos – ou mesmas – não me abarcam nos seus desvarios de coscuvilhice.
Leste bem. Os vizinhos ou vizinhas, melhor dizendo, são coincidentes. Vivemos no mesmo prédio. Neste momento, é quase certo, leitor ou leitora, que se estivesses ao meu lado me perguntarias a razão de ser de tal opção e porque é que não juntamos os trapinhos – afinal é mesmo disso que se trata – e não pagamos apenas uma renda. Por inúmeros motivos. Entre os quais a possibilidade de podermos dormir sozinhos nas nossas camas gigantes e de nos deitarmos à hora que ambos bem entendermos.
Eu, por exemplo, gosto de ver televisão até tarde. Gosto dos programas sobre a vida selvagem. Não obstante estarem cada vez menos interessantes. A selvajaria é cada vez mais a dos exploradores que passam a vida em frente à câmara. Dá ideia de que se terão esquecido dos animais. Ou então, tentam ser mais um elemento da selva.
O meu namorado às vezes é muito aborrecido. Para não dizer chato como os meus pés. Prefere deitar-se com as galinhas. Também gosta de se deitar com as mesmas aves. Só não percebo porque é não arrenda um galinheiro! Não só diminuiria substancialmente a renda, como não necessitaria de despertador. Além disso, teria companhia todas as noites!
Para terminar a senda do corte no pé. Quando desci os seis andares que nos separam sempre que não nos apetece partilhar tudo, deparei-me com ele agarrado ao pé. Doía-lhe. Não duvido. Mas nem sei como dizer isto sem ser irónica, sarcástica, maldizente e até mesmo mordaz. O pé tinha uma pequena laceração no calcanhar. No calcanhar! Aquela parte que nem sempre a pedra-pomes resolve. As mulheres saberão bem ao que me reporto. Enfim. Lavei com soro fisiológico e passados dois dias não havia vestígios.
Lá o ajudei a apanhar os cacos do jarrão. O rapaz estava inoperante e era necessário respeitar a sua dor. Fiquei com ele nessa noite. Antes de adormecer contou-me que conhecera um chileno na véspera: o Martin. Fiquei curiosa...

