Numa noite... depois do hospital (a propósito do dia do voluntário)*



Numa cama estreita, onde o enfermo dorme como um ser inóspito, duplos são os sentidos de quem o visita. As paredes pálidas de um quarto asséptico aniquilam uma qualquer autocomiseração. Reduzo-me a imaginar papoilas muito vermelhas de uma infância há muito vivida. Resgato memórias infantis que me auxiliam a passear por atalhos, enquanto a corda de uma vida se esfia ao limite da (in)existência.
Encostada na borda da cama escuto: absorvo cada palavra, buscando malmequeres amarelos para sorrir e não deixar que as trevas sejam mais fortes que a esperança esfomeada, de alguém que se debate entre a negação e a aceitação de uma doença... Com estatísticas pouco animadoras.
Sou feita de carne e o que me perturba é a impotência face ao que os meus olhos nublados observam. Horas depois, num outro quarto com vista para o mar, a memória é fragmentada, esparsa, dissolvendo-se num sono reconfortante, que a saúde (ainda) garantida me autoriza.
A caverna onde mora a solidão seca é pequena e nela não cabem os anos vividos de aventuras adiadas no espaço... de uma ilusão. Desejo a insónia para me lembrar que o tempo é a minha maior riqueza. Propagar centelhas de luz – o muito que pode originar uma pessoa que numa vida secreta doa o seu maior tesouro: o tempo. A história recente da humanidade revela-me que o maior bem que preservo é o tempo que guardo para partilhar com aqueles que, de um ou outro modo, o aceitam sem reservas.
À minha volta morrem dias vermelhos escurecendo, ceifando vidas. Ao entrar naquele lugar, agarrava os minutos, preparando-me para o amor. Improvisava palavras embrulhadas como um presente que ansiava acolhido. O ânimo de quem as consentia era uma dádiva, inigualável por dissipar o egoísmo que em mim persiste. Prontificava-me a (re)nascer e a expressar um pouco de silêncio. Escutava sem ranger as articulações. Os lábios esboçavam sorrisos, redigindo uma história interior com as letras doridas, umas vezes, outras: mornas e incertas.
Horas mais tarde, num conforto concedido e profundamente apreciado, agradeço o tempo fugaz, antes vivido – os sorrisos quentes e estendidos são abrigados e revividos num sonho descansado...

11 de Novembro de 2016
Matosinhos, Portugal

*Na companhia de António Gedeão

Entre Laranjas e Romãs*


 
O avô Alfredo era um artesão das árvores, um cirurgião das videiras, um artista da poda e, note-se, um criativo na arte do enxerto.
Ontem, ao fim de duas décadas após a sua partida, soube que o avô paterno tinha dotes que ultrapassavam a tradicional agricultura. A novidade, para mim, despontou enquanto a televisão transmitia uma reportagem sobre jovens e inovadores agricultores alentejanos, que se dedicam à produção da romã. Deixou de ser um fruto para poucos, para se tornar alvo de (re)invenções, contribuindo para o aumento das exportações portuguesas. Hectares e hectares de romãzeiras pintam as planuras alentejanas.
A cor rubra avivou memórias gustativas e visuais recentes: as pitaias com que me deliciei em Granada. Uma textura macia que se desfazia na boca extasiada – era um sabor doce, exótico e agradavelmente distinto de qualquer outro fruto. Enquanto revivia mentalmente essa lembrança do palato, o pai despertou-me com as recordações do seu pai.
O avô Alfredo. O avô Alfredo era um (re)inventor dos seus acres e pomares – talvez exagere na amplitude das suas terras, mas enquanto criança os meus olhos abarcavam a realidade com outras medidas. Salivava com as suas sopas de cavalo cansado. Um hectare era mais que muito. Uma imensidão, o salgueiro onde, com o avô Alfredo e a querida avó Altina, descasquei espigas de milho, ao mesmo tempo que me afastava, ligeira e com repulsa, das lesmas negras e viscosas que povoavam os carreiros para o regadio.
Ontem, o pai descrevia as artes do avô que, de forma compenetrada e mesmo artística, desferia enxertos nas videiras, experimentando novas castas para as vindimas seguintes. Infelizmente, o rigoroso calendário escolar (mais o rigor da minha mãe) nunca me autorizou a assistir, tão-pouco a participar na festa dos lagares em Nogueira do Cravo. Lagares mecânicos onde pés nus (mais ou menos olorosos, um pormenor que o álcool proveniente da fermentação dissiparia... acho eu) pisavam as uvas que chegavam em pesados cestos à adega. As portas de madeira de um azul celeste, desbotado pelos anos e pelo sol, são uma das recordações mais azuis da minha infância com os avós paternos.
A adega já não existe, muito menos esse lagar onde o pai ajudou o seu querido pai na produção vinhateira. A jeropiga do meu avô era soberba. Lembrou-nos ontem a mãe, de quem o paladar prefere vinhos mais leves ou derivações mais adocicadas. As castanhas cozidas na mesa, pacientemente descascadas pela tia Teresa, reavivaram a sua terna memória do avô Alfredo.
O gatilho para que as imagens de outros tempos fossem disparadas: as tais romãs, de várias qualidades, mais doces ou mais amargas. Um dos agricultores entrevistados revelava o truque para descascar com sucesso. Um golpe bem torneado no topo é o segredo para que as trezentas e sessenta e cinco sementes muito vermelhas facilmente se degustem – uma para cada dia do ano (não neste, que é bissexto). A aprendizagem não se ficou por aqui – nem sei se divulgue um detalhe que de imediato me mostrou a importância de ser cuidadosa nas próximas incursões a mercados de frutas. Um detalhe que colocou a minha fruta favorita – não a romã! – no patamar das rameiras. Um trocadilho forçado, mas foi a primeira palavra que assomou ao escutar a sabedoria paterna.
As laranjas – essas sim, as minhas predilectas de todas as frutas. As laranjas mais doces têm ascendente de romã. Romalaranja? Ramanja... Rameira – acabara de escutar a palavra romãzeira. É verdade, foi a palavra que me veio à cabeça: rameiras.... doces, as rameiras. Assim se podem explicar as experiências de hibridismo dos agricultores: laranjeiras enxertadas por rebentos de romã. Uma laranja com sabor a romã. Ou pelo menos adoçada pela romã e com uma forma distinta daquelas laranjas mais puras ou daquelas com umbigo. Aquelas que um amigo muito querido preferia: eram um sinal de um açúcar de qualidade.
O meu pai tinha ali mesmo na fruteira um espécime à mão para comprovar a sua teoria. Um espécime que rapidamente açambarquei: uma laranja com fundo manietado, resultado da enxertia romanesca, rameira... ok, de romãzeira. Uma rameira no meu bolso, ahahah... há quem diga que sou um (bocadinho) teimosa ou obstinada... Aquela rameira que neste momento descasco com uma navalha – exactamente como o avô Alfredo e tal qual o pai me ensinou a descascar: um corte para retirar o topo, outro para extrair o fundo (depende sempre da perspectiva, é sabido), seguidos de golpes consecutivos em forma de gomos, que se apartam fácil e eficientemente.
Sim senhor, a laranja é ela mesma uma obra de arte – não fica nada atrás das romãs – merecendo todo um ritual que hoje é ainda mais cuidadoso, não fosse esta laranja uma autêntica rameira, talvez alentejana...

