Amélia... escutando Yann Tiersen






Uma garota. Quase mulher. Cabelos negros, vaporosos. Uma sala de leitura num sótão embaciado pelas janelas há muito esquecidas de um pano limpo. Uma garota sonhadora. Sonha a realidade possível pelo encontro de olhares amorosos. Nas estantes bafientas encontra cartas perdidas, reveladoras de paixões memoradas em corações agora gelados.
Desdobra papéis amarelados e amarfanhados pelo tempo. “Tenho muitas saudades tuas, dos teus beijos macios...” – declarações esquecidas pelas horas que se tornaram dias; dias que se alongaram em meses, anos. Amélia. Assim a chamam quando querem dizer-lhe alguma coisa ou abraçar o seu corpo menino quase pronto para ser mulher.
Amélia encontra também gritos abafados por narrações montanhosas. Grumos verbais materializados em palavras escritas há muito desvanecidas. Escuta as vozes interiores num frémito espesso: “Tens que entregar estes sentimentos por revelar”. A ideia que se vai enformando em cada outra carta velha descoberta no interior de livros, cujo sonho é serem lidos. As bibliotecas – para que servem? Noutros tempos para as elites; neste tempo, das massas, quase para nada. Preferem-se ecrãs tácteis descomprometidos do esforço de pensar e viajar na leitura.
Amélia lê. Amélia quer escrever. Lembra a máquina da avó de pele encarquilhada pelo tempo. As teclas resguardadas por um pano também ressequido pelos Invernos. Pelas Primaveras também. No banco do jardim perfumado, ao sabor de brisas suaves de muitos Verões, essa máquina revelou declarações intencionalmente amorosas, tal qual estas cartas vasculhadas, sedentas de serem respondidas. O propósito da adolescente quase adulta que já compreende a importância de um beijo perdido.
Num envelope envelhecido pelo pó seco do sótão encontrado sem acaso, a morada endereçada. O ponto de partida. O nome em letra arquitecturada cuidadosamente, amorosamente. Lê. Decide-se. Será o remetente sonhado e desejado. Senta-se à mesa escurecida pelo verniz que ainda confere brilho, outro que não o do sótão apagado. A máquina do tempo em teclas ávidas de serem premidas. Resolve-se em palavras. Quais, ainda em esboço mental. Rapidamente deixam de ser ideias vãs para se concretizarem numa declaração esperada... eternamente – tua.
No entardecer que se faz longo, Amélia sorri para as letras que se impregnam numa folha branca que deixa de ser vazia. “Meu amor só hoje encontrei a tua carta numa gaveta trancada. Soubera eu que me amavas do mesmo modo que eu e teria ido ao fim do mundo para te encher de beijos. Quero-te muito, ainda. As minhas pernas já carregam muitos Outonos, mas as flores do meu sentimento ainda são coloridas como rosas de um jardim principesco. Anda, vem ter comigo. Vou ter contigo. Tenho um abraço para te dar, levo-te ou vens buscar? Assinado: o teu eterno admirador que se deseja reconhecido”.
A imagem da carta escrita em frémito convulsivo de Amélia. Próximo passo. Um envelope endereçado à amante, que talvez ainda possa ser amada. Os dias que se tornaram anos não apagaram aquele sentimento profundo. A crença de Amélia na sua inocência bucólica.
No lento circuito do tempo, o olhar vasto em sorriso intenso de Amélia esquadrinha um plano. As nuvens informes rasgam as saudades sepultadas dos que se escreveram sem resposta. Será a réplica, Amélia. Desdobra-se em várias e encontra o lugar da primeira remetente. Termina em tom declarativo o plano: “Vou deixar esta carta no correio!”
Esconde-se. Na casa caída do lado existe um portão sempre aberto que lhe dá um lugar de primeira plateia. Invisível – pensa estar. Olha em redor. A carta há minutos numa caixa pouco usada. A hora do carteiro é certa. Aguarda o tempo da leitora, urdindo a estrutura de um beijo de um futuro adiado pelo silêncio inadvertidamente fechado numa gaveta desossada. Amélia desenha contrastes de lágrimas que hão-de sulcar dois rostos anosos. Nem por isso desapaixonados. A expectativa de uma jovem gentil que sonha os sonhos sepultados pelos remetentes nunca lidos, engavetados que foram por mãos ardilosas e controladoras de um amor materno, quase sempre inspeccionador.
A porta abre-se. A casa que perscruta tem vida. Uma mulher. Incalculável o número de anos gravados em rugas que a memória carrega. Atenta – Amélia – a cada movimento lento soado e pouco escutado deste lado da casa recentemente caiada de portão receptivo a estranhos. A caixa de correio. Uma carta inesperada por quem nada espera há tantos anos que não se lembra.
O rosto idoso muda a sua forma para deleite do rosto ainda juvenil. Um sorriso que hesita nas lágrimas que se empurram umas às outras num olhar que repentinamente se quer refrescar na emoção ainda vaga. Os pensamentos vão ganhando volume na lentidão de uma mão que agarra o envelope e o conduz ao lugar do corpo que guarda as saudades de um amor nunca esquecido. Amélia observa uma pessoa abundante no tempo. Retira-se. Discretamente rasa pela porta em transformação. Fechou-se para que a leitora se encontrasse num passado... ainda presente.
Na claridade parda da tarde que se esvai, Amélia repara no céu polvilhado. Quantas cartas para responder? A sua missão: entregar amores perdidos, guardados em memórias alheias insondáveis, talvez. Ou não... Saltitando em pés elegantes e infantis ainda, escorre-se pelas ruas do bairro em direcção à máquina de escrever onde a aguardam palavras amoráveis...

