Tulipas de Amesterdão



            Nos jardins de Monserrate: tulipas! Nos vasos: tulipas. Num deles, duas em flor: cor-de-laranja com raios de fogo. Sob o céu azul, com farrapos de nuvens brancas e cinzentas, aguardando o arco-íris, as tulipas de Monserrate transportam-me para Amesterdão.
Em Julho de 2009 ganhei um fim-de-semana nessa cidade holandesa. Estava em pulgas. Escutara tanto sobre as bicicletas amarelas da cidade dos canais. Finalmente, também eu tinha o privilégio de pedalar pelas ruas e ruelas que ladeiam o rio Amstel.
Comprámos uma capa de chuva vermelha. O capuchinho-vermelho vagueava feliz, pedalando, pedalando pelo bairro da luz vermelha, pelas praças cheias de gente e gente de muitas origens, com muitos e diferentes estilos de estar. O odor das coffeeshops quase me inebriava. Sem que experimentasse, sentia o efeito dos aromas que me faziam sorrir, quase rir.
Cor-de-laranja forte, a casaca que trouxe de lembrança da cidade mais cosmopolita dos Países Baixos.
A casa de Anne Frank concorria com o Museu van Gogh. Optámos pelo segundo. Apesar do diário da judia me ter marcado durante a adolescência, a fila para aí entrar desmotivou-nos. Dois dias e meio passavam a voar, mesmo que caminhássemos sem medo de errar e desfrutando do sol que entremeava com aguaceiros.
O museu dedicado ao pintor neerlandês era obrigatório, concordámos. Não sabíamos se teríamos nova oportunidade para admirar o auto-retrato com orelha cortada original do pós-impressionista. Era tudo ali. Sábado à tarde, não estava só. Fiz-me acompanhar de sementes de tulipas.
Quando cheguei ao Porto, esperei... Esperei o tempo necessário para plantar as futuras flores. E esperei... até que nas floreiras, o amarelo despontou. Contei até três e a Primavera chegou. E, com ela, as tulipas amarelas de Amesterdão, brotando numa varanda do Porto.
A Primavera... Ainda estamos em Janeiro, mas no jardim de Monserrate: tulipas. Desenham sorrisos naqueles que têm o privilégio de desfrutar deste pequeno e enorme paraíso no meio da cidade.