13 de Novembro de 2016
Matosinhos, Portugal
*Este texto foi publicado no Jornal Chapinheiro

Índia II – Uma viagem perdida






Na madrugada de três de Agosto de 2012, estacionei o ‘meu’ carro (onde é que o bolinhas cinzento andará por estes dias...) próximo do aeroporto Sá Carneiro. A E esperava-me. Ainda não eram cinco da manhã!, mas a minha querida amiga fazia questão de me abraçar e de me desejar boa sorte antes de eu embarcar numa viagem, quase, sem retorno. O duplo sentido literal e metafórico aplica-se na perfeição. O ‘quase’ no sentido metafórico é um excesso.
“Difícil de dizer que é sem sentido
para um homem que sabe que um sentido
viria a mudar tudo” (Lars Forsell).
Aterrei em Pune, no centro de meditação do Osho, ao fim da manhã do dia quatro de Agosto. As condições do ashram contrastavam irrevogavelmente com as ruas do centro da cidade. A limpeza asséptica era assegurada por funcionários incansáveis que se revezavam continuamente sem que o seu olhar negro se cruzasse com o dos meditadores – seriam eles 'intocáveis'?
O crepúsculo sorriu e depois de um curto passeio de reconhecimento pela cidade entrava na cápsula sem chave. Um trânsito infernal, muitos narizes tapados e protegidos da poluição que também escorria pelo meu. As pernas e braços esquálidos de muitos transeuntes eram uma amostra de uma cidade indiana, da qual tenho somente laivos de percepção – as saídas do ashram eram curtas e rápidas.
Ao início da noite fui jantar ao Zorbha Bar – o restaurante do resort com uma esplanada virada para a piscina. Como eu, muita gente a chegar. Não como eu, gente a despedir-se. Raman – um actor de Bollywood – sentou-se na mesma mesa que eu.  Terminava as suas férias meditativas. Sentia-se renovado, (re)preenchido de amor e compaixão pelas semanas anteriores. O seu rosto, magnificamente esculpido, transbordava a beleza serena de um artista desconhecido, num sorriso muito branco e jovial. Regressaria a casa, em Mumbai, na manhã seguinte. Convidou-me a conhecer a sua cidade – oferecia um dos quatro quartos de sua casa. A fadiga e o jet lag não me impediram de acolher as palavras ternas e amáveis do jovem de Bollywood.
Talvez embriagada pelo ambiente que lentamente se ia entranhando em mim, o ramo do tempo encurvou-se e arredondou-se. Saíra do Porto, no dia três de Agosto, com a perspectiva de viver um mês exacto entre a partida e o regresso. Era dia quatro... Ainda por descobrir o desatino que o jet lag terá provocado no meu calendário interno. Enquanto conversava com Ramam sobre a possibilidade de passar um dia em Mumbai, efectuava contas e concluía, que sim senhor, uma vez que a minha estadia terminaria no dia três, ainda teria uma noite para usufruir e daquela cidade, essa, sim, realmente indiana.
A proporção do silêncio ensaiado nos sete de vinte e um dias do programa Mystic Rose – aquele em que estava incluída e que integrava igualmente sete dias de riso e de choro (a partilha fica para um dia destes) – desmantelou camadas arcaicas das quase quatro décadas vividas. As monções terão certamente efeitos, difíceis de expor, em pessoas que, como eu, procuravam tratar os segredos da ‘alma’ – ainda não encontrei um termo que se adeqúe ao que apreendo ser uma dimensão incognoscível e imaterial do ser que em mim habita.
No dia um de Setembro, após o programa de meditação que varreu as ruas da minha memória, abri a bolsa com os documentos da viagem. Confirmei a hora dos voos e combinei com os meus pais a minha chegada ao Porto. O Raman, o jovem actor de Bollywood, estava distante... Ir para Mumbai não se afigurava boa opção depois de tantas vivências num lugar sem pó, sem lixo, sem nuvens negras de fumo, sem ruídos tenebrosos de tráfegos insuportáveis. Passei a última noite em Pune num hotel a cem metros de distância do resort.
No dia quatro apanhei um táxi para o aeroporto doméstico de Pune, de onde voaria para Mumbai. Devido aos atentados, à época ainda recentes na Índia, os procedimentos de segurança e controlo nos aeroportos começavam antes mesmo de se entrar nos edifícios. Como tal, foi indispensável mostrar o bilhete aos polícias de serviço que, muito zelosos, davam passagem apenas aos passageiros. Assim o fiz, uma, duas, três vezes, tantas quantas as entradas até alcançar o balcão de check-in – estava encerrado. Faltava uma hora para a sua abertura. Pousei as coisas num banco e olhei em redor. Inspirava com profundidade, como se desejasse prolongar o tempo antes de regressar a ‘casa’. E peguei na bolsa dos documentos para reconfirmar os dados da viagem.
Teria sido muito interessante aceder às imagens que terão gravado a minha reacção ao olhar com olhos de ver o bilhete, naquela tarde de quatro de Setembro de 2012. Se antes conferira a hora dos voos, faltou confirmar um pormenor tudo-nada desprezível. A data do voo! A câmara de filmar terá captado um arregalar de olhos em cima do papel com a informação: data da viagem: três de Setembro de 2012! Um dia antes! Essa lente terá apreendido o tremor das mãos – o receptáculo de um espasmo interno que se consumava no movimento nervoso de uma delas a tapar a boca, como que para silenciar o choque sonoro das minhas vísceras em convulsão. Pelo menos fiquei a saber que não sofro do coração, caso contrário teria caído estatelada no chão com um enfarte do miocárdio. Tal era a corrente de electricidade de uma voltagem que me era desconhecida até àquele momento: quando terei dito – “Oh não!... devia ter ido ontem! Enganei-me!!!”