A lagoa azul... Corte no pé VIII





Caro leitor, cara leitora, não sabes o que aconteceu. Tão depressa eu expressava a curiosidade para saber quem é o tal Martin e eis que já somos amigos. Calma. Amigos na acepção virtual que hoje em dia paira nas nossas vidas. Essas, também, cada vez mais ligadas ou desligadas – conforme a perspectiva, já se sabe – do mundo maravilhoso não de Alice, mas do livro das faces, dos rostos, das caras. Não sou tradutora. Mas também não me parece que esse mundo seja traduzível – talvez nem valha a pena.
Os idiomas são eles próprios elementos de um mundo global, (des)ligado, fragmentado, em rede. Não te acontece utilizar expressões que não sendo em português não deixas de sentir como tuas? Por exemplo: ‘vou googlar’; ‘faz delete’... Só é pena que não possamos ‘fazer undo’ de quando em vez. Algumas palavras que soltei sem prever o seu efeito teriam sido apagadas: tal o desarranjo que terei provocado no receptor. Momentos em que mais valia ter mantido os lábios bem colados. Teria evitado também a entrada de insectos.
O Martin, dizia. Quando o meu namorado aterrou em Santiago foi quase imediatamente para casa do chileno. Conversa para aqui, fotografias para ali e entraram na espiral dos amigos virtuais. O Martin viu então quem sou eu a musa do meu namorado – confio que ainda seja.
Recebi hoje o seu pedido de amizade. De maneira que a minha rede social se vai ampliando, sem que com isso, confesso, o meu mundo se alargue nas devidas proporções. Um dia de cada vez. É o melhor. Mas também já percebi que assim é. Os meus planos são frequentemente ‘desplaneados’; por conseguinte, a sua elaboração tende a reduzir-se. Também te acontece a ti, leitor ou leitora, planear todas as horas do dia de acordo com a agenda e ao final do dia verificares que nada foi conforme previamente estipulado, planeado, programado? É quase sempre em sorriso que observo a viagem pelas horas precedentes. Por esse motivo, prefiro a designação de ‘proto-plano’ ou ‘proto-agenda’. Assim, se alguém ou um lugar mais interessante do que o agendado surgir, prolongo-me nesse instante. Na natureza nada se perde, tudo se transforma – diria que os minutos não se perdem, transformam-nos: assim estejamos receptivos.
Entretanto, o Martin. Logo algumas mensagens privadas. Relaxa, leitora ou leitor. Não tem nada a ver com uma qualquer traição do género virtual. Foi somente uma ‘pseudo-conversa’ de dois (ainda) estranhos. O nosso tema em comum é só um (ainda): o meu namorado. Não obstante, o Martin não se coibiu de tecer largos elogios às minhas fotografias. Deambulou virtualmente pelas viagens ‘postadas’ na minha página. “Estoy impresionado, tienes fotografías maravillosas” – assim se reportava às fotografias que partilho da Islândia.
Finalmente alguém que me compreende. É em desabafo que o escrevo a ti, que me lês neste momento. Uma ilha de sonho – a designação que lhe demos antes de embarcarmos: era o que ambos mais desejávamos partilhar desde que nos apaixonámos – eu e o meu namorado, claro. Alugámos um carro e percorremos toda a costa. Foi nesse ano que eu e o meu namorado chegámos a colocar-nos em causa, tal qual a letra da ‘Paixão’ de Rui Veloso, quando canta em tom de lamento: “Contigo aprendi uma grande lição / Não se ama alguém que não ouve a mesma canção”.
Não era da canção que se tratava, apesar de os nossos gostos nem sempre coincidirem. O que estava em causa era a perspectiva dissemelhante face à fotografia. Na realidade, ainda não ultrapassámos totalmente essa eventual diferença: sinto-me uma artista incompreendida. Artista – penso que esse atributo se pode aplicar a mim. Ganhei alguns prémios com as baleias, focas, géiseres e icebergs que fotografei em movimento: disparos contínuos que me permitiram diversas montagens fotográficas.
O meu namorado, porém, não me dava muito espaço. Estava constantemente a bufar nas minhas costas. Repara, leitora ou leitor, que a sua postura era de facto incomodativa; quase irritante. Eu, fotógrafa em progresso, estava deleitada, inebriada, arrebatada pelas paisagens vulcânicas e glaciares que nos entravam pelos olhos. Os meus queriam captar e guardar essas imagens não apenas na memória e no coração, mas também numa futura tela: para mais tarde recordar! Pedia-lhe, então, carinhosamente que parasse o carro. Por vezes ficávamos horas a fio no mesmo local. Eu era fotografia, respirava fotografia. Trocava lentes, mudava filtros, montava o tripé e observava. Observava, experimentava dar um passo à direita, depois outro à esquerda; piscava o olho direito, depois o esquerdo; arrebitava as nalgas; ajoelhava-me; agachava-me; deitava-me: e captava o instante perfeito. Delongas necessárias, senão fundamentais para quem, como eu, tinha a oportunidade de pela primeira vez estar na terra da Björk, uma das minhas cantoras predilectas, bem como de desfrutar do tempo, do lugar e até dos ombros e dos braços do meu namorado – ajudavam a carregar a parafernália imprescindível a uma fotógrafa em evolução.
Ora, vá-se lá saber porquê, o meu mais que tudo não tinha o mesmo prazer que eu. Não só é imensamente friorento – um dos motivos por que abalou para o Chile –, como tem formigueiros nos pés e noutras partes do corpo. Disse-me que agora até nas costas. A consequência, poder-se-á facilmente prever: fartou-se de estar ao meu lado a acompanhar-me nas minhas riquíssimas experiências. Felizmente ele é um rapaz que sabe colocar-se no meu lugar e adaptou-se, entretanto, ao meu anseio de fotografar.
O frio, esse, é que efectivamente se tornou desagradável, apesar de termos ido em Agosto. Uma sugestão a ti, se tens a pretensão de ir à Islândia: a segunda quinzena de Julho é a mais aconselhável – aquando do Verão pleno na ilha quase polar. Contudo, não cries muitas expectativas: o máximo que sentimos foram uns míseros 15ºC. Coincidiu com a nossa ida à Lagoa Azul. Mas nesse dia até que valeria a pena uma temperatura substancialmente inferior, para assim nos regalarmos com a amplitude térmica entre a água termal – chega aos 40ºC – e o ar eventualmente frio.
Regressámos a casa ao nível dos zero graus. Ao aterrarmos no Porto, o rosto do meu namorado aquecia – confio que fosse resultado da temperatura amena que Setembro nos oferecia.
O Martin. Mais um amigo na minha já vasta lista virtual. Naturalmente que o vasto é sempre relativo. Tenho 500 amigos na rede social mais conhecida. Nada que se compare ao meu namorado que já vai nos 3200 – são sobretudo do sexo feminino. Não quero sequer especular sobre o que isso possa significar.