28 de Janeiro, 2016
Matosinhos, Portugal

Um acaso... - Machu Picchu I







Foi (quase) um acaso ter tido o privilégio de contemplar in loco Machu Picchu.
Foi um acaso estar em casa na tarde em que o processo de venda da casa se iniciou: uma terça-feira chuvosa impediu um passeio com L. no Gerês – almoçámos e colocámos a conversa em dia.
Não foi por acaso que a K.R. me convidou para participar num congresso sobre os Jogos Olímpicos em São Paulo, em Outubro de 2014.
Talvez tenha sido um acaso que a marcação dessa viagem ocorresse um dia depois de assinar o contrato de promessa de compra e venda da casa.
Terá sido um acaso encontrar o R.: “Vais ao Chile? Porquê, se queres conhecer algo completamente diferente, o Peru é muito mais interessante”.
Olhei para ele com um sorriso em chama.
Acasos... a vida tem-me mostrado que tudo tem uma razão de ser e para acontecer – assim é, se estiver atenta e se confiar.
Se o clima o tivesse permitido, teria ido pedalar para a serra que mais me enche com L., naquele dia de 12 de Agosto de 2014. Se tal tivesse sucedido, não teria escutado a campainha, nem tão-pouco o vizinho da frente: “Oh vizinha, ainda tem a sua casa à venda? Está aqui um casal meu amigo que está interessado em ver o seu apartamento”. A A. e família entraram e gostaram. Saíram por dois minutos e voltaram a entrar. No fim-de-semana seguinte voltavam para nos comprometermos mutuamente.
Na segunda-feira subsequente havia que marcar a viagem para São Paulo. Uma vez que estava prestes a ficar sem poiso fixo, arrisquei: “É possível marcar a viagem de regresso apenas em Dezembro?” A resposta afirmativa não tardou. E porque não? Sem compromissos laborais, económicos... apenas (e tanto) os laços familiares e de amizade: aqueles que importam e que jamais se perdem quando são verdadeiros e se os soubermos preservar, apesar da distância física.
No início desse mesmo ano, ao efectuar a lista das experiências que gostaria de viver, colocara uma viagem ao Chile no ponto número um. Tal era o meu desejo, que desenvolvi uma curta história – Um corte no pé (ainda por terminar... quem sabe um dia destes) –, na qual a personagem principal aterra em Santiago do Chile. Projectava assim, como que visualizando, a concretização antecipada de um sonho.
Tenho aprendido, todavia, que os planos ‘devem’ ser um esboço flexível e amplamente aberto a novas possibilidades. “Um bom viajante não tem planos fixos nem tão-pouco a intenção de chegar”, crê-se que terá dito Lao Tze, mais ou menos deste modo. Não sei se sou boa viajante, de qualquer maneira, nos últimos anos, tenho voado apenas com duas ou três noites reservadas... de resto, confiando que tudo fluirá.
Assim sendo, quando numa volta de bicicleta parei para beber água no passeio que ladeia a margem do Rio Douro – os bancos de jardim, perto do Clube Fluvial, estrategicamente colocados para contemplar a foz são para mim, sem dúvida alguma, uma das plateias mais bonitas da cidade do Porto... quando a sede me impeliu a uma pausa, vi o R. Já não nos víamos há uma série de anos. Contei-lhe muito satisfeita que estava de viagem marcada para a sua terra natal. O R. abandonou o Brasil há cerca de quinze anos para tentar a sua sorte como instrutor de fitness – um dos profissionais que mais respeitava enquanto andava nessas lides.
Observo-me com  frequência a falar pelos cotovelos, em particular quando algo extraordinário está para acontecer. Era o caso. Ia viajar pela América do Sul por quase três meses, quase por acaso. E ia ao Chile, dizia eu muito satisfeita ao R. “Ao Chile? Porquê? Se o teu objectivo é conhecer lugares e culturas distintas, porque não antes o Peru? Nesse país ainda encontras cidades, lugares, pessoas com modos de vida realmente diferentes dos que estamos habituados”. Presume-se, e bem, que estas palavras são minhas, mas esta era a ideia da mensagem do R. E guardei. Só embarcaria para São Paulo daí a três semanas. Até lá poderia traçar um proto-itinerário de viagem.
Despedi-me do R. com um abraço. No instante seguinte já estava a viajar pelo Peru, com a música de regresso aos ouvidos e pedalando e cantando.
Quase todas as viagens começam muito antes de se embarcar. Preparar, visitar virtualmente ou através de livros os locais que se pretende conhecer são já formas de nos deslocarmos para o futuro. Quase antecipando o contentamento de tocar o solo de um porvir que se deseja próximo. A vida também me vem transmitindo que as expectativas são projecções a evitar. Como quase todas as suposições, especulações e outras formas de ‘futurização’. Não estou a ser contraditória. Nessa preparação, procuro desviar-me das expectativas ou de esperar isto ou aquilo em relação à beleza dos lugares ou ao que as pessoas possam vir a fazer ou a dizer. Os meus devaneios direccionavam-se, sobretudo, para o privilégio que já estava a experienciar.
Naquele momento eu estava na posição singular de optar pelo Chile ou escutar a sugestão do R. e ir ao Peru. E se a hipótese de ir ao Peru era confirmável, o primeiro destino que naturalmente me ocorreu foi Machu Picchu.
No dia seguinte comprei a passagem de avião desde São Paulo para Cusco, a cidade peruana mais próxima de uma das maravilhas mais maravilhosas do planeta.