Estava um dia atrasada. Pegara no papel, mas só me detivera na hora... e o dia? Abanei, agitei a folha – os algarismos não se mexeram, tão-pouco se alteraram. A tinta era implacável: três de Setembro. Mas... não havia mas nem meio mas. A taquicardia avançava, avassalando a corrente sanguínea a uma velocidade que tinha tudo para provocar uma explosão na bomba que não cabia no meu peito.
Era fundamental que me acalmasse. Percorri o longo corredor do aeroporto doméstico de Pune, num torpor de emoções que se sucediam e manifestavam num caminhar lento e pesado, como quem pisa o chão para se assegurar que está acordada, com a esperança vã de que afinal seja apenas um pesadelo. Era com efeito um pesadelo, mas estava a vivê-lo na dimensão da realidade consciente.
Dez minutos. Dez minutos de anseios e receios apaziguados pelas lágrimas que escorriam numa avalanche. Um leito espesso e salgado que chegava aos lábios – desse modo ajudavam a superar a secura da boca.
Dez inspirações profundas “Como é que isto aconteceu?! Como é que isto aconteceu?! Como é que me enganei?!” Engolia em seco... não muito. As lágrimas continuavam a suprir essa necessidade líquida. Sentia-me consumida por uma vergonha ainda oculta, cavalgando sem freio pelo meu ser.
Dez inspirações profundas que decifravam as sirenes neurais: Calem-se! Chega! Calma! Pensa, pensa! O sol da tarde iluminava, resplandecente, uma meditadora apressada na constatação do seu erro inabalável. O comprimento de onda sem arquitectura visível, buscava uma fórmula mágica. Ao longe, os polícias que me tinham dado passagem, sintonizavam-me com o instante presente. O passado erróneo era um estranho a transpor. Nada a fazer. Como uma violenta rajada de vento, os vinte e um dias de monções desceram sobre mim: “O que é que eu posso fazer, agora? Tenho várias hipóteses: regressar ao resort e meditar mais quinze dias (ahahah), apanhar um autocarro para Mumbai e visitar o Raman...” Possibilidades que me surgiam, depois das tentativas em vão para corrigir o erro: o balcão da companhia aérea pela qual supostamente viajaria era um apêndice – a hospedeira de terra não podia fazer absolutamente nada. A senhora simpática não tinha como providenciar uma resolução para a embrulhada com que eu própria me presenteara. 
Voltei a entrar no aeroporto: não havia um único telefone público. Presumia-se que toda a gente teria o seu telemóvel. O lusco-fusco não tardaria e eu chorava o parco saldo que não me permitia grandes chamadas telefónicas. Mas era imprescindível. 
Telefonei aos meus pais; não sem antes libertar ainda que lenta, mas resignadamente, o susto que ainda circulava nas veias. “’Tou mãe? Tenho de ser rápida. Perdi o avião. Enganei-me, mas está tudo bem, não te preocupes. Preciso que me faças o favor de carregar o telemóvel. Estou a resolver a situação e ligo mais tarde...” Não sei onde encontrei o tom de voz sereno que escutava, tão-pouco a displicência para falar com a minha mãe e dizer-lhe que perdi a viagem de avião, como quem perde uma viagem de metro.
Eram dez da manhã em Portugal. Sentada no exterior do aeroporto, mirava o bilhete de avião à frente dos olhos, que entretanto amarrotei e escondi, tentando esquecer o inesquecível. Telefonei para a agência de viagens do Porto, onde adquirira a passagem para a Índia.
O senhor António atendeu ao fim de dez minutos. Dez minutos de inspirações profundas. E no avançar dos ponteiros do relógio, o senhor António retornou a chamada. O cartão visa é um instrumento senão milagroso, pelo menos elementar em determinadas circunstâncias. No seu escritório do Porto, o senhor António comprou a minha viagem de regresso desde Pune. E a hospedeira de terra teve então a sua oportunidade de se tornar prestável: imprimiu o email que gentilmente o agente de viagens do Porto enviou.
Horas depois limpava as feridas da vergonha no aeroporto de Mumbai. Se houvesse uma maca para uma posição cómoda, ter-me-ia estacado e apagado o tombo inexorável na minha conta bancária. Mas estava abrigada. A liberdade depositada num pé de meia (ainda que frágil) assegurou um regresso a casa nessa mesma noite. No dia seguinte aterrava no aeroporto Sá Carneiro. Avancei na minha história e as rodas da mala de viagem transportavam com leveza uma bagagem de experiências e livros. Os braços que me receberam foram compassivos e evitaram perguntas embaraçosas. Quem me traz a Primavera de Vivaldi, recolhe-me sempre.
Desde então pondero sempre acerca da compra das viagens de avião. Neste caso, decidira pela aquisição através de um balcão ‘físico’, no trato pessoal, materializado num rosto com nome. Só meses mais tarde compreendia o instante em que o meu calendário se inclinou silenciosamente para um espaço que só por sorte não me fez deslizar para outro pesadelo... ou sonho. É quase sempre uma questão de perspectiva.