Margarida... Corte no pé VII


Sou eu novamente, a Margarida. A namorada daqueloutro que no primeiro capítulo – vamos designá-lo assim – se cortou no pé. Por isso ainda o título. A autora já não sabe o que fazer em relação ao título; mas tendo começado com esse famigerado golpe, sente que é esse o seu desígnio momentâneo.
Se é o primeiro texto com que te deparas, leitor ou leitora, não te preocupes: os textos anteriores para além de curtos, são igualmente passíveis de se lerem avulso; digo eu – a autora.
O corte no pé do meu namorado – e sim, sou eu novamente a Margarida. Um pé pequeno; se se tiverem em conta os padrões masculinos; se é que tal se possa aplicar no que à anatomia concerne. Calça 39, ele. Tanto como eu. Os dois com 39 de comprimento nos dois pés. Os nossos ombros não se tocam e eu tenho de inclinar a cabeça em sentido ascendente para naufragar nos seus lagos verdes. Quer dizer, agora não tenho como afundar-me, dado que neste momento ele se encontra em parte incerta.
A última vez que nos comunicámos – há quase uma semana – estava ele a recuperar de outro corte no pé... viajava à boleia de Santiago para a Terra do Fogo: pronto para embarcar para a Antártida!
O corte no seu delicado pé. A sua curva é tal, que fico na dúvida se pousará totalmente as suas extremidades inferiores no solo. Por oposição, os meus pés padecem do que algum iluminado denominou de pé chato. Prefiro o termo pé raso. Assim sendo, os meus pés sentem o chão em toda a sua superfície plantar: deve ser por solidariedade ao arco hiperbólico dos pés do meu namorado.
O golpe. O sangue. A dor lancinante que o trespassou e o motivou a telefonar-me. Uma voz agonizante: pensei que estaria a morrer. No entanto, acredito que não tenha vertido uma lágrima sequer. Aprendeu desde tenra idade que o choro é para meninas: sua expressão. “Estás a chorar porquê? Magoaste-te? És um menino ou és um homem?” – palavras agrestes do seu pai, cada vez que os seus lábios tremelicavam. Não tinha tempo para alcançar o beicinho – pobre rapaz! Já eu, sempre que pressinto o saco lacrimal a activar-se, revelo-me em minutos – se tanto. Para quê estancar esse líquido interior, orgânico, quente e até salgado. A que sabem as lágrimas?
Prefiro então as palavras irónicas que a minha mãe atirava sempre que eu batia o pé – eu era desse estilo: “Chora, chora para aí. Quanto mais choras, menos mijas!” Leitora ou leitor, bem sei que este vocábulo não chega a ter tal estatuto e poderás até sentir que é pouco consentâneo com o que esperavas de mim e da autora. Porém, concordarás que as expressões popularuchas roçam frequentemente a má educação. Não chega a ser má educação: é apenas o modo peculiar do dizer popular. Na verdade, podes fazer uma experiência. Lê em voz alta: quanto mais choras, menos urinas; ou então: quanto mais choras, menos xixi fazes; ou ainda: quanto mais choras menos águas vertes. Confirmas. Não teria a mesma sonorização, nem tão-pouco o mesmo alcance.
Voltando ao que aqui me trouxe. O corte no pé do meu namorado. Essoutro que viajou, qual jovem sem rumo. Não vou gastar linhas na descrição do acontecido propriamente dito antes de ele me telefonar naquela noite. Não estava lá. Não sei o que sucedeu. Sei tanto como tu, leitora ou leitor. Aquele seu hábito de se pavonear pela casa tal qual veio ao mundo não é de comentar: tão-somente por fazer parte da mesma liga: a de me sentir livre quando na minha casa. A diferença entre nós, é que eu vivo no nono andar. Os meus vizinhos da frente, os mesmos – ou mesmas – não me abarcam nos seus desvarios de coscuvilhice.
Leste bem. Os vizinhos ou vizinhas, melhor dizendo, são coincidentes. Vivemos no mesmo prédio. Neste momento, é quase certo, leitor ou leitora, que se estivesses ao meu lado me perguntarias a razão de ser de tal opção e porque é que não juntamos os trapinhos – afinal é mesmo disso que se trata – e não pagamos apenas uma renda. Por inúmeros motivos. Entre os quais a possibilidade de podermos dormir sozinhos nas nossas camas gigantes e de nos deitarmos à hora que ambos bem entendermos.
Eu, por exemplo, gosto de ver televisão até tarde. Gosto dos programas sobre a vida selvagem. Não obstante estarem cada vez menos interessantes. A selvajaria é cada vez mais a dos exploradores que passam a vida em frente à câmara. Dá ideia de que se terão esquecido dos animais. Ou então, tentam ser mais um elemento da selva.
O meu namorado às vezes é muito aborrecido. Para não dizer chato como os meus pés. Prefere deitar-se com as galinhas. Também gosta de se deitar com as mesmas aves. Só não percebo porque é não arrenda um galinheiro! Não só diminuiria substancialmente a renda, como não necessitaria de despertador. Além disso, teria companhia todas as noites!
Para terminar a senda do corte no pé. Quando desci os seis andares que nos separam sempre que não nos apetece partilhar tudo, deparei-me com ele agarrado ao pé. Doía-lhe. Não duvido. Mas nem sei como dizer isto sem ser irónica, sarcástica, maldizente e até mesmo mordaz. O pé tinha uma pequena laceração no calcanhar. No calcanhar! Aquela parte que nem sempre a pedra-pomes resolve. As mulheres saberão bem ao que me reporto. Enfim. Lavei com soro fisiológico e passados dois dias não havia vestígios.
Lá o ajudei a apanhar os cacos do jarrão. O rapaz estava inoperante e era necessário respeitar a sua dor. Fiquei com ele nessa noite. Antes de adormecer contou-me que conhecera um chileno na véspera: o Martin. Fiquei curiosa...