Um corte no pé VI




Antes de prosseguir é devido, imperioso, fundamental um esclarecimento. Neste momento, leitor@, quem lês é a Margarida: a namorada do homem, rapaz, pessoa do sexo masculino que esteve aqui nas cinco vezes anteriores. Acontece que eu também quero ser lida e já é tempo da minha ‘voz’ se fazer ‘ouvida’. Chama-lhe presunção, necessidade de ser ‘vista’, o que melhor entenderes, para assim nos entendermos melhor.
As ambulâncias não páram as suas sirenes incessantes. Estou habituada. A minha casa é próxima do hospital central da cidade. Cada vez que escuto uma, agradeço o facto de estar viva e de boa saúde. Podes imaginar, leitor@, o número de vezes que o faço ao longo do dia e da noite também. Particularmente quando os dias passam inteiros por mim sem que eu sinta o calor exterior; no caso dos meses anteriores a chuva fria, ela própria. Hoje, felizmente, é o sol no seu ocaso dourado que me encadeia o olhar. Encandeia mas não fere. Sou daquelas que aprecia olhá-lo de frente, mesmo que me digam que posso ficar cega! Será mesmo verdade?
Apareço-te, então, leitor@. Perguntas porquê; consigo vislumbrar um som distante da tua voz mais ou menos rouca, mais ou menos sensual, mais ou menos fanhosa. A minha é assim que está neste momento. Constipada, muito ranhosa, desde há pelo menos sete dias e sete noites. Deve ser pela ausência do meu namorado. Resolveu ir para o Chile. Sem mais nem porquê. E tu leitor@, também te parece que foi uma atitude descabida? É que tu, leitor@, não sabes um pormenor.
Dias antes de ele se decidir a ir para o outro lado do Atlântico, pediu-me em casamento! É verdade. É verdade também que tínhamos bebido um pouco. Vá, um pouco se calhar é redutor. Uma garrafa de vodka e algum sumo de limão à mistura. Não nos ficámos por aqui. Uma amiga nossa muito louca – é o melhor adjectivo, acredita, leitor@ – esteve na Tailândia e trouxe-nos, como recuerdo, balões para fazer rir. Apesar da longa distância percorrida até casa, os balões ainda vinham cheios de um hélio que era muito mais que hélio. Claro que neste momento estás a duvidar do que eu te digo. Dou-te mais um pormenor: a minha amiga muito louca – vou manter o atributo para que saibas a quem me reporto – decidiu fazer a viagem de volta por terra: comboios, autocarros, boleias... Às tantas terás razão na dúvida que te assalta como a mim também, e ela terá adquirido mais balões pelo caminho.
De qualquer modo, como te dizia, o meu namorado, ao fim de uma garrafa de vodka e dois balões que fazem rir – eu acompanhei – fez-me um pedido cerimonioso: “querida Margarida, és a mulher da minha vida! Quero passar o resto dos meus dias contigo: casas comigo?!” O meu rosto ébrio terá mudado de forma diversas vezes. Era o primeiro pedido de casamento que escutava. Tendo em conta que nenhum de nós estava sozinho em si, pensei que a resposta também não seria apenas minha: adiei delicadamente para o dia seguinte, quando a ressaca se curasse.
Ressacados, estremunhados, esquecidos das horas antecedentes: assim despertámos na tarde seguinte. As nossas caras estavam um pouco diferentes e os corações transmudados, pelo álcool ingerido e ainda em processo de destilação. As mãos tocavam-se amorosamente. Era o que a minha pele me sugeria. Arrepiada. Em pele de galinha. Não percebia aquela sensação: até que olhei em redor pelo quarto – também em recuperação pelo torpor noctívago – e era o frio que se instalara pela janela que ficara entreaberta!
O meu namorado também se ressentia e as suas mãos começaram a gelar inadvertidamente, ao ponto dos dedos ficarem todos brancos. Pensámos que poderiam cair, como acontece aos alpinistas que chegam ao Evereste: só podíamos estar sob o efeito das substâncias tomadas na véspera.
Fomos tomar banho. Não é necessário dar-te muitos pormenores do que se passou debaixo da água quente, leitor@. As cabeças ainda pesavam sobremaneira. Nada a relatar, portanto – em relação ao que esperavas ler. Ainda assim, talvez seja melhor dar mais um esclarecimento: sou uma pessoa muito reservada, a roçar o pudico. Como tal, mesmo que nos estivéssemos enrolado e afogado na banheira não estaria aqui a fazer esse tipo de revelações. Além disso, não sei a tua idade, nem tão-pouco os padrões de conduta por que te reges: não quero ofender os teus olhos com cenas mais ou menos lascivas – se as houvesse, reforço.
Isso seria mais tarde. Nessa mais tarde de um Domingo qualquer chuvoso – houve muitos em Janeiro –, não sucedeu o que eu esperava. O melhor é mesmo não esperar nada: evita-se o desapontamento e o que quer que aconteça é bem-vindo. O que não ocorreu – também tu, leitor@, quererás saber se o pedido foi renovado. É que o meu querido, amado, adorado namorado ficou momentaneamente amnésico. O que dá sempre jeito, refira-se. Dois dias depois estava a fazer uma mochila e abalava para Santiago do Chile. Não acho isto nada normal!