Janeiro, 2016
Matosinhos, Portugal

Mais um dia...*







Este ano, o mês de Fevereiro é maior. Vai até ao dia 29. Em 2016, a minha querida tia Maria pode comemorar o seu aniversário. Parabéns, tia Maria! Estou certa que o leitor/a leitora também estará satisfeito ou satisfeita por parabenizar a senhora de Nogueira do Cravo, cuja idade cronológica é difícil de desvendar.
Sendo bissexto, 2016 concede-nos então mais um dia. Em vez de 365, temos 366 dias. Mais um dia. Mais vinte e quatro horas. Mais 1140 minutos. Mais 36 mil e 400 segundos. E fico-me por aqui na contabilização que o homem configurou para o tempo. Essa coordenada antropológica que, de tão relativa, por vezes me provoca algumas questões, indagações, dúvidas... quanto à sua efectiva ‘realidade’. Relevante, para mim, é a oportunidade que cada pessoa tem para tornar a sua vida mais rica: mais um dia, mais vinte e quatro horas, mais 1140 minutos - um quase nada que pode fazer uma grande diferença.
Um dia mais para ser quem se deseja ser, por ventura um pouco melhor que no dia anterior. Um dia mais para se estar com quem se gostaria de estar, quem sabe uma ocasião mais para demonstrar a quem importa como esse alguém é importante. Vinte e quatro horas mais para, por exemplo, contemplar o céu azul, o lusco-fusco e, pela noite, as estrelas - com sorte uma daquelas que caiem, deixando atrás de si um lastro que, sendo visível, nos transporta para outra dimensão.
Mais um dia que se pode partilhar com alguém com quem há muito se pretende estar, mas que a cada dia se adia ad eternum. Muitas vezes nem se sabe porquê. Algo que nos terá distraído sem que nos apercebêssemos. Algo tão rotineiro, tão sem pensar que nem marca na memória terá deixado. Que nem uma memória se tem para recordar como se gastaram os minutos, horas e até dias de vida.
A vida... A vida que, sendo uma dádiva, nem sempre se celebra. Se o leitor/a leitora me permite, partilho uma reflexão pessoal. Tem precisamente a ver com o tempo: o modo como ele passa por mim ou como eu o experiencio.  Que tipo de marca ou memória guardo em cada dia, em cada vinte e quatro horas mais que vivo?
Escuto muitas vezes que é necessário criar rotinas para isto, para aquilo e aqueloutro. Também tenho as minhas rotinas. As rotinas são, aliás, hábitos que se instalam para que não se perca tempo a pensar como começar o dia, por exemplo, para sair de casa para o trabalho. Uma tarefa diária atrás da outra, um roteiro em modo automático, para que tudo seja realizado sem falhas até se chegar ao local de trabalho. E, já no emprego, outras rotinas, outros hábitos que se terão cristalizado ao longo do tempo para que, mais uma vez, em modo quase automático, se comecem as tarefas ditas relevantes de mais uma jornada. Rotinas, hábitos que nos oferecem a segurança suficiente para nos focarmos então no que é eventualmente importante.
Todavia - e existem quase sempre mas -, que memórias se tem desse tempo vivido em rotinas? E quando as rotinas ultrapassam o tempo ‘útil’ do dia? E quando o dia é ele próprio uma rotina? Não gravando, por isso, qualquer marca digna de se tornar memória?
Se as memórias das pessoas, experiências, lugares e leituras que vivo são aquilo que me auxiliam a ser mais pessoa, questiono-me sobre a possibilidade de desconstruir e destruir rotinas para, então, reflectir sobre o ‘quê’ e o ‘quem’ e o ‘como’ integrar no meu dia. Dessa maneira, tenho a possibilidade de me organizar de forma consciente. Tenho, pois, reflectido no que me parece primordial viver em cada dia sem, com isso, criar propriamente uma rotina, sem, por isso, ‘rolar’ em modo automático. Não sou um autómato!
Decidi então acordar em cada dia à hora que o corpo desejasse. No dia em que escrevo esta crónica, o corpo despertou às 7.17h. Uma hora que me permite, tranquila e conscientemente, desfrutar da primeira refeição da manhã e preparar-me, sem pressa, para me dedicar ao trabalho. Poderá o leitor/a leitora ripostar de forma irascível: sim, sim, como se fosse possível despertar à hora que se quer e fazer o que se quer...
Será que não?
Dando segurança, as rotinas podem ser, com efeito, difíceis de colocar de parte. Até porque se eu não tiver rotinas sou ‘obrigada’ a pensar em cada momento no quê e como tenho a realizar, a ser. Mas é possível. E é possível escolher entre ir pelo mesmo caminho todos os dias, ou variar, nem que seja uma rua ou viela e, assim, observar e cumprimentar um vizinho ou vizinha. E assim observar que afinal nunca reparara que esta ou aquela casa está diferente, muito mais luminosa: o seu jardim está mais florido. E reparar numa criança a brincar ou atentar em alguém que precisa de ajuda para transportar os sacos. Ou reparar nas próprias pernas mais ágeis nesse dia. Sentir a respiração e perceber... que se está vivo! E lembrar do caminho efectuado do ponto A para o ponto B. Tão-somente porque, nesse trajecto, o sorriso de alguém em quem se reparou foi o suficiente para gravar um instante na memória. Um dia com uma marca, uma lembrança. E não um dia em vão... E a vida é uma graça que não está seguramente garantida... Por mais rotinas que se tenham e nos dêem a sensação de segurança.