Um corte no pé VI




Antes de prosseguir é devido, imperioso, fundamental um esclarecimento. Neste momento, leitor@, quem lês é a Margarida: a namorada do homem, rapaz, pessoa do sexo masculino que esteve aqui nas cinco vezes anteriores. Acontece que eu também quero ser lida e já é tempo da minha ‘voz’ se fazer ‘ouvida’. Chama-lhe presunção, necessidade de ser ‘vista’, o que melhor entenderes, para assim nos entendermos melhor.
As ambulâncias não páram as suas sirenes incessantes. Estou habituada. A minha casa é próxima do hospital central da cidade. Cada vez que escuto uma, agradeço o facto de estar viva e de boa saúde. Podes imaginar, leitor@, o número de vezes que o faço ao longo do dia e da noite também. Particularmente quando os dias passam inteiros por mim sem que eu sinta o calor exterior; no caso dos meses anteriores a chuva fria, ela própria. Hoje, felizmente, é o sol no seu ocaso dourado que me encadeia o olhar. Encandeia mas não fere. Sou daquelas que aprecia olhá-lo de frente, mesmo que me digam que posso ficar cega! Será mesmo verdade?
Apareço-te, então, leitor@. Perguntas porquê; consigo vislumbrar um som distante da tua voz mais ou menos rouca, mais ou menos sensual, mais ou menos fanhosa. A minha é assim que está neste momento. Constipada, muito ranhosa, desde há pelo menos sete dias e sete noites. Deve ser pela ausência do meu namorado. Resolveu ir para o Chile. Sem mais nem porquê. E tu leitor@, também te parece que foi uma atitude descabida? É que tu, leitor@, não sabes um pormenor.
Dias antes de ele se decidir a ir para o outro lado do Atlântico, pediu-me em casamento! É verdade. É verdade também que tínhamos bebido um pouco. Vá, um pouco se calhar é redutor. Uma garrafa de vodka e algum sumo de limão à mistura. Não nos ficámos por aqui. Uma amiga nossa muito louca – é o melhor adjectivo, acredita, leitor@ – esteve na Tailândia e trouxe-nos, como recuerdo, balões para fazer rir. Apesar da longa distância percorrida até casa, os balões ainda vinham cheios de um hélio que era muito mais que hélio. Claro que neste momento estás a duvidar do que eu te digo. Dou-te mais um pormenor: a minha amiga muito louca – vou manter o atributo para que saibas a quem me reporto – decidiu fazer a viagem de volta por terra: comboios, autocarros, boleias... Às tantas terás razão na dúvida que te assalta como a mim também, e ela terá adquirido mais balões pelo caminho.
De qualquer modo, como te dizia, o meu namorado, ao fim de uma garrafa de vodka e dois balões que fazem rir – eu acompanhei – fez-me um pedido cerimonioso: “querida Margarida, és a mulher da minha vida! Quero passar o resto dos meus dias contigo: casas comigo?!” O meu rosto ébrio terá mudado de forma diversas vezes. Era o primeiro pedido de casamento que escutava. Tendo em conta que nenhum de nós estava sozinho em si, pensei que a resposta também não seria apenas minha: adiei delicadamente para o dia seguinte, quando a ressaca se curasse.
Ressacados, estremunhados, esquecidos das horas antecedentes: assim despertámos na tarde seguinte. As nossas caras estavam um pouco diferentes e os corações transmudados, pelo álcool ingerido e ainda em processo de destilação. As mãos tocavam-se amorosamente. Era o que a minha pele me sugeria. Arrepiada. Em pele de galinha. Não percebia aquela sensação: até que olhei em redor pelo quarto – também em recuperação pelo torpor noctívago – e era o frio que se instalara pela janela que ficara entreaberta!
O meu namorado também se ressentia e as suas mãos começaram a gelar inadvertidamente, ao ponto dos dedos ficarem todos brancos. Pensámos que poderiam cair, como acontece aos alpinistas que chegam ao Evereste: só podíamos estar sob o efeito das substâncias tomadas na véspera.
Fomos tomar banho. Não é necessário dar-te muitos pormenores do que se passou debaixo da água quente, leitor@. As cabeças ainda pesavam sobremaneira. Nada a relatar, portanto – em relação ao que esperavas ler. Ainda assim, talvez seja melhor dar mais um esclarecimento: sou uma pessoa muito reservada, a roçar o pudico. Como tal, mesmo que nos estivéssemos enrolado e afogado na banheira não estaria aqui a fazer esse tipo de revelações. Além disso, não sei a tua idade, nem tão-pouco os padrões de conduta por que te reges: não quero ofender os teus olhos com cenas mais ou menos lascivas – se as houvesse, reforço.
Isso seria mais tarde. Nessa mais tarde de um Domingo qualquer chuvoso – houve muitos em Janeiro –, não sucedeu o que eu esperava. O melhor é mesmo não esperar nada: evita-se o desapontamento e o que quer que aconteça é bem-vindo. O que não ocorreu – também tu, leitor@, quererás saber se o pedido foi renovado. É que o meu querido, amado, adorado namorado ficou momentaneamente amnésico. O que dá sempre jeito, refira-se. Dois dias depois estava a fazer uma mochila e abalava para Santiago do Chile. Não acho isto nada normal!