Corte no pé V




Cortei-me no pé! Outra vez. É verdade! Quase verdade. Uma meia verdade. Também poderá ser apenas uma meia mentira. Como preferes o teu copo leitor@: meio cheio, ou meio vazio? “Depende do que escreves”, dirás leitor@; “depende do que bebo”, acrescentas ainda. Concordo contigo. A perspectiva altera quase sempre o modo como percepcionamos a realidade.
Um dia destes apercebi-me disso de uma forma muito concreta. Fui andar de bike com o meu amigo Martin. Já te disse leitor@ que estive com ele aqui em Santiago do Chile: convidou-me para ficar uns dias em sua casa e para o acompanhar numa série de coisas, entre as quais conhecer o Parque Auracano sobre duas rodas.
E fomos então de BMX para o parque. O meu amigo Martin é rapaz muito afoito, irreverente, audaz, destemido e outros atributos do género também o vestem. Deve ser da idade: ainda não tem trinta anos. O meu discurso, a ti leitor@, quase te soa a bota-elástico. Calma, como te disse, a perspectiva com que a realidade nos entra pelos olhos depende sempre do nosso ângulo posicional. A minha idade... pois ainda não tens essa informação. Será este o momento para ta revelar? Hum... pelo que já leste, leitor@, estou certo que terás um palpite... deixo para mais tarde.
O meu amigo Martin: além de ter duas bmx, é skatista, surfista e snowborder. É verdade, desta vez sem ser só pela metade. Pelo menos do que vou conhecendo dele.
Fomos para o Parque Auracano. Um parque urbano na cidade de Santiago. Até aqui tudo bem, não fosse o caso de ter chovido copiosamente nos dias anteriores. A temperatura é excelente, para mim claro: sempre acima dos 25ºC; mas houve uma pequena lembradura por parte de São Pedro (para quem acreditar nesse santo, claro). A chuva tem algumas consequências num parque, nomeadamente no piso... transforma-se em lama! Verbos como chafurdar, atascar, atolar aplicam-se como luvas neste passeio. Essa foi a razão porque numa das descidas muito loucas ia dando um belo trambolhão.
O meu vocabulário de chileno vai-se enriquecendo de dia para dia. Sinto-te atent@ e fazes um reparo: “é espanhol!” Não foi por lapso, nem tão-pouco provocação. Decorre da mesma diferença entre o nosso português e o português brasileiro. Sobre isso não me alongo. Já terás percebido leitor@, que prefiro o português sem muitos acordos. Geralmente o desacordo traz novas discussões, quiçá novas formas de perspectivar a realidade. Neste caso a que me aconteceu. Tem calma leitor@, não me esqueci do corte no pé, nem do copo mais ou menos cheio, ou mais ou menos vazio.
Antes de começarmos uma das descidas mais perigosas - não estou a exagerar. No topo li uma placa com este aviso: “Bajada muy peligrosa”. Nesse momento passou-me uma vertigem pela frente: ‘estou mesmo aqui?’ Estava! Não foi necessário beliscar-me – não havia tempo para essa lamechice de pouco homem. Quando se pedala, pedala-se e pouco mais – eventualmente também se fará uma ou outra pausa para desfrutar da paisagem: neste caso repleta de muitos outros sobre outras rodas, como os skates.
O meu amigo Martin só queria ser o primeiro a chegar – esqueci-me de te dizer, leitor@, que éramos mais de dez ganapos sobre rodas. Isso tem várias implicações; desde logo se se vai atrás de um deles. Sendo a lama e as poças de água o cenário rasteiro, podes visualizar a quantidade de salpicos que alcançaram os meus olhos, as minhas orelhas e também a barba – uso uma barba rala; aquela que dizem ser a de três dias. A minha já tinha pelo menos cinco. Espelhos não havia pela casa do meu anfitrião... de maneira que só me restava confiar que o meu rosto estivesse minimamente aceitável.
Como te lembras, leitor@ – pressinto que ainda estejas aí – numa das descidas ‘más peligrosas’, a dúvida existencial desvaneceu-se e subitamente eu não era só eu. Éra-me mais o garoto que em mim mora, mas que me esquecera. E então, icei o rabo para trás e para cima, relaxei os braços, segurei bem o volante e deixei-me ir pela encosta abaixo. Era uma inclinação superior a 30%. Foi já no final da descida que as poças de água me travaram e conheci de perto o cheiro do chão. Não foi apenas o nariz que teve as melhores condições para o seu sentido primeiro. Também o tacto teve oportunidade de se expandir: agarrei-me a uma cerca de arame para não voar de dez metros de altura. Foi então que bradei pelo meu amigo: “espérame, Martin!! – o sotaque cantado acompanhou esta chamada – ia dando um tralho” (saiu-me no meu calão, claro...).
“Na próxima vez salta” – eis que também tu, leitor@, deves ter lido o mesmo que eu escutei: saltar. De facto, não tinha de cair: podia saltar. E repentinamente a perspectiva de perigo, medo, receio, sobressalto, alterou-se-me por completo. Eu não voltaria a cair, escolheria antes saltar. E isso muda tudo! Como quase tudo na vida...
Porque saltei na vez seguinte, cortei-me no pé. Quer dizer, não foi bem no pé. Foi no tornozelo. Felizmente por aqui posso andar de calções e as meias são daquelas que só tapam o pé. Os tornozelos nus ficam expostos à vegetação que em mim entrou, lacerando o tornozelo direito. Tu, se fores leitora, prevês que sejam apenas alguns arranhões; se fores leitor, serás muito mais solidário e sentirás que o sangue que se esvaiu foi o suficiente para me fazer vomitar. Claro que esse despejo era resultado de duas horas de pura adrenalina. A minha idade começa a tecer algumas limitações: não muitas: quero saltar, sempre... em vez de cair!