15 de Novembro de 2016
Matosinhos, Portugal


Aprendendo Japonês


Aprendendo Japonês

 

Comecei a aprender japonês.
O sol está quente. No exterior não sei. Aqui na sala, recebo os raios de sol que atravessam sem embaraço a janela de vidros duplos, tocando o meu rosto, aquecendo-o. Um carinho que me dá um certo alento para o momento que vivo.
Comecei a aprender japonês. Talvez seja mais correcto afirmar: comecei a assistir às aulas do nível um de japonês, na faculdade de letras. A distância que existe entre o que a senhora professora ensina e o que eu aprendo é como a distância que me separa desta janela para o mar e um quarto em Tóquio – dificilmente alcançável. Quem sabe um dia seja levada nas asas de um condor...
Estou no oitavo andar do prédio onde hoje resido. Uma altura significativa – ainda que o desespero não seja (ainda) tão aflitivo.
Os caracteres hirigana provocam as minhas mãos sobejamente habituadas a outra escrita. O olhar move-se entre a tabela dos hiragana e as quadrículas para o , que é como quem tenta escrever o be, a, ba. Esse esquema mental do alfabeto latino é um verdadeiro óbice para a (minha) aprendizagem. É que os meus olhos ficam em bico quando miro a outra tabela, a dos katakana. O mesmo é dizer para a outra série de caracteres que se seguem uns aos outros para construir as palavras estrangeiras. Até que não seria assim tão complicado se os japoneses se limitassem aos hirigana e katakana. Os dois alfabetos são mais do que suficientes para os meus neurónios, que ficam completamente à toa. A existência de dois caracteres para os fonemas ji e zu são apenas dois exemplos.
Contudo, como se os hirigana e katakana não bastassem, ainda tenho de decifrar e desenhar na mesma frase os símbolos kanji – adoptado do Chinês!!! Três alfabetos numa só frase?? E ainda só vou para a quinta aula. Sendo certo que a diversidade não se fique por aqui.
De maneira que este desafio é para ir vivendo de aula em aula, estudando em casa pelo menos quatro ou cinco horas por semana – era o que estava a fazer; interrompi-me para este curto desabafo. Está visto, porém, que não é tempo suficiente. Pelo menos para mim. Não é que a senhora professora Reiko me perguntou por duas vezes: “A Ana tem dificuldades, não tem?” Ups! Sabe o meu nome, o que por si só pode ter algum significado para além do que prefiro descortinar.
As minhas amigas professoras (não de japonês, mas de Educação Física) mostraram-se solidárias com as minhas questões de aprendizagem e quase em uníssono perguntaram à laia de afirmação: “Tu és a aluna NEE da turma?!!” Leia-se, aluna com necessidades educativas especiais. Já não se pode desabafar com as amigas...
Enquanto tiver estofo para aguentar o estigma de NEE, vou estudar e desenhar hirigana e katakana e mais uns quantos kanji. Mesmo que isso implique gastar energia e eventualmente queimar neurónios em algo inútil, como dizia um amigo. Mas também, quem disse que a vida tem de ser prática?
Quem escreveアンナ – o meu nome em katakana – como eu, certamente compreenderá que existem certas práticas que ultrapassam a sua praticabilidade...
É melhor ficar por aqui, daqui a pouco vou para as aulas e ainda não me dediquei o necessário... pelo menos por hoje.
7 de Novembro de 2016
Matosinhos, Portugal