Corte no pé V




Cortei-me no pé! Outra vez. É verdade! Quase verdade. Uma meia verdade. Também poderá ser apenas uma meia mentira. Como preferes o teu copo leitor@: meio cheio, ou meio vazio? “Depende do que escreves”, dirás leitor@; “depende do que bebo”, acrescentas ainda. Concordo contigo. A perspectiva altera quase sempre o modo como percepcionamos a realidade.
Um dia destes apercebi-me disso de uma forma muito concreta. Fui andar de bike com o meu amigo Martin. Já te disse leitor@ que estive com ele aqui em Santiago do Chile: convidou-me para ficar uns dias em sua casa e para o acompanhar numa série de coisas, entre as quais conhecer o Parque Auracano sobre duas rodas.
E fomos então de BMX para o parque. O meu amigo Martin é rapaz muito afoito, irreverente, audaz, destemido e outros atributos do género também o vestem. Deve ser da idade: ainda não tem trinta anos. O meu discurso, a ti leitor@, quase te soa a bota-elástico. Calma, como te disse, a perspectiva com que a realidade nos entra pelos olhos depende sempre do nosso ângulo posicional. A minha idade... pois ainda não tens essa informação. Será este o momento para ta revelar? Hum... pelo que já leste, leitor@, estou certo que terás um palpite... deixo para mais tarde.
O meu amigo Martin: além de ter duas bmx, é skatista, surfista e snowborder. É verdade, desta vez sem ser só pela metade. Pelo menos do que vou conhecendo dele.
Fomos para o Parque Auracano. Um parque urbano na cidade de Santiago. Até aqui tudo bem, não fosse o caso de ter chovido copiosamente nos dias anteriores. A temperatura é excelente, para mim claro: sempre acima dos 25ºC; mas houve uma pequena lembradura por parte de São Pedro (para quem acreditar nesse santo, claro). A chuva tem algumas consequências num parque, nomeadamente no piso... transforma-se em lama! Verbos como chafurdar, atascar, atolar aplicam-se como luvas neste passeio. Essa foi a razão porque numa das descidas muito loucas ia dando um belo trambolhão.
O meu vocabulário de chileno vai-se enriquecendo de dia para dia. Sinto-te atent@ e fazes um reparo: “é espanhol!” Não foi por lapso, nem tão-pouco provocação. Decorre da mesma diferença entre o nosso português e o português brasileiro. Sobre isso não me alongo. Já terás percebido leitor@, que prefiro o português sem muitos acordos. Geralmente o desacordo traz novas discussões, quiçá novas formas de perspectivar a realidade. Neste caso a que me aconteceu. Tem calma leitor@, não me esqueci do corte no pé, nem do copo mais ou menos cheio, ou mais ou menos vazio.
Antes de começarmos uma das descidas mais perigosas - não estou a exagerar. No topo li uma placa com este aviso: “Bajada muy peligrosa”. Nesse momento passou-me uma vertigem pela frente: ‘estou mesmo aqui?’ Estava! Não foi necessário beliscar-me – não havia tempo para essa lamechice de pouco homem. Quando se pedala, pedala-se e pouco mais – eventualmente também se fará uma ou outra pausa para desfrutar da paisagem: neste caso repleta de muitos outros sobre outras rodas, como os skates.
O meu amigo Martin só queria ser o primeiro a chegar – esqueci-me de te dizer, leitor@, que éramos mais de dez ganapos sobre rodas. Isso tem várias implicações; desde logo se se vai atrás de um deles. Sendo a lama e as poças de água o cenário rasteiro, podes visualizar a quantidade de salpicos que alcançaram os meus olhos, as minhas orelhas e também a barba – uso uma barba rala; aquela que dizem ser a de três dias. A minha já tinha pelo menos cinco. Espelhos não havia pela casa do meu anfitrião... de maneira que só me restava confiar que o meu rosto estivesse minimamente aceitável.
Como te lembras, leitor@ – pressinto que ainda estejas aí – numa das descidas ‘más peligrosas’, a dúvida existencial desvaneceu-se e subitamente eu não era só eu. Éra-me mais o garoto que em mim mora, mas que me esquecera. E então, icei o rabo para trás e para cima, relaxei os braços, segurei bem o volante e deixei-me ir pela encosta abaixo. Era uma inclinação superior a 30%. Foi já no final da descida que as poças de água me travaram e conheci de perto o cheiro do chão. Não foi apenas o nariz que teve as melhores condições para o seu sentido primeiro. Também o tacto teve oportunidade de se expandir: agarrei-me a uma cerca de arame para não voar de dez metros de altura. Foi então que bradei pelo meu amigo: “espérame, Martin!! – o sotaque cantado acompanhou esta chamada – ia dando um tralho” (saiu-me no meu calão, claro...).
“Na próxima vez salta” – eis que também tu, leitor@, deves ter lido o mesmo que eu escutei: saltar. De facto, não tinha de cair: podia saltar. E repentinamente a perspectiva de perigo, medo, receio, sobressalto, alterou-se-me por completo. Eu não voltaria a cair, escolheria antes saltar. E isso muda tudo! Como quase tudo na vida...
Porque saltei na vez seguinte, cortei-me no pé. Quer dizer, não foi bem no pé. Foi no tornozelo. Felizmente por aqui posso andar de calções e as meias são daquelas que só tapam o pé. Os tornozelos nus ficam expostos à vegetação que em mim entrou, lacerando o tornozelo direito. Tu, se fores leitora, prevês que sejam apenas alguns arranhões; se fores leitor, serás muito mais solidário e sentirás que o sangue que se esvaiu foi o suficiente para me fazer vomitar. Claro que esse despejo era resultado de duas horas de pura adrenalina. A minha idade começa a tecer algumas limitações: não muitas: quero saltar, sempre... em vez de cair!


A nossa piscina em Nogueira do Cravo

O que os nossos olhos viam



É provável que seja do conhecimento de poucos. Na década de 1980 existiu uma piscina em Nogueira do Cravo. Ou antes, ou melhor, se calhar era uma piscina apenas para uns quantos. Para umas quantas crianças e adolescentes.
As férias de Verão nessa época eram muito longas. Em vários sentidos que o tempo pode ser percepcionado e vivido. Não havia telemóveis, muito menos telefones espertos, nem tão-pouco tabletes (só de chocolate) e outros dispositivos electrónicos. Está bem, tínhamos um tijolo onde escutávamos as cassetes do Bryan Adams e o spectrum chegava a alguns. Pouco mais; por isso, as crianças e adolescentes tinham apenas uma ocupação nas férias: brincar. Às vezes também liam – nos dias em que a chuva nos surpreendia e não permitia brincar... na rua.
As tardes eram, por isso, realmente grandes. A distracção da brincadeira em Nogueira provinha de quando alguém chamava: “Oh Sóniaaaaaa, onde é que tu andas??? Oh Lisete, anda cá!!” Pequenas interrupções que rapidamente eram ultrapassadas por um desígnio mais elevado: brincar!
Num desses Verões em Nogueira do Cravo, o tanque do Nelo e do Nando foi a diversão eleita. Estava em desuso: a rega e a roupa não eram para ali chamadas. Vai daí, alguém se lembrou: “e se fizéssemos desaparecer a divisória e transformássemos o tanque na nossa piscina?” Uma ideia luminosa unanimemente aceite. Na realidade, não houve sequer discussão sobre a derradeira utilização do tanque antiquado: a de tomar banho nas tardes quentes de Nogueira. Até porque nenhum de nós tinha carta de condução para ir para as Caldas de São Paulo. Por conseguinte, é fácil de ver que no nosso imaginário, os banhos logo entrevistos seriam muito mais que simples banhos. Em primeiro lugar, porque a água seria inevitavelmente fria e, em segundo lugar, porque o objectivo era só um: brincar ainda mais. Dessa feita, na água e com muita água – mesmo que gelada.
Não obstante, antes de tal ser possível, era necessário colocar mãos à obra. De maneira que era imperioso esboçar um proto-plano. Proto, no sentido em que os planos eram poucos ou nenhuns: rebentar com o muro que tornava o tanque duplo. Só queríamos um e o maior possível: como é óbvio! Pois bem. Que fazer então? Arranjar ferramentas que permitissem derrubar a tal divisória. As marretas e outros utensílios do género, os nossos auxiliares, ou melhor, os nossos brinquedos. Escusado será dizer que durante várias tardes essa era a nossa brincadeira preferida: acabar com o murete.
Os pais do Nando e do Nelo rapidamente se arrependeram do aval concedido. Isso, como é óbvio, não demoveu os filhos, nem tão-pouco os seus compinchas: o Nuno, a Lisete, a Sónia, a São, o Zé Fernando, o Chalana, a Ana e talvez os irmãos mais novos dos mesmos e mais um@ outr@ garot@. A memória, já se sabe, tem destas coisas e trinta anos volvidos não me é fácil restabelecer com precisão quem ali se divertia à grande. Caso @ leitor@ também integrasse o bando, por favor, queira ser condescendente e compreenda que esse tipo de falhas calha a tod@s.
Os pais do Nando e do Nelo não eram certamente os únicos que estariam um pouco – reforço o pouco – incomodados. O barulho das pancadas, marteladas, bordoadas, mocadas e outros sinónimos que promoviam a nossa feliz algazarra eram a constante. Já para não falar da roupa: ficava num estado miserável. Mas isso, presumo, seria de somenos importância. Era para isso que servia. Naquela época, as vestimentas das crianças tinham como único propósito tapar-nos – não muito, era Verão. As marcas xpto não as conhecíamos; nem sequer lhes dávamos a importância que posteriormente lhes daríamos. É natural, as crianças deixam de o ser, da adolescência desprendida à juventude peneirenta é um pulo. Só então – actualmente penso ser muito mais cedo que tal acontece – a indumentária passaria a ser um elemento relevante para se ser mais ou menos estilos@.
Na década de 1980, em Nogueira do Cravo, o que nos importava eram mesmo os mergulhos que poderíamos dar após concluída a tarefa premente. E assim, ao fim de três ou quatro tardes, tínhamos uma verdadeira piscina – mesmo que ainda vazia. Esse foi então o passo seguinte: encher o tanque de água. Não só, como se calcula. A água do poço estava a uma temperatura próxima do limite polar quando encheu a nossa já piscina. Era imprescindível que o sol tomasse as devidas providências. E nós, como tínhamos todo o tempo do mundo... Relembro que nessa década do século passado as férias eram de pelo menos três meses. Não existiam actividades compradas e programadas pelos pais. O que eles faziam, no meu caso e do meu irmão Miguel, era mandar-nos pelo menos um mês para casa dos meus queridos avô Alfredo e avó Altina. Lisboa estava a quatro horas de distância – hoje o meu tio chega em pouco mais de uma hora. Como tal, enquanto a água aquecia só nos restava fazer uma coisa: brincar a outra coisa qualquer.
A piscina, depois de alargado o tamanho e plena de água menos fria – apenas menos, note-se – estava pronta para o resto. O resto – não era o mais importante: o antecedente fora vividamente aproveitado e brincado.
Os mergulhos, as bombas, as amonas não estão postadas no FB. Há esta memória. Estou certa que aqueles que comigo brincavam a terão igualmente amorosamente guardada. As histórias, mesmo que só histórias como esta, são de quem as viveu: eu tive o privilégio de brincar no tanque, ou antes piscina, ok, proto-piscina, com os meus queridos companheiros dessas e muitas brincadeiras em Nogueira do Cravo.