*Este texto foi publicado no Jornal 'O Chapinheiro'

Atrapa sueños - Bogotá III



Despedi-me de Bogotá com um “até muito breve!”. Em Dezembro de 2104, procurava alguns regalos pelas ruas da La Candelaria. Parei numa feira de artesanato. Produtos e artefactos dos Andes. Pulseiras, colares e brincos de todas as cores a preços convidativos. Lembranças leves e pouco espaçosas que podia e desejava adquirir para, à chegada a Portugal, oferecer às pessoas de quem gosto, demonstrando-lhes assim que me lembrara delas e que sim senhora, gosto muito de vocês.
De entre a panóplia multicolor exposta, os brincos com borboletas e as pulseiras ‘atrapa sueños’ foram os acessórios que mais me cativaram. Os primeiros eram peças sui generis – brincos elaborados com as bagas que os eucaliptos suavemente soltam para o solo. Ali estavam sobre o balcão de venda, trabalhadas por mãos inspiradas, que as haviam transformado em objectos de decoração corporal. Brincos com borboletas incrustadas – um do símbolos da Colômbia. Comprei vários pares com borboletas azul índigo – aquelas que me provocam anseios e desejos de também eu me metamorfosear. Como comprei três pares, a jovem vendedora ofereceu outro para mim própria – agradeci com um sorriso ainda mais largo.
Ainda mais, uma vez que a mesma ‘señorita’ me concedera anteriormente uma pulseira ‘atrapa sueños’. Encantada com esse objecto fino de protecção, escolhi uma dezena para as amigas, não resistindo em obter uma para mim. Presenteou-me, colocando ela mesma a pulseira, apertando com três nós ao pulso, enquanto murmurava palavras que me soavam encantatórias, como uma lenga-lenga a enviar protecção e boa-sorte. Uma pulseira com uma teia a imitar a de aranha, onde os sonhos são guardados; uma pulseira que protege dos pesadelos, agarrados que ficam na teia, firmemente entrelaçada.
A minha permaneceu no pulso até Junho seguinte, quando regressei a Bogotá após mais um retiro de Vipassana. Durante esses dez dias de silêncio resolvi retirar todas as pulseiras – tinha uma série delas, cada uma com a memória de um lugar e de uma pessoa ‘atrapada’ no meu coração. Várias da viagem do ano anterior, cujas recordações sorridas me instigaram a regressar ao país da América do Sul que até ao momento mais me encheu. E a cidade de Bogotá, com as suas gentes é, sem dúvida, malgrado a fama de perigosa, um dos lugares que me faz sentir em casa.
Em Dezembro de 2014, além do teatro e das aulas de salsa e das corridas sofridas pela altitude, calcorreei a Séptima. A ‘Carrera Séptima’ é uma das principais artérias que percorre a capital colombiana de norte a sul, sendo na mesma que se encontram algumas das principais atracções turísticas, nomeadamente o Museo del Oro, o Museo Nacional, o Planetário, o Parque Nacional – onde corri e corri e fraquejei e fraquejei... – entre outros edifícios, como seja a La Catedral de la Inmaculada Concepción.

Sabia de antemão que o Museo del Oro era imperdível. Informação obtida no Peru, através de outros viajantes que por aí haviam passado. E, com efeito, as peças de ouro, expostas nas salas organizadas por épocas, não deixam ninguém indiferente. É possível compreender a história das tradições andinas, assim como a evolução da arte de trabalhar esse mineral tão precioso, quanto cobiçado. De facto, as vidas que se perderam aquando da chegada – uma forma suave de dizer invasão pouco pacífica... – dos espanhóis, reflectem parte dessa avidez. Foi a sala de cosmologia e simbolismo que mais me atraiu. O xamanismo encanta-me e o modo como este tema é explorado no museu transportou-me para épocas ancestrais.

Para além deste museu, aproveitei a entrada gratuita no Museo Botero, no qual se encontra a obra e colecção do artista plástico Fernando Botero. Um Maestro de Medellin, muito apreciado e admirado em todo o país. A forma como explorou as proporções e dimensões das figuras é uma das suas marcas artísticas quer na pintura, quer na escultura, sendo a sua obra facilmente reconhecida.

Mas foi no Planetário que a criança que em mim habita mais se regozijou. As histórias e mitos por detrás das constelações enfeitiçaram-me de tal maneira, que projectei no meu querido sobrinho mais velho, o G., o desejo de estudar e saber mais acerca do céu nocturno. Comecei nesse mesmo Natal de 2014, oferecendo-lhe um livro sobre o assunto. Posteriormente, levei-o para uma visita aos Planetários de Espinho e do Porto. Quando as noites se tornarem mais longas e agradáveis vamos observar o céu do Porto com o seu telescópio. Quem sabe as duas ursas nos mostrem a posição da estrela polar... para melhor apreender o sentido do sul...