Wakeboard... Ou... tricô no rio


https://www.youtube.com/watch?v=e5kCRwES_cw&feature=share



A minha primeira experiência de Wakeboard foi como espectadora na Ilha do Ermal, Vieira do Minho. Fui com a S e uma amiga sua. Fomos assistir a uma competição integrada no campeonato nacional, após um dia bem passado na Serra do Gerês – um dos meus lugares. Diria mesmo que a Serra do Gerês é dos locais mais belos que conheço. Bem sei que nas muitas caminhadas pelos trilhos muito verdes, nos passeios de ‘bicla’ sempre a abrir, nos inúmeros banhos nas cascatas de água gelada e na contemplação do silêncio da natureza, tive sempre uma companhia à altura – um ingrediente deveras relevante para tornar aquela serra num lugar ainda mais especial.
A dois ou em grupo, a Serra do Gerês é, sem dúvida alguma, um dos lugares mais extraordinários para mim. De tal modo aprecio o seu esplendor, que quase me desviei da intenção inicial: a de contar uma das experiências mais frustrantes da minha vida. A de me sentir uma nulidade, incompetente e demais adjectivos que se possam aplicar à incapacidade de realizar uma prática, neste caso, a prática de Wakeboard.
Foi num Domingo azul. Amanheceu cinzento, mas o céu sabia que nós iríamos passear de barco no Rio Douro. Nós: as amigas, as ‘as gajas’ que nos reunimos uma vez por mês para nos rirmos (muito), para chorarmos (às vezes), para comermos e bebermos (demasiado). Nesse Domingo encontrámo-nos (não todas) para experimentar Wakeboard. A M convidou-nos para nos deliciarmos a bordo da lancha do N, o seu mais que tudo.
Uma estreia para mim, em relação à qual não sentia particular entusiasmo. A água gelada é sempre um óbice às actividades aquáticas, quer no rio, quer no mar. Mesmo vivendo perto do mar por estes dias (o que muito me alegra), nunca senti vontade de experimentar o Surf – uma prática comum aos meus companheiros da Quinta de Monserrate, bem como da minha amiga P: está quase pró. Assim como também nunca experimentei o mergulho: fiquei-me pelo snorkeling (as potenciais otites também concorrem para evitar as profundezas). Digam o que disserem, os fatos com vários centímetros de protecção não são suficientes para esta menina. Não é à toa que prefiro os países mais cálidos. Mesmo sendo uma bela tarde de Maio, a temperatura no Porto ainda não (me) convidava a grandes aventuras na água – a opinião de uma friorenta certificada; vale o que vale.
A eventual renitência em entrar na água quase se dissipou ao contemplar o N a deslizar com muita graça e elegância, sobre a ondulação provocada pela deslocação da lancha. Foi o único que se aventurou a entrar na água antes do repasto, que entretanto foi servido no barco. A M, sempre muito gentil e cuidadosa, preparou uma quiche vegetariana para mim, enquanto os demais se lambuzaram com satisfação com um senhor frango assado. O acompanhamento líquido estava à altura da ocasião: caipiroscas de caramelo e frutos vermelhos. Um elemento que incrementou ainda mais os níveis da boa-disposição, estimulando as línguas mais ou menos viperinas e as conversas mais ou menos picantes, só refreadas pela presença de duas crianças: as filhas da P e do N.
De disparate em disparate, tive a infeliz ideia de lhes contar o meu passatempo à época (estávamos em 2013): tricotar – para mim, uma prática meditativa, durante a qual tomei grandes decisões nesse ano: partir três meses em viagem pela Austrália (só estive um, mas isso fica para depois) e retirar-me da faculdade (onde trabalhei os treze anos anteriores).