O que os outros veriam

Corte no pé IV


Dança, dança, dança... Podia ser o título de um livro. Podia e é! De Haruki Murakami. Não o meu preferido: Sputnik, meu amor – o primeiro que li. Dizem que não há amor como o primeiro. Deve ser essa a razão. Outros houve. A saga de 1Q84 também gostei muito. O terceiro volume já o li em kindle – durante a viagem para Santiago do Chile! Pois! Já fui... E sabes com quem estive? O Martin – ele mesmo!
Como é que foi isso? Adivinho a tua pergunta. Oh... nem sabes o que aconteceu. Nada de especial. Estava farto do Porto. Em Dezembro começou a chover e Janeiro não estava muito diferente. Pelo que a minha namorada me disse por skype ontem, a previsão não é de melhoria tão cedo. De maneira que aqui me prolongo. Até quando? Ainda não sei. Por ora na capital. Antes disso... tens razão ainda não te disse.
De quando em vez faço experiências pelo skyscanner. Andava nisso desde há uns tempos, confesso. Até que um dia estava nesse devaneio – já te falei sobre essa teoria que está amplamente descrita na literatura académica – e vai daí: um preço bestial: seiscentos euros (só ida!). Comprei de imediato. Embarquei no dia 28 de Janeiro. Estava mortinho por viajar. Nem te sei explicar este impulso que alguém chama de viajante e outro alguém de fugitivo. Revejo-me nos dois.
A minha casa estava um pouco fria. O Inverno... Não é a minha temperatura preferida. A minha namorada Margarida não sorriu muito quando me deixou no aeroporto de Sá Carneiro às seis da manhã. O seu rosto estava fechado e os olhos alagados. Mas não deixou cair nem uma única lágrima. O que me surpreendeu. Volta e meia abre a torneira. A tua namorada também, se és homem? Ou se és mulher, costumas lacrimejar sempre que vais ao cinema? Bem... está visto que a minha namorada não é uma raridade.
De qualquer modo, conteve-se. Abraçou-me. Ou melhor, fui eu que a prendi nos meus braços. Apertei-a tanto que deve ter ficado com o seu peito esmagado – vou dizer assim, mesmo não sendo a expressão que me apeteça empregar. Espero bem não ter estragado a sua fronte. Afinal, é pouco provável que me fique aqui para sempre.
Abraços, beijos e até amanhã. O modo como entrei na secção de controlo. Rapidamente passei esse trâmite de segurança. É uma daquelas coisas que quase me exaspera quando viajo. Só quase: basta que me reposicione e lembre da razão por que ali estou: viajar! Mas também é por pouco tempo. Apenas quando estou a preparar a mochila de mão. O menos possível para ninguém me aborrecer. Nem sempre é fácil passar sem percalços.
Uma vez aconteceu-me estar em escala em Frankfurt e saí da zona de embarque. Muitas horas entre os vôos... Quando quis voltar pensei que perderia a minha ligação. A zona de controlo era encerrada à minha frente por ameaça de bomba! Nem mais nem menos. De maneira que hoje em dia, independentemente do número de horas em escala, prefiro não arriscar. Não arrisco nesta matéria. Noutras há que me sinto muito afoito. Diria mesmo que pouco consciente para o que esperam do meu comportamento, teoricamente adulto. É só teoria... fica para depois – eventualmente.
Não é teoria, nem tão-pouco devaneio o local em que me encontro: Santiago do Chile. Finamente! Nem sei há quanto tempo sonho com isto. Ou talvez tenha uma ideia. Não é assim tão remoto no tempo, esse meu desejo. Quando vim da Índia era para lá que queria seguir: aterrava no Porto em Maio de 2012. Mas a Margarida... Ah... os afectos. Desde então que esse país não mais abandonou as noites sonhadas. Devo-te uma explicação leitor@. Só espero que a minha namorada não leia esta parte.
Na Índia conheci uma chilena. Vivemos uma paixão daquelas que só imaginava nos filmes: e nem todos. Foi só uma semana: o tempo não baliza a relevância de uma experiência. Muito menos essa que vivi com Paz Parada. O seu nome é tudo menos ilustrativo. Partilho contigo um raio do meu arrebatamento: a Paz é tântrica. Nem mais nem menos! E nem mais te digo. Se fosse católico, estaria seguramente a fazer a promessa de ir a Fátima a pé e dar vinte voltas de joelhos no santuário: para que a Margarida não leia isto.
Nessa altura também... estávamos afastados. Não conta! Querida, se me lês, hás-de lembrar-te que com efeito nos aborrecêramos antes de eu embarcar para Mumbai. Além disso, quando regressei contei-te... uma parte. Não havia necessidade de entrar em pormenores. Sabes que te amo sempre. Mas o meu coração é muito vasto. Cabes tu e... não só.
Bom, tens razão leitor@, essa conversa não é para ter em público. E talvez que a anterior também não. Estava a contextualizar-te sobre a razão primeira de iniciar viagem pela América Latina no Chile e não na Venezuela. Mas também não sei se esse seria o melhor local para começar. Num país em que o Natal é quando o presidente quer, pode acontecer tudo.  
Estou então no Chile. Estive com o Martin, e não com a Paz Parada. Quem sabe. Somos amigos, quer dizer, não sei se ser amigo através do livro das faces é sinónimo de amizade. Não a contactei: para resumir. Ainda a ponderar. Apesar de ter sido uma experiência extraordinária. Lembro-me de na época ter compreendido a expressão: já posso morrer! Não morri. Estou vivo. Muito vivo e em Santiago do Chile... há dez dias. Por ora fico por aqui: vou jantar ao Restobar KY.