Janeiro, 2016
Matosinhos, Portugal



Monserrate - Bogotá II



A primeira vez que fui a Bogotá havia uma razão muito concreta. Servir num retiro de meditação Vipassana. Existem centros em todo o mundo e de entre os locais possíveis de visitar nessa viagem de 2014, o local que mais me adequava na América do Sul era Bogotá. De maneira que parte da viagem foi organizada de forma a estar na Colômbia no final de Novembro desse ano.
Valeu a pena o esforço da viagem desde Arequipa. Ao fim de vinte e quatro horas chegava à estação das Águas, onde um rapaz muito prestável me levou até à rua do hostal Sue. Tal como Vivian e Victor, também este era estrangeiro em Bogotá. De facto, reparei numa Bogotá muito cosmopolita, sendo-me difícil discernir quem era de origem colombiana. Tal como a maioria das capitais, esta cidade recebe gente de todo o país e de todo o mundo. Uma cidade com mais de oito milhões de habitantes, cuja imensidão contemplei quando subi de teleférico até ao Santuário de Monserrate – o último local que visitei em Dezembro de 2014.

Um pormenor que me mereceu a máxima atenção: um mês depois de regressar a Portugal, estava a morar numa quinta com o mesmo nome (!), em Matosinhos – para mim, outro santuário. Como não acredito em coincidências, guardo determinadas memórias com o máximo de cuidado, como aliás me merecem as pessoas que conheci em Bogotá. De tal modo me trataram bem, que quando voltei, meses depois, nos reencontrámos e nos abraçámos e nos prometemos tornar a encontrar e a abraçar... Como é o caso de Paola – agora a tentar a sua sorte na terra dos cangurus – e de Stephany, estudante de arte dramática. Amigas para a vida, com quem servi durante dez dias num retiro, não com muito silêncio, como é apanágio da Vipassana.
Na primeira corrida nessa cidade, em 2014, fiquei totalmente esgotada ao fim de trinta minutos (geralmente, gosto de correr pelo menos uma hora). Só posteriormente reparei na altitude a que a cidade está localizada – o altiplano Cundiboyacence encontra-se a mais de 2600 metros de altitude –, cuja repercussão senti, em particular por ter estado semanas sem dar corda às sapatilhas.
As corridas terminavam antes das oito da manhã. O nível de poluição assim me ‘obrigava’; não gosto de correr lado a lado com o trânsito e muito menos com nuvens de gazes não muito saudáveis. Apesar de esta ser uma das formas que mais me cativa para conhecer os lugares que visito, existem cidades onde não fui capaz de o fazer pelo mesmo motivo, como é o caso de Banguecoque e Kuala Lumpur.
Em Bogotá havia muito que visitar a pé. Como em 2014 ficou muito por conhecer, em Maio de 2015 integrei o grupo que Freddy formou para a visita guiada gratuita. Não foi a primeira; a minha estreia nesse tipo de visita foi em La Paz, sabendo que no final deixaria a minha gratificação (mais ou menos ao critério do turista e/ou viajante).

Foi muito interessante escutar as histórias por detrás das ruas de La Candelaria, da Praça Bolívar, assim como experimentar o forte e saboroso café colombiano e jogar o Tejo: um jogo tradicional, semelhante à ‘nossa’ malha, mas dentro de paredes, onde os pesos lançados têm de cair numa caixa de argila, na qual fica a marca de cada lance.
Durante essa visita perdi mais um par de óculos. Deve ser a minha sina (ou descuido sem conserto). Habituei-me, pois, a prescindir desse objecto. Os chamados pés de galinha têm crescido a olhos vistos. Talvez um dos motivos para que Tairrong – um rapaz de Taiwan que conheci no meu primeiro retiro de meditação, em 2012 na Índia – me tratasse por ‘big fish eyes’. Só porque eu estava sempre a rir-me.
Rugas de expressão à parte, quem ri também é mais feliz e, no hostal Sue, a boa-disposição imperava sempre que aí pernoitei. Freddy era, aliás, um grande animador do local. Na primeira vez que me alojei em La Candelaria (em Novembro de 2014), o colombiano convidou quem estava para assistir a uma ópera rock – também gratuita! Apesar de ter apenas duas aulas de espanhol, os dois meses em terras latinas ajudaram-me a compreender e a rir muito com Luciano, a personagem principal da ópera rock, ‘Los agentes invisibles’.