O tricô – o mote para justificar o maior fracasso desportivo da minha vida. Depois de um café numa esplanada à beira-rio sob um sol aprazível, regressámos às águas verdes e tranquilas do Douro. A P foi a primeira a aventurar-se com a prancha colorida. Vê-la entusiasmada e muito empenhada, estimulou-me. Voltar a apreciar o N a patinar nas ondas criadas pelo deslocamento do barco à sua frente, animou-me ainda mais. O cabo puxava-o. Ele deixava-se levar, movendo-se com graciosidade sobre a prancha – a sua figura concorria com a paisagem majestosa do rio Douro, ladeado pelas encostas mágicas, onde crescem as uvas para um dos melhores vinhos do mundo. A M conduzia a lancha de forma segura e arriscada, também – hoje em dia é patroa local (o que quer que isso seja), mas à época navegávamos ilegais.
Vesti o fato depois da P. Ela tinha conseguido levantar-se e planar sobre a prancha alguns segundos. Se todas conseguiam, eu também seria capaz. Porque carga de água haveria eu de ser diferente?: o meu monólogo interior, como que adivinhando as dificuldades por vir. Além disso, estava extasiada pelo deslize proporcionado pela velocidade que a M imprimia à embarcação – mesmo que sem autorização para o efeito.
O frio ao lado. Queria experimentar. Não parecia fácil. Não parecia difícil. A M disse-nos, com laivos de orgulho, que se levantou da prancha na sua primeira tentativa. Para mim era uma novidade e só nesse dia vislumbrava a dinâmica da actividade: lançarmo-nos à água com as botas apropriadas calçadas e já encaixadas na prancha; agarrar o cabo que está preso à lancha; à medida que a velocidade aumenta tomamos impulso para nos levantarmos e ficarmos na vertical sobre a prancha... até ao momento de ser eu, tudo era teoria – quase tudo permaneceu na teoria...
Sim senhora, a M fê-lo na sua estreia. Era igualmente a da P. Teve êxito: à sétima tentativa. O sete é um número mágico; eu ficaria muito feliz se esse número fosse o meu, não para entrar nas portas do céu, mas para me levantar e deslizar, nem que fosse por sete segundos.
Chegou a minha vez e de fato preto vestido e de botas calçadas e depois de encaixar os pés na prancha, mergulhei: uau! Nem com fato a água era agradável. Um pormenor que podia ser facilmente resolvido – mas o fato não era meu e o esforço físico rapidamente ajudou a aquecer. Já para não falar daquele calor que me começou a envolver, aquele que se espalha quando a vergonha se atravessa.
Na água, com o manípulo do cabo nas mãos, a lancha puxou-me. E eu larguei o cabo... e engoli pirolitos. E voltei a agarrar o cabo, que ao fim de alguns segundos voltei a largar e engoli mais uns pirolitos. E voltei a agarrar o cabo e a tentar levantar-me e voltei a largar o cabo e a beber mais pirolitos... e mais umas vezes nesse filme: sem força para me erguer, sem força para me manter firme com o manípulo do cabo nas mãos, sem força para continuar a ‘pirolitar’, sem força para continuar a testemunhar o meu insucesso e de não ser capaz de dizer como as outras: “Consegui! Consegui!” A única coisa que consegui foi engolir pirolitos e engolir as piadas que entretanto não tardaram. Enquanto subia para a lancha, as vozes eram de gozo: “ah ah ah, continua a tricotar e não treines que vais longe, ah ah ah”. As horas seguintes foram neste fartote: “sim, sim, faz tricô que vais longe... ah ah ah”. Dias depois acabava a minha obra: umas caneleiras de lã castanhas para o Inverno seguinte.
Falhanço e frustração à parte, foi um dia muito divertido. Nada a fazer, não se pode ser boa em tudo – se é que sou boa em alguma coisa. Para o caso não interessa, pois ver as minhas amigas a deslizarem foi um contentamento por si só. Observar a desenvoltura do N foi uma delícia. Brincava com a prancha. Saltos e piruetas, dando voltas à corda: um regalo para o espírito aventureiro que mora em mim. Nesse dia, só mesmo em espírito... Não voltei a tentar!
4 de Novembro de 2016
Matosinhos, Portugal