A mosca


Esta história é simples, mas foi comigo que aconteceu. Quer dizer, comigo e com uma mosca. Como o insecto não tem a mesma linguagem que eu aprendi, partilho contigo que a lês: obrigada!
O nome por que fui batizada é Célia: dou-te este elemento para que me identifiques de algum modo. Dou-te outro: nasci há vinte e seis anos. “Já ninguém tem vinte e seis anos!” – a minha vizinha um dia destes. Fiquei admirada com o seu tom. Parecia saudosa desse seu tempo, apesar de ter um rosto que adivinha pouco mais de trinta.
Eu ainda não sinto saudade nem dessa idade nem das anteriores. E tu, que estás nesta página, costumas ter esse sentimento face ao que passou ou ao que virá? Achas que vale a pena? O passado já não existe e o futuro não sabes se alguma vez o terás ou pelo menos no modo que gostarias – se é que sonhas com o que há-de vir.
A mosca. Esse belo insecto, quando vem só e nos vem dizer que a temperatura exterior queima: a sua razão para querer estar na nossa sala fresca. Se vives no Porto como eu, tu que estás ainda à espera da história que te disse ser simples, saberás que a presença daquele ser minúsculo de asas não estava no meu quarto por causa do calor. Janeiro ainda não acabou: o que significa que faltam muitas semanas para que a temperatura se altere de forma notória. Isto é relevante para ti, se como eu te sentires mais confortável com o sol mais forte.
Porém, os porém são frequentes na vida: é o seu sal: há quem diga. Não sei se o sal é assim tão bom: a minha comida até costuma ser insossa... para os outros. De qualquer modo, nem sequer é um porém pejorativo aquele a que me reporto. Neste mês de Inverno aceito o frio e frequentemente até de bom grado. Malgrado as frieiras que estão em visita – por muito mais tempo que o desejável: se é que tal coisa possa ser desejável.
A mosca. Ainda está aqui. E tu? Ainda bem, obrigada. Entrou sem pedir licença. Já se sabe que se o fizesse eu não lhe daria autorização. É por isso até que às vezes o melhor é não pedir. Queremos, pegamos. Queremos fazemos. Se o outro ficar incomodado, que diga!
Apesar de estar sozinha no momento em que a janela aberta lhe deu essa oportunidade, preferia esse estado: mais vale só que mal acompanhada. Repara que não o digo por dizer. Não é treta. A tal vizinha saudosa é que de quando em vez me pergunta: “Ainda é solteira? Olhe que está na altura de juntar os trapinhos”. “Sabe como é – desculpo-me por cortesia – nem todos apreciam o sol de Maio. E eu gosto mesmo dele durante esse mês – em especial quando o posso contemplar na sua hora nascente”.
Parece-me que a minha vizinha não sabe bem do que falo, assim como não sei se tu aí do outro lado da página virtual acolhes esta minha característica com simpatia: a de ver o nascer do sol... quase todas as manhãs.
Hoje foi o caso. Foi precisamente nessa altura que abri a janela do quarto. Vai daí, a mosca que gelava no parapeito agarrou a oportunidade do calor do quarto dormido: entrou!
Olhámos uma para a outra. Quantos minutos terei insistido para que se ausentasse? Não os suficientes. Se eu sou teimosa – é o que me dizem –, a mosca ganha-me aos pontos. Como estou a aprender a render-me ao inevitável, retirei-me dessa luta. Há uns tempos atrás teria recorrido a uma arma que me dá poder – pelo menos em relação a esse reino de minorcas, nem por isso menos aborrecido: o insecticida!
Não valia a pena: afinal até me preparava para sair. Era eu que me ausentaria. Fui. Três horas depois regressava. E tu, que ainda estás aqui comigo, calculas que a casa não esteja vazia. É verdade. A senhora mosca – nesta altura já se pode considerar uma senhora, tal a sua resistência – mantinha-se à janela.
A chatice disto tudo são os vidros. Limpara-os no dia anterior. Mesmo que seja uma tarefa que me agrada – uma das minhas formas de limpeza mental –, não me apetecia repeti-la tão cedo. Há coisas mais interessantes que limpar vidros: estou certa que concordarás comigo. É possível até que tenhas alguém que o faça por ti. Aproveito para me oferecer – calma! não sou nenhuma oferecida: nesses termos que porventura magicaste por momentos. De qualquer modo, se quiseres que te visite, terei todo o gosto em ir a tua casa com esse propósito. Assim estejas perto de mim e no final partilhes um chá. Eh lá! Pensas tu que estou a gozar contigo. Podes perguntar à Judite, a quem disse que ajudaria nessa tarefa, para si árdua e aborrecida.
Aborrecida também poderia ser a mosca. Não só continua cá em casa – são três da tarde –, como conseguiu apagar a minha perseverante limpeza; que pelos vistos de perseverante não tem nada. Isto só confirma que a limpeza da casa, tal qual tantas outras coisas na vida, são como o mito de Sísifo. Eternamente repetidas, repetíveis e sempre com o mesmo objectivo: serem repetidas e voltar ao mesmo, apenas porque sim. Neste caso, para ter o vidro transparente. E até que valia a pena essa transparência total: o arco-íris assomou diversas vezes no horizonte. Ali fiquei a contemplá-lo.
Uma contemplação partilhada: com a mosca. É que mesmo que a linguagem não seja a mesma, há coisas para as quais as palavras são de somenos importância. E tu? Apreciaste algum arco-íris hoje? Não te preocupes. Ontem também observei uns quantos. Tendo em conta que a chuva nos continua a fazer companhia: desfruta a sua água e a sua ausência sob o sol. É quase certo que agarres esse instante num longo farrapo azul com uma tira em arco com sete cores. 
A fotografia não a tentes: pode dar-se o caso do instante se ter desvanecido entretanto.
A mosca. Finalmente saiu. São quatro da tarde e ela lá terá concluído a sua missão. O vidro, esse, esperará até que eu necessite de uma pausa nos pensamentos.