A nossa piscina em Nogueira do Cravo

O que os nossos olhos viam



É provável que seja do conhecimento de poucos. Na década de 1980 existiu uma piscina em Nogueira do Cravo. Ou antes, ou melhor, se calhar era uma piscina apenas para uns quantos. Para umas quantas crianças e adolescentes.
As férias de Verão nessa época eram muito longas. Em vários sentidos que o tempo pode ser percepcionado e vivido. Não havia telemóveis, muito menos telefones espertos, nem tão-pouco tabletes (só de chocolate) e outros dispositivos electrónicos. Está bem, tínhamos um tijolo onde escutávamos as cassetes do Bryan Adams e o spectrum chegava a alguns. Pouco mais; por isso, as crianças e adolescentes tinham apenas uma ocupação nas férias: brincar. Às vezes também liam – nos dias em que a chuva nos surpreendia e não permitia brincar... na rua.
As tardes eram, por isso, realmente grandes. A distracção da brincadeira em Nogueira provinha de quando alguém chamava: “Oh Sóniaaaaaa, onde é que tu andas??? Oh Lisete, anda cá!!” Pequenas interrupções que rapidamente eram ultrapassadas por um desígnio mais elevado: brincar!
Num desses Verões em Nogueira do Cravo, o tanque do Nelo e do Nando foi a diversão eleita. Estava em desuso: a rega e a roupa não eram para ali chamadas. Vai daí, alguém se lembrou: “e se fizéssemos desaparecer a divisória e transformássemos o tanque na nossa piscina?” Uma ideia luminosa unanimemente aceite. Na realidade, não houve sequer discussão sobre a derradeira utilização do tanque antiquado: a de tomar banho nas tardes quentes de Nogueira. Até porque nenhum de nós tinha carta de condução para ir para as Caldas de São Paulo. Por conseguinte, é fácil de ver que no nosso imaginário, os banhos logo entrevistos seriam muito mais que simples banhos. Em primeiro lugar, porque a água seria inevitavelmente fria e, em segundo lugar, porque o objectivo era só um: brincar ainda mais. Dessa feita, na água e com muita água – mesmo que gelada.
Não obstante, antes de tal ser possível, era necessário colocar mãos à obra. De maneira que era imperioso esboçar um proto-plano. Proto, no sentido em que os planos eram poucos ou nenhuns: rebentar com o muro que tornava o tanque duplo. Só queríamos um e o maior possível: como é óbvio! Pois bem. Que fazer então? Arranjar ferramentas que permitissem derrubar a tal divisória. As marretas e outros utensílios do género, os nossos auxiliares, ou melhor, os nossos brinquedos. Escusado será dizer que durante várias tardes essa era a nossa brincadeira preferida: acabar com o murete.
Os pais do Nando e do Nelo rapidamente se arrependeram do aval concedido. Isso, como é óbvio, não demoveu os filhos, nem tão-pouco os seus compinchas: o Nuno, a Lisete, a Sónia, a São, o Zé Fernando, o Chalana, a Ana e talvez os irmãos mais novos dos mesmos e mais um@ outr@ garot@. A memória, já se sabe, tem destas coisas e trinta anos volvidos não me é fácil restabelecer com precisão quem ali se divertia à grande. Caso @ leitor@ também integrasse o bando, por favor, queira ser condescendente e compreenda que esse tipo de falhas calha a tod@s.
Os pais do Nando e do Nelo não eram certamente os únicos que estariam um pouco – reforço o pouco – incomodados. O barulho das pancadas, marteladas, bordoadas, mocadas e outros sinónimos que promoviam a nossa feliz algazarra eram a constante. Já para não falar da roupa: ficava num estado miserável. Mas isso, presumo, seria de somenos importância. Era para isso que servia. Naquela época, as vestimentas das crianças tinham como único propósito tapar-nos – não muito, era Verão. As marcas xpto não as conhecíamos; nem sequer lhes dávamos a importância que posteriormente lhes daríamos. É natural, as crianças deixam de o ser, da adolescência desprendida à juventude peneirenta é um pulo. Só então – actualmente penso ser muito mais cedo que tal acontece – a indumentária passaria a ser um elemento relevante para se ser mais ou menos estilos@.
Na década de 1980, em Nogueira do Cravo, o que nos importava eram mesmo os mergulhos que poderíamos dar após concluída a tarefa premente. E assim, ao fim de três ou quatro tardes, tínhamos uma verdadeira piscina – mesmo que ainda vazia. Esse foi então o passo seguinte: encher o tanque de água. Não só, como se calcula. A água do poço estava a uma temperatura próxima do limite polar quando encheu a nossa já piscina. Era imprescindível que o sol tomasse as devidas providências. E nós, como tínhamos todo o tempo do mundo... Relembro que nessa década do século passado as férias eram de pelo menos três meses. Não existiam actividades compradas e programadas pelos pais. O que eles faziam, no meu caso e do meu irmão Miguel, era mandar-nos pelo menos um mês para casa dos meus queridos avô Alfredo e avó Altina. Lisboa estava a quatro horas de distância – hoje o meu tio chega em pouco mais de uma hora. Como tal, enquanto a água aquecia só nos restava fazer uma coisa: brincar a outra coisa qualquer.
A piscina, depois de alargado o tamanho e plena de água menos fria – apenas menos, note-se – estava pronta para o resto. O resto – não era o mais importante: o antecedente fora vividamente aproveitado e brincado.
Os mergulhos, as bombas, as amonas não estão postadas no FB. Há esta memória. Estou certa que aqueles que comigo brincavam a terão igualmente amorosamente guardada. As histórias, mesmo que só histórias como esta, são de quem as viveu: eu tive o privilégio de brincar no tanque, ou antes piscina, ok, proto-piscina, com os meus queridos companheiros dessas e muitas brincadeiras em Nogueira do Cravo.

O que os outros veriam