Viagem(ens) à Índia I – Goa





          
           Num meio de um azul sereno, Goa e Pune. Pela noite, pairando ao de leve em Mumbai. As cidades em que estive na Índia. Dias felizes, onde me rendi por duas vezes no mesmo ano. Mas se me perguntam onde quero/tenho de ir, respondo: quero perder-me e conhecer a Índia – um dos países desconhecidos que anseio visitar, um dos países que sinto necessidade de explorar antes que esta vida se esfume. Como se esfumam os dias. Como escorrem as semanas... os meses.
            O tempo é tão abstracto como nos sonhos, onde o azul do mar se esbate até à cor sépia e a minha voz é inaudível, como se no fundo daquele mar em sépia. A loucura dos segundos manifesta-se de forma concreta nos olhos cada vez mais profundos do Gonçalo ou no corpito em crescimento do Rodrigo. Despertam-me. Às vezes distraio-me, flanando de forma inconsciente e esquecendo-me que respirar é uma função fisiológica garantida apenas na aparência. Como só na aparência estive na  Índia. Duas vezes no mesmo ano: 2012.
            Da primeira vez, estive em Goa dez dias a fim de leccionar no colégio D. Bosco. “Goa não é Índia!” – o que escutei quando, exultante, manifestei regozijo por finalmente ir àquele país imenso – para muitos um subcontinente – que exerce um fascínio sobre tanta gente do Ocidente – eu incluída.
Em Fevereiro de 2012 aterrei no aeroporto de Goa com roupa de Inverno. Vivia-se no Porto um dos Invernos mais frios que as minhas mãos alguma vez haviam experimentado. Comichão e ardor constantes: as frieiras ‘atacavam’ as minhas belas e delicadas mãos, transformando-as numa ferida só.
O Frade WF e a directora do colégio esperavam-me com uma coroa de flores digna de reportagem. O que veio a suceder – guardo o jornal em que a notícia foi publicada. De camisola de lã e gola alta, casaco polar e botas de cano alto, a longa e intrincada grinalda de rosas brancas e amarelas foi o toque refinado que envolveu o meu corpo suado – estavam trinta e três graus às sete e meia da manhã –, onde habitavam uns olhos mortiços de quem não é capaz de dormir no avião. Nessa época ainda desconhecia alguns métodos milagrosos... Milagrosa era a temperatura que em três tempos curou as minhas mãos, devolvendo-lhes a finura de ‘pianista’. Só a finura...
Logo no segundo dia em Goa, apresentei uma palestra perante os mais altos dignitários do Desporto de Goa – pelo menos foi o que me disseram. Nova reportagem pelo jornal local. Tenho uma capa de arquivo com todas as notícias que foram publicadas a propósito da minha presença em Goa. Ainda fui entrevistada por um jornalista bilingue, com direito a programa de televisão.
Há que esmiuçar dois pormenores. O bilingue durante a entrevista foi só para ‘inglês ver’. A única pessoa que conheci a falar português foi precisamente aquele jornalista muito activo. Quanto ao segundo detalhe: se as linhas anteriores transparecem presunção, auto-promoção, jactância e outras demonstrações de vaidade, isso deve-se aos instantes de glória que passaram enquanto aquelas palavras foram lidas. Percebi, entretanto, que todos os que são recebidos no Colégio D. Bosco assim são tratados, não sendo eu uma aspirante a estrela de Bollywood. Fiquei mesmo com a impressão que o jornal e a televisão locais eram propriedades daquela instituição, cuja audiência talvez se restringisse à mesma. Não tem importância. Isso não retira a relevância da experiência, tão-pouco a responsabilidade que sentia, muito menos a ansiedade que o meu corpo experimentava. Era a primeira vez que dava aulas em inglês. Se a participação em congressos me providenciara ocasiões para aprimorar as minhas habilidades naquele idioma, estar uma semana em modo inglês era algo totalmente distinto.
Foi ao terceiro dia que esta menina professora quase colapsou por efeito do ‘jet lag’. Digam o que disserem, a diferença horária tem repercussões que, no meu caso, são por demais evidentes. Cinco horas e meia: a diferença horária em relação a Portugal. E a senhora insónia bateu à porta do quarto. E não preguei olho durante toda a noite. E no dia seguinte não percebia patavina do que os indianos me diziam ou perguntavam na aula. Nem sei como consegui dar a aula. “Could you repeat, please?” Não faço ideia de quantas vezes pedi para que repetissem o que diziam, enquanto fazia um esforço para refrear as tonturas que as suas nucas em oscilação contínua me provocavam. Se para mim era um desafio dar aulas em inglês, compreender o ‘inglês’ dos indianos de Goa foi, seguramente, a maior dificuldade daqueles dias. Depois de mais de cento e um “could you repeat, please?”, a aula chegou finalmente ao fim – e o enjoo passou despercebido - quero acreditar que sim. Isso não significava, porém, ficar livre e por minha conta.
Durante os dez dias que estive em Goa, jantei uma vez sozinha – foi na noite da chegada. O pequeno-almoço incluído no hotel foi a única refeição diária que realizei sem companhia. A gentileza, cuidado e simpatia das pessoas que me convidaram não lhes permitia aceitar uma qualquer recusa da minha parte. De maneira que isso me possibilitou conhecer diversas famílias, vários restaurantes e uma diversidade de lugares em Goa e arredores. Bom, arredores, apenas uma vez, mas valeu a pena. Passei um dia num resort; a gerente garantiu-me que as casas de luxo do sítio eram alugadas por pessoas pouco ordinárias, como o senhor Brad Pitt. Com muita pena minha, não era a sua época de férias; às tantas estava a filmar Babel ou A árvore da vida. Esse dia extraordinário, num resort extraordinário, numa praia extraordinária ficou marcado por um escaldão só comparável ao que apanhei este ano no Rio de Janeiro. E pelo mesmo motivo: a febre de querer aproveitar, no caso de Goa, o único dia de praia possível na agenda preenchida (no Rio não foi um, mas três dias de praia... em quase quatro meses). Era possível estrelar um ovo nas minhas costas. Vá, não em toda a superfície... mas quase.
A existência de um sem número de igrejas católicas é apenas um exemplo da influência portuguesa naquela antiga colónia. A religião ao serviço da colonização é bem visível na Old Goa, com especial destaque para Basílica do Bom Jesus, onde a altura do pé direito era de tal ordem que quase fiquei com um torcicolo. As marcas portuguesas estendem-se às ruas da cidade, onde os solares e casarões nos lembram como, em outros tempos, os serviçais mantinham os alpendres, as janelas senhoriais e jardins cuidados e amplos, impecavelmente limpos – marcas indeléveis da cultura portuguesa em terras além-mar.