Um corte no pé - III



Car@ leitor@, aposto que esperavas por notícias minhas. Escutei vozes desconhecidas – é verídico – e conhecidas também: a Ema, por exemplo. Queriam saber mais. Tal como tu, presumo: com mais ou menos presunção, pensei ser de bom tom continuar-me. Com ou sem ego – sobre isso já sabes.
Antes de começares a ler, assegura-te que estás bem sentad@ e atent@. Mesmo que estejas a ler-me através de um telefone esperto, se eu tive a simpatia de te escrever, tem tu também essa simpatia comigo. Já reparaste que tendemos a reagir de acordo com a atitude do outro e vice-versa? Pois bem, se ainda não te deste conta disso, deixa essa reflexão para depois. Agora estás nesta página virtual. Só aqui! Nada mais existe – apenas este instante. Como tal, verifica que nada nem ninguém te incomoda: nem aquela rapariga gira que está na outra mesa do café – se for o caso. Bom, se valer a pena, podes sempre convidá-la a acompanhar-te nesta leitura. E terão então tema de conversa. Já estás só aqui?
Muito bem. Calculo que uma das questões que te tenha surgido se prenda com a minha vontade de ir ao Chile. Acrescentas ainda – ouço-te o pensamento – este ano? Tens a certeza que estás bem acomodad@? Se for preciso levanta a voz: “Estou a ler! Não quero ser incomodad@”.
É verdade. Antes disso: o pé já sarou! Também é verdade: parece que a minha namorada tinha razão. Só mais um pormenor: em vez da água oxigenada ela usou soro fisiológico - sugestão de uma amiga sua. 
Ir ao Chile é um desejo: se se concretiza ou não são outros tantos. Há pouco tempo apaguei uma série de velas no meu aniversário e no final trinquei duas delas. Ainda é cedo para te revelar a minha idade. Não te posso alagar já de muita informação: neste momento isso não é tão-pouco relevante.
O Chile. América do Sul: desse continente apenas o Brasil. As cariocas são deliciosas: garanto-te. A praia de Copacabana é maravilhosa: o slogan à cidade é merecido e aplica-se a essas areias quentes, cheias de corpos morenos e lindamente sinuosos. Nada como os de muitas europeias que se querem sempre escanzeladas. Nem percebo. Pelo menos para mim, que gosto de agarrar qualquer coisa. Bom, se fores uma leitora, não leves a mal. A verdade é que sempre me fez confusão essa coisa das mulheres pensarem que a sua beleza está na magreza.
Quase um rima, reparaste? Não foi propositado e se calhar nem funciona em termos literários. Se não te importas, deixo como está: quero reforçar a ideia anterior – os meus olhos verdes (dizem que são lindos e luminosos) e as minhas mãos de pianista – só na forma: não sei tocar nenhum instrumento – têm uma certa atracção por corpos em curva, regaços acolhedores e ventres fofos.
Será que no Chile terei oportunidade de alimentar a vista? Vá, só a vista. A minha namorada também me deve estar a ler. Querida, já falámos sobre isto: é certo e sabido que o meu amor por ti não fica nem um milímetro beliscado. Não sou cego! Aprecio a beleza. Assim como a tua! És linda: Sempre!
Ir ao Chile é daqueles destinos que me atrai desde há muito. O México e o Peru também. A Costa Rica é outro paraíso na terra que gostaria de viver e Cuba não me importava de repetir: digo-te até que é dos poucos países que gostaria de voltar.
Estás atordoad@ leitor@. Então é Chile ou quê? Eu esclareço-te leitor@. Estou aqui para isso. Esses e outros países integram o itinerário que vou construindo mentalmente. A viagem começa sempre muito antes de embarcarmos, concordarás comigo leitor@. A partir do momento em que decidiste viajar começas a viagem. A teoria do devaneio é deliciosa para compreender teoricamente esse estado onírico que nos envolve desde o primeiro instante. O devaneio: perguntas-te agora leitor@ se estarei eu nesse estado em relação ao texto que lês. Afinal ainda não avancei muito. Relaxa. Dá uma olhadela em redor. Nada de especial para ver, escutar? Ainda bem, continua-me.
Quero ir ao Chile! E dizes tu: eu também quero muita coisa e olha, estou aqui a ler-te à falta de melhor. Obrigado!
Quero ir ao Chile, mas não apenas. Daí estou receptivo a todos os lugares que as pessoas com quem me cruzar me sugiram. Não digo vivamente, mas de coração. De coração: e logo outra questão ilumina o teu rosto interrogativo. De coração? Claro! É isso que me move. E a ti não, leitor@? Ou és daquel@s que acha que isso é lamechice? Ficas a perder. Saberás isso quando te deixares conduzir por esse ritmo.
O ritmo que me move agora os dedos é o de Justin Timberlake. Agh! Fazes tu! Porquê, perguntar-te-ia se estivesse ao teu lado e pudesse observar o teu olhar. Já o viste a dançar? E danças? Quem dança é mais feliz – diz um amigo muito próximo. Crê de tal modo nisso que está prestes a fazer uma segunda tatuagem com essa frase. Dançar! Na América Latina dança-se muito. Vês, leitor@, não me esqueci da tua curiosidade. Dança, dança, dança!