Janeiro, 2016
Matosinhos, Portugal

La Candelaria - Bogotá I

“Vais para a Colômbia? Sozinha? A sério, não tens medo?”
Medo de quê? Estivera na capital da Colômbia em finais de Novembro de 2014 e senti-me em casa durante os dias em que me alojei no hostal Sue de La Candelaria – o bairro mais conhecido da cidade.
Em Maio de 2015 voava novamente para o outro lado do oceano e em direcção à cidade onde terminara a viagem de dois meses e meio no ano anterior. O valor do bilhete de avião justificava essa opção. Pouco mais de quinhentos euros pela ida e volta desde o Porto, com a certeza (quase absoluta) de que o regresso seria quando me desse na real gana (aconteceu mais de cinco meses depois).
Em 2014 fui parar a La Candelaria. A localização do hostal Sue pareceu-me interessante: na zona histórica de Bogotá, onde os inimigos nocturnos não são despiciendos. Em particular para quem, como eu, aterrava sozinha naquela que dizem ser a capital do narcotráfico – em momento algum percepcionei perigo. Como usual, quando cheguei ao aeroporto dirigi-me ao balcão de informação turística: havia autocarros para a zona da cidade onde reservara cama. Como chegava de uma longa viagem, decidira-me por um quarto privado que incluía o pequeno-almoço. À saída do aeroporto, apanhei o chamado alimentador, que gratuitamente me transportou até um dos terminais do Metrobus – guardei o cartão recarregável... – onde apanhei o autocarro até à estação das Águas (uma das saídas para La Candelaria).
Antes de sair do Porto, no dia cinco de Maio de 2015, reservei uma cama num dos dormitórios do hostal do ano anterior. Pasme-se quando reencontrei Victor e Lina – dois dos amigos que fizera meses antes. Victor – de Santiago do Chile, vivia em Bogotá há quase um ano – comemorava o seu quadragésimo aniversário duas noites após a minha chegada. Depois de muitas cubas livres e galhofa à mistura, fomos dançar salsa a um dos inúmeros bares de La Candelaria – razão pela qual o bairro é conhecido em toda a Colômbia e arredores. Se as universidades lhe dão muita vida, também os incontáveis turistas preferem este lado da cidade, como é o caso de Kevin, com quem tive oportunidade de dar gosto ao pé em danças de tal modo arrebatadoras que ninguém parecia indiferente. Com ou sem modéstia, pouco importa, relevante é o facto de haver alguém com quem partilhar uma das coisas que mais me dá prazer. Como diz o meu querido irmão M.: “quem dança é mais feliz”.

Quando me despedi da senhora Dina em Dezembro de 2014 – a senhora que nos preparava os ovos mexidos com o croissant e café para o desayuno e sempre com as mesmas perguntas, como quem necessita escutar diversas vezes as respostas que pouco ou nada lhe interessam –, também tive ocasião de exercitar a salsa numa das aulas gratuitas que Freddy (funcionário do hostal) providenciava duas vezes por semana. Pedi a Vivian que gravasse em filme a minha fraca prestação. Vivian, outro amigo que revi em Maio de 2015.
Natural de França, Vivian aproveitava esse facto para leccionar aulas de francês na Colômbia. Nas primeiras conversas que desenvolvemos quando nos conhecemos em 2014, no hostal Sue, partilhámos experiências e histórias muito pessoais; fiquei com a impressão que nos encontrámos para nos ajudarmos mutuamente a compreender as razões porque ali estávamos. Quando regressei meses depois, Vivian conhecera o amor da sua vida, a Johanna, com quem foi viver – convidaram-me e eu aceitei com profunda gratidão ficar em sua casa no regresso de um retiro de meditação.
Foi em casa deste casal que a mochila ficou indelevelmente marcada pelo gato de estimação de Johanna. Uma recordação em forma de cicatriz na mão com que escrevo: quatro meses depois de sair de Bogotá, um gato mexicano, muito cioso do seu território mordeu-me; mostrava-me assim a necessidade de ter cuidado com o sítio onde se deixam as coisas.
Entretanto, Vivian e Johanna casaram e no momento em que escrevo encontram-se a viajar na terra natal de Vivian – a segunda lua-de-mel, na cidade da luz.