 Por incrível que pareça não vi gente a dormir nas ruas e os corvos que escutei cingiam-se à praia urbana de Pangim, a duzentos metros do ‘meu’ hotel. Os corvos que crocitavam de modo contínuo não eram adversários à altura das buzinas, buzinões e apitadelas constantes do tráfego automóvel. “Horn me please” – o que li em muitas placas pregadas nas traseiras dos veículos. A legenda que me esclarecia que carregar na buzina é uma das técnicas de condução: uma apitadela para virar à direita, duas apitadelas para virar à esquerda e três apitadelas para lembrar aos demais condutores que não estão sozinhos na estrada: as senhoras vacas têm prioridade sagrada. Estão, pois, a salvo das mesas dos comensais.
Foi na mesa do Frade WF que tive uma excelente ocasião para desfrutar da gastronomia de Pangim.  O Frade WF convidou-me para o seu aniversário em sua casa com toda a sua família. Suei água em bica, bebendo pelo menos três litros de água durante a refeição. Na verdade, a roupa ficava sempre encharcada e não era pelo calor, uma vez que o ar condicionado estava sempre ao rubro. Transpirava qualquer que fosse a comida, qualquer que fosse o lugar. Apaziguava os meus anfitriões afirmando repetidamente que estava bem e servindo-me pelo menos duas vezes. A comida era deliciosa. Quente, picante, flamejante para o meu paladar europeu – mas inigualavelmente saborosa: a gastronomia indiana ficou no meu top três, ascendendo ao lugar cimeiro meses depois, quando regressei à Índia. Beber água era a forma (mesmo que não a mais aconselhável) de acalmar as minhas glândulas gustativas. Prosseguia na degustação de cada novo prato, sem pruridos da vermelhidão do meu rosto.
Sempre que chegava ao hotel confirmava os receios remanescentes dos atentados em Mumbai. A segurança era severa. Antes de entrar no parque do hotel, com portão sempre cerrado, um polícia pedia que se abrisse o capô e a mala, efectuando a respectiva vistoria. Depois de sair do carro e me despedir, abria a carteira e era sujeita a um controlo de metais e afins. O mesmo sucedia em todos os locais públicos fechados. Esse controlo contínuo não obstou a que me deliciasse com as gentes, cores, sabores e odores de Goa – mesmo que não tenha estado na Índia, convivi com indianos maravilhosos.
A par da agenda social e académica cheia, encontrava espaço para vaguear durante algumas horas pelas ruas de Goa. Saía do hotel após uma sesta – sou uma defensora acérrima de uma curta viagem ao mundo onírico depois do almoço; vinte minutos em brasa que me transportam para um qualquer sonho. Para além dos palacetes e casarões de estilo colonial português, o comércio era diverso nas suas configurações e produtos.
Deambulei várias vezes por um mercado, onde os meus sentidos captaram múltiplos estímulos sensoriais, bem distintos do que estava acostumada. Desde logo o odor a especiarias, entre as quais o açafrão amarelo torrado, que se adentrava pelos olhos e pelas narinas. Com esta fragrância peculiar que dá cor a pratos de ‘curry’ muito saborosos, concorriam muitas outras cores e cheiros ainda mais fortes, como o vermelho – a fazer adivinhar algo bem quente. O cor-de-laranja forte e outras matizes estavam em exposição nos balcões de vendas organizados de forma aprumada. Cravo, canela, gengibre e muitas pimentas que se confundiam com um dos aromas predominantes, o cominho. Outras vendas se expunham com tecidos ricamente sedosos e macios. Comprei uma echarpe para a minha mãe e guardo uma outra que a delicada directora do colégio me ofereceu na última aula do colégio, juntamente com outra grinalda colorida e muito olorosa.
Naquele mercado fechado, com corredores exíguos a roçar o claustrofóbico à boa maneira de uma medina marroquina, onde os meus sentidos eram assaltados continuamente, foi muito penoso manter a carteira fechada. Não me foi possível resistir a uma túnica azul, com cornucópias brancas e debruada com fios prateados e vermelhos e a um conjunto de pulseiras a condizer: peças que entretanto voaram aquando do ‘Bazar porque vou Bazar’ (a senda da venda de garagem mais original de Paranhos e arredores fica para outro registo).

As ruas habitadas por lojas coloridas e roulottes de comida picante forneceram sensações extraordinárias, cujas memórias gostaria de reviver, nem que fosse por um breve instante eterno... mas a vida é assim, efémera e há que vivê-la enquanto acontece. Senão, pode dar-se o caso, como às vezes sucede, de me perder nos labirintos do passado, sem que desfrute do presente que me é concedido, por exemplo, na forma de um sorriso.
Estava atenta, porém, quando me sentei no avião para regressar ao Porto e peguei no livro de um autor indiano – um guru da meditação. Um livro em português, que teve o condão de provocar a minha vizinha de viagem: no seu colo um livro do mesmo autor! A brasileira que me abordou regressava a casa após um mês em Pune, no ‘ashram’ daquele guru – Osho. As palavras serenas, ao mesmo tempo cheias de entusiasmo da carioca, ficaram gravadas. Cinco meses depois voltei à Índia, a Pune, àquele mesmo ‘ashram’, onde ‘meditei’ durante um mês. Como tal, não tenho autoridade suficiente para afirmar que conheço a Índia... Terei de voltar...
30 de Outubro de 2016
Matosinhos, Portugal