Janeiro, 2016
Matosinhos, Portugal

Cruz del Sur




Ao quarto dia em San Pedro de Atacama marquei a viagem desde Lima para Bogotá. No início de Novembro de 2014 cheguei ao Chile com intenção de ficar duas noites no deserto mais seco do mundo. A quietude encantada da beleza, tão lenta quanto terrível, provocava-me uma inércia difícil de combater. No céu azul, as meadas de nuvens flutuantes irradiavam um brilho que me paralisava. Até que cheguei à conclusão que, só marcando a viagem para o destino final a que me propusera, teria um estímulo para arrepiar caminho.
Ao fim de uma semana conseguia finalmente despedir-me – não para sempre – do lugar que mais se adentrou em mim até esse momento: o Salar de Tara. Voltei ao Peru, dirigindo-me para Arequipa, sabendo apenas em que dia deveria estar em Lima para voar para a Colômbia. Também nessa cidade do Peru deixei poisar os bichos carpinteiros por uma semana. Quer dizer, mais ou menos; pelo meio fui arrebatada pelas paisagens e condores do Colca Canyon.
A insolência dos bichinhos que em mim habitam é refreada, pelo menos por alguns dias, quando as pessoas são tão ou mais encantadoras que os lugares onde este corpo descansa, acendendo uma lâmpada no coração. Por essa razão, saí de Arequipa apenas na véspera do voo desde Lima. Também apenas na véspera dessa véspera adquiri o bilhete de autocarro para a capital do Peru, através do sítio virtual da agência Cruz del Sur. Esperavam-me catorze horas de autocarro. O bilhete incluía jantar e filmes e paisagens deslumbrantes enquanto o dia sorrisse por dentro e por fora de mim.
Ao cair da noite, passava um documentário sobre Cantiflas. A lua guiava-nos com a sua luz porosa, resgatando-me ao assento número nove. Quando vi o actor mexicano no écran, a pele dos braços eriçou-se: dias antes conhecera Guilherme – o proprietário do restaurante vegetariano, Mandala, onde almocei diversas vezes enquanto em Arequipa. Guilherme, um senhor cuja fisionomia me fez soletrar o passado de uma infância risonha, marcada pelos filmes daquele cómico mexicano (foi o meu Tio Manuel quem me deu a conhecer esses filmes no cinema do Foco).
Este espírito borbulhante foi interrompido quando o hospedeiro de bordo subiu ao segundo piso do autocarro. O mesmo jovem fardado e de laço aprumado, que anteriormente distribuíra o jantar – para mim uma sande vegetariana com um sumo de laranja e um biscoito –, trazia agora cartões para todos os passageiros que desejassem participar no jogo nocturno – o Bingo! – e assim habilitarem-se a ganhar outra viagem de autocarro com a Cruz del Sur.
Apesar de estar de saída do Peru, aceitei de bom grado um cartão vermelho, com a sombra de um sorriso irónico. Estava curiosa. Além disso, só experimentando se experienciam emoções e sensações – o mesmo é dizer, para mim, que havia que me libertar de preconceitos e pretensiosismo e deixar envolver-me pelo ambiente de boa-disposição dos simpáticos peruanos.
O meu companheiro de lugar ajudou-me a compreender uma ou outra expressão; de vez em quando o hospedeiro lançava perguntas ao estilo de trivial pursuit, em relação às quais eu reagia muito rapidamente com o braço no ar. Divertia-me a olhos vistos. Mais do que isso, a dada altura observei-me em expectativa. A de quem desejava fazer linhas e até mesmo gritar Bingo! Não que me interessasse ganhar um bilhete; mas quando se entra no jogo – falo por mim, como é óbvio –, existe (quase) sempre a vontade de ganhar – independentemente de nos apaziguarmos com as palavras: o importante é participar. E, com efeito, o importante foi participar e escutar ‘linha’ muitas vezes em espanhol, inclusivamente desde a minha própria boca, e muitos risos com as palavras puras desfolhando relâmpagos de motivação, por parte do muito empenhado hospedeiro. Um verdadeiro animador de viagem, cuja duração tinha tudo para ser um tédio e uma valente canseira – o que não se veio a verificar.
O autocarro veio ao rubro quando o rapaz fardado sentenciou à jovem vencedora do Bingo que o seu prémio teria de ser muito merecido. Não lhe bastava ter todas as janelas do cartão vermelho abertas: era imperioso provar a sua vontade de viajar novamente com a Cruz del Sur pelo maravilhoso país do Peru.
O público aplaudiu o apresentador e até assobiou quando os seus lábios sopraram: “Tens de cantar uma canção; podes escolher”. A jovem peruana não se fez rogada. Aclarou a garganta e iniciou a cantoria em falsete. O que logo corrigiu quando os restantes passageiros se lhe juntaram, mostrando que sim senhora, ela era digna da vitória e do respectivo prémio.
Também eu ganhei e muito; várias gargalhadas fazendo jus à publicidade da Cruz del Sur: El placer de viajar en Bus!



Janeiro, 2016
Matosinhos, Portugal

Fui mordida - Colca Canyon III

Fui mordida! Pela primeira vez na vida fui atacada por um cachorro. Parecia inofensivo. A marca na perna direita mostrou o contrário. Duas dentadas que avisavam ser péssima ideia avançar no caminho, a não ser que desejasse uma cicatriz para exibir a pretensa coragem.
Tal aconteceu no final do primeiro dia de trekking no Colca Canyon (em Novembro de 2014). O dia começou bem cedo, tendo a primeira paragem acontecido no miradouro mais conhecido e procurado para contemplar os condores que decidem fazer as alegrias dos turistas, viajantes e curiosos. Assim aconteceu e eu agradeci.
Após esse momento de profundo êxtase, uma carrinha de nove lugares transportou-nos para o local onde se iniciaria o trekking. Ainda mal começávamos e já no sentíamos cheios com tal visão maravilhosa.
O caminho iniciou-se, pois, com enorme satisfação e desde logo nos apresentámos entre nós. O casal de ingleses, a Claire e o Kevin, juntamente com duas moças de nacionalidade incerta, eram os elementos do meu grupo de trekking liderado pelo jovem e bem-disposto guia, o Nelson.
Ao fim de seis horas a descer, a descer e a descer pelas encostas íngremes, secas e estreitas do Vale chegámos ao alojamento onde pernoitaríamos a primeira de duas noites.
Uma escada em caracol, mas sem corrimão vai a caminho do sol, mas nunca passa do chão. Contrariamente ao fado de Camané, a nossa escada não nos conduzia  ao sol; sem corrimão e em sentido descendente prosseguíamos para o rio Colca. Sem sustos, sem sobressaltos, os sonhos eram alimentados pela paisagem vulcânica, que de tão assombrosa mal cabia em mim.

As pernas sentiam as ladeiras quando nos aproximávamos daquele que seria o descanso do guerreiro. Eu e as duas jovens instalámo-nos num dos seis quartos da casa de adobe. Sequiosa, quis comprar água na loja. Engoli em seco o preço a que a proprietária vendia esse bem mais do que precioso. Respirei fundo e decidi tentar a minha sorte de outra forma. Eram quase seis horas da tarde, quase no lusco-fusco. Mesmo assim, caminhei pelo trilho que aí nos conduzira. Muito próximo do alojamento havíamos parado por alguns minutos num quintal, onde uma senhora vestida a rigor nos seus trajes Incas vendia água e fruta. Também o seu preço me desmotivara. Porém, não era tão elevado quanto o do alojamento, o qual roçava o escandaloso.
Nestes sítios é o usual; tinha sido alertada. Como prevenida que costumo ser, fui abastecida. A questão é que bebo muita água. Além disso, ser prevenida é uma coisa. Ser masoquista é outra. Uma mochila para duas noites deve ter o suficiente sem com isso se tornar um fardo, que impeça o deleite de uma passagem tão extraordinária como a do Colca Canyon.
Por conseguinte, enquanto a proprietária do alojamento nos preparava o jantar, e já depois da breve paralisação, fui em busca daquela outra senhora inca. Não só não a encontrei, como fui agraciada por outro tipo de encontro: dois cachorros muito ciosos das suas funções de guardas. Fui eu que enfiei o rabo entre as pernas e regressei e paguei sem piar a água que realmente necessitava.
A luz do gerador apagou-se cedo e cedo nos deitámos para descansar, para assim ficarmos novamente fresquinhos na manhã seguinte. E assim foi. Às cinco e meia da manhã do dia seguinte prosseguíamos no trilho do canyon.
O alojamento da segunda noite deixou o grupo sem respiração. Uma piscina com as paredes mais altas do mundo! O que os nossos sentidos percepcionavam. Paredes onde o vento e a erosão gravaram figuras míticas, providenciando-nos viagens pelo mundo onírico. O final da tarde, com as pernas debaixo da água da piscina, auxiliou à merecida recuperação. O dia seguinte prometia um percurso totalmente ascendente e era fundamental que os músculos das coxas, sobretudo os ísquio-tibiais em cujas fibras se mantinham as memórias das descidas, se restabelecessem.

Na manhã seguinte, partíamos à mesma hora da madrugada anterior. Seis horas a subir. Uma ou duas pausas que permitiram a passagem das mulas carregadas e montadas por alguns viajantes mal preparados ou mal calçados, como era o caso de uma das jovens do nosso grupo. A chegada ao topo foi digna de comemoração. Para pessoas amadoras como nós, o sentimento de missão cumprida era exultante. Abraços e fotografias para a posteridade - assim guardávamos os quase três dias de partilha num lugar de beleza incomparável e indizível.
 
Fotografia de Kevin Trew
















Janeiro, 2016
Porto, Portugal